quinta-feira, 29 de março de 2018

COMENTANDO MINHAS LEITURAS EM 2018: O MISTÉRIO DO VERDE NASCE

Há livro que foram escritos para se tornarem inesquecíveis,  "O Mistério do Verde Nasce" de Ana Cláudia Trigueiro de Lucena é uma deles. A história que ele tem é um misto de memória e romance histórico, onde o leitor vai se deixando prender pelo mote desenvolvido pela autora, que dentro da sua narrativa soube trabalhar o tempo e o espaço diegético, algo quem nem todos conseguem fazer com segurança, pois muitos pecam em não fazer pesquisa de época.
Nesse livro, Cláudia Trigueiro teve o cuidado de trazer ao leitor fatos, pessoas e datas com credibilidade. As frases vão vestindo as personagens e dando forma a história romanceada, ao mesmo tempo em que o ambiente se descortina com sua geografia humana e ambiental. "O Mistério do Verde Nasce" nos fala de um tema que escritores famosos do Ceará-Mirim não tiveram seu olhar voltado para tal assunto, pelo menos com a profundidade que nos dá Cláudia Trigueiro. Não me recordo de ter lido nada sobre isso em Oiteiro, de Magdalena Antunes, em A Rosa Verde, de Nilo Pereira, dois grandes escritores que viveram naquele vale e a história de Emma já era há muito conhecida. O que importa é que agora, em 2018, a escritora Cláudia Trigueiro preenche essa lacuna com beleza e louvor. 
Editado pela CJA, com capa de Marcos André T. Lucena,  ilustrações de Edmar Claudio Mendes e revisão de Andreia Braz, o romance tem 22 capítulos, em sua parte principal e depois há um bônus sobre a escritora, o ilustrador, a pesquisa e outras considerações que foram tão importantes na construção do livro. A protagonista não é Emma, mas Maria, que conhece o Verde Nasce desde a sua infância. É por meio dela, da sua curiosidade que temos as respostas para as perguntas que existem em torno do túmulo de Emma, edificado naquele vale desde o longínquo  ano de 1881.
Quando li "O Mistério do Verde Nasce" confesso que em diversos momentos minh'alma ficou embevecida com as cenas que o texto me permitiam criar, emoções como essas, tive também quando li Oitero. Creio que devo atribuir isso ao fato de ter vivido minha infância naquela cidade. Encanta-me tudo que é escrito com arte  e seja referente a cultura daquele vale.
Ouso afirmar que esse é um livro não apenas inesquecível, mas extremamente necessário aos leitores, às boas bibliotecas públicas e particulares, aos professores e alunos que devem conhecer a história e a cultura presente em Ceará-Mirim.  Há missões que são singulares, e escrever "O Mistério do Verde Nasce" foi uma atribuída a Cláudia Trigueiro. Mas por que tão somente agora, depois de 137 anos que Emma foi sepultada? Não sei responder, mas fico com a sólida palavra de quem tudo sabe: "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o  propósito debaixo do céu" (Eclesiastes 3:1).
Finalmente, quero ultimar essa resenha usando uma frase que achei impactante dentro do livro: "Os coronéis morreram com suas riquezas, e a estrada mostrava apenas casarões desabitados" (p. 144), completo, se assim me permite Cláudia Trigueiro, que tão certo quanto é a beleza daquele vale, quanto tão sólida são as torres da Igreja matriz, o seu livro tem a semente e o sabor de um clássico regional. 

Francisco Martins
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Eclesiastes 3:1
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Eclesiastes 3:1


quarta-feira, 28 de março de 2018

CARRO DO GOVERNADOR FOI ROUBADO


Bandidos roubaram um carro de propriedade particular do governador do Rio Grande do Norte Robinson Faria na noite desta terça-feira (27), em Monte Alegre, cidade da Grande Natal. Segundo a Polícia Militar, o chefe do Poder Executivo do estado não estava no veículo na hora do crime.
De acordo com a PM, quatro bandidos armados invadiram um residência onde o motorista tinha ido deixar um dos funcionários do governador. Os criminosos fizeram um arrastão na casa e depois levaram o veículo.
Policiais do pelotão de Monte Alegre e de várias cidades da região Agreste foram mobilizados para tentar recuperar o carro. O rastreador apontava que a caminhonete estava perto de uma lagoa na zona rural do município. 

