quinta-feira, 6 de abril de 2017

LITERATURA AFRICANA É O PRATO DE HOJE EM PARNAMIRIM

Os professores da rede municipal de Parnamirim, que estão na função de mediadores de leitura, terão hoje à tarde, um encontro com o que há de melhor na literatura africana, na pessoa do escritor  Ikechukwu Sunday Nkeechi, mais conhecido por Sunny. O escritor está sendo trazido ao Rio Grande do Norte através da Editora Paulinas, que é uma grande parceira do projeto Parnamirim- um rio que flui para o mar de leitura. O evento vai acontecer no auditório Clênio José dos Santos - que fica nas instalações da Prefeitura Municipal - situada à Avenida Castor Vieira Régis, nº 50, bairro  Cohabinal.

Conheça mais um pouco do autor, lendo a entrevista abaixo, copiada do Portal Paulinas (https://www.paulinas.org.br/editora/?system=paginas&action=read&id=11676)


Desculpem-me por eu ter crescido, mas adoro desenho animado, contação de histórias, fábulas e livros infantojuvenis”, afirma, com um sorriso iluminado, Ikechukwu Sunday Nkeechi, 41 anos, conhecido como Sunny. O significado do nome Ikechukwu “o poder de Deus”, Sunday “dia ensolarado ou domingo” e do sobrenome Nkeechi “amanhã será melhor”. Sunny nasceu em Nkalagu, cresceu e estudou na cidade de Oba, ambas ao sul da Nigéria. Há 15 anos escolheu o Brasil para viver. Casou-se com a pernambucana Fabiana Felix da Silva, em 2003, com que tem os filhos Erika Onyinyechukwu “presente de Deus” Félix Nkeechi e Erick Onyekachukwu “quem é maior que Deus?” Félix Nkeechi. Após chegar ao Brasil, Sunny, cursou Letras e Educação Física. Publicou quatro livros infantojuvenis de contos da tradição oral de seu povo, em 2006: Ulomma, a Casa da Beleza e Outros Contos; em 2012: As aventuras de Torty, a Tartaruga; em 2013: Contos da Lua e da Beleza Perdida; e em 2014: O Natal de Nkem, todos por Paulinas Editora. Sunny diz não se considerar um bom escritor, mas sim um bom contador de histórias, aliás, um bom recontador, como costuma afirmar. Revela que sempre foi e é um ouvinte entusiasmado de boas histórias, as quais sempre o fascinam. As contadas na família o guiaram pelo mundo mágico da imaginação, e continuam guiando. Sendo histórias milenares da tradição de seu povo africano, Sunny diz estarem guardadas na memória como marcas indeléveis, e nem a vida e suas labutas diárias poderão apagá-las.

Como nasceu seu primeiro livro?

Sunny – Eu gostava de contar histórias. Mas nunca havia pensado em escrever. Quando estava em Recife (PE), uma amiga chamada Graça Lins me incentivou a escrever. Eu ainda estava aprendendo a língua portuguesa, e ela insistiu, incentivou: “Escreva que eu corrijo”, disse. Aceitei como desafio, e comecei a contar as histórias de meu povo. Meu primeiro livro Ulomma, a Casa da Beleza e Outros Contos é uma história que, para mim, é forte. Ulomma, uma mulher que passa por grandes dificuldades, mas vence pela persistência, verdade e amor. É uma história que aprendi da cultura oral, junto de meu povo, e que perpassa gerações e gerações. Escutei de minha avó. Ela aprendeu da mãe dela, depois minha mãe e assim vai perpassando. Sempre ouvíamos essas histórias em família, depois de um dia de trabalho ou quando a família se reunia para conversar. São nesses momentos que pais, tios e avós aproveitam para contar histórias às crianças. É um meio de ensinamento que jamais esquecemos. São valores familiares perpassados de forma lúdica, descontraída, e jamais esquecidos na vivência do dia a dia.

A tartaruga é muito presente em seus livros.  O que ela significa?

