quinta-feira, 8 de março de 2018

CARTA ABERTA A ALIPIO SOUSA FILHO

Carta Aberta ao Prof Alípio de Sousa Filho,

Como egresso da UFRN, sempre fui um admirador do seu posicionamento acadêmico e político. Por isso, foi com profundo estranhamento e tristeza que eu tomei notícia dos recentes acontecimentos, em que você expulsou e repreendeu uma de suas estudantes por estar em sala de aula com a filha.

Uma vez que você tem dado aulas sobre gênero, você sabe melhor que muitos (embora talvez não tanto quanto ache), que homem não é feminista. Ele não deve tomar para si uma luta que é das mulheres. Mas ele tem o dever de ser anti-machista. Sabendo do que ocorreu, portanto, é minha obrigação intelectual lhe escrever.

Na verdade, a expulsão já seria algo suficiente para motivar minha carta, mas quando eu ouvi o áudio (que você agora diz ser “maravilhoso”, em reportagem do G1 sobre o episódio), eu fiquei francamente estarrecido. Não apenas com o episódio em si, mas com a precariedade dos argumentos que você tentou utilizar para se defender, que não condizem com as credenciais que você mesmo faz questão de ostentar. E pelo fato de você não ter aproveitado tal oportunidade para se desculpar e reperar o episódio.

Em primeiro lugar, você citou Harvard, Cambridge, Oxford, e universidades “na Europa”, como instituições onde mães não levariam suas crianças para as aulas. Chegou ao ponto de mencionar seu salário, de 20 mil reais, que é praticamente 20 vezes o salário médio de 60%+ da população brasileira, como um exemplo do respeito “moral” que os estudantes devem ter pela instituição. Pois bem, se nessas instituições as jovens mães não precisam levar seus filhos, é porque elas têm mais recursos e auxílio institucional! A sua incapacidade de perceber a relação óbvia entre esses dois dados é absolutamente chocante.

Para citar as universidades britânicas, qualquer estudante/mãe recebe até 600 reais (£159.59) por semana, por filho, como ajuda de custo (o ‘childcare fund’ custeia 85% dos custos das crianças, a menos que as mães tenham outros meios). Aliás, pais que sejam estudantes tem direito a mais 6 mil reais (£1,508) por ano para gastarem como bem entenderem. E não estamos falando nem do direito a habitação (‘housing support’) ou da política de distribuição de renda (‘benefits’). E você vem nos falar em 100 reais que a UFRN oferece em chamadas anuais?

Aliás, basta consultar a internet para saber que os ricos (para os parâmetros europeus, veja lá) ficam com 80% das vagas em Oxford e Cambridge, que você cita como referência. Olhe a seu redor, Alípio, você não está (nem esteve) em Cambridge, e é constrangedor que eu tenha que dizer isso.

Mais além, você não fala pelas instituições estrangeiras que cita, uma vez que não leciona nem atua nelas. Portanto, o argumento de autoridade é extremamente frágil. No entanto, como a minha experiência nas mesmas é muito mais ampla que a sua (embora você goste de medir seu prestígio referindo-se à essas universidades, para mim é constrangedor e só o faço para fins de refutação), posso afirmar tranquilamente que se você reagisse contra uma mãe e sua criança em sala de aula, como o fez na UFRN, em uma universidade européia (sobretudo no Reino Unido), você seria demitido – não importando a imagem que você faz de si mesmo, sem grande modéstia. É absolutamente impensável para um professor britânico se dirigir aos estudantes com os termos que você utilizou. Impensável.

Quão difícil teria sido buscar uma solução junto ao departamento, procurando informações que pudessem ajudar essa mãe? Se não houvessem, quão melhor seria aproveitar essa oportunidade e, junto às estudantes, pleitear soluções? Quão difícil seria conversar com outras alunas e professoras mães que já passaram por situações parecidas, ou pedir a interferência delas? O salário que você recebe não merece esse esforço?

Moralmente—já que você quis falar em moral—uma mãe solteira, periférica, que batalha para fazer seus estudos e precisa levar sua filha para uma universidade pública, estão muito, mas muito mais além dos limites do seu suposto desconforto que, aliás, não tem nada a ver com o bem estar da criança, sejamos francos. Aliás, é de espantar que você levante uma questão moral para discutir um fenômeno obviamente sócio-econômico—parece subitamente esquecer a natureza de sua própria disciplina e de seu rigor intelectual (uma vez que seu posicionamento é diametralmente oposto àquilo que escreveu). Convém ainda que você não use seu prestígio para tentar dar um verniz acadêmico a proposições falsas: sou filho de um professor universitário que me levou às aulas e isso não teve o menor impacto negativo no meu desenvolvimento cognitivo – muito pelo contrário. Ne ultra crepidam, Alípio!

Ameaçar processar essa mãe, utilizar seu prestígio para destruí-la (em uma instituição em que alguns professores estão habituados a mandar e desmandar em seus pequenos e irrelevantes feudos), é de uma misoginia grotesca e indesculpável—e nos países que você cita, essas ameaças caracterizam crime (bullying e harassment). Transcrevo com horror algumas de suas palavras: “ela encontre uma rede de solidariedade para cuidar da criança. Não consegue essa rede de solidariedade? Repense sua vida. Não tem que estar fazendo Ciências Sociais, não tem que estar estudando na universidade. Você só faz isso se tiver condições. Agora não vai impôr à instituição coisas que não são assimiladas pela instituição (…) 'ah, eu sou pobre, não tenho'. Problema seu, a universidade não tem problema com isso, se vire”). No quê esse seu discurso supostamente “meritocrático” mas que se mostra classista e machista, diferencia-se do discurso de um Bolsonaro? Leia de novo suas palavras e reflita sobre isso. Não percebe que o mesmo pode ser utilizado contra você? Por exemplo, com o investimento que o governo faz no seu salário, ar-condicionado e internet, você deve ser obrigado “moralmente” a não falar mal do governo? Faz sentido, isso? Por medo da resposta, já adianto: não, não faz sentido. E por uma questão de civilidade, eu vou lhe poupar de dizer quem é que eu acho, neste contexto, que não deveria “estar fazendo Ciências Sociais”.

Se a moral e a universidade pública realmente lhe importam, se você quer mesmo fazer jus ao seu salário de 20 mil reais, o mínimo que você pode e deve fazer é se desculpar publicamente com essa mãe e buscar reparar esse episódio vergonhoso com um empenho pessoal em tratar da questão de mães e filhos pequenos dentro da instituição—incluindo a elaboração de um pequeno manual/cartilha para explicar a questão das crianças em sala de aula para professores e alunas.

Como a UFRN não é dada à auto-crítica, e os professores frequentemente se protegem por corporativismo, terei que ser uma das vozes isentas a te dizer o que seus alunos talvez tenham medo, pelo abuso sistemático que sofrem nesta instituição. Tuas credenciais como militante e estudioso são irrelevantes para te defender de ter agido de maneira misógina, mas elas me dão esperança de um gesto seu, para transformar esse lamentável episódio em algo positivo para essas mães.

À mãe que foi expulsa da aula, eu quero dizer que acredite nos seus estudos. Que não deixe esse triste episódio te abater: confie na sua força e no apoio de outras mulheres. A universidade é o seu lugar, e o que aconteceu só prova a importância que você—e a sua filha—tem nesse espaço (e em todos os outros espaços).

Feliz Dia da Mulher,

Pedro Germano Leal
(francamente, não tenho o menor interesse em usar meus títulos e filiação profissional para validar algo que eu digo)