 Fonte:https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/carro-do-governador-do-rn-e-roubado-em-cidade-da-grande-natal.ghtml

 Diante desta insegurança e atrevimento o poeta Mané Beradeiro fez a seguinte sextilha:

Os ladrões deste estado (RN)
Têm coragem de montão
Roubaram Governador
Não tiveram comoção
Fugiram pelas estradas
Com cem anos de perdão!

 (Mané Beradeiro)

segunda-feira, 26 de março de 2018

DE PARNAMIRIM PARA TODOS NÓS: O DECÁLOGO DO LEITOR

Parnamirim-RN já foi conhecida na história do Brasil com o título de  Trampolim da Vitória, ganho durante a II Guerra Mundial, pela sua localização geográfica. Agora, a cidade embora guarde esta fama, luta numa outra guerra bem mais severa e cruel, onde não se usam armas letais. Os soldados desta nova batalha, recrutados de maneira especial, fazem parte de um contingente  que sabem da grande missão que lhes foi confiada. São eles, professores, vestidos com a armadura de mediadores de leitura, tendo como única arma, o livro.  Um objeto que é capaz de não apenas transformar a vida de uma criança, mas de uma pátria inteira, um país, quiçá o mundo.
Por isso, Parnamirim-RN , desde o último decênio do século passado vem atuando de forma persistente na formação de leitores. O projeto tem como título: Parnamirim- um rio que flui para o mar de leitura. Dele já se colheram frutos que deu prêmios à gestão municipal. Nele, todos os dias, em todas as escolas municipais, pela manhã e à tarde, é possível encontrar os mediadores de leitura com seus alunos, ensinando o amor ao livro, a beleza que eles tem, o encantamento que nós dá, a força que contém e pode transformar o menino, o jovem e o adulto. O projeto é encantador, uma arca que à semelhança daquela de Noé,  navega  sobre as águas turbulentas, mas, dentro dela, há a serenidade de Angelica Vitalino, Aracy Gomes, Geraldo Tavares e tantos outros professores que se entregam de corpo e alma à batalha contra a ignorância e em prol da vida em abundância, pois nem só de pão vive o homem.

sábado, 24 de março de 2018

ASSIM DISSERAM ELES ....



"QUEM TEM DEFUNTO LADRÃO NÃO FALA EM ROUBO DE VIVO"

Inácio da  Catingueira,  poeta e repentista

quinta-feira, 22 de março de 2018

RIO DA MORTE


Rio de Janeiro, mas também de Fevereiro a Dezembro
Um rio com curso de violência e mortes.
Rio de Janeiro, cidade maravilhosa! Para quem?
Com certeza não é para as famílias que têm 
Os  seus membros atingidos e exterminados
Pelas balas saídas das armas.
Armas que desde cedo ocuparam o lugar  dos livros.

Não, não há balas perdidas. Há gerações e gerações
Inteiramente esquecidas.
Não apenas um rio, mas um país inteiro sem educação,
Sem segurança, sem saúde, que dilacera crianças, jovens,
Adultos.

Rio de Janeiro,  que samba em Fevereiro, como se nada
De ruim ali houvesse, que dança o ano inteiro, num ritmo
Tocado por uma democracia deitada em berço esplêndido!

Francisco Martins
22.03.2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

MANÉ BERADEIRO PREFACIA ANTOLOGIA BRASILEIRA

O poeta Mané Beradeiro foi convidado para prefaciar uma antologia brasileira,  que tem a participação de ... poetas cordelistas, representantes de 12  estados. O livro tem como título  "Coletânea Poética" e foi organizado pelo poeta El Górrion ,(Antonio  de Pádua Gomes), que mora em Itatuba-PB.  Cada poeta participa com um poema escrito  em decassílabos, no gênero de cordel, com três estrofes, num total de 216 décimas, tendo como mote: "eu sou como um passarinho nas asas da liberdade". Esse é o primeiro livro prefaciado pelo poeta Mané Beradeiro que dentro do seu texto escreveu:

"Aqui, nesta Coletânea Poética, o mundo da ficção tem as cores e a harmonia da arte da poesia. Ela chega até nós graças a iniciativa do poeta El Gorrión, que convidou outros a  trazerem seus pincéis para numa tela única deixarem,  em apenas três pinceladas, a cor mais bela que eles e elas têm na alma. Aos participantes foi dado o desafio: ter uma apenas um modelo de moldura, a décima. O grupo atendeu e doze estados se fizeram presentes neste trabalho. Alguns vieram em caravanas como Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco, outros chegaram sozinhos, mas cumpriram a jornada".

