terça-feira, 10 de março de 2026

O CONCLAVE DOS NARIZES

 



Que rufem os tambores – ou melhor, que se agucem as narinas! Era o dia da "Reunião Anual dos Narizes de Especialidade", um evento tão peculiar que nem a Sociedade Internacional de Otorrinolaringologia tinha coragem de endossar. Na mesa redonda (na verdade, uma mesa de bilhar adaptada), os mais distintos órgãos olfativos do país se reuniam para discutir suas proezas e, claro, cheirar uns aos outros.

O primeiro a se pronunciar, com uma delicadeza quase etérea, foi o Nariz do Ginecologista. "Caros colegas," começou ele, ajustando seus óculos invisíveis, "minha especialidade exige uma sensibilidade ímpar. Sou perito em desvendar mistérios ocultos, em decifrar mensagens sutis onde outros apenas sentiriam... bem, digamos, a complexidade da vida. Meu trabalho é como ser um detetive de aromas íntimos, sempre em busca da harmonia, ou da sua ausência." Ele fez uma pausa dramática. "E sempre, sempre com o máximo de discrição."

Em seguida, irrompendo com uma alegria terrosa, veio o Nariz do Jardineiro. "Ah, discrição é para os fracos!" exclamou, com um leve rastro de adubo. "Eu sou o poeta da podridão, o maestro da matéria orgânica! Conheço o cheiro da terra úmida antes da chuva, o aroma da flor desabrochando e o lamento do fungo que se apossa do roseiral. Meu nariz é uma enciclopédia viva de cheiros verdes, flores e, sim, do cocô de galinha que faz a vida brotar! Sem mim, o mundo seria um canteiro sem graça!"

O Nariz do Padeiro, ainda com uma pontinha de farinha no septo, soltou um suspiro de êxtase. "Verdes? Flores? Desculpem a franqueza, mas nada se compara ao néctar divino do fermento ativando! Eu sou o guardião do pão nosso de cada dia! Meu olfato distingue o trigo sarraceno do integral, o ponto exato da massa que cresce e o cheirinho de queimado que indica que o cliente vai reclamar. Sou um alquimista de fragrâncias douradas, do doce do croissant ao rústico do pão de centeio. Minha vida é uma sinfonia de forno e delícia!"

Um nariz pequeno e encurvado, com uma leve coloração de tinta de jornal, pigarreou. Era o Nariz do Leitor. "Eu sou o portal para mundos infinitos", disse ele, com uma voz um tanto empoeirada. "Consigo sentir o aroma de uma biblioteca antiga, com suas histórias adormecidas em pergaminhos, ou o cheiro fresco de um livro recém-impresso, prometendo novas aventuras. Percebo o café derramado na página 73, o cheiro de maresia de um romance de piratas e até o resquício de lágrimas em um drama romântico. Meu nariz lê as entrelinhas invisíveis de cada narrativa!"

Um silêncio constrangido pairou no ar. Então, um nariz gordo, com um brilho suspeito e um leve aroma de uísque barato e charuto, inclinou-se à frente. Era o Nariz do Político Corrupto. Ele limpou a garganta, um som que parecia raspar notas de dinheiro. "Amigos e... bem, colegas," começou ele, com um sorriso afetado, "todos vocês têm talentos louváveis. Mas o meu nariz? Ah, o meu nariz é o mais pragmático de todos. Ele fareja o dinheiro a quilômetros de distância, detecta o cheiro de um contrato superfaturado antes mesmo de ser assinado, sente a oportunidade em cada crise. Ele distingue o aroma do suborno disfarçado de 'doação de campanha' e o cheiro do medo nos olhos do eleitor. E o melhor de tudo? Ele é totalmente imune ao cheiro de ética ou moralidade. Não perco tempo com isso, sabe? Meu foco é no aroma inconfundível do lucro fácil."

Os outros narizes se encolheram, alguns com nojo, outros com uma pontinha de inveja secreta. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o Nariz do Jardineiro sentiu o cheiro de algo podre, mas não era de adubo. Era o cheiro da pura e inabalável... corrupção.

Mas, antes que a reunião pudesse terminar em total desânimo, um pequeno e curioso nariz, que até então estava observando com olhos arregalados, levantou-se com entusiasmo. Era o Nariz da Criança. Sua voz, fina e clara, cortou o ar viciado. "Eu... eu gosto de cheirar o cheiro de bolo de vó, sabe? E o cheiro do meu cachorrinho depois do banho! E o cheiro de terra molhada quando a gente faz castelo de areia!" Seus olhos brilhavam. "Mas o que eu mais quero é sentir o cheiro de um mundo que não tem cheiro de coisa feia, nem de briga. Um mundo que cheire a flor, a pão quentinho e a abraço de mamãe. Um mundo só de cheiro bom!"

