segunda-feira, 1 de junho de 2026

ESPERANÇA NA HUMANIDADE DE EDGAR MORIN: SABEDORIA NA COMPLEXIDADE DA VIDA



 Por Gláucio Tavares Costa*

O amigo e pensador Ítalo de Melo Ramalho iniciou o seu ensaio Teatro das Cortes afirmando que a vida é como um teatro. Por caminho diverso, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer também chegou ao entendimento de que a vida pode ser comparada a um teatro porque, assim como os atores, somos marionetes de uma força cega e insaciável: a "Vontade." O inesquecível compositor Gonzaguinha musicou a indagação: a vida é a batida de um coração ou seria uma doce ilusão? Responder às indagações de Gonzaguinha sobre a vida não é uma tarefa trivial. Sabemos. 

Entreato, entre átomos, sugere-se que a vida pode ser uma organização de matérias e energias – que são expressões da mesma substância – imbuídas de animus. Calha dizer nesta reflexão que a substância dessa organização é a linguagem, regente desde aquela expressa disposição de aminoácidos – cada um em seu devido lugar como as letras deste texto – a formar os ácidos nucleicos, que servem de transcrição para a edificação de proteínas a estruturar dada vida de espécie vegetal, ou daquele animal ou de micróbios. 

O grau de complexidade alcança as estrelas quando se fala na organização da coletividade humana. Ora, o homem tem natureza biológica, psicológica e social; ou seja, o homem é ao mesmo tempo totalmente biológico e totalmente cultural, e o cérebro, da biologia, e a mente (da Psicologia), são faces diferentes de uma mesma moeda, como apontado por CALUZI e ROSELLA (2024). Essa coligação de elementos proporciona a existência da vontade, do desejo, das emoções, do deslumbramento com o belo, da estranheza, da percepção do universo… Além disso, a vida é muito mais. 

Diante dessas constatações, não se deve recusar a ideia de que a vida é uma expressão da complexidade e para tentar desnudar as complexidões é essencial desenvolver a visão crítica. Nesse desiderato, mostra-se como excelente companhia o epistemólogo da complexidade Edgar Morin.

De antemão, nas lições de Morin, questiona-se o paradigma da razão e a ciência como único modo de interpretar a realidade. Isto significa asseverar que outros métodos de conhecimentos são válidos, de modo que não são pode julgar heterodoxo a religação dos conhecimentos dispersos e a integração da cultura científica e da cultura humanística. Em outras palavras, na complexidade “tudo se liga a tudo”. Como o próprio autor afirma no livro Ciência com consciência: “A ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar” (IZABEL, 2022).

Com efeito, a Teoria da Complexidade de Edgar Morin é uma abordagem crítica sobre a fragmentação do conhecimento e propõe a religação dos saberes dispersos ou seja: “contextualizar e globalizar saberes até então fragmentados e compartimentados...” (MORIN, 2000a, p. 06). Faz-se assim a união entre áreas como ciências humanas e exatas, cultura e filosofia para compreender a realidade de forma mais integrada e não linear. Para Morin, complexidade não significa "complicado", mas sim algo que é "tecido em conjunto" e que abrange a incerteza, a ambiguidade e a interconexão entre os fenômenos (PEREIRA, 2002). Superando a ideia simplificadora, a complexidade propõe o princípio da relação entre o objeto e o sujeito pesquisador-conceituador, que tanto o percebe quanto o concebe.

Diante disso, os pontos cardeais da Teoria da Complexidade de Edgar Morin podem ser considerados: crítica à fragmentação do saber: Morin critica a divisão rígida dos saberes em disciplinas isoladas, o que impede a obtenção de uma visão holística da realidade; religação dos saberes: a teoria defende a necessidade de unir conhecimentos de diferentes áreas para uma compreensão mais completa, como o ensino que integra história, sociologia, psicologia e economia; complexidade como "tecido em conjunto": o termo vem do latim complexus e refere-se à interconexão de elementos que formam um todo, incluindo o que parece simples e os limites do próprio conhecimento; aceitação da incerteza: a teoria reconhece que a realidade é não linear, caótica e em constante mudança, exigindo a aceitação da incerteza, da ambiguidade e da incompletude; transdisciplinaridade: propõe um trabalho integrado entre os saberes, indo além da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, e buscando uma união mais profunda entre os conhecimentos; aplicação na educação: no contexto educacional, a teoria sugere que os professores colaborem para criar aulas mais significativas, conectando os conteúdos com a realidade dos alunos, que são expostos a um mundo cada vez mais complexo; princípio do "pensamento complexo": trata-se da arte de reunir o máximo de certezas para lidar com o incerto, integrando informações e formulando esquemas de ação.

