quarta-feira, 25 de março de 2020

O VÍRUS E O VELHO



Meu doutor eu sou do mato.
Lá não tem televisão, o meu rádio tá quebrado,  telefone tem também não!
Eu senti o mundo parado
O povo todo trancado
Numa grande aflição!
Quando procurei a feira,
Na cidade do meu chão,
Nem bancas estavam lá.
Surgiu minha  indagação:
-O que é que se assucede?
-Será guerra mundial?
Mas não ouço um estrondo, nenhum um tiro de canhão.
Doutor me arresponda:
-Que está acontecendo?
E o doutor foi explicando coisa que eu não sabia.
Um tal de coronavírus vindo lá do estrangeiro,
Tá matando muita gente, muito mais que Lampião,
Que os peidos de Jandira, que o bafo de Tonhão,
Que  inhaca de Raimundo,
Que a fome no meu sertão.
Eu fiquei agoniado e disse para o doutor:
-Será possível que não tenha um homem que mate esse sujeito?
Que fure os olhos dele, quebre as pernas por inteiro, destrua as suas armas, lasque logo este estrangeiro?
Doutor, só mais uma pergunta. Pode ser?
-Esse tal de coronavírus come mesmo o quê?
Menino! Quando o doutor falou fiquei todo arrepiado. Minha alma deu um pulo, meu corpo ficou gelado.
Vou voltar pra minha casa e ficar todo trancado.
O tal do coronavírus come velho pra todo lado!

Mané Beradeiro
Parnamirim/RN - 25 março 2020



 

terça-feira, 24 de março de 2020

COMENTANDO MINHAS LEITURAS - BANANA BRAVA


C.S Lewis diz: o homem literário relê, outros homens simplesmente leem. Estou aproveitando esse tempo em casa para reler alguns livros de José Mauro de Vasconcelos. Ontem foi a vez de "Banana Brava", escrito em 1942, quando o autor tinha 22 anos. São 27 capítulos que narram prostituição, traição, adoção, companheirismo, caridade, vingança, suicídio e assassinato, num espaço de garimpo. José Mauro esclarece o leitor "o que escrevo não é meu, é da vida. Apenas copio a vida" (p.12).
"Banana Brava" é um garimpo, em Goiás, onde Gregório e Joel são os protagonistas do enredo. Gregório é a representação da força muscular. Joel, a parte racional, tão necessária num lugar "que prende mais do que algemas. Prende o corpo, prende a alma"(p.45). 78 anos depois do seu lançamento, "Banana Brava" ainda é um romance desconhecido por muitos. Bem escreveu Janilson Sales de Carvalho: "Saiu da coragem de um jovem de 22 anos que se embrenhou na selva para descobrir esse povo e suas histórias. É hora desse povo (e de cada brasileiro) descobrir José Mauro de Vasconcelos".






segunda-feira, 23 de março de 2020

COMENTANDO MINHAS LEITURAS - FARINHA ÓRFÃ



Aproveitei a tarde de hoje (21 março 2020) para reler "Farinha Órfã" um livro de contos de José Mauro de Vasconcelos. Este não é para crianças. Exceto, o primeiro conto que dá título ao livro. Os demais estão repletos de cenas do universo adulto, com histórias que envolvem homens e mulheres em paixões ardentes, vinganças, etc. Tem dois contos neste livro que o autor contempla o Rio Grande do Norte, num ele constrói a imagem de Avelurdes, uma mulher dama, que é de Caicó, mas está ganhando a vida dentro da selva de Goiás. Num outro, o autor cria Proximogordes Absalão da Silva, em Natal. Por sinal este conto tem um final arrebatador. Farinha Órfã é uma expressão usada em Goiás que servia como sinônimo de solidão.


Francisco Martins

sábado, 21 de março de 2020

O HUMOR DE MANÉ BERADEIRO - POEMA PARA ACABAR FIADO

Em Natal, ali na avenida Rio Branco, centro, onde hoje está instalado o Banco do Brasil, foi o local do Mercado da Cidade Alta. Entre os seus comerciantes tinha um que vivia se lamentando da extensa lista de clientes que comprava fiado e não honrava com seus deveres.
 
