quarta-feira, 4 de março de 2015

O DEFUNTO PREGUIÇOSO

Era uma vez um homem muito preguiçoso que vivia no campo. Sua casa, de tão mal cuidada, estava cai não cai. O mato ao seu redor cobria todo o terreiro e ele nem se importava. Possuía um bom pedaço de terra que recebera de herança, mas nada cultivava. Para comer, dependia de favores dos que moravam nas vizinhanças. Tudo lhe era dado, em homenagem à sua mãe, já morta, que foi uma rica fazendeira, de bom coração e muito caridosa. Todos gostavam muito dela e com esses gestos pensavam em conservar sua memória.
O homem vivia deitado em uma rede velha, toda puída e suja. Entrava dia e varava a noite e ele ali deitado. Era a imagem viva da preguiça.
Caridade tem também seu limite e o povo da redondeza começou a achar que o homem devia trabalhar, como eles, para ter o seu sustento. Uns poucos resolveram intimidá-lo para trabalhar e assim, como todo mundo, ganhar a vida e deixar de viver da caridade dos outros. O homem pouco ligou, parecia que não era com ele que estavam falando.
Resolveram então, aqueles que ainda davam alimentos, suspender qualquer ajuda. O homem, deitado na rede, passou a, em alto e bom tom, maldizer dos vizinhos.
Por esse motivo houve uma reunião e os moradores da redondeza revoltados com a exploração do preguiçoso, resolveram, dar-lhes uma lição. A falta de melhor solução, ele seria enterrado vivo.
Certa manhã, conforme o combinado, saíram do sítio levando o preguiçoso deitado em sua rede, pendurada em uma vara grossa, como se fazia com os defuntos, para enterrá-lo no lugarejo vizinho, aonde havia cemitério. Era uma grande procissão cantando todos os benditos que os defuntos tinham direito. De vez em quando, homens se revezavam na missão de carregar no ombro a vara que segurava a rede do defunto.
O morto vivo, todo enrolado, seguia tranquilamente, o seu destino como se fora morto de verdade.
As cantorias levadas pelas mulheres carpideiras eram escutadas de longe. Em dado momento, quando o enterro passava à porta de uma rústica casa de um matuto, esse muito caridoso, e com toda a família a espera, para saber quem era o morto, assim se dirigiu ao cortejo:
-Quem é o morto?
O homem da frente que dirigia os serviços, logo respondeu:
-Não está morto.
O outro não entendeu, e insistiu:
-E por que vai ser enterrado vivo?
-É um preguiçoso, não quer trabalhar e só vive de caridade.
O homem da casa, junto com a mulher, reclamou porque iam enterrar vivo um cristão, e prometeu:
-Não enterrem  o defunto vivo, que para colaborar com seu sustento eu dou cinco cuias de arroz.
Ao ouvir-se essa frase, viu-se pela primeira vez a rede se mexer, e o defunto descobriu a cara, retirando as varandas, e botou a cabeça para fora da rede e assim se expressou:
-O arroz está pisado?
-Não! Disse o proposto doador.
De pronto e sem qualquer dúvida, o defunto falou:
-Toca o enterro prá frente!

Luiz Barreto