quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O NATAL QUE EMANUEL CONHECE




               Emanuel, doze anos, todos eles vividos numa pobre casa de pau a pique, coberta com palhas de coqueiros. Lá não há luz elétrica, em sua casa ainda se usa lamparina, alimentada com querosene. Também não tem água saneada, usa-se água de cacimbas, tão branca que é preciso acrescentar algumas gotas de limão para fazer o barro assentar.

            A escola que fica mais próxima da sua casa está há uns cinco quilômetros, não tem nenhum transporte que o leve até ela, se quiser estudar tem que ir a pé. Emanuel tem nos olhos o brilho da esperança, na pele, desidratada, a marca da fome. Maria e Zé, seus pais, são analfabetos, ele trabalha na roça, ela, raspando mandioca numa casa de farinha. Sobrevivem, não têm carteira assinada, plano de saúde, salário fixo, feriados e dias santos.
      Alguém perguntou a Emanuel o que é o Natal.
      -Natal? É festa que existe lá na cidade, nas ruas bonitas. Aqui não há nada disto não, respondeu ele.
      -Então que dizer que você nunca recebeu um presente de Papai Noel?
      -Nem dele, nem do meu pai. Foi a resposta dada por Emanuel, lançando seu olhar na linha do horizonte, como quem aspirava ver chegar o inesperado.
      Que estaria pensando Emanuel?
      Será que ele tinha conhecimento que muitas vezes jogamos fora, esbanjando alimento, que para nós não tem sabor nenhum, mas, que para ele e sua família pode ser o único pão daquele dia?  Talvez alguém tenha dito a ele, que em algumas casas, não tão distante dali, neste mesmo País, Estado e Cidade, vivem pessoas que se dão ao luxo de usar uma camisa, calça ou sapato uma vez por mês, posto que, têm um guarda roupa  com muitas peças.
      Emanuel levou a mão até acima dos olhos, o polegar ficou perpendicular a sobrancelha direita, os demais, unidos, protegiam a vista de Emanuel, que já na ponta dos pés, conseguiu ver o vulto do seu pai apontava no poente, tendo como moldura o sol se pondo, as nuvens vermelhas.
      Vi Zé chegar, vinha do trabalho, trazia numa bolsa de couro, dois preás. Estava garantido o salgado daquela noite e do dia seguinte. Com certeza Maria não faltaria com a farinha.
      Fui embora, pensando que há uns dois mil e sete anos atrás, também numa aldeia de Belém houve um José e uma Maria, que nos trouxeram Jesus, Emanuel, Deus Conosco. 
      Feliz Natal!!! 

(publicado originalmente  em 13 de dezembro de 2007, no blog Chaminé)