sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O CORREDOR "H" DA BIBLIOTECA ASSOMBRADA

 

A Biblioteca Estadual fechava à
s seis da tarde e só voltava a ter gente às sete da manhã. No meio, entre uma coisa e outra, ficavam os guardas.

Edvaldo, chefe da segurança noturna há dezenove anos, dizia que o prédio tinha três turnos: o dos leitores, o dos funcionários e o outro. O outro começava depois da meia-noite.

As vozes vinham sempre do corredor H. Terceiro piso, estante doze à dezenove — romances policiais, capa dura, lombadas escuras, a maioria sem leitor desde 2008. Começavam baixinho, como sala de espera de delegacia: um burburinho de gente discutindo sem levantar a voz. Havia homens. Havia mulheres. Havia uma que ria no meio de uma frase e parava de repente, como se tivesse sido advertida. Havia um que falava por último, sempre por último, e a voz dele era grave e arrastada, de quem explica uma coisa pela terceira vez.

Ninguém entendia nada. Não era sotaque, não era idioma. Os guardas já tinham tentado gravar. O arquivo saía limpo, com um chiado de fundo, e quem ouvia jurava que era o som de uma estante de metal recebendo pancadas leves. Mas ali, no corredor, com o gravador desligado, os quatro guardas da noite ouviam uma assembleia.

Edmilson, que saiu em 2021, foi o primeiro a falar em vampiros. Diz que viu dois, encostados na estante quatorze, um de perfil e outro de costas, ambos de terno preto e muito pálidos, e que o de perfil tinha a gola da camisa manchada de vermelho seco. O relatório dele tem uma linha só: “Não se aproximaram. Pareciam esperar alguém.”

Outros dois guardas, em noites diferentes, juraram pela carruagem. Uma carruagem de verdade, de rodas de madeira, suspensa em molas, parada no meio do corredor, atravessada entre as estantes como se o corredor fosse uma rua. Diziam que a poeira subia das rodas. E que dela saltou uma moça de roupas romanas — túnica branca, faixa vermelha, sandálias de tiras até o meio da canela — muito séria, muito moça, com uma espada na mão direita. A espada estava suja. Não de ferrugem.

Edvaldo, nunca registrou a carruagem por escrito. Registrou o cheiro. “Forte odor de estrume e couro molhado no corredor H, sem origem identificada”, está no livro de ocorrências, na letra de quem não queria que aquilo parecesse importante.

João tinha um ritual, e o ritual era este: pegava a lanterna na portaria, conferia a carga no painel, assinava o livro, subia pelo elevador de serviço até o segundo piso e fazia o terceiro a pé, pela escada, porque a escada tem corrimão de ferro e o corrimão de ferro não mente. Depois do segundo piso a gente fica sabendo se o prédio está normal. É no corrimão que a mão sente.

Naquela terça, a mão sentiu normal.

O corredor H começava depois da porta corta-fogo. Trinta e dois metros, doze estantes, o lampião de emergência que nunca acende, e no fim o vão para o setor de restauro. João contava os ladrilhos porque contar ocupava a boca, e boca ocupada não chama.

Ele ia no onze.

Foi quando o facho da lanterna encurtou.

Não apagou. A lanterna era boa — era a do almoxarifado, corpo de alumínio, quatro pilhas, alcance de vinte metros segundo a etiqueta. Só que, entre o dez e o doze, o facho deixou de chegar ao fim do corredor. Os vinte metros viraram oito, depois seis. A luz batia numa parede de escuro e parava. E o escuro era de um jeito que não devia ser: não era ausência de luz, era como olhar dentro de água barrenta.

João parou.

O rádio não pegava ali. Isso todo mundo do turno sabia. O concreto do terceiro piso é de 1978 e é uma laje de vinte e dois centímetros de espessura; o rádio morre no meio do corredor H e volta quando a gente chega ao vão. Ele levou a mão ao rádio mesmo assim, e o rádio estava mudo, e ele não apertou o botão porque apertar sem sinal faz um estalo, e o estalo sai alto.

Então ele sentiu o cheiro.

Não era podre. Tinha cheiro de  mato molhado, limo, água rasa parada em cima de pedra, e por baixo um traço de ferro — ferro de sangue, mais ou menos, mais ferro que sangue. Lembrou do mangue atrás da casa da avó, em Pititinga, quando a maré desce e as raízes ficam de fora.

E depois ele ouviu o arrasto.

Peso puxado no chão. Um som de saco de areia, só que ritmado, dois tempos, e vindo de baixo — rente ao ladrilho. Não era passo. Nada que tem perna faz aquele som. O som era de coisa que se puxa.

