sábado, 30 de agosto de 2014

DONA BRANCA E CARLOS DE MONTEVAR


Aqui já esteve um cantor,
Rei de um tal rock-balada.
Cantou, dançou, namorou,
Deixou moça apaixonada.

Seis meses depois, Branquinha
Servia seu pai à mesa,
Sua saia arregaçada,
Sua barriguinha tesa.

-O que tens tu, minha filha,
Que eu te acho desmudada?
-Foi um copo de água fria
Que eu bebi de madrugada.

-Manda chamar o doutor,
Ver Dona Branca o que tem.
-Dona Branca não tem nada
Dona Branca está pejada.

-É mentira, Senhor Pai,
O doutor não entende nada.
Foi um copo de água fria
Que eu bebi de madrugada.

-Manda chamar a parteira,
Ver Dona Branca o que tem.
-Dona Branca não tem nada
Dona Branca está pejada.

-É mentira, Senhor Pai,
A mulher não sabe nada,
Foi um copo de água fria
Que eu bebi de madrugada.

O velho sobe às tamancas.
Uma só e desonrada,
A filha das esperanças,
Dona Branca, está pejada.

-Eu quero saber o dono
Da moringa malsinada
Deste copo de água fria
Bebido de madrugada.

O velho não se importava
Com o que toda a  ouvisse,
E como tanto esbravejava
Começa o disse-me-disse:

Falam moleques da praia
Em gargalo grande e grosso,
Do pescoço até em cima,
De cima até o pescoço.

O velho chama os capangas,
Chama a filha desonrada,
Há que tomar providências
E passa ordens pesadas.

-Amarrem esta cadela.
Amarrem bem amarrada
A sete cargas de lenha,
Todas sete atiçadas.

Sete navalhas de França
Todas sete afiadas.
Filha que desonra o pai
Só merece ser queimada.

E eu quero saber o dono
Da moringa malsinada
Deste copo de água fria
Bebido de madrugada .

O velho não se importava
Com o que toda a vila ouvisse,
E como tanto esbravejava
Começa o disse-me-disse:

Falam moleques da praia
Em gargalo grande e grosso,
Do pescoço até em cima,
De cima até o pescoço.

O velho chama os capangas,
Chama a filha desonrada,
Há que tomar providências
E passa ordens pesadas.

-Amarrem esta cadela.
Amarrem bem amarrada
A sete cargas de lenha,
Todas sete atiçadas.

Sete navalhas de França,
Todas sete afiadas.
Filha que desonra o pai
Só merece ser queimada.

E eu quero saber o dono
Da moringa malsinada
Deste copo de água fria
Bebido de madrugada.

-Se eu pudesse escrever,
Tivesse por quem mandar,
Eu escreveria uma carta
A Carlos de Montevar.

Um capanga levantou
Sem querer se aproximar,
Em tom muito respeitoso
Principiou a falar:

-Fazei a carta, Senhora,
Que eu mesmo irei levar.
Viagem de quinze dias
Eu a farei num jantar.

-És um capanga ou um anjo?
Branquinha pôs-se a pensar.
Fez a carta em um instante
E deu-a ao particular.

-Abre-te porta e varanda,
Janela de par em par,
Quero entregar esta carta
A Carlos de Montevar.

O cantor pegou a carta
Pôs-se a ler, pôs-se a chorar.
Logo mudou de caminho,
Começou a viajar.

O carro pulava estrada
Como galo-do-alto-mar
Quando Carlos lá chegou
Ela ia já se queimar.

Ele a pegou pela mão,
Levou-a para o altar.
Boca que o rei Carlos beija
Não é pra outro beijar.

-Vais dizer a mim menina,
Vais dizer sem me negar,
Se tiveste outros amores
Que Carlos de Montevar.

-Minha alma não vá ao céu
Nem meu corpo a bom lugar
Se já tive outros amores
Que Carlos de Montevar.
Boca que o rei Carlos beija
Não é pra outro beijar.

MELO, Paulo de Tarso Correira de. Romances de Alcaçus. EDUFRN: Natal, 1998