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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

AVENTURAS DE UM SONETO CASAMENTEIRO


    Alberto de Oliveira, ao tempo de seu curso de Farmácia na Faculdade de Medicina, foi instado por um colega a escrever um soneto de amor:

    — É um presente que desejo oferecer à minha namorada — esclareceu o estudante.
    O jovem poeta, sentando-se à mesa, passou para o papel, correntemente, como se os improvisasse, os quatorze versos de uma de suas últimas composições do gênero:

        Amar, viver de amor, ambos na idade
        Em que o prado floreja e o sol fulgura,
        Tu vendo em mim tua felicidade,
        Eu vendo em ti minha maior ventura.

        Moços ambos, no ardor da mocidade,
        Amar, viver de amor que sempre dura,
        E nem ter medo à própria sepultura,
        Porque o amor vai além da eternidade.

        Duas vidas unirmos numa vida,
        Num só, dois corações se entrelaçando,
        A alma de um gozo único vencida;

        Eis o meu ideal, meu sonho brando,
        Eis o nosso destino, alma querida,
        Destino que há de vir... que vai tardando.

    Tão fundamente há de ter tocado esse soneto o coração um tanto esquivo da namorada do estudante, que os dois, daí a tempos, terminaram casando.
    Um dia, outro amigo do poeta formula-lhe idêntico pedido. Está noivo. E quer oferecer uns versos de amor à sua eleita. Louvado na boa fortuna do seu antigo soneto, Alberto de Oliveira volta a passá-lo ao papel. E outro casamento se realiza, ao embalo dos quatorze versos nupciais.
    Mais tarde, outro amigo — e este colega, porque era também farmacêutico, — bate à porta de Alberto de Oliveira, a suplicar-lhe uns versos. Também está noivo. A moça é romântica. E deseja que o noivo lhe faça um soneto.
    O poeta, sem relutância, volta a fazer nova cópia do velho soneto, o qual, para sossego de seus falsos autores, continuava inédito, por medida de prudência de seu verdadeiro autor.
    Desta vez, entretanto, o ineditismo se rompe. O noivo farmacêutico, de posse dos versos admiráveis, publica-os num dos jornais do Rio. E eis que surge uma estralada dos diabos entre o primeiro falso autor do soneto e sua mulher. Não fora ela que inspirara os versos! O poeta verdadeiro era aquele que assinava o soneto!
    A aventura do soneto não estava ainda terminada. Por enquanto, os versos de Alberto de Oliveira tinham circulado em área brasileira, entre o Rio e Niterói. Em breve, sairiam de nossas fronteiras, para uma aventura internacional.
    Um dia, estava o poeta a fazer as unhas, numa barbearia do centro do Rio de Janeiro, quando a manicura, argentina de nascimento, pediu ao freguês, de quem era admiradora, que lhe desse um soneto de amor.
    Alberto de Oliveira, ali mesmo, na sua letra tremida, volveu a passar ao papel os versos antigos:

        Amar, viver de amor, ambos na idade
        Em que o prado floreja e o sol fulgura...

    A manicura, logo depois, mandou o soneto ao noivo, residente em Buenos Aires. Resultado: eis os versos de Alberto de Oliveira traduzidos para o espanhol e publicados na Argentina com o nome da moça.
    No Rio Grande do Sul, o soneto foi lido, na sua versão castelhana. E logo um erudito de província, desses que têm a memória alerta para os encontros de ideias e de forma, denunciou de público o plágio, pondo em confronto o soneto da “poetisa” argentina com o soneto do noivo-farmacêutico...

FONTE:  Anedotário Geral da Academia Brasileira. Josué Montello, 3ª Ed. Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1980. Páginas 24 a 26.

O DEUS QUE SONHA EM MIM


Se eu fosse Deus,
ressuscitaria os pais de todos os órfãos.
E se eles fossem maus,
se ao menos fossem ásperos,
ou mesmo indiferentes,
incendiaria os seus corações de ternura,
para que todas as crianças do mundo
fossem amadas e felizes.