Quem desejar adquirir o livro pode fazer através do site abaixo. O preço é de R$ 25,05.

CARAVANA DE ESCRITORES POTIGUARES ESTEVE ONTEM EM NOVA CRUZ

Qual é o poder das palavras além de formar frases?  Com certeza levar sentimentos às pessoas que as ouvem ou leiam.  Ontem, a cidade de Nova Cruz recepcionou com muita dedicação a Caravana de Escritores Potiguares, projeto capitaneado pelo escritor Thiago Gonzaga e que tem o apoio da COSERN, através da Lei Câmara Cascudo, que levou até aquela cidade os escritores Dancley Fernandes, Chumbo Pinheiro, Oreny Junior, Carlos Fialho, Damião Gomes, Manoel Onofre Jr e Francisco Martins. O evento reuniu professores e alunos da rede municipal de Nova Cruz e teve a presença de outros convidados, além do Prefeito Municipal de Nova Cruz - Targino Pereira e boa parte dos seus  colaboradores na gestão municipal.
Oreny Junior e Francisco Martins, em Nova Cruz.
Cada escritor pode compartilhar um pouco da sua vida com os presentes, falar dos seus livros, declamar poemas, ler  pequenos textos e o  melhor de tudo, distribuir para todos que ali estavam os livros dos autores da Caravana de Escritores Potiguares.  Um projeto maravilhoso, que já deixa sua marca na história da literatura do Rio Grande do Norte.

UBE/RN ENTREGA HOJE O PRÊMIO DE POESIA MYRIAM COELI 2018


ACLA E INSTITUIÇÕES CULTURAIS PROMOVEM HOJE A CONVERSA LITERÁRIA SOBRE MAGDALENA ANTUNES

A Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes  Pedro Simões Neto - ACLA , em parceria com a Secretaria da Juventude, Esporte, Cultura e Lazer, a Secretaria de Educação Básica, a Fundação Nilo Pereira e o CEU das Artes realiza na tarde de hoje, a conversa literária sobre Magdalena Antunes, autora do livro Oiteiro - memórias de uma sinhá moça. O evento acontecerá na sede do CEU das Artes, situada  à Rua Touros, 115, em Ceará Mirim. Falarão sobre Magdalena Antunes as acadêmicas Maria da Conceição Cruz Spineli e Francisca Maria Bezerra Lopes.

quinta-feira, 8 de março de 2018

CARTA ABERTA A ALIPIO SOUSA FILHO

Carta Aberta ao Prof Alípio de Sousa Filho,

Como egresso da UFRN, sempre fui um admirador do seu posicionamento acadêmico e político. Por isso, foi com profundo estranhamento e tristeza que eu tomei notícia dos recentes acontecimentos, em que você expulsou e repreendeu uma de suas estudantes por estar em sala de aula com a filha.

Uma vez que você tem dado aulas sobre gênero, você sabe melhor que muitos (embora talvez não tanto quanto ache), que homem não é feminista. Ele não deve tomar para si uma luta que é das mulheres. Mas ele tem o dever de ser anti-machista. Sabendo do que ocorreu, portanto, é minha obrigação intelectual lhe escrever.

Na verdade, a expulsão já seria algo suficiente para motivar minha carta, mas quando eu ouvi o áudio (que você agora diz ser “maravilhoso”, em reportagem do G1 sobre o episódio), eu fiquei francamente estarrecido. Não apenas com o episódio em si, mas com a precariedade dos argumentos que você tentou utilizar para se defender, que não condizem com as credenciais que você mesmo faz questão de ostentar. E pelo fato de você não ter aproveitado tal oportunidade para se desculpar e reperar o episódio.

Em primeiro lugar, você citou Harvard, Cambridge, Oxford, e universidades “na Europa”, como instituições onde mães não levariam suas crianças para as aulas. Chegou ao ponto de mencionar seu salário, de 20 mil reais, que é praticamente 20 vezes o salário médio de 60%+ da população brasileira, como um exemplo do respeito “moral” que os estudantes devem ter pela instituição. Pois bem, se nessas instituições as jovens mães não precisam levar seus filhos, é porque elas têm mais recursos e auxílio institucional! A sua incapacidade de perceber a relação óbvia entre esses dois dados é absolutamente chocante.