Comporta assinalar que Morin reflete na sua obra “Os sete saberes necessários à educação do futuro” sobre as necessidades da educação no século XXI, tratando de alguns problemas específicos, chamados de buracos negros, existentes tanto do ensino fundamental, médio e superior, e que são ignorados nos programas educativos, mas em sua opinião deveriam estar no centro das atenções dos que se preocupam com a formação de jovens e futuros cidadãos. Um dos problemas ou “buracos negros” abordados, refere-se ao conhecimento, fornecido pelo ensino, que fornece saberes, mas, não revela o que é de fato o conhecimento; e - nesse caso - incorre em dois outros problemas: o erro e a ilusão (CALUZI e ROSELLA, 2024). A referida obra oferece um catálogo dos sete saberes: (i) as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; (ii) os princípios do conhecimento pertinente; (iii) ensinar a condição humana; (iv) ensinar a identidade terrena; (v) enfrentar as incertezas; (vi) ensinar a compreensão; (vii) a ética do gênero humano.

Edgar Morin nos advertiu, em suma, que enfrentamos persistentes ameaças à dignidade humana, como as armas de destruição em massa, a degradação ambiental, a total informatização dos dados relativos à vida pessoal, mas que há no nosso caminhar oportunidades de construção de um sistema mais rico e complexo, com grandes promessas para a humanidade. É essencial termos esperança!


REFERÊNCIAS


ALVES, Roger F. Pacheco (2020). Invenção de mundos como Dispositivo Complexo de Aprendizagem: cartografia de uma (trans)formação docente. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Pampa. Disponível em: <https://sites.unipampa.edu.br/sacci/files/2023/09/dissertacao-dispositivos-complexos-de-aprendizagem.pdf>. Acesso em: 24 nov. 2025.


BLAY, Ênio Alterman (2024). Edgar Morin e o que chamamos de “pensamento complexo”. Revista de Ensino Superior. Disponível em: <https://jornal.usp.br/articulistas/enio-alterman-blay/edgar-morin-e-o-que-chamamos-de-pensamento-complexo-parte-1/>. Acesso em: 02 nov. 2025.


CALUZI, João e ROSELLA, Marcelo L. Aroeira (2024). Edgar Morin: A Complexidade subsidiando o ensino de Ciências. Disponível em: <https://fep.if.usp.br/~profis/arquivo/encontros/enpec/ivenpec/Arquivos/Orais/ORAL064.pdf#:~:text=Desta%20forma%20%C3%A9%20necess%C3%A1rio%20submeter%20%C3%A0%20reflex%C3%A3o,latino%20(complexus%20%E2%80%9Co%20que%20est%C3%A1%20tecido%20junto%E2%80%9D).>. Acesso em: 24 nov. 2025.


FONSECA, E. R. da. Schopenhauer e o teatro: ilusão, resignação e sabedoria de vida. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, [S. l.], v. 9, n. 2, p. 67–83, 2018. DOI: 10.5902/2179378636053. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/voluntas/article/view/36053. Acesso em: 24 nov. 2025.


IZABEL, Petraglia (2022). Edgar Morin e o pensamento complexo. Revista de Ensino Superior. Disponível em: <https://revistaensinosuperior.com.br/2022/01/12/edgar-morin-e-o-pensamento-complexo/>. Acesso em: 02 nov. 2025.


