quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

UM REGISTRO DE VIDA

Ter um lar como o que eu tive  não tem preço. Meu pai sabia juntamente com a minha mãe manter a paz, o equilíbrio, a alegria. Éramos pobres de bens materiais, mas, imensamente ricos de valores que o dinheiro não compra. Em meu livro "Crônicas Sensoriais" (2009), na página 30 eu digo: E se tinha um momento que nos fazia sentir o quanto éramos unidos, este  era a hora do almoço, principalmente quando ao redor da mesa estavam todos os filhos e filhas. Que celebração! que brilho nos olhos de mamãe, que vigor, felicidade e orgulho ostentava papai contemplando sua grei ali, partilhando o pão.      
Mamãe (56 anos) e papai (58 anos)
                                                O tempo é algo que brinca com as pessoas, que faz com quê elas possam ser melhores ou piores. Se meu pai em algum momento da vida fez minha mãe sofrer, o amor foi maior. O tempo não conseguiu acabar. Não teve a força nem o poder de corroer aquela relação. E olha que o casal se mudou muitas vezes, buscando acertar o ninho definitivo.A trajetória registra Patu, depois a Fazenda Sirigada (Patu), Campina Grande, Almino Afonso-RN, Fazenda Pitombeira (1953), novamente Campina Grande, Natal (1962-1963), Fazenda Cacimbas-CE (1964), Recanto, Junco, Extremoz, Fazenda Jorge (Ceará Mirim) e finalmente a Fazenda Santa Maria (Ceará Mirim) e a casa própria em Dom Marcolino Dantas (Maxaranguape-RN).
O último relógio de papai
 Eu sempre tive curiosidade de saber como foi a infância do meu pai. Sabia que foi diferente, criado longe da mãe (Raimunda Doca da Silva) e  lá, num passado remoto, que por sinal ele não gostava de falar, fui buscar peculiaridades que hoje me faz sentir o quanto ele tinha marcas na alma. .Doca era uma mulher linda, bela em todos os sentidos. Teve um relacionamento quando jovem com  um homem chamado Delfino Bento Fernandes, e deste namoro veio ao mundo o meu pai.  Doca não pode criar o filho, pois precisou sair de Caraúbas e fugir para Campina Grande, também por razões que desconheço, a criança não foi criada pela família paterna. E aqui, entra o registro narrativo que eu mesmo ouvi de EmídiaLeite, em 31 de março de 1992.
Vovó Doca
Emídia assegura que no dia 14 de agosto de 1928, portanto, quando papai só tinha seis meses foi entregue por Doca à família de José Leite da Silva, casado com Amélia Leite. Era uma família grande, Zé Leite, o homem que criou meu pai morava na Fazenda João Pereira, distante seis quilômetros de Patu. Naquela casa moravam nove filhos, além do casal. Nazaré Leite dedicou-se aos cuidados de papai, e ele, naturalmente passou a chamá-la de "mainha".
Vovô Oliveira (Delfino)
Se a vida começou árida para Francisco Fernandes da Silva, não tinha nenhum voto de fazê-lo feliz. Aos 12 anos de idade ele tem seu primeiro momento com a morte, ao vê-la tragar Nazaré Leite sua "Mainha" adotiva, dentro daquela família tão numerosa. Aquele momento foi demais para ele.  "Não teve coragem de vê-la morta e chorando ficou debaixo de uma tamarineira, até ser recolhido por Zé Leite, meu pai" - diz Emídia Leite. Para estudar, papai caminhava todos os dias 18 quilômetros de sua casa até a escola do Professor Zacarias Ferreira de Melo, não é de estranhar que diante deste esforço só tenha conseguido ir até a terceira série primária. Sua letra foi sempre bonita, assim como a sua assinatura.
 Se a escola não lhe deu toda a sabedoria necessária, despertou no adolescente o amor, pois lá conheceu uma moça por nome de Nazaré com quem teve seu primeiro namoro. Aos 15 anos viajou pela primeira vez para Campina Grande, onde ficou com sua mãe Raimunda Doca Fernandes.
aos 20 anos

Quando retornou ao Rio Grande do Norte, já homem feito, conheceu em Janduís -RN aquela que seria sua paixão maior, Raimunda Alves da Costa.  Muitos encontros se deram escondidos do pai da moça, e se porventura  surgisse algum obstáculo Raimunda encontrava um meio de vê-lo:
             " Chiquinho já descobri um meio de nós conversarmos. Após a luz se apagar, venha para o     portão do muro. Cuidado! Não erre o portão, a divisa é um pé de cajarana grande". E foi numa noite de Natal, que após a missa em Patu,  Chiquinho foi deixar Raimunda em casa.
Aos 27 anos
Na sua vida houve uma página negra, fato que ele nunca nos contou e acredito que somente minha mãe e as minhas tias sabiam disto. Quando ele estava prestando o serviço militar, em Recife, envolveu-se numa briga de rua com outro militar e nesta pugna, para não morrer, atingiu em legítima defesa o militar com uma pedra, que provocou a morte do mesmo. Na ocasião deixou o bibico  de soldado na cena do crime e isto foi o suficiente para identificá-lo. Em tempo, desertou e fugiu a pé de Recife para Patu, sempre escondido no meio da vegetação, andando mais a noite do que de dia.
Nesta época, Chico Leite,  já estava casado e escondeu papai na morada de Açude Novo, acobertado por Epifânio Barbosa, que guarnecia fugitivos da lei. Quando isto aconteceu, meus pais ainda não eram casados.
Eis aí irmãos, netos e bisnetos, uma página sobre a vida do meu pai. Se foi muito cedo, e parafraseando Azevedo eu digo: "cada morte, sejá lá de quem for, é acervo riquíssimo de experiências e sensibilidades que se queima" e do mesmo autor eu cito também: "Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete".*

Parnamirim-RN, 12 de fevereiro de 2014, 82º aniversário de nascimento de Francisco Fernandes da Silva, meu pai.


*AZEVEDO, Francisco. O arroz de palma. Rio de Janeiro: Record, 2013.