sábado, 19 de agosto de 2017

A GRANDE PESQUISA



           
 Professora Conceição preparou para aquele semestre um seminário que iria homenagear os nomes dos escritores do Rio Grande do Norte. Dividiu tarefas entre seus alunos. Poesia,  conto, crônica, biografia, ensaio, etc. Cada grupo ficaria responsável por um gênero literário e nele deveria trazer ao plenário um pequeno histórico sobre os maiores nomes e a bibliografia do assunto. Era trabalho de pesquisa e muita leitura.
            Entre os alunos houve um que chegou à Professora Conceição e disse:
            -Professora, gostaria de fazer uma pesquisa para este seminário de história da literatura potiguar sob outro prisma.
            -Qual?
            -Tenho a idéia de escrever um ensaio sobre a história da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras - ANRL. São oitenta anos de presença em nosso meio a ser celebrada este ano de dois mil e dezesseis.
            -Interessante! Fale-me do que você pretende pesquisar.
            E o aluno explicou detalhadamente tudo que estava organizado em sua mente. Foram quase dez minutos de explanação sobre o projeto. Professora Conceição aprovou a idéia e autorizou o mesmo a torná-la concreta.
            O tempo era curto e o desafio grande para realizar aquela pesquisa que sem dúvida viria a contribuir com a história da literatura no solo potiguar. Eram tantas as perguntas que povoavam a mente daquele estudante! Que segredos teria a ANRL? O que não se sabe sobre sua história? Em oitenta anos de existência o que ela vez pela cultura local? Não seria apenas um clube social?     
            Para respondê-las a alternativa era mergulhar no campo da pesquisa. Ler tudo que foi escrito sobre a instituição, conversar com os acadêmicos, beber nas páginas da coleção da revista da ANRL, ir às atas.  E foi exatamente assim que a coisa aconteceu; durante três meses, o  aplicado aluno passou suas manhãs na sede da Academia.  Tinha fome de conhecimento por tudo que dizia respeito àquela octagenária instituição. Tornou-se amigo de Manoel Onofre Júnior, escritor acadêmico, Diretor da Revista da ANRL.
            Os dias úteis de segunda a sexta não era tempo suficiente para suas leituras, começou a levar para casa livros que seriam estudados no final de semana. Sua mente estava cheia de nomes de escritores, dos mais variados gêneros, nomes de ontem e de hoje, alguns bem lembrados, outros sequer referenciados na memória coletiva. Com tanta leitura, tantas informações, o aluno vivia e respirava a história da ANRL. 
            Vivia, respirava e até mesmo já começava a sonhar com a própria Academia, pois nem dormindo se via livre dela.  Primeiro sonhou que estava na casa de Câmara Cascudo, o fundador, e ali, escondido entre as estantes da “Babilônia”  viu quando dona Dálhia anunciou a chegada de Aderbal de França.  Era uma tarde de domingo, e a folhinha marcava 9 de agosto de 1936. Naquele sonho o aluno escutou toda a conversa que Cascudo teve com Aderbal, o famoso Danilo das crônicas sociais.
            No dia seguinte, tão logo acordou ficou pensativo se o sonho fora invenção ou se realmente aquela reunião tinha acontecido. Qual não foi sua surpresa quando leu um artigo de Otto Guerra escrito na revista da ANRL e que dizia ter havido aquela reunião.
            Nosso aluno ficou espantado. Teria ele algum poder sobrenatural? Como soube daquela data, ano, local e turno da reunião? Estranho. Será que sua sede de conhecimento sobre a História da ANRL estava recebendo ajuda do além? Mas, logo com ele que era tão cético nestas coisas espirituais.  Tudo talvez não tenha passado de uma grande coincidência. Sim, foi isso que aconteceu, pensou o estudante.
            Pegou o ônibus e se pôs a caminho da sede da ANRL, pagou a passagem e sentou-se. Na poltrona ao lado já se encontrava um jovem com semblante de anjo, cabelo penteado para trás, olhar extremamente sério, rosto bem barbeado. Saudou o jovem pesquisador:
            -Bom dia! Indo à universidade?
            -Bom dia! Não. Vou dá continuidade numa pesquisa que, já faz algum tempo,  vem preenchendo meus dias.
            -Qual é o assunto? Desejou saber o jovem com semblante angelical.
            -É sobre a  história da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Conhece?
            Ele limitou-se a sorrir e disse que sim. Sabia um pouco sobre ela, respondeu modestamente. Enquanto o ônibus corria ruas acima e abaixo, a conversa entre eles tornou-se prazerosa. Falaram de contos, um pouco de poesia e outros assuntos. Estava próxima a parada da ANRL. Antes de sair ele disse seu nome àquele jovem de olhar tão sério, compenetrado, como quem vivia numa esfera espiritual constante.
            -Vou descer na próxima. Qual é o seu nome?
            Um freio brusco foi o suficiente para desencadear um ataque de tosse naquele moço que ele conheceu. Era tão forte a tosse que imediatamente fez uso de lenço e simplesmente com um gesto disse adeus.
            Enquanto caminhava rumo a sede da ANRL pensou no rosto daquele jovem que não teve tempo de dizer seu nome.  Guardou sua fisionomia na esperança de reavê-la brevemente, quem sabe numa manhã próxima. Entrou na sede na Academia e deu continuidade à sua pesquisa. Focou nos patronos, quarenta nomes de homens e mulheres que marcaram a história do Rio Grande do Norte.