Os narizes mais velhos se entreolharam, alguns com um pingo de vergonha, outros com um raro vislumbre de esperança. O cheiro de um mundo só de cheiro bom... Aquele pequeno nariz, com sua inocência e anseio, de repente fez todos os outros narizes, por um breve instante, questionarem o que realmente valia a pena farejar.

E assim terminou a reunião, com cada nariz voltando para suas respectivas rotinas, cada um com sua peculiar habilidade olfativa. Mas, ao passarem pela porta de saída, todos foram surpreendidos por um aroma diferente, que os envolveu como um abraço invisível. Ali, discreto, estava um Nariz que Cheirava Amor e Perdão. Não falava, não se gabava, apenas exalava uma fragrância suave de aceitação e de renovação. E, enquanto cada nariz seguia seu caminho, aquele aroma os acompanhava, ensinando-lhes, silenciosamente, que a arte mais nobre de todas era a de sentir e espalhar os cheiros que curam a alma.

 

Francisco Martins

9 de março 2026


segunda-feira, 9 de março de 2026

domingo, 8 de março de 2026

ANRL - 90- ANOS - CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA LITERARIA - EDIÇÃO 005 - A CARTA DE AUGUSTO SEVERO


Augusto Severo

Aos 23 anos, Augusto Severo  escreveu a carta abaixo.  Uma linda peça literária, Digna de ser conhecida por todos. Trago-a, hoje, dentro da série "ANRL-90 ANOS", homenageando na pessoa de Maria Amélia, todas as mulheres. Augusto Severo é patrono da cadeira 18, na ANRL.

Maria Amélia (1861-1896)


    " Guarapes, 9 de dezembro de 1887.

Exma. Sra. Inês Perpétua Teixeira de Araújo

Minha Senhora:

Peço-lhe vênia para ir a sua presença tratar do que hoje mais profundamente me interessa, eu que não posso apresentar títulos que me recomendem perante a Sra., nem mesmo os de um ligeiro conhecimento pessoal. Vi-a, é verdade, tive o prazer de lhe ser apresentado em abril de 1885, em casa do meu cunhado Jovino, mas então nem sonhava que tivesse de pedir-lhe, de implorar-lhe o que ora peço e imploro.

Como recomendação única, levo o mais nobre, o mais santo de todos os sentimentos – flôr do céu a que Deus permitiu a vida na terra – o Amor. Inspirou-mo grande e casto, sua boa filha D.ª Maria Amélia; tão grande, tão puro que já não poderei viver sem êle.

Peço-lhe pois, a mão d’ela para a minha felicidade, porque cifra-se em sua doce posse a realização do mais risonho do único risonho de todos os meus sonhos, o alento para as boas inspirações, inspirações de minh’alma sem a qual, sinto que morrem.

Peço-lhe, de joelhos minh’alma como implorando o céu, que dê o seu consentimento partido do coração, que me aceite a mim por filho, a mim que quase desconhece mas que lhe juro com a consciência branca, não se envergonhará de ter-me por tal. De meu pai que a Sra. conhece e de minha santa mãe tenho a plena aprovação; d’êles que de havê-la por filha hão de orgulhar-se, com o orgulho que não macula, que é antes um bom sentimento quando não leva o egoísmo, porque lhe reconhecem tôdas as virtudes – flôres d’alma que na terra só é dado possuir a mulher perfeita.

Pela precipitação da viagem de meu pai, não o incumbi de por mim pedir a Sra. o que agora pedi; não me arrependi porém, porque não me podia fazer conhecer mais do que sou e eu, só eu devia pedir a minha felicidade.

Eu devia apresentar-me pessoalmente para êste fim do qual está pendente tôda a minha felicidade, o meu futuro inteiro, mas sou empregado em uma casa comercial onde me prendem obrigações tão mais fortes porque estamos agora em meio de safra principalmente não tendo como não tenho por ora, um imediato que me substitua por alguns dias.


Poderia ir em abril quando pretendo, mas não teria fôrça bastante para conservar até lá, calcado no coração o sentimento que precisa do seu consentimento para não explodir.

Por Deus minha Senhora, espero que me dará posse da felicidade. Se não fôsse impelido pela grande fôrça que rege o movimento dos corações, não me afoitaria a tanto!

Junto uma carta para cuja entrega peço-lhe permissão. Suplico-lhe que me responda na primeira mala, que pela resposta fica ansioso meu coração.

Como meu único advogado, o Amor – o sempre grande o Amor – o sempre casto.

Creia minha Senhora (autorize-me a chamar-lhe mãe; como então eu serei feliz!).

