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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A SUBSTITUTA

 

Helena foi contratada numa terça-feira de manhã, em uma daquelas empresas que prestam serviços a outras empresas — uma agência de substituições, como se dizia no ramo. O contrato era claro: quando um funcionário de qualquer empresa-cliente tirasse férias, Helena entrava no lugar. Não importava o ofício. Importava que ela soubesse exercê-lo.

E ela sabia. Não por dom, mas por disciplina: Helena tinha passado dez anos colecionando profissões como outros colecionam selos. Fora recepcionista, auxiliar de cozinha, operadora de caixa, balconista de farmácia, assistente de biblioteca, telefonista de hotel. Guardava de cada ofício não apenas o manual, mas o gesto — a forma exata de segurar a bandeja, de dobrar o comprovante, de olhar o cliente nos olhos sem prometer nada demais.

— A senhora é uma curinga — disse o gerente da agência, no primeiro dia, com admiração sincera.

— Sou uma profissional — corrigiu ela, sem sorriso. — Curinga é quem serve para qualquer jogo. Eu sirvo para o jogo certo, no lugar certo.

E assim foi por dois anos. Helena substituiu a recepcionista do escritório de advocacia e aprendeu os nomes de todos os clientes antes do primeiro café. Substituiu a cozinheira do colégio e as crianças notaram que a comida estava "diferente, mas boa". Substituiu a balconista da floricultura e descobriu, para a própria surpresa, que sabia o que cada arranjo dizia sem que ninguém precisasse explicar. Em toda missão, dava-se bem. Não era amada — era respeitada, o que para Helena sempre bastou.

Até que chegou a segunda-feira em que o gerente a chamou com uma expressão que ela nunca tinha visto nele.

— É uma substituição diferente — começou ele, e parou. Recomeçou. — A cliente é uma empresa de consultoria. A funcionária que vai tirar férias é... uma acompanhante. Ela acompanha executivos em jantares, eventos, viagens. É um serviço contratado pela própria empresa. E eles pediram uma substituta.

Helena ficou em silêncio. O gerente continuou, apressado, como quem despeja um copo de água quente de uma vez:

— O contrato é o mesmo. Mesmo valor, mesmo período, mesmas garantias. A senhora não é obrigada a aceitar. Eu preciso apenas registrar a resposta.

Ela olhou pela janela do escritório. A cidade seguia seu movimento de sempre: gente indo trabalhar, gente voltando, gente fingindo que uma coisa era a outra.

— Posso pensar? — perguntou.

— A senhora tem até sexta-feira.

Naquela noite, Helena não dormiu. Não por medo — ela conhecia o próprio corpo e sabia defender seus limites em qualquer profissão, inclusive nessa situação. O que a impediu de dormir foi outra coisa, mais antiga e mais difícil: a pergunta sobre quem ela era. Durante dez anos, Helena tinha sido todas as profissões e, por isso, talvez nenhuma. Ela substituía pessoas. Entrava na vida dos outros, usava o crachá dos outros, respondia pelo nome dos outros. E agora o trabalho pedia algo que nenhuma outra missão havia pedido: que ela substituísse não o ofício de alguém, mas a intimidade de alguém. Onde terminava a profissão e onde começava a pessoa?

Pensou na acompanhante — aquela mulher que ela nunca tinha visto, mas que agora existia para ela como uma sombra na beira da própria vida. Uma mulher que acompanhava executivos e que, ao tirar férias, precisava ser substituída como se substitui uma telefonista. Alguém, em algum escritório, havia decidido que a vida dela era um posto a ser preenchido.

E foi essa a coisa que a incomodou — não o que pediam dela, mas como pediam. Como se pessoas fossem vagas.

Na sexta-feira, Helena voltou à agência. O gerente a recebeu de pé, nervoso.

— E então?

— Vou recusar — disse ela.

O gerente abriu a boca, mas ela levantou a mão e continuou:

— Não pelo que vocês estão pensando. Eu não julgo a profissão dela — nem julgo a minha reação. Eu recuso pelo motivo contrário. Durante dez anos, eu entrei no lugar das pessoas e fiz o trabalho delas com respeito. Mas esse pedido não me pede para fazer o trabalho de uma mulher. Me pede para me tornar a ausência de uma mulher. É diferente. Ela tira férias como qualquer trabalhadora — e o que ela faz nas férias é assunto dela, não um posto vazio a ser preenchido. Se a empresa dela precisa de acompanhantes, que contrate acompanhantes. Contrate pessoas. Não substitutos de pessoas.

Houve um silêncio. Depois, o gerente disse em voz baixa:

— Sabe que isso pode custar seu contrato?

— Sei — respondeu Helena. — Mas eu passei dez anos aprendendo profissões para nunca ser trocável. Seria estranho perder o contrato justamente por me recusar a ser trocável.

Ela saiu da agência sem saber se tinha emprego na segunda-feira. Não sabia também que, no mesmo dia, o gerente escreveu no relatório interno uma frase que mudaria a empresa: "A substituta Helena recusou a vaga e estava certa. Revisar o que consideramos substituível."

A empresa não a demitiu. Sem que Helena soubesse, a recusa dela circulou entre os diretores como um documento raro — o tipo de coisa que ninguém vê escrito há muito tempo. Três meses depois, ela foi promovida: deixou de ser substituta e passou a ser quem escolhia as substituições, treinava as novas contratadas e definia, em cada contrato, o que era trabalho e o que era pessoa.

E a acompanhante? Helena a encontrou por acaso, um ano depois, em uma cafeteria. Reconheceu-a pelo crachá antigo que a agência mandara arquivar. Conversaram como duas estranhas que não eram estranhas — porque uma havia recusado ocupar o lugar da outra, e esse gesto, embora nunca dito, estava entre elas como um acordo silencioso.

— Você me substituiria? — perguntou a mulher, no fim, meio brincando.

— Não — respondeu Helena, sorrindo pela primeira vez naquela mesa. — Mas posso ensinar alguém a cozinhar, a receber, a telefonar. E você pode me ensinar o que é acompanhar alguém sem se perder em ninguém.

As duas riram. E, naquela tarde, nasceu algo que nenhuma das duas esperava: não uma substituição, mas uma parceria. Porque, no fim, Helena havia aprendido a lição de todos os seus ofícios: ninguém substitui ninguém. A gente apenas ocupa, por um tempo, o posto de alguém — e o respeito por essa pessoa é o que separa um profissional de um curinga.

 

Francisco Martins – 1 de outubro de 2026.


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