Avenida Rio Branco - Mercado  da Cidade Alta à direita (Foto de Jaime Seixas - ano não identificado)

Um dia, o poeta Jaime Wanderley estava bebendo cervejas no Magestic, do poeta  Jorge Fernandes, quando escutou o comerciante se lamentando da crescente venda de produtos no fiado. Jaime  interviu:
 
O Magestic
-O amigo precisa colocar um aviso em seu barracão para acabar com o fiado. Quer que eu escreva o aviso?
O comerciante disse que aceitava de bom gosto.
Jaime tomou um pedaço de papel e escreveu:

PRA QUE NÃO HAJA TRANSTORNO
AQUI NO MEU BARRACÃO,
SÓ VENDO FIADO A CORNO,
FELA DA PUTA E LADRÃO

Posto o aviso, o pedido de fiado acabou-se. 



sexta-feira, 20 de março de 2020

ONDE ESTUDOU JOSÉ MAURO DE VASCONCELOS EM NATAL

José Mauro de Vasconcelos quando morou em Natal estudou no Colégio Diocesano, que  funcionava no prédio onde hoje são as instalações do Convento Santo Antonio, anexo a Igreja de Santo Antonio, também conhecida como "Igreja do Galo".
 


"A cidade ia ficando longe, via-se bem a balaustrada de Petrópolis como se fosse um brinquedinho de anão. A Catedral com sua torre alta. A igreja  do meu colégio Santo Antonio. A sua torre arredondada com um galo esperando um raio que nunca apareceu..." (VASCONCELOS, p. 242)

Vamos conhecer um pouco da história deste colégio. Recorro primeiramente a Lauro Pinto, ele escreve: "O Colégio Santo Antonio foi fundado pelos padres diocesanos de Natal, no dia 1º de março de 1903, e sempre funcionou anexo à Igreja do mesmo nome" (PINTO, p.53).
O memorialista no diz que as instalações eram precárias, principalmente o sistema sanitário. A água potável, no tempo em que Lauro Pinto  por lá estudou, vinha de uma cisterna, abastecida com por calhas, por ocasião das chuvas.
Em 1919 houve um violento surto de febre tifóide, vitimando seis estudantes: Lídio Cabral  da Fonseca, Absalão Pinheiro, José Anísio Gomes, Artur Tupã e outro que Lauro Pinto não lembra o nome. O colégio foi fechado. Esta foi a primeira fase do Colégio Santo Antonio. 
Em 1930, o Colégio  é reaberto, desta vez confiado aos Irmãos Maristas, que ficam nas mesmas instalações até o final de  1935. No dia 7 de fevereiro de 1936 começou a funcionar na avenida Apodi, esquina com avenida Deodoro até os dias atuais.
 

José Mauro de Vasconcelos, aos 11 anos estudou no Colégio Santo Antonio,  que também já era conhecido pelo nome de Colégio Marista. Ele vai lembrar do Irmão Feliciano, aquele que foi o primeiro a descobrir a solidão da sua alma e também do Padre Monte, que era  Diretor Espiritual dos alunos e foi  escolhido para ser o patrono da primeira turma de concluintes, no ano de 1935. 
Padre Monte
-Você já viu o Padre Monte?

-Aquele magrinho de óculos.
-Sim. O  confessor do colégio ...
(VASCONCELOS, p.34)

As memórias de José Mauro neste período de estudante  estão registradas no livro "Vamos aquecer o Sol" (1974). Ele fez parte dessa primeira turma e narra o que viu na noite de 23 de novembro de 1935, ( no 8º Capítulo - A Viagem) quando começou a Insurreição Comunista, afetando a cerimônia de formatura, que não aconteceu. .