Para citar as universidades britânicas, qualquer estudante/mãe recebe até 600 reais (£159.59) por semana, por filho, como ajuda de custo (o ‘childcare fund’ custeia 85% dos custos das crianças, a menos que as mães tenham outros meios). Aliás, pais que sejam estudantes tem direito a mais 6 mil reais (£1,508) por ano para gastarem como bem entenderem. E não estamos falando nem do direito a habitação (‘housing support’) ou da política de distribuição de renda (‘benefits’). E você vem nos falar em 100 reais que a UFRN oferece em chamadas anuais?

Aliás, basta consultar a internet para saber que os ricos (para os parâmetros europeus, veja lá) ficam com 80% das vagas em Oxford e Cambridge, que você cita como referência. Olhe a seu redor, Alípio, você não está (nem esteve) em Cambridge, e é constrangedor que eu tenha que dizer isso.

Mais além, você não fala pelas instituições estrangeiras que cita, uma vez que não leciona nem atua nelas. Portanto, o argumento de autoridade é extremamente frágil. No entanto, como a minha experiência nas mesmas é muito mais ampla que a sua (embora você goste de medir seu prestígio referindo-se à essas universidades, para mim é constrangedor e só o faço para fins de refutação), posso afirmar tranquilamente que se você reagisse contra uma mãe e sua criança em sala de aula, como o fez na UFRN, em uma universidade européia (sobretudo no Reino Unido), você seria demitido – não importando a imagem que você faz de si mesmo, sem grande modéstia. É absolutamente impensável para um professor britânico se dirigir aos estudantes com os termos que você utilizou. Impensável.

Quão difícil teria sido buscar uma solução junto ao departamento, procurando informações que pudessem ajudar essa mãe? Se não houvessem, quão melhor seria aproveitar essa oportunidade e, junto às estudantes, pleitear soluções? Quão difícil seria conversar com outras alunas e professoras mães que já passaram por situações parecidas, ou pedir a interferência delas? O salário que você recebe não merece esse esforço?

Moralmente—já que você quis falar em moral—uma mãe solteira, periférica, que batalha para fazer seus estudos e precisa levar sua filha para uma universidade pública, estão muito, mas muito mais além dos limites do seu suposto desconforto que, aliás, não tem nada a ver com o bem estar da criança, sejamos francos. Aliás, é de espantar que você levante uma questão moral para discutir um fenômeno obviamente sócio-econômico—parece subitamente esquecer a natureza de sua própria disciplina e de seu rigor intelectual (uma vez que seu posicionamento é diametralmente oposto àquilo que escreveu). Convém ainda que você não use seu prestígio para tentar dar um verniz acadêmico a proposições falsas: sou filho de um professor universitário que me levou às aulas e isso não teve o menor impacto negativo no meu desenvolvimento cognitivo – muito pelo contrário. Ne ultra crepidam, Alípio!

Ameaçar processar essa mãe, utilizar seu prestígio para destruí-la (em uma instituição em que alguns professores estão habituados a mandar e desmandar em seus pequenos e irrelevantes feudos), é de uma misoginia grotesca e indesculpável—e nos países que você cita, essas ameaças caracterizam crime (bullying e harassment). Transcrevo com horror algumas de suas palavras: “ela encontre uma rede de solidariedade para cuidar da criança. Não consegue essa rede de solidariedade? Repense sua vida. Não tem que estar fazendo Ciências Sociais, não tem que estar estudando na universidade. Você só faz isso se tiver condições. Agora não vai impôr à instituição coisas que não são assimiladas pela instituição (…) 'ah, eu sou pobre, não tenho'. Problema seu, a universidade não tem problema com isso, se vire”). No quê esse seu discurso supostamente “meritocrático” mas que se mostra classista e machista, diferencia-se do discurso de um Bolsonaro? Leia de novo suas palavras e reflita sobre isso. Não percebe que o mesmo pode ser utilizado contra você? Por exemplo, com o investimento que o governo faz no seu salário, ar-condicionado e internet, você deve ser obrigado “moralmente” a não falar mal do governo? Faz sentido, isso? Por medo da resposta, já adianto: não, não faz sentido. E por uma questão de civilidade, eu vou lhe poupar de dizer quem é que eu acho, neste contexto, que não deveria “estar fazendo Ciências Sociais”.

