O ano era 1978, naqueles três dias de Carnaval eu tomava emprestado uma calça de papai, as botas, o chapéu e uma blusa das minhas irmãs. A máscara era de pano, com três buracos. Olhos e nariz os ocupavam.
Assim estava eu vestido de Papangu. Saía pelas ruas correndo atrás de crianças e algumas, se defendiam com bisnagas cheias d'água. Geralmente saíamos em grupo, pois assim poderíamos nos proteger de ataques dos adultos, que muitas vezes tiravam nossas calças e nos deixavam pelados na rua. O pior, quando a nossa identidade era revelada.
-Olha só quem é ele! É o filho de Chiquinho.
Os instrumentos que usávamos para tocar as marchinhas eram latas, baldes, pratos. Tudo servia para cantar: "O teu cabelo não nega...", " Oh, jardineira por que estais tão triste? ..." E outras mais.
Foi um tempo saboroso, onde as ruas se abriam ao riso e alegria, os Papangus, tão feios e disformes, escondiam as crianças que estavam adentrando na adolescência.
Francisco Martins
16 de fevereiro de 2026