ROLLEMBERG, Marcelo (2021). Cem anos de sabedoria e complexidades. Jornal da USP. Disponível em: <https://jornal.usp.br/cultura/cem-anos-de-sabedoria-e-complexidades/>. Acesso em: 02 nov. 2025.


PEREIRA, Reinaldo Arruda (2002). A Ciência Moderna, a Crise dos Paradigmas e sua relação com a escola e como o currículo. Dissertação de mestrado apresentado na PUC/MG. Disponível em:<https://bib.pucminas.br/teses/Educacao_PereiraRA_1.pdf>. Acesso em: 24 nov. 2025.


*Gláucio Tavares é ensaísta, mestrando em Direito pela Universidad Europea del Atlántico, graduado em Farmácia pela UFRN e ativista político pela democracia.

terça-feira, 26 de maio de 2026

quinta-feira, 21 de maio de 2026

CENTELHA DE CORDEL

 



Sextilha do folheto: "O Grande Jogo - Cordel da vida e da bola", de Mané Beradeiro.

Imagens criadas por IA

O RETORNO DEFINITIVO DE AUGUSTO SEVERO

 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

MPRN E DPU AJUÍZAM AÇÃO PARA GARANTIR REFORMA URGENTE NA PINACOTECA DO ESTADO

 


O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) e a Defensoria Pública da União (DPU) ingressaram com uma Ação Civil Pública buscando a execução imediata de obras de conservação e restauro no Palácio Potengi, sede da Pinacoteca potiguar. A medida judicial é movida contra o Estado, a Fundação José Augusto e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Relatórios técnicos apontam que o imóvel apresenta graves deficiências estruturais que colocam em risco o acervo artístico e a segurança dos frequentadores.

Em março deste ano, uma vistoria técnica realizada pela Central de Atendimento Técnico Especializado (Cate) do MPRN identificou problemas como infiltrações severas no telhado e deterioração na impermeabilização das lajes. A água das chuvas atinge o interior do edifício por meio de luminárias e eletrodutos, elevando o risco de curtos-circuitos e incêndios.

Em abril deste ano, fotos e vídeos demonstraram o agravamento das infiltrações. Além disso, outras vistorias já haviam identificado danos nos assoalhos históricos e queda de fragmentos de forro de salões. Atualmente, o local abriga mais de mil obras de arte de valor inestimável para a memória cultural potiguar.
Pedidos

Os autores da ação solicitam uma tutela de urgência para que seja apresentado, em cinco dias, um projeto de recuperação emergencial do telhado, das lajes e do sistema elétrico, com memorial descritivo dos serviços. O documento deve vir acompanhado de planilha orçamentária detalhada e cronograma de execução das obras. Ainda na tutela de urgência, MPRN e DPU pedem a transferência imediata e adequada de obras de arte e mobiliários de valor histórico, situados em áreas com infiltrações, para locais seguros.

A ação também pede a remoção de vegetação e microrganismos das paredes externas, bem como a impermeabilização e restauração da pintura para evitar a incidência de umidade estrutural. Para garantir a realização dos serviços, a ACP solicita, em caráter subsidiário e sucessivo, o bloqueio do valor de R$ 310.963,68, correspondente ao orçamento já elaborado pela empresa IL Azevedo Engenharia Ltda, como medida de garantia da exequibilidade material da obrigação de fazer. Os valores seriam liberados caso transcorridos os prazos judiciais sem o início das obras.

A ACP solicita ainda a instituição de um cronograma de manutenção preventiva com dotação orçamentária garantida pelo Tesouro Estadual. Dessa forma, busca-se evitar que entraves burocráticos e financeiros continuem a degradar a estrutura neoclássica do palácio.
IPHAN

A ação aponta ainda que cabe ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional intervir e executar obras emergenciais em caso de urgência qualificada ou incapacidade do proprietário. Nesse contexto, a ação também requer a condenação da autarquia federal para que fiscalize e oriente tecnicamente o processo de restauração integral do monumento nacional.

