terça-feira, 23 de janeiro de 2018

COMENTANDO MINHAS LEITURAS EM CORDEL - BOCA DE NOITE

Robson Renato
Li recentemente o livro de estreia de Robson Renato, que tem como título "Boca de Noite", lançado pela Offset Editora, em dezembro último, na cidade de Pau dos Ferros-RN.  É um livro que precisa ser lido com atenção, com um olhar cauteloso, evitando dessa forma um juízo que a priori pode levar o leitor a pensar que tem nas mãos um livro-cordel. Tudo  leva a isso, pois tem apresentação feita pelo poeta cordelista  Manoel Cavalcante, o prefácio é assinado pelo poeta repentista Jonas Bezerra  e as ilustrações, nove  xilogravuras, da autoria do  artista  gravador Jefferson Campos, as orelhas contém textos de Antonio Francisco e Oseias Rodrigo, mas mesmo com todo esse respaldo, o livro não é essencialmente um texto só de cordel.

"Boca de Noite" traz no entanto marcas do gênero cordel que estão tatuadas na alma de Robson Renato. É ele mesmo quem nos diz: "Ainda criança, fui apresentado à minha paixão eterna, a poesia. Foi ouvindo repente e lendo os folhetos de cordel do meu pai, que despertei a verve poética que desabrochou definitivamente na Escola Estadual Tarcísio Maia ..."(RENATO, 2017 p.7)

O próprio autor esclarece que embora  seja poeta cordelista e tenha lançado alguns folhetos, para realizar o seu sonho de ter um livro lançado, ele selecionou o que considerou ser o melhor em diversos estilos poéticos. Portanto, neste trabalho, como venho sempre enfocando o gênero cordel, é sobre esses textos presentes em "Boca de Noite" que quero me debruçar e resenhar.
Na página 9 somos recepcionados com uma estrofe de Martelo Agalopado, que também é conhecido como Gabinete. Dez versos  decassílabos  que obedecem o esquema abbaaccddc.

Conduzindo a divina inspiração
No versejo mais puro e verdadeiro
Vou plantando amizade em meu canteiro
Pra colher com fartura e gratidão.
Declamando na voz do coração,
Escrevendo com paz e compostura,
Sigo em frente, fugindo da censura
Pra mostrar meu trabalho, com efeito.
Cada verso que brota no meu peito
Foi plantado nos campos da cultura

Continuo a folhear o livro e somente lá nas páginas 31/32 é que terei outro encontro com mais estrofes no estilo de Martelo Agalopado, com o título de "Tristes contos manchados de opressão". São cinco estrofes  fazem um severa crítica à falsa verdade que nos ensinaram nos bancos escolares, passando também pela consciência política.  Diga-se a propósito que esta é a tônica que veste os versos de Robson Renato, e não poderia ser diferente, uma vez que nascem de um homem que é professor e geógrafo. A sociografia é uma constante no livro, gritando através das estrofes pela liberdade e conscientizando os leitores na construção de um mundo mais justo.

E para não ficar apenas no Gabinete, o poeta demonstra que também conhece o Galope à beira mar,  e  o usa para lembrar em apenas duas estrofes, página 34, o período da ditadura militar e a campanha das "diretas já".  E os textos poéticos  se dão em outros conjuntos, sempre com a bandeira de temas sociais: cotas universitárias,  fome, trabalho rural, etc. O poeta  não  se atém apenas  a uma modalidade de estrofe, como já escrevi acima,  corre a pena  pelo gabinte,  martelo à beira mar, além de décimas, quadras (hendecassílabo) e sextilhas.

Os registros poéticos de Robson Renato trazem uma sonoridade sertaneja, recria na mente do leitor quadros que somente um coração de poeta é capaz de captar.  Sua sensibilidade  faz justiça a personalidades daquela região tão massacrada pelo clima e outros fatores.

Gostei  principalmente do texto "O Porco e a Garça", onde à semelhança dos poetas cordelistas antigos, o autor viaja ao tempo em que os animais falavam e cria uma fábula, com forte mensagem, por sinal bem propícia à situação brasileira, metáfora que vai falar sobre valores. Sugiro que quando houver a próxima edição, o autor  distribua os poemas   deixando tudo que é cordel numa parte, e o que não é  junto com os sonetos.   Reveja também a revisão  do uso do "porque" nas páginas 17 e 18.

Jefferson Campos
As xilogravuras de J.Campos, são poemas sem palavras. Os traços do gravador  nos prende - ouso dizer que sem dúvida nenhuma - que o xilógrafo está cada vez mais construindo uma obra onde seus traços marcam não apenas a umburana, mas também o leitor. É impossível olhar qualquer peça de J.Campos e não ser tocado bela beleza que dela emana. A capa do livro, desenho em giz de cera, feito por Marcos Estevam,   é outra arte que valoriza a obra.

Finalizo lembrando que os poemas que fogem ao gênero de cordel, embora eu  tenha lido, não foram objeto dessa resenha. Parabenizo o autor e desejo que continue a ser este bardo que trabalha e não deixa de encontrar tempo para um "Boca de noite" tão necessário para  reunir toda a vizinhança em torno do pão literário.

Aos que ainda não leram o livro, deixo o convite de Antonio Francisco:

Abra as páginas desse livro
E mergulhe no sertão
Beba água da cacimba
Pise descalço no chão
E ouça o pulsar da terra
Bater no seu coração.


Mané Beradeiro


RENATO, Robson. Boca de Noite. 1ª edição. Offset Editora. Natal, 2017