            O estudante estava animadíssimo com os textos que ia lendo sobre o traço biográfico dos patronos.  Agarrou-se ao livro “Patronos e Acadêmicos” de Veríssimo de Melo e cada página que se abria para ele era como uma porta do vasto mundo dos homens e sua história. Naquele dia ele não se dedicou a outro tema. Ao final da tarde foi ao salão nobre da Academia e ficou contemplando os quadros dos patronos. Fez isso devagar, degustando cada momento diante da pintura, e pensando sobre cada um deles.  Frei Miguelinho, o herói cívico; Nísia Floresta, a feminista do Brasil; Conselheiro Brito Guerra, grande magistrado; Lourival Açucena, o primeiro poeta do Rio Grande do Norte ... Seus olhos miravam a imagem e o cérebro, imediatamente, evocava o que cada um tinha sido.
            Na ordem cronológica dos patronos, o aluno já estava chegando ao final, via agora o patrono Luís Antonio, cadeira 38, depois Damasceno Bezerra, cadeira 39 e quando seus olhos se debruçaram sobre o quadro do patrono da cadeira 40, ele teve um grande susto, gritou e saiu correndo escada abaixo, numa atitude desesperada. Quase cai. Acudiram o jovem,  Evane e Marlucia, e ele, pálido, branco e frio como mármore, respirava ofegante.
            Marlúcia abanava o rapaz. Evane deu-lhe água e ambas perguntavam o que ele tinha visto. Os olhos dilatados, o coração batendo acelerado, a adrenalina correndo nas suas veias, impediram-no de falar.
            -Será que foi um ladrão? Comentou Marlúcia.
            Ele com o indicador gesticulava, negando. Bebeu a água, respirou e as primeiras palavras vieram...
            -Era ele, ele, o rapaz com quem conversei no ônibus hoje pela manhã.
            -Ele quem,  criatura? Indagou Evane.
            -O patrono que vi lá em cima.
            Marlúcia sentenciou:
            -É o quê dá estudar muito, ler demais. Termina ficando abilolado. Tadinho!
             Evane reprovou com o olhar aquele comentário. Levou o jovem para o jardim e  se pôs a conversar com ele. Tudo que ele falou, realmente, levava a crer que tivera uma experiência sobrenatural com Afonso Bezerra, jovem patrono da cadeira 40, falecido em 1930, aos 23 anos de idade.
            Em casa compartilhou com os seus pais aquela experiência inesquecível. Sua mãe repetiu as palavras que foram ditas por Marlúcia. Ele retrucou:
            -Não é nada disso, mamãe! Eu realmente conversei com ele no ônibus.
            E a noite veio. Chegou trazendo o vento frio, vindo do mar, peneirado pela vegetação das dunas e que entrava pela janela do quarto daquele estudante que, deitado em sua cama,  pensava nos últimos acontecimentos.  As lufadas de ar provocavam um ruído nas dobradiças da janela. Pareciam sons fantasmagóricos.  Ele levantou-se, fechou-a e voltou a deitar-se.
            Ao seu lado, deitou-se também a insônia. Usavam o mesmo lençol, tinham os mesmos olhos. Abertos, fitando o nada, ouvidos atentos a qualquer barulho que pudesse ser provocado naquela noite. O tempo passou muito devagar, madrugada densa. Um galo cantou ao longe e esperou que outro apanhasse seu canto para tecer a madrugada, como bem disse o poeta João Cabral de Melo Neto.
            Precisava dormir. Sono não chegava. Tomou chá, esperou o efeito. Teve a ideia de contar “carneirinhos”, só que ao invés de carneirinhos que pulavam a cerca, o jovem brincou de serem escritores passando pelo portal da ANRL: Adauto Câmara  1,  Henrique Castriciano 2,  Otto Guerra 3 ...Juvenal Lamartine 12... E deu certo. Não conseguiu chegar aos quarenta. Seus olhos pesaram e o lençol não mais estava sendo dividido com a insônia.
            Dormindo, o moço relaxou. E nada mais perigoso do que a bambeza corporal.  Sonhou, e  se viu num outro mundo, numa terra mítica e lendária.  Nela, as ruas eram todas calçadas com rapadura, os bancos das praças forrados com mantas de carne-de-sol, os colchões das camas de casal eram todos de queijo de coalho. Durante o dia a cidade recebia a luz vinda dos clássicos. Cada dia, a folhinha trazia uma obra inesquecível. À noite, boêmios, poetas, músicos e artistas em geral se entregavam aos prazeres da boa música e da leitura.
            No centro daquela cidade, o coração: uma grande biblioteca. Imensa, o templo que celebrava a imortalidade.   Todo aquele acervo era organizado por Câmara Cascudo, que contava com o apoio dos escritores Oswaldo Lamartine,  Veríssimo de Melo  e Deífilo Gurgel.   Estantes douradas, livros de todos os tempos e lugares, escritos em todas as línguas, mas, com um detalhe: qualquer um podia lê-los. Bastava tocá-los e imediatamente o texto assumia a versão do idioma do leitor.
            O sonho era delicioso, mas foi interrompido por um grito da mãe:
            -Acorde! Já chamei três vezes e você não se levanta. Vai perder o ônibus.
            Pulou da cama, tomou um rápido café, estava ansioso pelo fechamento da sua pesquisa.  Trabalhou com obstinação. Na data marcada fez uma belíssima apresentação. Ao final, aplaudido pelos colegas e a Professora Conceição, recebeu nota dez, e escrito na primeira página do ensaio estava o seguinte texto da sua mestra:
Ao aluno Thiago, que trouxe à nossa sala, a história da Academia Norte-rio-grandense de Letras, nosso reconhecimento pela pesquisa e votos de que continue amando cada vez mais a literatura que brota neste solo potiguar.


Francisco Martins
Parnamirim –RN  19 de agosto 2016