domingo, 5 de agosto de 2018

O CALOR

  Por Ricardo Sobral, advogado, contista, ensaísta, vaqueiro, encangador de grilo e mestre em canjica e pirão de peixe.
 
Sou homem de convicções fortes e não nego.
Não me aparto delas, senão quando convencido, o que não acontece sem esforço hercúleo, posto que calçadas em reflexões.
Acredito que todos nós já nascemos com determinadas aptidões; as quais, traquejadas, determinam nossa vocação.
Até mesmo pessoas dotadas de inteligência exponencial, que seriam brilhantes em qualquer profissão que abraçasse, têm uma vocação maior.
Tem um contemporâneo nosso no curso de direito, que nós consideramos o maior jurista vivo da terra de Poty, um dos três maiores de todos os tempos, que se tivesse optado por ser tocador de gaita, guia de cego, sapateiro ou astronauta, seria brilhante do mesmo jeito. O cara domina vários campos do conhecimento, inclusive uma dezena de línguas estrangeiras, e ainda sobra vocação para cozinheiro.
Não vou citar o nome para ele não ficar "p da vida" comigo, dizendo que exagerei.
Minha vocação é a advocacia. Se não fosse advogado seria advogado.
Embora modesto e com mania de passar despercebido.
No conto que escrevi Francisco, o Discreto, há algo de autobiográfico.
Mas, se não tivesse jeito de ser advogado, seria contador de causo.
Não pensem que seja função fácil de ser exercida. A linha que separa a ficção da realidade é bem apagadinha, razão pela qual é de difícil visibilidade.
Se o contador de causo não se cuida, logo logo vira loroteiro.
É por isso que eu só conto causos reais, plasmados, com CPF e CEP conhecidos para averiguações.
Tenho fobia a passar por mentiroso.
Pois bem...
Esse nariz de cera já anda longe, vou relatar o causo, que aconteceu exatamente assim:
Semana passada eu fui no galpão da agricultura familiar, ali no cruzamento da Mor Gouveia com Jaguarari, com a intenção de tomar água de coco, alimentos dos mais completos. Além de local interessante, o primo Carlinho Sobral, filho do velho Rafafá, tem local de vendas, onde comercializa produtos de cooperativa que lidera. Conversa vai, conversa vem, esqueci do coco, mas comprei uma bandeja de ovos caipira e um quilo de milho para pipoca.
Em seguida, ainda de manhã, cheguei em Mossoró para audiência judicial.
O carro passou o resto do dia trancado no estacionamento à céu aberto.
O rádio ainda não havia tocado a Ave Maria quando acionei o motor para descer para Natal.
Afivelei o cinto de segurança e olhei para o banco traseiro.
A surpresa: os pintos estavam comendo pipoca.