João deu um passo para trás e o arrasto parou no mesmo instante. Isso foi a pior parte, ele diria depois, e não conseguiria explicar por quê. Ficou tudo tão quieto que ele escutou o próprio pulso dentro do ouvido. E o escuro, sem se mexer, ficou mais perto.

Ele não correu. Isso ele conta com vergonha até hoje, e a vergonha é o que prova que ele conta a verdade: ele não correu, porque a cabeça dele não mandou correr. A cabeça dele mandou ficar quieto. Ficar bem quieto, não respirar, não olhar. Uma coisa antiga que a gente tem dentro e que não é de gente.

Deu mais um passo.

O bicho veio.

Não veio rápido. Foi o que acabou com ele. Veio devagar, sem pressa, como quem já sabe onde o outro vai estar. A luz pegou o braço primeiro: comprido demais, grosso demais, coberto de escamas duras, rachadas, e o musgo nos cotovelos era de verdade, ele viu o musgo, verde-escuro, molhado, brilhando. As unhas raspavam o ladrilho e produziam as duas batidas.

A mão fechou no tornozelo dele.

Era fria. Era da temperatura do fundo de um poço, e a pele do tornozelo dele respondeu antes do cérebro: subiu um arrepio que virou cãibra, e o pé parou de obedecer. As escamas da palma cortaram como grosa. João sentiu o sangue quente descendo por dentro da meia e o tecido grudando.

Ele gritou uma vez. O grito não foi longe. Bateu na parede de escuro e voltou.

Aí o bicho puxou.

João tentou a estante dezessete e pegou o pé de metal e o pé de metal não soltou, mas o corpo dele é que soltou: ele sentiu o ombro estalar e a mão abrir sozinha, e os livros desceram em cima dele, capa dura, lombada escura, vinte volumes batendo na cabeça e nas costas. Foi arrastado de costas pelo corredor. Os cotovelos abriram no ladrilho, um, dois, três metros, e o metal da fivela raspando alto. Ele olhava o teto passando. O teto passava rápido. Ele pensou numa coisa completamente idiota, que era que ia perder o sapato.

Quinze metros, mais ou menos. Ele mediu depois, pela mancha de pele.

O bicho parou e virou ele com um empurrão, do jeito que a gente vira um saco de cimento pelo canto. João ficou de barriga para cima. A lanterna caiu de lado e ficou apontada para a estante quinze, e por isso ele não viu a coisa inteira. Viu o pescoço — comprido, curvo, escamoso, cheio de dobras moles. Viu a cabeça de touro de perfil, sem chifre, a orelha grande e caída. Viu o peito subindo e descendo. Não viu o resto. Ele agradece até hoje por não ter visto o resto.

O bicho baixou a mão no peito dele.

O peso. Setenta, oitenta quilos numa mão. João sentiu as costelas não quebrarem, e teria preferido que quebrassem — sentiu elas cederem, uma de cada vez, dobrando para dentro, e o ar saindo dele sem ele conseguir pegar outro. O osso trabalhou. Ele ouviu o osso trabalhar. Trinta segundos, quarenta, um minuto, e a mão não saía, e ele começou a ver pontinhos brancos na borda da visão e pensou: agora. Agora é.

E a boca do bicho chegou perto do ouvido dele.

O bicho não rosnou. Ele soltou o ar, devagar, pela boca, e o ar era quente e cheirava a mato molhado e ferro, e dentro do ar havia palavras.

João entendeu.

Não é que ele reconheceu a língua. Foi pior. Ele entendeu do jeito que a gente entende o próprio nome: sem traduzir, sem pensar, direto. Eram quatro palavras, ditas com paciência, do jeito que se fala com alguém que vai demorar. E o que as quatro palavras diziam era uma bobagem administrativa, uma coisa de escritório, uma coisa que ele mesmo já tinha dito no balcão da portaria: pode entrar, está reservado.

A mão saiu do peito dele.

O arrasto recomeçou, dois tempos, e foi ficando mais fundo, e depois mais longe, e depois o corredor H era só um corredor com doze estantes e um lampião que não acende.

Acharam ele às cinco e cinquenta, sentado no chão, encostado na estante quinze, com o sapato no pé. Não tinha machucado que explicasse nada: os cotovelos ralados, o tornozelo cortado em tiras finas, as costelas inteiras segundo o raio-x do dia seguinte. Estava calmo. Disse que estava tudo bem. Levantou sozinho, guardou a lanterna no lugar, e assinou o livro de ocorrências na letra dele — “Ronda no setor H concluída. Sem alterações.”

Edvaldo chegou às seis e vinte e viu o estado dele e perguntou o que tinha acontecido.

João abriu a boca e respondeu.

E o que saiu não era português.