Se um dia eu fosse Deus,
brincaria de roda com os meninos,
encheria os seus bolsos de confeitos
e suas bocas pequenas de sorrisos.
E velaria.
(oh! como eu velaria!)
dia e noite eu velaria,
para que nada lhes acontecesse.


Se eu fosse Deus,
passaria pelas estradas
com os despreocupados vagabundos
e beberia com eles
a primeira luz
das alvoradas entre rosas orvalhadas
e clarinadas de galos.

Se eu fosse Deus,
me sentaria um dia à tarde,
despreocupadamente, num cais
a ver os barcos que partiam
para as sonhadas ilhas.

Deífilo Gurgel (1926 -2012)

FONTE: Jornal A Ordem, edição de 17 de outubro de 1964

sábado, 2 de agosto de 2025

BALA PERDIDA

Não existe bala perdida,
Todas atingem algo:
Uma árvore, uma ave, uma alma, a vida.
O que existe é bala ardida que fere na ida
Deixando quem fica com a dor maldita
Da perda querida.
Quisera que em meus poemas a bala perdida
Fosse aquela que cai da boca da criança.

FRANCISCO MARTINS.



sexta-feira, 29 de novembro de 2024

UM LINDO SONETO PARA O AMOR DA SUA VIDA

Filinto de Almeida, poeta e membro da ABL

Filinto de Almeida escreveu o soneto abaixo, por ocasião do falecimento da sua esposa, a escritora romancista Júlia Lopes de Almeida, com quem se casou em 28 de novembro de 1887, em Lisboa. Júlia Lopes  fez parte do grupo de idealizadores da fundação da Academia Brasileira de Letras - ABL - embora não tenha sido imortal, por questão meramente regimental. Quem entrou naquela primeira leva foi o seu esposo, Filinto de Almeida. Ela faleceu no dia 30 de maio de 1934.

Júlia Lopes


Dorme em meu coração, dorme tranquila:

Enquanto ele bater, nele estarás;

E não te acorde a dor que me aniquila,

Nem no ouças dizer-me: “Ela aqui jaz”.


Esta, de que sou feito, humana argila,

Por ti no sofrimento se compraz,

Orvalhando, com o pranto que destila,

Meu Horto de Oliveiras… Dorme em paz.


Dorme em paz, meu amor… Quero embalar-te

Nestas cantigas de tristeza e dó.

Embebidas de lágrimas sem arte.


E quando eu acabar, suplico só

Que a mim teus filhos venham misturar-te

Nas mesmas cinzas e no mesmo pó.






quinta-feira, 24 de outubro de 2024

NÃO SEM ELE

 

Não conseguiria sozinho.
Sem Ele, jamais!
Não viveria feliz se
Ele não fosse respirar.
NÃO SEM ELE,
Nenhum minuto,
Nenhum segundo
Nenhum pensar.
Não busco portais,
Pois Ele é o Caminho,
A verdade e a vida.
Hei de um dia partir
Terei meu momento assistido
NÃO SEM ELE.
Com Ele!
Nele, sempre!

Francisco Martins
24 de outubro de 2024
1 ano do segundo infarto

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

POEMA DO DÍZIMO

Senhor, ensina-me a devolver.
Quero trazer à tua casa uma parte do meu tempo.
Quero dizer que é teu meu pensamento
Desejo afirmar sempre e incontáveis vezes que és Santo! Santo! Santo! 
Como fazem os Serafins.
Senhor, ensina-me sobretudo a devolver, como sinal de eterna gratidão, os 10% de tudo que chegar em minhas mãos em moeda.
Sei que não precisas
Sei que não vai ser troca
Mas, sei, que fazendo de coração alegre, o dizimar vai soar como quem fala: DIZ AMAR!
Amar os missionários
Amar o irmão necessitado
Amar a Igreja que sofre.
Senhor, quando eu sou 10%, sinto que tu nunca deixastes de ser 100% provedor da minha vida.