Para o IPHAN, MPRN e DPU pedem a análise e a emissão de parecer sobre o projeto de recuperação emergencial no prazo de 15 dias. É solicitado ainda que seja designada uma equipe técnica especializada para atuar, em caráter de urgência, na fiscalização das obras. Os órgãos solicitam também que a decisão fixe a obrigatoriedade de apresentação de relatórios de conformidade técnica das intervenções a cada 45 dias durante a execução dos serviços.
Bem tombado

O Decreto-Lei nº 25/1937 estabelece que o proprietário de bem tombado deve garantir sua conservação e manutenção permanente. MPRN e DPU destacam que a responsabilidade entre o Estado e a Fundação gestora é solidária e objetiva. Portanto, a inércia administrativa configura descumprimento de obrigações constitucionais e legais de preservação.
Vistorias Técnicas

Na vistoria realizada pela Cate do MPRN em março deste ano, foram constatadas:Brechas entre as telhas que permitem a entrada de água diretamente sobre a laje;
Água saindo por luminárias e tomadas, criando risco iminente de curto-circuito e incêndio;
Ferrugem em pregos e deformidades em assoalhos e escadas de madeira originais devido ao contato com a água;
Pedras portuguesas soltas e buracos nas calçadas, apesar de reforma recente.

O IPHAN realizou vistorias em 2024 e 2025 e já havia constatado o agravamento das patologias anteriormente citadas, alertando sobre o risco de danos irreversíveis ao bem tombado.

Foram identificadas também:Falta de estanqueidade da edificação, comprometendo integralmente os sistemas elétrico, hidrossanitário e de segurança;
Goteiras sobrecarregando as lajes e água pluvial escorrendo por dutos elétricos;
Improvisos, como cadeiras e ferramentas, para fechar portas cujos mecanismos de fechamento haviam apodrecido.

Anteriormente, nos anos de 2022 e 2023, relatórios do Instituto já haviam apontado intervenções irregulares executadas sem autorização técnica e ausência de manutenção predial básica.













FONTE: Confira a matéria completa: https://tinyurl.com/sunmkzdf


O GRANDE JOGO: QUANDO O CORDEL ENTRA EM CAMPO PELA VIDA E PELA BOLA



 O cordel brasileiro  viajou nas malas dos cantadores e fincou raiz na alma do povo. Com métrica precisa, rima na ponta da língua e xilogravura na capa, ele resiste há séculos como uma das mais autênticas expressões da cultura popular nordestina. E é exatamente nessa tradição que se inscreve "O Grande Jogo: Cordel da vida e da bola", de Mané Beradeiro.

Mas por que este cordel é importante? Por várias razões.

Primeiro, porque ele faz o que o cordel sempre fez de melhor: falar do Brasil com o Brasil. A obra toma o futebol como metáfora, mas o campo é o país — e o jogo é a luta por educação, saúde, justiça social, respeito às mulheres, valorização do professor, combate ao preconceito. O Saci, a Mula sem Cabeça, o Curupira e o Boitatá entram em campo lado a lado com o professor que se dedica, o poeta que escreve com sílabas, o trabalhador que dá seu suor. Não é um cordel sobre futebol. É um cordel sobre o Brasil usando a bola como ponto de partida.

Segundo, porque mantém a disciplina formal da métrica e da rima. Em tempos de verso livre sem compromisso, Mané Beradeiro demonstra domínio da sextilha e da septilha — as estrofes clássicas do cordel — com redondilha maior (7 sílabas) e esquema de rimas ABCBDB rigorosamente respeitado. São 36 estrofes que fluem sem tropeço. Isso não é fácil. Exige ofício, ouvido e respeito pela tradição.


Terceiro, porque o cordel não foge da crítica social. Ao contrário, vai de frente. Fala do feminicídio, do preconceito, da falta de dinheiro, do governo "sacana", da opressão. Mas não entrega um discurso amargo — equilibra a denúncia com a esperança: que sejamos hexa, sim, mas que tenhamos também pão, educação, segurança e amor. Que a vitória da vida seja o fim da opressão.

Quarto, porque é uma obra de sentido nobre. O cordel nasce para ser lido em voz alta, para circular de mão em mão, para ser declamado na feira, na escola, na reunião de família. "O Grande Jogo" tem esse DNA. Os versos são feitos para soar bem no ouvido, para grudar na memória, para virar ponto de conversa.