Ele parou. Tentou de novo, mais devagar, escolhendo as palavras com cuidado, e o que saiu foi a mesma coisa, outra vez, aquela língua de consoante dura e terminação mole, e ele ouviu a própria voz dizendo aquilo e o rosto dele mudou — não de medo do bicho, não de medo do escuro, de medo de si.

Tentou uma terceira vez. Chorando já.

Aí ele entendeu que não tinha ficado nada, que o bicho não tinha levado o corpo, tinha levado a chave, e que dali em diante ele ia entender tudo e não ia conseguir dizer nada, e que ia passar o resto da vida nesse corredor, com todo mundo achando que ele era o doido que fala uma língua que não existe.

Edvaldo conta que foi nessa hora que ele começou a gritar. E que o grito era de uma pessoa sendo arrastada.

Ninguém mais quis fazer a ronda das três da manhã no terceiro piso. Passaram a fazer em dupla, e depois em dupla com o rádio aberto, e depois passaram a fazer de longe, do batente, com a lanterna apontada para dentro, sem entrar. A gerência trocou a fiação e colocou uma lâmpada nova, dessas de LED, branca, que não pisca. Não resolveu. Havia algo desagradável ali, todas as noites, sempre depois da meia-noite, e não era fantasma nem bicho: era uma sensação de estar sendo esperado.

Antonildo era  um dos mais antigos e nunca tinha descrito nada. Dizia que não olhava. Entrava de férias na segunda-feira.

Na quinta, apareceu o substituto. Chamava-se Ernani Bento, tinha uns sessenta, veio de uma empresa terceirizada, e chegou carregando uma bolsa de lona, uma lanterna pequena de mão e uma garrafa térmica. Pediu o livro de ocorrências. Leu quarenta e dois minutos, página por página, sem pular nada. Quando fechou, perguntou se podia ver o corredor H com o prédio vazio.

          Edvaldo levou. Subiram os três lances de escada sem falar. No terceiro piso, Ernani andou devagar até a estante quinze, encostou a mão na madeira, olhou o vão entre as estantes, olhou o teto, olhou o rodapé. Voltou para o corredor e ficou parado mais um tempo.

— Seu Edvaldo — disse. — Se o senhor permitir, gostaria de ficar na biblioteca.

Os guardas estavam todos ali. Um deles riu, achando que era piada. Ernani não riu.

— Ficar como? — perguntou  Edvaldo.

— A noite toda. Com a porta fechada.

— O senhor sabe o que tem aqui.

— Li.

— Leu e ainda quer ficar.

Ernani pensou um pouco antes de responder, e a resposta ficou na cabeça de todo mundo por causa disso, porque não foi resposta de coragem:

— Pesei o medo, sim. Deu quase três quilos. Dá para carregar.

Ninguém entendeu. Ninguém perguntou.  Edvaldo deu a chave e pediu que ele assinasse um termo, o que era procedimento, e que era uma forma de dizer que a responsabilidade não era dele.

Naquela noite não houve voz nenhuma.

Foi a primeira noite silenciosa em anos, e os guardas ficaram piores do que em qualquer outra. O silêncio não era paz, era ausência — como quarto de hospital quando a máquina para. Às três e dez, Edvaldo subiu até o batente, encostou a orelha na porta e ouviu Ernani conversando. Não conversando sozinho. Conversando com pausas, com a espera de quem ouve a resposta antes de retomar. Voz baixa, calma, de quem lê em voz alta para alguém deitado.

Não entrou.

Às seis, em ponto, a porta abriu. Ernani apagou a lanterna, guardou a garrafa térmica vazia na bolsa e entregou a chave. Estava pálido, mas não parecia assustado. Parecia cansado do jeito que a gente cansa depois de uma viagem longa de ônibus.

— Algum problema? — perguntou Edvaldo.

— Nenhum. Obrigado pela confiança.

— E as vozes?

Ernani olhou para o corredor H, para a estante quinze, e disse uma coisa que não consta em relatório nenhum porque  Edvaldo não sabia como escrever:

— Elas não estavam conversando. Estavam fazendo inventário.

Desceu as escadas e não voltou na noite seguinte, nem na outra. Ligaram para a terceirizada. A terceirizada disse que não tinha Ernani Bento no cadastro. Mostraram a ficha, com a assinatura dele e o número do documento. A terceirizada abriu um protocolo interno e nunca mais falou nada.

Antonildo também não voltou. Terminou as férias, mandou mensagem no dia 3 dizendo que estava tudo bem, mandou no dia 10 dizendo que ia esticar, e no dia 20 mandou uma só frase: “Meu lugar aí já tem dono.” Não respondeu mais. A rescisão foi feita por telegrama, para o endereço que constava no RH.