Francisco Martins
14 de outubro 2024

segunda-feira, 24 de junho de 2024

UM CLÁSSICO DE VICTOR HUGO GANHA RELEITURA EM CORDEL



Escrito por Victor Hugo, e publicado em 1862, na França, o livro "Os Miseráveis" registra o grito dos pobres na sociedade francesa do século XIX.  Não demorou para se tornar um clássico da literatura mundial.

Li "Os Miseráveis" nos anos 90 e confesso que ainda não assisti o filme. Gosto mais de criar as próprias cenas na leitura, embora saiba que a sétima arte é formidável.

Hoje eu quero focar meu olhar de crítico para um recente trabalho, do autor Gilberto Cardoso, "Os Miseráveis - em cordel".

Vinte e quatro capítulos formam o livro, todo escrito em estrofes com sete pés (ABCBDDB). Um trabalho construído no tempo da Pandemia do Corona Vírus, que exigiu muito do autor, mas o resultado foi digno de aplausos.

Convido os professores da língua portuguesa, e principalmente os que trabalham com Literatura no RN, a tomarem conhecimento dessa obra escrita por Gilberto Cardoso.

Apresentá-la aos alunos do Ensino Médio é atingir o alvo com várias setas, de forma simultânea. Vejamos:

1º) O professor estará cumprindo o que determina a Lei nº 11.231, de 4 de agosto de 2022, que inclui a Literatura Potiguar nas Escolas da rede estadual de ensino e particular.

2º) A escola incentiva o fomento à literatura de cordel (Lei nº 10.950, de 13 de julho de 2021).

3º) Incentiva a Cultura da Leitura e da Escrita ( Lei nº 10.690, de 11 de fevereiro de 2020).

4º) O leitor tem a oportunidade de conhecer a releitura de um clássico francês, no gênero de cordel.

Esse é o tipo de cordelivro que nasceu para somar e fazer parte de um conjunto de obras congêneres, que contam histórias clássicas, nesse gênero de poesia, o cordel.

Gilberto Cardoso construiu 539 estrofes, totalizando 3.773 versos. Tendo a capacidade de escrever e recontar "Os Miseráveis", sem levar ao leitor a sensação de cansaço.  Breve irei assistir o filme e então poderei dizer: li o livro, o cordel e vi o filme. Louvo o autor e poeta cordelista, Gilberto Cardoso.Parabéns!

Mané Beradeiro - 24 de junho de 2024



 


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

DUAS PONTES E ALGO MAIS

 Os  doutores construiram
Duas pontes no meu peito
Usaram  massa mamária
Deixando coração  perfeito.
Implantaram por precaução
De couro um matolão
Pendurado na porteira
Toda feita de aroeira
Em caminho bem dourado
Projetado e ornamentado
Pra  quem tem o meu respeito.

Mané Beradeiro

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

CASA GRANDE E SENZALA VAI SER TEMA DE CORDEL ESCRITO POR MANÉ BERADEIRO


 O poeta Mané Beradeiro escolheu o tema de "Casa Grande e Senzala" para  completar o 60 folheto de sua autoria. Por enquanto o título, ainda provisório é: "Casa Grande e Senzala- 90 anos". O folheto não vai narrar o que está escrito no livro, mas sim, sobre a história da construção desse ensaio, um dos mais importantes do Brasil. O autor está mergulhado nas pesquisas e pretende lançar em outubro de 2023. Aguardemos maiores detalhes. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

ÀQUELA JUÍZA

Uma senhora que nunca vi

Vestida de todo mal

Prejudicou minha vida

Agitou o emocional

Verbos intransitivos

Agarram-se em minh’alma:

Meu coração acelera

Seguro esse sofrer

Os dias tem sequidão

E dentro da minha dor

Coberta de injustiça

Espero o anoitecer

A aurora vai brotar

Não vacilo nessa fé

Minha conversa com Jó

Traz a força e esperança

De que Deus não erra a lança

Nada foge ao seu olhar

Nem juíza, nem sentença

Ele é a Excelência!