No profundo respeito que lhe consagra e na lealdade de quem só pode ser feliz com a dôce posse de sua querida filha D.ª Maria Amélia”.


FONTE: Revista da ANRL, nº 7, p. 9 a 11.

terça-feira, 3 de março de 2026

ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS EDITAL ANRL Nº03 DE 24.02.2026.




 Em observância ao disposto no art. 19, alínea “a” do Regimento Interno e por determinação do Presidente da ANRL comunico que foi proclamada vaga a cadeira 11 (onze) desta Instituição, que tem como patrono Padre João Maria e como último ocupante, o acadêmico Paulo de Tarso Correia de Melo. As pessoas interessadas a concorrer à cadeira referida devem apresentar no prazo de 30 (trinta) dias a contar da data da publicação do presente Edital, (conforme Resolução nº 01/2023, de 28.03.2023, mediante requerimento com os seguintes documentos: Curriculum Vitae atualizado e exemplares de suas obras publicadas em forma de livro individual, que serão remetidos à Comissão de Inscrição e Ética, para os fins de direito. Natal RN, 24 de fevereiro de 2026. Acadêmica Leide Câmara Secretária-Geral


Publicado no Diário Oficial do Estado, edição 27 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

ASSIM DISSERAM ELES ....

 


"Saudade é emoção que a alma renova com alegria, com tristeza e com suave ternura. É, entretanto, em todos os casos, uma ausência e uma falta que nos comove o coração"

Onofre Lopes

CENTELHA DE CORDEL

 

São cinco da madrugada,
Canta o galo no poleiro
O poeta sai de casa
Pro trabalho, bem ligeiro
Por ser hoje, quinta-feira,
O dia será maneiro.

Mané Beradeiro
26 fevereiro 2026

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ACADEMIA DE LETRAS DECLARA VAGA A CADEIRA 11 QUE PERTENCEU AO POETA PAULO DE TARSO

 A cadeira 11 da Academia Norte-rio-grandense de Letras está desde a tarde de ontem, oficialmente declarada vaga. Isso acontece dentro do ritual das academias, quando a instituição realiza a sessão saudade, também chamada de necrológio.


Paulo de Tarso Correia de Melo era quem ocupava a cadeira 11. A oradora de ontem, foi a acadêmica Diva Cunha, que leu um discurso sobre a vida e obra literária do seu colega e amigo. Paulo de Tarso foi o imortal que saudou Diva Cunha, quando ela entrou na ANRL.


Após a fala da oradora, o irmão do  homenageado, Geraldo  José Correia de Melo, agradeceu em nome da família.  a sessão saudade foi realizada no Salão de Eventos da ANRL, e contou com a presença de 50 pessoas.




CEC/RN RECEBEU PASTAS EM COURO - FEITAS PELO SECRETÁRIO

 

Francisco Martins, que entre tantas outras coisas, é também artesão, aproveitou o período do Carnaval e confeccionou pastas em couro, para o Conselho Estadual de Cultura-CEC/RN, onde ele trabalha na função de secretário. As pastas foram todas feitas manualmente e personalizadas com a bandeira do CEC/RN e o nome do Conselheiro ou Conselheira. A entrega aconteceu na tarde de ontem, por ocasião da primeira sessão ordinária de 2026.












CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA REALIZOU ONTEM A PRIMEIRA SESSÃO DE 2026

Ontem, 24 de fevereiro, o Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte -CEC/RN, retomou suas atividades. A primeira sessão do ano contou com a presença de 99% dos Conselheiros e Conselheiras. Atualmente são 16 pessoas que integram o colegiado, que está assim constituído:


1) Valério Alfredo Mesquita - Presidente

2) Eulália Duarte Barros - Vice-Presidente

3) Joventina Simões Oliveira - membro nato - IHGRN, representada por Armando Holanda

4) Diogenes da Cunha Lima - membro nato - ANRL - representado por Leide Câmara

5) Mary Land Brito - membro nato - SEC - representada por Rosa Moura

6) Gilson Matias - membro nato - FJA - representado por Ailton Medeiros

7) Cícero Macedo

8) Hermano Machado

9) Diva Cunha

10) Sonia Faustino

11) Antonio Gentil

12) Ivan Lira de Carvalho

13) Manoel Onofre de Sousa Neto

14) Josimey Costa da Silva

15) João Batista de Morais Neto

16) Rejane de Souza


O CEC/RN funciona em salas alugadas pelo estado, no prédio da Academia Norte-rio-grandense de Letras,  Rua Mipibu, 443, bairro Petrópolis, sendo as sessões nos dias de terças-feiras, sempre das 16 às 17 h. 




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026