Sunny – Sim! Nós convivemos muito com os animais, a floresta. Isso é comum na África. Então tiramos muitos ensinamentos da natureza e dos animais. A tartaruga é aparentemente fraca, lenta, mas na selva africana é um dos animais que mais vida longa tem, pode chegar até 135 anos. É um animal resistente, e por isso gera muitas lendas. E eu comparo a tartaruga ao meu povo. E quanto mais tempo se vive, mais sábio se torna. As histórias, as fábulas, conseguem trazer respostas às nossas inquietações e, mesmo que não respondam integralmente, são provocações que estimulam novas buscas, novas fontes.

Seu último livro fala sobre o Natal. Em que ótica você o aborda?

Sunny – O Natal de Nkem trata da magia do Natal até a ressurreição de Cristo. A história deste livro nasceu da inquietação de eu querer saber e entender como surgiu o Natal. Então comecei a pesquisar, buscar. O livro narra desde o nascimento de Jesus Cristo, sua vida pública, paixão, morte e ressurreição. Na história, Nkem está com o avô Amén doente. Os dois são muitos apegados, e o menino torce pela sua recuperação para ouvir seus contos e histórias. Nkem sempre se maravilhava com a facilidade e sabedoria com que o avô resolvia disputas entre súditos e, também, com a eficácia dos conselhos que dava a todos. Já o pai de Nkem estava na guerra. Com a doença do avô e a ausência do pai, Nkem é nomeado príncipe regente. Ele queria dizer não, desejava chorar cada lágrima que estava embaçando seus olhos. Gostaria de receber seu pai de volta, em vez da coroa. Com isso Nkem se lembra da história contada pelo avô sobre o Natal, que era a história de um Rei, um menino-rei, um Rei diferente. Então nesse livro que pesquisei e escrevi, eu entendi o Reino proposto por Jesus Cristo, que é de paz, e não por conquista através de guerra e perseguição. Isso é lindo!

Por trás dos personagens de seus livros há Sunny?

Sunny – Claro (risos), por mais que se tente escrever objetivamente, a subjetividade vai permear, vai penetrar a obra. Em cada obra há, sim, um pedaço de mim.



Em suas obras você ressalta a dimensão família. Qual a importância da família em sua vida?


Sunny – A família é o cerne do humano, do nosso viver. É na família que aprendemos a amar e somos amados. Nasci numa família de oito irmãos, com os pais dez. Mas na África a família é sempre muito ampliada, tios, tias, primos, avós. Tenho tios que têm 15 filhos. Então a família se torna um clã. E nesse ambiente aprendemos o respeito, o amor e somos orientados até para a profissão. Seria tão bom se cada família conseguisse se responsabilizar pelos seus, talvez não tivéssemos tantas pessoas em situação de rua. Em minha infância, as contações de histórias me ensinaram muitos valores para a vida, por isso, procuro reforçar esses valores através de meus livros. Por exemplo, uma criança que aprende que a verdade é um valor jamais vai mentir, enganar. Este vai ser um valor que ela jamais vai deixar de lado. São pessoas dessa que a sociedade precisa. Na vida corrida, às vezes sobra pouco tempo para dedicar à família, mas 10, 15 minutos dedicados com qualidade fortalecem os vínculos familiares.

Qual de seus livros você tem mais afeição?

Sunny – Todos, de todos eu gosto. Mas o meu primeiro, o Ulomma, me trouxe muita alegria e ressalto a primeira história que dedico especialmente às mulheres negras, às lutas delas. A personagem Ulomma, através da perseverança e do amor, acaba vencendo. Então, mulheres, sei que vocês ainda têm muito a conquistar, mas acreditem, lutem, o tempo as recompensará. E acredito, se a democracia continuar se fortalecendo aqui no Brasil, as mulheres terão muito espaço. Ulomma significa a Casa da Beleza. A beleza vai reinar e vocês viverão felizes para sempre.

Fonte: Revista Família Cristã, novembro de 2015.
Jornalista: Osnilda Lima.