Verdadeira Sapiência,

Descanso nessa Ciência.

 

Francisco Martins

23/08/2023

UM CORDEL QUE TEM A HISTÓRIA DA COMISSÃO DO FOLCLORE

 Josenira Fraga distribuiu na manhã de ontem, por ocasião de um evento no Instituto Ludovicus, em Natal,   o folheto em cordel com o título: " 75 anos da Comissão do Folclore - 75 anos de muita cultura para o RN".

Parabenizo a autora  por ter trazido às páginas do cordel brasileiro, esse poema biográfico que nos revela traços da história dessa instituição tão importante à cultura potiguar. A estrutura do folheto tem 24 estrofes em sextilhas, com rimas nos versos pares, o que comumente denominamos "xaxaxa".

O cordel  quando é bem escrito ele é harmonioso, o leitor é fisgado pela sonoridade das rimas e o movimento sincrônico dos versos.  Esta sincronia é prejudicada quando o autor deixa escapar versos desmetrificados, que conhecemos no popular como "pé-quebrado".

Não sei o que aconteceu  durante o processo de produção e editorial do folheto que agora analiso, parece-me e quero nisso crer, que foi impresso  repentinamente, sem passar pelo crivo de um revisor. Sim! pois é notória a presença de alguns erros tanto na grafia de algumas palavras, algumas atribuídas à digitação, mas há uma parcela que é da inteira responsabilidade da autora, refiro-me à métrica. Encontrei 13 versos, que são elementos do conjunto "pé-quebrado".

A autora não começou a escrever cordel recentemente, ela está na nessa estrada deste 1979. Fica a dica para que em publicações futuras haja um olhar mais criterioso, dando espaço tão somente aos aplausos, pois criticar é deveras perigoso e nem sempre compreendido.


Mané Beradeiro

23 de agosto 2023


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

O VELHO DO ESPELHO

 


Fonte:  80 anos de Poesia - Quintana - Editora Globo, 1986, p. 128.


sábado, 15 de julho de 2023

RIMA, MÉTRICA E ORAÇÃO: UMA CONVERSA ESCRITA SOBRE CORDEL

 


Em tempos remotos, nos primórdios da nossa literatura popular, mesmo que muitos versassem em composições mais simples, como por exemplo, em quadrinhas, percebe-se, quando vamos à literatura da época, que havia um cuidado desmedido com um elemento denominado métrica.