No fim das contas, a importância deste cordel está em provar que a literatura popular brasileira continua viva, potente e necessária. Enquanto houver quem rimar "lobo" com "roubo" e "globo", quem botar o Saci para jogar futebol com o professor em sala de aula, quem acreditar que a poesia pode mudar o jogo — o cordel não morre.

"O Grande Jogo: Cordel da vida e da bola" estará disponível brevemente. Leia, declame, compartilhe. O jogo é nosso.

Peça o seu através do whatsApp (84) 9.8719-4534  -  Preço R$ 5,00.



TEMPO DE SILÊNCIO

 


domingo, 17 de maio de 2026

ANRL 90 ANOS - CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA LITERÁRIA - EDIÇÃO 006 - CASCUDO ERA CONTRA OBRAS INÉDITAS POST MORTEM

 Você sabia que Câmara Cascudo não era favorável a publicação de  obras inéditas, deixadas pelos autores? Quem testifica isso é Veríssimo de Melo, no artigo "Um jornal e uma época - Relembranças" , lembrando  a crônica escrita por Câmara Cascudo, " Espólio do Escritor", publicada no jornal "A República", edição do dia 6 de abril de 1946.

"... A propósito, ele trazia o depoimento de paul Valery, que encarregou a viúva de reunir, dispor e publicar toda a sua papelada inédita, incompleta ou em notas, depois de sua morte. Já Henri Bergson, o filósofo, pediu à viúva que destruísse  tudo. Cascudo comenta os dois pontos de vista e acrescenta; "minha opinião é a do velho Bergson. Sou contra a publicação de inéditos, de trabalhos incompletos, rascunhos, modelagem irregular que a morte deixou inacabada. Publique-se a correspondência, selecionando-se, somente. As publicações póstumas servem para comprometer a beleza, harmonia, equilíbrio e limpidez da obra intelectual" (p. 146/147)


1) Revista da ANRL,  volume 27, nº 15, novembro 1979/80, páginas 134 a 148

sábado, 16 de maio de 2026

CENTELHA DE CORDEL

 



Hoje é  o Dia do Gari
O anjo que faz limpeza
A cidade é mais bonita
Pois ele traz a beleza
Levando o nosso lixo
Disso tenho a certeza. 

Profissão tão importante
À saúde indispensável
Parabéns para Aldair
E a turma tão notável
Receba o meu abraço
E aplauso memorável. 

Mané Beradeiro

16 maio 2026

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A CARTA DE NICE

O leitor — chamemos-lhe apenas leitor, pois o nome não importa agora — estava folheando um livro, quando sua mão encontra um envelope de carta, internacional. Isso lhe chamou a atenção, afinal, em 2026, tempo de whatsApp, e-mails, redes sociais, não há mais espaço para cartas.

O envelope trazia as cores branca, vermelha e azul. O selo dizia o país de origem: República Francesa, e o carimbo dos Correios — nítido, perfeito, como se o tempo tivesse respeitado aquele 30 de setembro de 1972.

Pegou o envelope com cuidado, quase com reverência. O papel era fino como as asas de uma libélula. O remetente: Jean-Luc Moreau, 14, bis Rue de la Buffa, 06, Nice, França. O destinatário: D. Isabel de Holanda Cavalcanti, Rua General Câmara, 67, Natal-RN, Brasil.

Percebeu que estava aberto, dentro, a carta, escrita numa caligrafia inclinada à direita, firme como quem não hesita, e ao mesmo tempo trêmula nos contornos, como quem escreve sob o peso de algo que aperta o peito.

O leitor  pensou se deveria ler a correspondência que não lhe pertencia, endereçada a uma mulher que, muito provavelmente, já não estava entre os vivos. Cinquenta e quatro anos se passaram. Mas a curiosidade foi maior e  ele puxou aquela folha única.

 A tinta era escura, um azul-petróleo, e as letras pareciam ter sido feitas com uma caneta-tinteiro que ora soltava mais tinta, ora menos — como o fôlego de alguém que corre e para, corre e para.