Eu fui o que ficou com a chave do armário dele. Não por vontade: a gerência mandou esvaziar.

Dentro, havia o uniforme dobrado, o par de sandálias reserva, um pacote de biscoito vencido e um caderno de capa preta, desses de cem folhas, com a lombada aberta de tanto uso.

Abri achando que ia encontrar as anotações dele sobre as rondas.

As primeiras páginas estavam escritas numa letra fina, apertada, de gente que aprendeu a escrever em outro século. Depois havia outra caligrafia, larga, inclinada à direita. Depois outra, e outra, e outra — umas redondas, umas com inclinação militar, umas com o “s” fechado como um oito, uma delas de mulher, com laço no “g”. Página após página, caligrafias diferentes cobrindo a margem, subindo pelas bordas, ocupando o verso. Não consegui ler uma palavra sequer. Não era uma língua. Era a tentativa de alguém escrever uma língua que a mão não conhecia.

Na última página, com a caneta ainda marcando o papel, havia uma única linha que qualquer pessoa daquele prédio leria sem esforço. Em português correto, letra de professor:

“Faltava um.”

Naquela noite, quando eu subi para a ronda das três, as vozes estavam de volta no corredor H.

Muitas, como sempre. Homens e mulheres, discutindo sem levantar a voz, rindo e parando de rir. Só que agora havia uma a mais, e essa eu reconheci de imediato — grave, arrastada, de quem explica algo pela terceira vez, com a paciência de quem já morou dezenove anos ali em cima e finalmente entendeu o que estavam pedindo.

Parei no batente. Contei até dez. Entrei.

E ninguém, em toda a história daquela biblioteca, tinha pesado o medo com tanta precisão.


Francisco Martins

179 ANOS DE MARTINS

 


quarta-feira, 28 de outubro de 2026

SEXTA PRÓXIMA TEM CONTO DE TERROR

 


SEXTA É DIA DE LER HISTÓRIA DE TERROR. VENHA CONHECER O CONTO " O CORREDOR "H" DA BIBLIOTECA ASSOMBRADA".

FLIPIRI - 16ª FESTA LITERÁRIA DE PIRENÓPOLIS

 


terça-feira, 27 de outubro de 2026

POEMA EM 10 SALMOS - PARTE VI - SALMOS 51 A 60

 

Há uma diferença entre rezar e conversar. O que Francisco Martins faz nesta sexta parte do seu Poema em 10 salmos é conversar — direto, sem rodeio, como quem senta na varanda e fala com Deus sobre o que dói. Os salmos 51 a 60 aparecem aqui reduzidos à sua medula: perdão, medo, amizade traída, angústia, confiança.

O poema abre pelo caminho mais difícil e mais honesto: o reconhecimento do erro. "Senhor, percebo o quanto errei / Busco teu perdão / E suplico: Dai-me um novo coração". É o Salmo 51 — o salmo do coração novo — como pedido, não como teoria. Não há autoexplicação, não há justificativa: há um pedido.

Nos versos seguintes, a prece vira precaução: "Que o poder que vier a ter / Não me faça um homem mau." É uma das passagens mais lúcidas do poema. Quem já teve um pouco de poder sabe o que ele pode fazer com as pessoas. Aqui, a fé aparece como freio — e o medo da insensatez coletiva, como consciência de que ninguém se salva sozinho.

Às vezes, quem atenta contra mim é quem comigo anda, meu amigo

O poema não foge da dor real. Fala do mundo mau, "repleto de insolentes e violentos", e da ferida específica de quem é traído por perto. E é justamente aí que aparece a virada: "Quando eu tiver medo, em Ti confiarei." O medo não é negado — é atravessado.

Na estrofe do meio da angústia, o poema atinge o ponto mais alto: cercado de perigos, o eu-lírico decide "ficar firme e acordar / minh'alma para cantar louvores". É a escolha de cantar antes de a tempestade passar. E fecha como começou — com confiança: "Tu és minha força, meu alto refúgio" e "Contigo faremos proezas".

Poema em 10 salmos – Parte VI não é leitura de missa. É leitura de bolso, daquelas que cabem no intervalo do dia e servem para reorganizar o peito. Francisco Martins escreve com a simplicidade de quem já entendeu que fé não precisa de palavra difícil para ser profunda. Fica o convite do último verso: proezas se fazem com Deus, mas se fazem juntos.

CENTELHA DE CORDEL

 

Vejo a lua tão bonita
Saudando quem sai de casa
Levando no seu alforje
Força, esperança e graça
Batalhando pela vida
Enquanto a mesma passa.