É certo que poderia ser que alguns sequer soubessem o que vinha a ser esse elemento, mas, automaticamente, ele aparecia pela sonoridade. Afinal, a poesia sempre andou em “par e passo” com a música.
Na cantoria, desde os trovadores medievais se percebeu que as frases postas para o recital ou para a cantiga careciam de uma “medida certa”. Quando faltava ou sobrava, isso interferia diretamente no compasso musical ou recitatório. Assim, ao longo dos anos, a poesia popular, as cantigas populares e principalmente a literatura popular em folhetos de cordão, ou para cordão, logo denominados com maior sonoridade de cordel, no mais português dos termos, foi se moldando a esse conjunto de regras, principalmente por se ter a necessidade de cantá-la em obediência a um compasso medido, mesmo que intuitivamente.
A literatura popular em folhetos de cordel é uma espécie de gêmea da cantoria nordestina (ou vice-versa), de forma que muitos cantadores foram ou são literatos dessa vertente, como muitos cordelistas também bebem, beberam ou beberão na fonte da cantoria. E ambas carecem de obediência às regras pré desen volvidas por esse ciclo evolutivo. Sem o rigor dessas regras, a poesia perde em encanto e qualidade, uma vez que em tudo que fazemos precisamos observar o regramento, que é matriz de toda ou qualquer invencionice humana.
Há de se admitir que a tarefa de escandir versos não é algo de fácil compreensão. Eu, por exemplo, por muito tempo não tive consciência desse regramento. Lia folhetos para cordel costumeiramente e absorvi a forma. Era, como é, algo que flui naturalmente na sonoridade. Mas, o mais desatento e desinformado dos leitores, logo percebe ou deixa perceber ao ouvinte, quando lê que algo está errado quando no texto lido há desmetrificação.
Como é desagradável ler poesia popular sem métrica.
Experimentamos dois exemplos rasteiros:
O Brasil está de luto,
O povo passando fome,
O emprego não existe,
A pátria perdeu o nome,
É muito certo o ditado:
Quem não trabalha, não come.
(Marcos Teixeira)
Ao ler essa estrofe setessilábica, o leitor desliza numa sonora lógica, logo cantante, sem empecilhos linguísticos ou dissonância rítmica.
Agora, experimentemos a mesma estrofe com uma desmetrificação proposital:
O Brasil está certamente de luto,
O povo passando fome.
O emprego não existe,
O nosso país perdeu o nome,
É muito certo o ditado,
Quem não trabalha não come.
(Marcos Teixeira).
A leitura ou a cantiga dessa estrofe com o acréscimo de sílabas nos primeiro e quarto versos, são suficientes para emaranhar a tônica dos versos na rítmica do leitor, percebe?
Tornou-se comum haver embate de escritores com pseudos escritores de literatura popular, principalmente da poética do Cordel, quanto a esse assunto. Enquanto alguns somos defensores das métrica e rimas corretamente aplicadas, há outros que, por desconhecerem ou desaperceberem essa gritante diferença, ignoram, desdenham e desusam a mais importante característica da literatura popular…
O cordelista potiguar Marciano Medeiros é um desses observadores contumazes da forma. Seus trabalhos são exemplos da perfeição técnica que reúnem o conjunto perfeito em harmonia: rima, métrica e oração. Esse é o tripé mágico da cantoria, como do cordel. Veja um exemplo na estrofe setessilábica em sextilha, de Marciano Medeiros:
No seu trabalho notório
Essa autêntica figura,
Gostava de poesia
Essa mensagem tão pura,
Escrevendo belos versos
Pra nossa literatura.
(Folheto: Diógenes da Cunha Lima nos trilhos da poesia – Marciano Medeiros)
São seis versos de sete sílabas poéticas compondo uma estrofe biográfica conforme propôs o autor.
Assim como em Marciano, que não é cantador, nos cordéis escritos por cantadores também, costumeiramente, se encontra a fidelidade formal defendida pelas regras dessa modalidade literária.
No caraubense José di Rosa Maria, exímio poeta das letras e da viola, achamos muita qualidade expressada e grafada em suas Obras, mesmo que aqui interesse apenas a forma. Vejamos:
Mesmo assim, meio confusa
Lembrou num certo momento,
De uma amiga que fez
Na sala de ensinamento,
Que residia sozinha
Num simples apartamento.
(Folheto: A Mãe do Filho do Lixo – José di Rosa Maria)
O exemplo acima repete a tônica do primeiro exemplo. Estrofe de seis versos em sete sílabas poéticas, com rimas rigorosamente dentro dos padrões predefinidos e sem repetição.
Parece-me que das minhas leituras habituais de literatura popular, extraio a seguinte observação: diferente da progressão natural de qualquer ciclo evolutivo, com o cordel ocorre uma espécie de contralógica, de tal forma que é nos trabalhos mais antigos onde encontramos maior fidelidade a essas regras.
Citaria muitos dos cordelistas contemporâneos e vários dos séculos XIX e XX, desde os notoriamente conhecidos, como Leandro Gomes de Barros e Manoel D’Almeida Filho em uma época, Patativa do Assaré e Antônio Teixeira em outra e Francisco Gabriel Ribeiro e Nando Poeta em dias atuais, todos como zelosos metrificadores em três momentos distintos desta literatura.
Os livretos de literatura popular em folhetos de cordel, ou mesmo essa modalidade literária impressa em livros, como é o exemplo de autores contemporâneos como Antônio Francisco e Marcos Teixeira, com os livros Dez Cordéis num Cordel Só e Uma Corda de Cordéis, respectivamente, a poesia ou o poema pode aparecer  em forma diversa da sextilha, sendo comuns a décima setessilábica e a décima decassilábica, vindo essas modalidades certamente da Cantoria nordestina de viola.
Merecendo destaque em ambas as variações, o olhar atento dos escritores para a forma e a obediência às métrica, rima e oração.
Assim como citamos bons exemplos de observância à norma, é possível citar inúmeros autores que a ignoram. Outros que até desdenham quando são confrontados ou simplesmente advertidos quanto ao tema.
Fato é que, com o advento da democratização da arte gráfica pela expansão da informática e dos computadores, perdeu-se o controle editorial de certos impressos. O folheto de cordel talvez seja o que mais sofreu essa mudança. Hoje, é bem possível um autor escrever, compilar e ele mesmo editar e publicar um trabalho. Assim, não raros são os exemplos de inobservância da norma, desde gramática e ortografia, até rima, métrica e oração, no caso do cordel.
Posiciono-me na defesa de uma linha editorial. Principalmente nas Academias e organizações formais, pois assim, necessariamente, antes da publicação o material deverá ser submetido à revisão ortográfica e, principalmente, formal. Assim, evitando-se deficiências várias de múltiplos pontos de vista.
A temática pode ser “modernista”, mas essa pretensa escola literária tem que ser trabalhada pela ótica de suas regras. Não deve ser feita unicamente pela vontade do escritor, mas necessariamente pela absorção das técnicas, como ocorre com toda ou qualquer arte.
Tenho me deparado com coisas que me assustam, sendo repassadas como cordel. Textos esdrúxulos do ponto de vista estético e ortográfico, com rimas apenas fonéticas e às vezes “monotônicas”.
É comum que os observadores das regras se sintam retraídos em observar algo dissonante no trabalho de algum colega, mas isso não deve existir. Observador e observado devem fazer do momento da observação um exercício de aperfeiçoamento da técnica e solidarizarem-se numa troca profícua de saberes para maior valorização crítica do que se produz.
Sabemos da importância da mensagem, do passar a mensagem, mas entendemos que sem essa busca pela técnica não nos firmaremos tão cedo enquanto escola literária e, ainda, não conseguiremos ocupar espaço nas searas didática, acadêmica e  editorial.
BIBLIOGRFIA
MOTA, Leonardo. Poesia e Linguagem no Sertão Cearense. A. J. de Castilho, Rio, 1921.
MEDEIROS, Marciano. Diógenes da Cunha Lima nos Trilhos da Poesia. Serra de São Bento, 2010.
ROSA MARIA, José di. O. A Mãe do filho do Lixo. Fundação Ving Tun Rosado. Mossoró. 2010.