O leitor sentou-se no banco de madeira do sebo e começou a ler.

Nice, 28 de setembro de 1972

Cara Senhora Isabel,

Há três semanas tenho sonhado com a senhora. Não sei quem é, nunca a vi, nunca ouvi seu nome antes. Mas nos meus sonhos a senhora está sentada numa sala de paredes altas, cheia de livros, com uma janela que dá para um jardim — e lá fora uma jaqueira imensa. A senhora veste um vestido escuro e lê em voz alta, mas não consigo ouvir o que diz.

No sonho, sempre olho para suas mãos. A senhora segura um objeto pequeno e prateado — um prendedor de cabelos, talvez, ou um broche. E há algo errado com a luz. A luz da sala vai ficando alaranjada, depois vermelha, e o ar fica pesado. A senhora não percebe, mas eu percebo. E grito, mas a senhora não me ouve.

Acordo com o coração disparado e a sensação de que preciso impedir algo que já está em movimento.

Ontem à noite, o sonho mudou. Vi números — 29, 30, 1. Vi um jornal, a data de outubro. E vi a senhora caída, a cabeça tocando o assoalho, a mão ainda segurando o broche. Havia fumaça.

Não sei se sou louco. Não sei se isso que escrevo é loucura. Mas passei a manhã na prefeitura de Nice, conferindo listas de passageiros, endereços, consulados. Descobri que a senhora existe — uma professora de literatura brasileira, que esteve em Aix-en-Provence em julho passado, num congresso. Deram-me seu endereço em Natal.

Pensei em não escrever. Pensei em rasgar esta carta. Mas a imagem da senhora caída naquela sala não me sai da cabeça.

Não sei o que vai acontecer. Só sei que acontece em outubro. Nos primeiros dias. E tem a ver com fogo. A senhora tem uma jaqueira no quintal?

Com todo o respeito e toda a estranheza que esta carta lhe causa,

Jean-Luc Moreau

O leitor levantou os olhos do papel. àquela hora da tarde, com a luz dourada entrando pela porta de vidro fosco. Respirou fundo.

Guardou a carta dentro do livro. Nos dias seguintes, a carta não lhe saía do pensamento. Quem era Isabel de Holanda Cavalcanti? O que teria acontecido naqueles primeiros dias de outubro de 1972? E, acima de tudo — ela teria recebido a carta a tempo?

Começou a pesquisa por onde qualquer um começaria: a internet. Isabel de Holanda Cavalcanti, professora universitária, Natal. Não foi difícil. Encontrou um verbete no site da Academia Norte-Riograndense de Letras: Isabel de Holanda Cavalcanti (1921-1972). A data de falecimento o fez parar. 3 de outubro de 1972. Três dias depois do carimbo no envelope.

O coração do leitor bateu mais forte. Leu o resto do verbete com os olhos queimando: Faleceu em decorrência de um incêndio em sua residência, na Rua General Câmara, 67. Professora de Literatura de Língua Portuguesa da UFRN, deixou vasta obra crítica...

Incêndio.

 A palavra ficou pulsando na tela. O leitor fechou o navegador, abriu a gaveta onde guardara o envelope azul. Tirou a carta com cuidado. Leu-a de novo, devagar. A luz da sala — alaranjada, depois vermelha. A fumaça. A jaqueira no quintal — será que existia?

 A carta saíra de Nice no dia  30. Voara da Riviera Francesa até o Rio Grande do Norte. Se tivesse chegado no dia 2 ou 3 de outubro, teria sido tarde demais? Ou teria chegado antes, e Isabel a lera — e não dera importância?

O leitor passou o polegar sobre a assinatura de Jean-Luc. Um homem jovem, francês, que tivera visões. Que tentara avisar uma mulher que não conhecia. Que escrevera uma carta do outro lado do Atlântico para impedir uma tragédia.

 E que, muito provavelmente, nunca soube se ela chegou a ler.

 

Francisco Martins
13 de maio de 2026

Ilustrações criadas por IA.