Mané Beradeiro
27 outubro 2026

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

EM QUILLING, FRANCISCO MARTINS, TRADUZ EM PAPEL OS SÍMBOLOS DO LEGADO DE ANTONIO GENTIL

 



Um pássaro branco de asas abertas no alto, um livro aberto na base, cifras musicais que sobem das páginas e, ao lado, uma árvore carregada de frutos. A obra em quilling assinada por Francisco Martins — datada de 22 de outubro de 2026— toma como referência a principal realização do empresário Antônio Gentil, fundador do Instituto Gentil, e a reconstrói inteiramente com tiras de papel enroladas, moldadas e coladas à mão.

O interesse da peça não está na técnica, e sim no modo como ela organiza significados. Cada elemento da composição corresponde a um conceito declarado pelo artista, e o conjunto só se completa quando os quatro são lidos em relação. As cifras representam a música. O livro representa o conhecimento que liberta. A árvore representa a solidez e os frutos da caminhada. O pássaro personifica a fé em Deus.

A hierarquia visual reforça essa leitura. O pássaro ocupa o topo, em branco, contra o fundo azul que simula céu — posição de quem sustenta e orienta o restante da cena. O livro ocupa a base e funciona como ponto de origem: das suas páginas partem as linhas curvas que conduzem às cifras musicais, de modo que o som nasce do conhecimento e não o contrário. A árvore se ergue lateralmente, com copa densa e flores em forma de estrela, sugerindo enraizamento e continuidade. A leitura, portanto, se faz de baixo para cima: do livro ao som, do som ao alto, com a árvore acompanhando o percurso como quem frutifica.

A técnica empregada é o quilling, também chamado de filigrana de papel, que consiste em enrolar tiras estreitas em espirais, gotas, “olhos” e formas livres, depois organizadas para construir volumes e contornos. Não há tinta nem pincel: a cor vem do próprio papel e a forma resulta do gesto de enrolar. Na peça, o recurso aparece nas asas da pomba, nas espirais das notas, nas páginas do livro e nas flores da copa. A paleta vibrante — azul, vermelho, laranja, roxo e branco — se distribui sobre um fundo que sugere céu e colinas, criando um cenário ao mesmo tempo lúdico e solene.

Os símbolos escolhidos não são aleatórios em relação à trajetória que homenageiam. Fundado em 1996 em Campo Grande, no Médio Oeste potiguar, o Instituto Gentil nasceu como Espaço Cultural e teve como primeira iniciativa a organização de uma pequena biblioteca formada por livros doados. Ao longo de três décadas, ampliou a atuação para a música, a informática, o empreendedorismo, o teatro, o balé e o incentivo à leitura, e celebrou os 30 anos em julho de 2026. A biblioteca inicial aparece no livro; os cursos de música, nas cifras; a permanência do trabalho, na árvore e em seus frutos; o sentido último da construção, no pássaro.

A obra ganha força justamente na tensão entre material e mensagem. Feita de papel — matéria frágil, quase efêmera —, ela trata de permanência: uma instituição que atravessou três décadas, um conhecimento que se pretende libertador e uma fé apresentada como sustentáculo. A delicadeza do suporte não contradiz a solidez invocada pela árvore; ao contrário, torna-a visível, ao revelar que o que parece leve é resultado de muitas horas de trabalho manual e de decisões compositivas precisas. Montada em moldura de madeira clara, a peça se apresenta como objeto de leitura lenta, em que o observador é convidado a percorrer a cena elemento por elemento antes de apreendê-la como conjunto.

Ficha técnica

Filigranista: Francisco Martins

Obra: Sabedoria que liberta

Técnica: Quilling (filigranas em papel)

Dimensões: 26 x 34 cm

Moldura: madeira, sem pintura

Ano 2026

Propriedade: Antonio Gentil

Veja outros quadros, clicando nos links abaixo

Brasão do IHGRN

Cajueiro de Pirangi

Renda Renascença Potiguar



O LOBISOMEM DA PRAIA - UM CAUSO DO LITORAL DE PITITINGA, ZUMBI E MARACAJAÚ

 


Quem nasce nessas bandas cresce ouvindo a mesma advertência, dita baixinho, quase um rezo: não atravesse a estrada de Zumbi em noite de lua cheia. A estrada carroçável corta a mata como um risco de faca — estreita, cheia de buracos de boi, ladeada de Pau Brasil, Aroeira e Ipê que se fecham por cima da cabeça da gente até esconder o céu. De dia ainda é um lugar bonito, o sol varando as copas e pintando o chão de claridade. Mas de noite a mata muda de alma. O ar fica grosso, os troncos viram vultos, e o vento, quando passa pela folhagem, não parece vento: parece uma respiração que caminha junto com você.

Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro a ver o buraco. Uns dizem que é uma cacimba antiga, cavada por escravos fugidos; outros, que a terra abriu sozinha no dia em que um padre amaldiçoou a região. Só sei que ele existe, escondido no coração da mata, e que em noite de lua cheia a escuridão dele escurece ainda mais, como se engolisse a claridade que vem do céu. Dizem que é de lá que ele sai.

Eu, Seu Zé Ariacó, pescador de jangada há quarenta anos, nunca precisei ver para acreditar. Minha vez de chegar perto veio numa sexta-feira de março, quando o mar estava melhor que nos últimos seis meses. A pescaria tinha sido farta — saí de Maracajaú com a jangada cheia, o sol já se pondo por trás dos coqueiros. Os rapazes me chamaram para esperar a lua subir e voltar juntos, em grupo, como sempre se fez. Mas eu tinha pressa: minha mulher estava adoentada em casa, em Zumbi, e eu queria lhe levar o peixe fresco e um pouco de dinheiro para a farmácia.

— Pelo amor de Deus, Ariacó — disse o mais velho, segurando meu braço. — Olha que céu. Olha que lua. O lobisomem está esperando por você.

Eu ri. Ri da cara deles, ri da lenda, ri de mim mesmo, que era homem de mar e não tinha medo de mata. Joguei o saco de peixes nas costas e pus o pé na estrada carroçável.

A noite caiu como quem fecha uma porta. A lua cheia subiu enorme, branca e iluminava as copas dos Ipês. Eu caminhava no meio da estrada, sob as árvores, e cada passo meu levantava poeira que brilhava feito cinza. Foi quando comecei a escutar.

Um uivo. Longe, mas atravessando a mata inteira, como se a voz viesse de dentro da terra. Parei. Segurei o saco de peixes contra o peito. O uivo veio de novo, mais perto, e nesse instante as cigarras se calaram. Os grilos se calaram. Até o vento parou, e a mata inteira ficou muda, esperando.

Então a terra tremeu.

Não foi terremoto — foi como se a estrada respirasse fundo, um arrepio correndo do buraco até as minhas botas. Eu sabia o que ia acontecer antes de ver. O cheiro chegou primeiro: um fedor de mato podre, pelo queimado, sangue velho. E aí ele saiu do buraco, desfazendo a terra com as quatro patas, e a lua acendeu o pelo dele como se fosse prata escura.

Eu corri. Corri como nunca corri na minha vida, os peixes espalhados pelo chão, o coração batendo na garganta. A mata fechada não me ajudava — cada tronco de Pau Brasil era uma parede, cada Aroeira uma prisão, e a estrada ia me levando para a praia, porque o caminho de casa passava por lá. E foi isso que ele quis. Ele sabia disso.

Pisquei os olhos e a areia estava sob meus pés. A praia de Pititinga se abria, imensa e prateada, com as jangadas descansando na areia como bichos dormindo. Lá estavam os rapazes, os mesmos que me advertiram, amarrando suas redes, rindo à toa da minha coragem. Atrás de mim, o uivo veio de novo — e desta vez ele não estava mais na mata. Estava na areia.

A cena que se seguiu ficou gravada em mim para sempre. O lobisomem correu para eles como um raio, e eu vi a mão dele se fechar em garras, agudas como anzóis, abrindo o peito do primeiro pescador antes que ele tivesse tempo de soltar o pito. A pele do bicho é grossa, feita de couro e cicatriz, e o corpo todo é cabeludo, tão cabeludo que a lua brilhava em cada fio. Quando ataca, não há escapatória: ele derruba, ele morde, ele rasga, e o mar só ouve o som do que acontece na areia.

Eu não sei explicar por que sobrevivi. Só sei que, no momento em que ele ergueu a cabeça ensanguentada e me mirou, minha mão tocou naquilo que os velhos chamam de herança de pescador: a faca que guardo na cintura desde os doze anos, dada por meu pai, passada de avô para neto. Faca de prata, diziam. A gente só desconfia, mas eles sabiam.

Tirei a faca da bainha. O bicho parou. E neste — o único gesto que a lenda nunca explica — ele deu um passo para trás. Baixou o focinho. E virou-se, e correu de volta à mata,  desaparecendo no buraco. 

Faz vinte anos. Os pescadores de Pititinga, Zumbi e Maracajaú ainda não saem do mar quando o céu está redondo. Dizem que ele continua lá, dormindo no buraco da mata, comendo terra e raiz, esperando. E eu ainda caminho a estrada carroçável toda semana. Mas vocês vão me perdoar — o saco de peixes agora eu carrego numa mão, e na outra, embainhada e pronta, a faca de prata do meu pai.