Marcos Teixeira é poeta repentista, cordelista e escritor. Membro da Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel e da Comissão Norte-rio-grandense de Folclore. Autor de Uma Corda de Cordéis, O Dueto Ética e Moral à Luz da Filosofia, A Bomba da Salvação, O Julgamento do Machado, A Janela e outros...
Texto copiado de https://foque.com.br/rima-metrica-e-oracao-uma-conversa-escrita-sobre-cordel/

quarta-feira, 31 de maio de 2023

ANANIAS DECLAMA "O SOFRIMENTO DO JUMENTO"

 


O SOFRIMENTO DO JUMENTO

 Jumento é o animal
que o mundo inteiro conhece
humilde enquanto pequeno
escravo depois que cresce
entre os irracionais
é ele o que mais padece.

São inúmeros os maltratos
do infeliz animal
o dono além de açoitá-lo
de uma maneira brutal
ainda joga em seu lombo
um peso descomunal.

No trabalho mais pesado
é ele que colabora
trabalhando o dia inteiro
não tem sossego uma hora
ainda tem a barriga
toda marcada de espora.

Durante as horas do dia
ao trabalho, vive preso
e quando a noite aparece
do enfado, fica teso
e depois que fica velho
o dono dá-lhe o desprezo.

Assim vive o pobre bruto
cumprindo a sentença dura
muitas vezes com o dorso
coberto de pisadura
os cascos estropiados
que o solo duro lhe fura.

O jumento quando nasce
traz seu destino traçado
de receber a cangalha
ainda ser chicoteado
e depois que anoitecer
ainda dormir peado.

É quem carrega a ração
para o gado e as ovelha
é quem transporta tijolos,
barro, água, areia e telhas
tem gente, que por escárnio
ainda lhe corta as orelhas.

O jegue, pelo enfado
cansa, se deita e se rela
quando não é na cangalha
o dono bota uma sela
quando o rabicho não corta
a rabichola lhe péla.

Além de cangalha ou sela
encabresta o pobrezinho
bota-lhe freio na boca
pra freá-lo no caminho
e mais uma cortadeira
para cortar-lhe o focinho.

É triste a situação
do pobrezinho do jegue
por mais que ele trabalhe
todo mundo lhe persegue
aos mais duros maltratos
o miserável é entregue.

Da ração que ele carrega
para outra criação
chega à comer alguns talos
que às vezes caem ao chão
tanto que serve ao seu dono
só recebe ingratidão.

De uns anos para cá
estão comprando o jumento
para extrair sua carne
porque serve de alimento
aí sim: foi que aumentou
seu terrível sofrimento.

Eles jogam os pobres brutos
no lastro do caminhão
eu já tenho observado
a triste situação
pra quem tem humanidade
é de cortar coração.

Assim vão os miseráveis
sofrendo pelas estradas 
uns caídos sobre o lastro,
outros, de pernas quebradas,
outros batendo nas grades
com as cabeças lascadas.

Ah! se o homem não ousasse
tamanha perversidade
não maltratasse o jumento
que tem tanta utilidade
que é, como o negro foi
escravo da humanidade.

A justiça até agora
olhar a isto, não quis
mas se eu fosse autoridade
máxima do nosso país
lutaria pra acabar
com este tráfico infeliz.

AUTOR: Chico Mota
FONTE: Veredas Nordestinas, p. 69 a 71 












terça-feira, 21 de março de 2023

sábado, 5 de novembro de 2022

A SAGA DA LIBERDADE - UMA EXCELENTE OPÇÃO DE LEITURA SOBRE A CONSCIÊNCIA NEGRA



Neste mês de novembro, o poeta Mané Beradeiro tem entre os seus folhetos de cordéis, A Saga da Liberdade, com dois temas bem interessantes. O primeiro é A Origem, que trata sobre as chegadas dos escravizados, trazidos do continente africano para o Brasil. O segundo, O Grito da Liberdade, que narra o pensamento de construção dos quilombos e a "liberdade" cívica. Entre em contato com o poeta e adquira-os. Cada folheto R$ 5,00 (cinco reais).

quarta-feira, 20 de julho de 2022

"MEU SONHO DE AMOR" - POEMA DE SELMA JUSTINO

 A poeta Selma Justino retorna  hoje ao blog. Presenteia-nos com o poema romântico "Meu Sonho de Amor". Ah! o amor, esse sentimento nobre que dois grandes homens bem souberam definir. O Apóstolo Paulo escrevendo sobre a natureza desse sentimento nos diz: "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1 Coríntios 13:7) e o poeta Camões o define : "O amor é fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói, e não se sente/ É um contentamento descontente,/É dor que desatina sem doer."

Leiam o poema de Selma Justino e vejam quanto há dessa verdade na sua escrita.



