domingo, 16 de março de 2014

TORMENTO DE DONA GRAÇA

O sofrimento de uma professora

Vou contar o sofrimento
Vivido por Dona Graça
Professora do estado
Que sofre  nesta desgraça
De educar um menino
Já doutor em arruaça.

Professor já foi moeda
Muito dada por valor
Mas hoje neste Brasil
É um grande sofredor
Principalmente aqueles
Abaixo do Equador.

Preste muita atenção
Em tudo que vou narrar
E depois então me diga
Se dá para  suportar
Viver um ano letivo
Com  “cão” a aperrear.

 Laranjeiras e a terra
Onde tudo se passou
Tadinha de Dona Graça
Que tanto agonizou
Com o aluno capeta
Que muitos azucrinou.

Botar filho neste mundo
É trabalho bem maneiro!
Difícil é educar
O sujeito brasileiro
Quando os pais dizem não
Com o filho no cueiro.

Deixar para a escola
Esta tão nobre missão
É matar o professor
E arrancá-lo do chão
Que assinou o contrato
de ser mestre na nação.

O  fato aconteceu
Numa escola rural
O danado do menino
Por si só é vendaval
Vira tudo que  encontra
Naquele seu arraial.

Dona Graça, paciente
Jurou ao seu coração:
“Vou consertar este cabra,
Acabar com  aflição
Deste povo  que só pensa
No pobre sem compaixão”.

Dona Graça não sabia
Do que vinha pela frente
Achou que Pedagogia
Ia deixá-lo diferente
Enganou-se Dona Graça,
Tão calma e paciente.

Palavras de bom valor
O menino não sabia
Pois tudo quanto falava
Era só pornografia
As oiças de Dona Graça
Eram porta da agonia.

“-Menino não diga isto!”
Gritava a professora.
E o aluno dizia:
“-Você é Caipora,
Se vier mexer comigo
Eu lhe desço a espora!

Merendeira tinha medo
Do aluno malcriado
Que virava a panela
Sujando  tudo que lado
E falava nomes feios
De olhos arregalados.

De tudo então se fez
Para ele melhorar
Mas, a sina do moleque
Era mesmo assanhar
Do menor ao o maior
Só queria azucrinar.

Dona Graça, mulher santa
Pensava em ajudar
Descobrir os  sonhos dele
E a alma afagar
Somente com um desejo:
“Ele vai se transformar”.

O menino navegou
pelo “Mais Educação”
Em tudo quanto é sala
Não ficou seu coração
Os professores diziam:
“-Não temos a solução!”

Aquela criança ia
Cada vez mais ao chão
Pois lidar com ser humano
É preciso compaixão
Ir além do seu salário
Abraçar  a vocação.

Antigamente bastava
O Professor rezingar
Que imediatamente
Aluno ia sentar.
Mas hoje tá diferente
É capaz de apanhar.

Um dia  naquela escola
O menino ultrapassou
A linha do permitido
E violência usou
Tentando com a tesoura
Furar quem lhe ensinou.
Isto foi a gota d’água
No balde da paciência.
“Avisem já a DIRED”
Foi grande a insistência
É preciso tomar logo
A severa providência.

E foram até ali
Verdadeira comissão
Com apenas um propósito:
Salvar a situação.
Regenerar o menino
Era esta a missão.

A criança prometeu
Comportamento mudar
Nesta hora natureza
Fez um galo relinchar
Um Bispo Universal
Dinheiro não quis ganhar.
 
As águas do ribeirão
Pararam de navegar
Políticos que roubavam
Juraram santificar
Dizendo: “Se ele pode,
Nós também vamos mudar”

Dona Graça tudo viu
E o aluno falou
Não levantou a cabeça
Nem a voz se alterou
Era tudo fingimento
Acredite meu leitor.

Quando o povo voltou
O  bichim esperneou
E disse em alto som:
“-Agora tudo mudou.
Se antes eu era ruim,
Muito mais,  pior ficou”.
 
Professor deixou escola
Pois não vive pra morrer
“-Se é pra ganhar dinheiro
E não poder ter lazer.
Vou rasgar o meu diploma
Antes do alvorecer”

A notícia correu campo
E o povo quis falar.
Houve promessa pra santo,
Catimbó prá melhorar
E no centro espírita
Paulo Freire invocar.

Um velhinho do lugar
Deu também seu parecer
Dizendo que no seu tempo
Cacete ia comer
No lombo deste menino,
Ele fez por merecer.
 
Uma jovem estudante
Do curso pedagogia
Rebateu o pensamento
De tamanha ousadia
Argumentando valer
A melhor sabedoria.

No Brasil é sempre Sim
A quem faz baldeação.
O pau que dava em doido
Não tem mais sua função
E conversa  deve ser
A mais forte da lição.

Agora, então me diga:
Pra onde vamos mandar
O enfiteto aluno
Que só quer é bagunçar?
Crianças só tem direitos?
A escola vai fechar?

Dona Graça representa
A mais nobre profissão
Que por causa disto tudo
Não tem mais motivação
E se não abrirmos olhos
Vai entrar em extinção.

É preciso resolver
Este causo tão comum
Ver onde está a culpa
E acabar o zunzum
Que menino pode tudo
De maneira incomum

Atenção Governador!
Secretário do saber.
E o povo que faz  lei
É preciso rever
Este tal de Estatuto
Que só causa desprazer.

Dona Graça bota fé
Mais não pode sustentar
Sozinha tão grande luta
Para tudo transformar
É preciso União
Ou vai tudo despencar.

 Se ensina a criança
O caminho a andar
E mesmo quando for grande
Outros passos não quer dar
Pois aprendeu com os pais
Como se deve comportar.

Termino este cordel
Dando grande louvação
Àqueles que ensinam
Do litoral ao sertão
Fazendo dum quadro negro
A maior libertação.


Mané Beradeiro
Parnamirim-RN, 16.03.2014

 
Informações catalográficas

Título: Tormento de Dona Graça
Autor: Mané Beradeiro
Data: 16 de março 2014
Métrica:  36 estrofes, em sextilha aberta,  com versos heptassílabos
Rima:  axbxcx
Marcadores: Comportamento infantil, educação, pedagogia, magistério, cidadania, valores morais.
 Pedidos pelo email: maneberadeiro1@hotmail.com ou (84) 8719 4534. Distribuo folheto para todo o Brasil.