Francisco Martins

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A PRAGA DA TUNÍSIA


Daniel trabalhava numa central de atendimento em Natal, num daqueles galpões onde o teto é baixo e as metas são altas. De fone de ouvido e roteiro na tela, falava com clientes de meio mundo: Portugal, Estados Unidos, Angola, Emirados. O serviço girava o planeta inteiro enquanto ele girava na mesma cadeira, em escalas de doze horas, com quinze minutos de almoço.

Era um serviço que desgasta a alma devagar. Os clientes nem sempre compreendiam — e nunca aceitavam o "não" como resposta definitiva. Queriam desconto que ele não podia dar, estorno que o sistema não liberava, milagre que não constava no roteiro. E quando a resposta era não, vinham os palavrões. Xingamento em inglês, praga em árabe, ofensa em crioulo. Daniel aprendeu a engolir sapo em três idiomas. À noite, não dormia. De dia, atendia com o coração na garganta. O coordenador, um homem que media a vida em segundos de ligação, só repetia: "Produtividade, menino. Sentimento é problema seu, resolve depois do expediente."

Foi numa dessas noites de turno invertido que a ligação veio do outro lado do mundo.

— Meu nome é Daniel, em que posso ajudá-lo? — disse ele, no inglês decorado de tanto repetir.

Do outro lado, um homem da Tunísia. Já era a sétima ligação dele — a cobrança indevida continuava no cartão, e o sistema, fiel ao sistema, continuava negando o estorno. O tunisiano falava rápido, nervoso, e Daniel repetia as frases de empatia que a empresa mandava repetir: "Eu entendo perfeitamente sua frustração, senhor." Só que ele não entendia. Não dá para entender quarenta minutos de raiva de dentro de um roteiro.

Quando o tunisiano percebeu que seu problema não teria solução — nem naquela noite, nem em nenhuma outra —, a voz dele mudou. Ficou baixa, pausada, de quem não está mais brigando: está sentenciando. E proferiu as palavras, devagar, sílaba por sílaba, como quem crava uma faca:

— Bi-soltán el-Djinn u bicôu-uét-hom, mas-rék bēsh iár-dja uách.

E desligou.

Daniel não conhecia o dialeto Derja. Até ali, a conversa tinha sido em inglês. Mas aquela pronúncia, vinda da África, atravessando o Mediterrâneo e o Atlântico para chegar ao fone de ouvido de um rapaz do Nordeste do Brasil, balançou as estruturas espirituais daquele jovem — se é que ele tinha alguma. Somente depois, Daniel viria a saber o que aquelas palavras determinavam: que um ser espiritual, um djinn, tinha ordem de caçá-lo e transformá-lo em fera. Mas naquela noite ele só sentiu o frio, e o fone queimando de um calor que não era de eletricidade.

Nos dias seguintes, o corpo começou a mudar.

Os pelos foram os primeiros: nasceram descontrolados, nas costas, no peito, nos braços. Daniel raspava de manhã e à tarde já estava coberto de novo. As unhas passaram a crescer num ritmo que não era de gente — precisava cortar todo santo dia, e mesmo assim rangiam no teclado. E o gosto pela comida mudou: o pão com ovo enjoou, o feijão virou pedra na garganta. O que o estômago pedia era carne crua. Vermelha, sangrenta, pulsando.

No espelho do banheiro da empresa, entre uma ligação e outra, ele jurou ver os caninos mais compridos. E nos corredores, começou a ouvir o latido dos cachorros da rua como se latissem dentro da sua cabeça.

O coordenador, claro, só viu o que interessava:

— Daniel, essa aparência não pode. Cliente não confia em gente desalinhada.

A empresa que o tratava como bicho estava reclamando do pelo.

Foi aí que Daniel lembrou da avó, lá do interior. Dona Zulmira, rezadeira, que benzia quebranto com café coado e fé de sessenta anos. Ele pegou o primeiro ônibus e foi.

A velha olhou para o neto, passou a mão no braço dele — no pelo que nascia — e não se assustou. Já tinha visto coisa feia na vida, mas nunca coisa tão triste.

— Isso aqui não é doença de corpo, meu filho. Isso é palavra com dente. Alguém te mordeu com a boca fechada.

Rezou. Benzeu com terço e com sal. Mas no meio da reza parou, olhou nos olhos do neto e disse a verdade que nenhuma reza diz em voz alta:

— Mas eu vou te falar uma coisa, Daniel. Essa praga só pegou porque você já estava sendo mordido todo dia. Fera não se faz com palavra de árabe não. Fera se faz com fome, com cansaço, com gente tratando gente como bicho e chamando isso de produção. Aquele homem só apontou o que já estava dentro de você, criando raiva no escuro.