Se a moral e a universidade pública realmente lhe importam, se você quer mesmo fazer jus ao seu salário de 20 mil reais, o mínimo que você pode e deve fazer é se desculpar publicamente com essa mãe e buscar reparar esse episódio vergonhoso com um empenho pessoal em tratar da questão de mães e filhos pequenos dentro da instituição—incluindo a elaboração de um pequeno manual/cartilha para explicar a questão das crianças em sala de aula para professores e alunas.

Como a UFRN não é dada à auto-crítica, e os professores frequentemente se protegem por corporativismo, terei que ser uma das vozes isentas a te dizer o que seus alunos talvez tenham medo, pelo abuso sistemático que sofrem nesta instituição. Tuas credenciais como militante e estudioso são irrelevantes para te defender de ter agido de maneira misógina, mas elas me dão esperança de um gesto seu, para transformar esse lamentável episódio em algo positivo para essas mães.

À mãe que foi expulsa da aula, eu quero dizer que acredite nos seus estudos. Que não deixe esse triste episódio te abater: confie na sua força e no apoio de outras mulheres. A universidade é o seu lugar, e o que aconteceu só prova a importância que você—e a sua filha—tem nesse espaço (e em todos os outros espaços).

Feliz Dia da Mulher,

Pedro Germano Leal
(francamente, não tenho o menor interesse em usar meus títulos e filiação profissional para validar algo que eu digo)

sexta-feira, 2 de março de 2018

COMENTANDO MINHAS LEITURAS EM CORDEL - A PRESENÇA FEMININA

Março, mês dedicado às mulheres. Nada mais justo do quê escrever uma resenha sobre a importância da mulher no gênero de cordel, principalmente no tocante àquelas que foram pioneiras e também as atuais.  A resenha não irá conter todas, até porque o assunto é crescente e amplo, entretanto, o  pouco que se escrever por aqui já servirá para  enriquecer nosso conhecimento.
Gutenberg Costa
Tomo como base o livro Presença Feminina na Literatura de Cordel do Rio Grande do Norte, de autoria do pesquisador e historiador Gutenberg Costa.Sobre ele quero afirmar que aprender com Gutenberg é sempre bom, suas pesquisas são profundas, alicerçadas, têm a maturidade dos bons vinhos.  Suas obras sobre o tema são referências obrigatórias quando se trata de estudar, saber e escrever sobre o cordel no Rio Grande do Norte, ele chegou até aqui com muito esforço e dedicação. Está imortalizado na literatura.
Mas, deixemos Gutenberg  Costa descansando na Morada São Saruê, lá em Nísia Floresta/RN,  onde ele não é amigo do rei, mas sim o próprio e merecido rei e vamos adentrar no tema que se propõe a resenha.  A primeira mulher a publicar um folheto na forma tradicional de cordel, no Nordeste, foi uma poeta natural da Paraíba: Maria das Neves Batista Pimentel (1913-1938), que  teve a coragem de enfrentar a sociedade machista, que certamente não aceitaria a sua presença no cordel e ela usou o pseudônimo de Altino Alagoano ( nome do marido). Naquela época a imagem da mulher era com frequência atribuída aos trabalhos domésticos e dela se esperava ser: beata, mãe e esposa, nada mais. E ainda por cima eram tidas como peso.  Veja por exemplo esta estrofe do cordel O casamento do velho e um desastre na festa", Leandro Gomes de Barros, escrito em 1913.

Manoel Lopes dos Anjos
Nunca tinha se casado
Dizia sempre: a mulher
É um volume pesado
Deus me livre de mulher,
De médico e advogado
(BARROS, ....)

Maria das Neves Batista foi filha de Francisco das Chagas Batista (1882-1930) que era poeta cordelista e tinha sua própria tipografia.

Eu sou filha de poeta
e neta de repentista
meu avô era Ugolino 
e meu pai Chagas Batista
também faço poesia 
o poeta é um artista!
(MENDONÇA, 1993, p. 86). 

"O Corcunda de Notre-Dame";  "O violino do Diabo ou o valor da honestidade"  e "O amor nunca morre" . Os três folhetos, bem lembra Aderaldo Luciano: são  todos transposições de clássicos da literatura universal, o que coloca por terra a tese elitista de que quem fazia cordel era analfabeto ou semi-analfabeto.  Quem desejar conhecer mais sobre a história dessa mulher, aconselho a leitura do  livro  "Uma voz feminina no mundo do folheto",  de Maristela Barbosa de Mendonça ou de uma forma mais sucinta, porém densa, o texto acadêmico :"Maria das Neves Batista Pimentel: a voz por trás do verso"  de autoria  de Elanir França de Carvalho e  Letícia Fernanda da Silva Oliveira.