 (imagens do atual Convento dos Capuchinhos - onde funcionou o Colégio Santo Antonio)





Referências:

PINTO, Lauro. Natal que eu vi. Natal/RN: Imprensa Universitária, outubro 1971.
A ORDEM, jornal. Colégio Santo Antonio - Primeira Turma de Peritos Contadores- Ano I, nº  104, 20 de novembro de 1935.
A ORDEM, Jornal.  Colégio  Santo Antonio - Ano I, nº 162,  7 fevereiro 1936.
VASCONCELOS, José Mauro de. Vamos aquecer o Sol. São Paulo/SP: Melhoramentos,

NÍSIA FLORESTA - MEDALHÃO DE 1911


 Se Natal fosse uma cidade que conservasse seus monumentos, ontem teríamos celebrados os 109 anos da inauguração do Medalhão de Nísia Floresta. Infelizmente nossa educação ( ou falta dela), não nos permite ter estes momentos. Há uma contracultura em destruir, roubar, pichar. Até quando? Compartilho  com meus leitores dois pequenos textos sobre o assunto.

"O Monumento a Nísia Floresta, em Natal. Inaugurado em 19 de março de 1911, na Praça Augusto Severo. Obra de Corbiniano Vilaça e do escultor francês Edmond Badoche. Medalhão de Bronze aposto a uma stela  de granito, com incrustações de bronze; uma palma e datas do nascimento e morte. Feito em Paris, sob a orientação de Henrique Castriciano" (CÂMARA, 1941)


MEDALHÃO DE NÍSIA FLORESTA

"A efígie em bronze da consagrada escritora Nísia Floresta foi colocada em uma alameda do logradouro que foi o majestoso jardim da Praça Augusto Severo, no dia 19 de março de 1911. A efígie era cravada em uma linda coluna de granito.

O Medalhão de Nísia Floresta teve um fim mais triste, porque foi removido para lugar desconhecido. Ninguém mais o viu. Só um conforto anima o sofrimento de Nísia Floresta, porque ela encontrou um companheiro de sofrimento na pessoa do historiador José Toríbio Medina, cujo busto, um belo bronze, do ilustre estadista chileno, oferecimento do seu Presidente Gabriel Gonzalez Vilela, foi colocado na Praça Pedro Velho em 1952. De lá para cá a cidade nunca mais o viu." (PINTO,1971).

Referências

CÂMARA, Adauto da.  História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro/RJ. Editora Irmãos Pongetti, 1941.
PINTO, Lauro. Natal que eu vi. Natal/RN: Imprensa Universitária, outubro 1971

quinta-feira, 19 de março de 2020

ORAÇÃO DE COROINHA

Deus lhe guarde na subida
Tire as pedras do caminho
Proteja-lhe na descida
Dando todo seu carinho
Que durante a quarentena
A hora seja serena
Não lhe falte pão e vinho.

Mané Beradeiro
19 março 2020

quarta-feira, 18 de março de 2020

PRAIA DO FORTE - 64 ANOS QUE FOI ASSIM "BATIZADA"


Praia do Forte, em Natal-RN, Quem deu esse nome àquele lugar?  Vamos conhecer um pouco dessa história. Em 1956, o Diário de Natal contava com a colaboração de um colunista  por nome de Wilson  Jovino de Oliveira, naquele tempo, Natal tinha como prefeito Djalma Maranhão. O jovem jornalista Wilson tinha uma sessão diária no jornal acima, com o título "Nossa Cidade". Ele  sugeriu o nome e no dia 6 de março de 1956, oficialmente o lugar foi "batizado" com o nome de Praia do Forte,  com a presença de Wilson Jovino de Oliveira, o prefeito Djalma Maranhão, Câmara Cascudo, Lourdes Paschoal e outras personalidades, conforme está registrado nos arquivos do "Poti".

Referência
O Poti- edição 2356 - ano XXV - 8 de março de 1981

terça-feira, 17 de março de 2020

POEMA DO V

VÍRUS
VIRU
VIR
VI
V
VA
VAL
VALE
VALEI
VALEI-M
VALEI-ME
VALEI-ME D
VALEI-ME DE
VALEI-ME DEU
VALEI-ME DEUS!

Francisco Martins
17 março 2020

segunda-feira, 16 de março de 2020

AS MÃOS

  Em plena safra do Corona Vírus - quando as mãos são constantemente lembradas - eu trago o poema "As Mãos", do poeta Manuel Alegre (Portugal).


Com mãos se faz a paz se faz a guerra
Com mãos tudo se faz e se desfaz
Com mãos se faz o poema ─ e são de terra.
Com mãos se faz a guerra ─ e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedra estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

1979.