Daniel pediu demissão na segunda-feira. O coordenador nem perguntou o porquê — só ficou contente de não pagar os dias que faltavam.

A cura veio devagar, como vem a doença. De volta à terra, dormindo noite inteira pela primeira vez em anos, comendo o bode guisado da avó — bem passado, com molho —, os pelos foram caindo, as unhas voltaram ao tamanho de mão de gente, e a carne crua deu lugar de novo ao café com açúcar da manhã. Em seis meses, o espelho mostrou de novo um homem. Um homem que acordava sem alarme e vivia sem fone de ouvido.

Dizem que em noites de lua cheia ainda se ouve um uivo na zona Norte de Natal. Mas quem conhece Daniel sabe que é lenda. Ele vive tranquilo, vendendo na feira, e só guardou um hábito estranho: nunca mais atende número desconhecido.

Porque fera, ele aprendeu, não é quem amanhece com pelo nas costas. Fera é quem faz do outro um bicho — e ainda cobra produtividade.

Francisco Martins

Imagem criada por IA.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

NÃO DEIXE DE LER ESTE CONTO DE TERROR: O LOBISOMEM DA PRAIA


 O escritor Francisco Martins vai publicar, nesse blog, o conto " O Lobisomem da Praia", no dia 23 de outubro. 

POEMAS EM 10 SALMOS - PARTE IV

 


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CENTELHA DE CORDEL

 

Uma casa como esta
Faz a gente se alegrar
Ninguém bate em sua porta
Querendo lhe perturbar
Tampouco chega a shopee
Com o bordão a gritar.

É um mundo isolado
Sem vizinho, sem barulho
Em cima somente o céu.
Muito alto pra mergulho
Quem esta mansão fez
Tem dinheiro e orgulho.

Mané Beradeiro
15 de outubro 2026

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

BRASÃO DO IHGRN EM QUILLING

 


Nesta obra, o artista Francisco Martins apresenta uma releitura do brasão do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), executada na técnica do quilling — também conhecida como filigrana de papel — na qual finas tiras de papel são enroladas, moldadas e coladas para formar relevos, texturas e volumes.

O brasão central reproduz os elementos da heráldica institucional: o barco à vela sobre ondas estilizadas, as duas palmeiras laterais, a estrela de cinco pontas no topo e a ornamentação de flores e folhagens na base. Cada elemento é construído com precisão: bobinas fechadas para as flores, a estrela e os detalhes do barco; bobinas soltas e moldadas em dois tons de azul para dar volume às ondas; e tiras franjadas para criar a textura orgânica das copas das palmeiras.

A paleta — azul do mar, verde das folhagens, marrom dos troncos e do barco, amarelo das flores — assenta sobre um fundo de papel marmorizado em tons de bege, que confere sobriedade ao conjunto. A moldura de madeira crua, de acabamento fosco, estabelece um contraste deliberado entre o rústico e o delicado, valorizando a fragilidade do material e o rigor do traço.

Assinada e datada pelo artista no canto inferior esquerdo, a peça une memória institucional e arte manual: o emblema centenário do Instituto ganha nova materialidade, em que o papel assume o lugar da tinta e do metal.

Ficha Técnica:
Filigranista: Francisco Martins
Obra: Brasão do IHGRN (releitura)
Técnica: Quilling ( filigrana em papel)
Dimensões: 26x34 cm
Moldura: Madeira crua, acabamento fosco
Ano: 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: 'EM NOME DO SERENÍSSIMO REI'


O livro foi escrito por Jean Fonseca Leite Nesi, lançado em 2026, tem 266 páginas e durante  três dias esteve em minhas mãos, sendo instrumento de boa leitura. Jean Fonseca parte de uma fato histórico e com base nele, desenvolve a construção do seu romance. O protagonista tem dezoito anos e recebe  dos seus pais a forte frase: "Então vai e vive o que nasceste para viver" (p.19).

O jovem vai atravessar o  oceano Atlântico, é o início do século XVI, ele se chama Antonio, mas seu nome vai ser mudado e passará a  ter outro significado. É uma história que envolve o leitor, rica em cultura. Tem  paginas recheadas de medo, insegurança, pavor, guerra, amor, família, culinária, canibalismo, etc. Vale a pena colocar esse título na sua lista de leitura.

O que aconteceu com Antonio?

Qual foi a grande mudança na vida dele?

Ele voltou a rever seus pais?

Essas e outras perguntas terão suas respostas na história "Em nome do Sereníssimo Rei", livro que veio para ficar entre os melhores romances históricos da literatura potiguar. Parabéns à escritora.

Francisco Martins

14 de outubro de 2026.