MEU SONHO DE AMOR

Você me fez reviver, 
Te conheci, te amei, 
Chorei, sofri, sem entender  o porquê você se foi..
Senti raiva, mágoas, desilusão, decepção.
Dias, meses, anos, foram passando e tudo foi ficando como uma lembrança. 
A dor se foi 
A tristeza cessou 
A mágoa passou 
A saudade  foi a que mais demorou, mas um dia também se foi...
E o que restou?
Restou o amor, mas este um dia também congelou, 
Bloqueei todos os meus desejos.
Apaguei da minha vida,da minha história tudo que pudesse lembrar você...
Decidi caminhar sozinha...dentro mim eu queria te encontrar.
Onde você estava? Estava no meu sonho.
Na realidade nunca te esqueci...te procurei..te busquei..
Te encontrei..,relutei...voltei..mas algo me impulsionava até você..
Te olhei...te desejei  como antes. 
Descobri o melhor e o maior sentimento ,você chegou...e com apenas um sorriso quebrou todo gelo do meu coração, me fez renascer, reviver.
HOJE ÉS O SONHO MAS LINDO QUE ESTOU A VIVER.

Selma Justino


quinta-feira, 30 de junho de 2022

ESPREMENDO OS ANOS



1.
2.3
4.5.6
7.8.9.10
Até aqui comi pastéis


11.12.13.14
15.16.17.18.19
20.21.22.23.24.25
Brinquei, estudei, trabalhei


26.27.28.29.30.31
32.33.34.35.36.37
38.39.40.41.42.43.44.45
Trabalhei, suei, chorei, despertei


46.47.48.49.50.51.52.53.54
55.56.57 e em julho: 58
Semeando, poetizando
Vivendo, sendo, lendo.

Coisa besta é espremer os anos.


Francisco Martins

segunda-feira, 27 de junho de 2022

SELMA JUSTINO - UMA ESCRITORA QUE BROTA NA MADRUGADA

Hoje, tenho a alegria de apresentar àqueles que visitam o meu blog, a escritora e poeta SELMA JUSTINO. Eu a conheci quando ela era criança, convivemos na mesma terra da infância, a Fazenda Santa Maria.  Seu cardápio literário contém crônicas, memórias, poemas, tudo guardado com carinho no baú da alma.  


Selma Justino ainda não tem livro publicado, mas não é por falta de produção textual.  Para apresentar Selma Justino aos meus leitores eu escolhi este texto: "Silêncio na Madrugada", uma crônica vestida de poesia. Ela tem o Ensino Médio e mora no sítio Maria Alves, no distrito de Tamanduá, município de Ceará-Mirim. Já trabalhou como professora, mas atualmente cuida do lar, o que significa que trabalha muito mais.

SILÊNCIO NA MADRUGADA

 No silêncio da madrugada, onde toda inspiração vem, onde nos sentimos livres, nossos pensamentos vagueiam e se complementam na mais perfeita sintonia. É no silêncio que nos sentimos livres , é no silêncio que sentimos as batidas suaves do nosso coração, é no silêncio que tudo se faz, esse silêncio me traz paz, liberdade, no silêncio que consigo ver tudo com leveza.

 É no silêncio que consigo me conectar com o meu eu, e sei quem sou, onde estou e aonde quero chegar, é no silêncio dessa madrugada fria que consigo sentir também o vazio que alguém deixou e que minhas artérias congelam e posso sentir o arrepio no meu corpo ao lembrar do passado, um passado não tão distante, mais um passado que não volta....é nesse silêncio, frio...que busco no presente os melhores momentos da minha vida....é nesse silêncio frio que não sei o que será o meu futuro....mais sei que meu futuro terá um enigma a ser desvendado ....na mesma intensidade que sinto o silêncio frio, também sinto meu coração que antes quente...também esfriando...antes querendo dominar meus pensamentos ficando quieto...na mais perfeita compreensão falando para o meu cérebro...consigo neste momento te entender....e  eu no meu silêncio frio .....também consegui entender.


Selma Justino terá outras postagens em meu blog. Aguardemos!

Francisco Martins
27 de junho 2022