Maria das Neves
Voltemos  ao colo feminino, melhor lugar para os poetas repentistas e de bancadas, e vamos neste aconchego tomando conhecimento da saga da mulher no  cordel brasileiro e visitar a Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC ( instituição que vai completar 30 anos de existência no mês de setembro) com sede no Rio de Janeiro, para sabermos como anda a presença feminina  naquela Arcádia.

Cadeira 3 - Maria Anilda Figueiredo - CE
Cadeira 16 - Alba Helena Correa - RJ
Cadeira 18 - Maria Rosário Pinto - MA
Cadeira 25 - Dalinha Cacunda - CE

Das 40 cadeiras 10% são das mulheres, e nenhuma cadeira  tem como patrona a figura feminina.  Isso mostra o quanto a mulher ainda tem a conquistar.  Mas, se nas Academias a mulher ainda não está em par de igualdade com os homens, no que diz respeito a quantidade de cadeiras ocupadas, na produção  de folhetos já não há mais esta exclusão. Hoje a poeta cordelista nem precisa fazer uso de pseudônimos masculinos. Exceto, por opção.

Como bem diz Queiroz:

Somente a partir de 1970 é que se pode verificar manifestações de autoria assumidamente feminina. Na atualidade, mulheres, através da escrita de cordéis, denunciam uma realidade social e também anunciam perspectivas de vida. São professoras, psicólogas, advogadas, dramaturgas, donas de casa, que, utilizando-se dessa forma de manifestação da nossa cultura, deixam fluir sua poeticidade e através dela demonstram seus sentimentos, aspirações e visões de mundo, consolidando uma identidade autoral e o espaço feminino na literatura de cordel.


Na terra de Clara Camarão, a Academia Norte-Rio-Grandense de Literatura de Cordel  - ANLIC deu espaço a três patronas: Gizelda Trigueiro, Nati Cortez ( a primeira cordelista do RN) e Maria Eugênia e tem no seu rol de membros as notáveis: Antonia Mota ( atual Presidente),  Rosa Regis, Josenira Fraga, Clotilde Tavares, Sírlia Souza, Geni Milanez, Lucila Noronha e Cláudia Borges,  20% de participação nas cadeiras. Um exemplo a ser seguido pela ABLC. Temos outras poetas no RN que se dedicam ao cordel e estão cada vez mais alcançando esse campo que tem espaço para todos.

Sabemos que essa participação ainda não é das melhores, mas acreditamos que breve o quadro há de melhorar.  Doralice Alves de Queiroz  fez uma extensa pesquisa em nove instituições,  nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paraíba, no período de junho de 2004 a novembro de 2005, quando tomou conhecimento da existência de 31.105 folhetos de cordel no acervo desses órgãos, sendo apenas 120 de autoria feminina. Qual será o quadro hoje?

Março está apenas começando e sobre mulheres e cordel eu ainda voltarei a escrever.

Mané Beradeiro


Livros recomendados - sugestão de leitura

1) A Mulher na literatura de cordel -  BORGES, Maria Núbia Câmara/MORAIS, Vera Lúcia Albuquerque.  Edições Pirata, 1981.

2)  Romaria de versos: mulheres cearenses autoras de cordel - SANTOS, Francisca Pereira dos. Edições SESC, 2008.



Referências


BARROS, Leandro Gomes de. O casamento do velho e um desastre na festa.
COSTA, Gutenberg. A presença feminina na literatura de cordel no Rio Grande do Norte. Natal/RN: Editoras 8 e Queima Bucha, 2015.
MENDONÇA, Maristela Barbosa de. Uma voz feminina no mundo do folheto. Brasília: Thesaurus, 1993.
QUEIROZ,  Doralice Alves de. Mulheres cordelistas - percepções do universo feminino na literatura de cordel.  Belo Horizonte/MG: UFMG, 2006.
ABLC disponível em : http://www.ablc.com.br/a-ablc/cadeiras/Visualizada em 24 fev 2018.
LUCIANO, Aderaldo. Disponível em:https://jornalggn.com.br/blog/aderaldo-luciano/duas-ou-tres-coisas-sobre-o-cordel-brasileiro-e-seus-protagonistas  Visualizado em 24 fev 2018.

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Eventos sob o sol a pino - incidentes sob a lua cheia - Aderaldo Luciano
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