quinta-feira, 14 de maio de 2026

A CARTA DE NICE

O leitor — chamemos-lhe apenas leitor, pois o nome não importa agora — estava folheando um livro, quando sua mão encontra um envelope de carta, internacional. Isso lhe chamou a atenção, afinal, em 2026, tempo de whatsApp, e-mails, redes sociais, não há mais espaço para cartas.

O envelope trazia as cores branca, vermelha e azul. O selo dizia o país de origem: República Francesa, e o carimbo dos Correios — nítido, perfeito, como se o tempo tivesse respeitado aquele 30 de setembro de 1972.

Pegou o envelope com cuidado, quase com reverência. O papel era fino como as asas de uma libélula. O remetente: Jean-Luc Moreau, 14, bis Rue de la Buffa, 06, Nice, França. O destinatário: D. Isabel de Holanda Cavalcanti, Rua General Câmara, 67, Natal-RN, Brasil.

Percebeu que estava aberto, dentro, a carta, escrita numa caligrafia inclinada à direita, firme como quem não hesita, e ao mesmo tempo trêmula nos contornos, como quem escreve sob o peso de algo que aperta o peito.

O leitor  pensou se deveria ler a correspondência que não lhe pertencia, endereçada a uma mulher que, muito provavelmente, já não estava entre os vivos. Cinquenta e quatro anos se passaram. Mas a curiosidade foi maior e  ele puxou aquela folha única.

 A tinta era escura, um azul-petróleo, e as letras pareciam ter sido feitas com uma caneta-tinteiro que ora soltava mais tinta, ora menos — como o fôlego de alguém que corre e para, corre e para.

O leitor sentou-se no banco de madeira do sebo e começou a ler.

Nice, 28 de setembro de 1972

Cara Senhora Isabel,

Há três semanas tenho sonhado com a senhora. Não sei quem é, nunca a vi, nunca ouvi seu nome antes. Mas nos meus sonhos a senhora está sentada numa sala de paredes altas, cheia de livros, com uma janela que dá para um jardim — e lá fora uma jaqueira imensa. A senhora veste um vestido escuro e lê em voz alta, mas não consigo ouvir o que diz.

No sonho, sempre olho para suas mãos. A senhora segura um objeto pequeno e prateado — um prendedor de cabelos, talvez, ou um broche. E há algo errado com a luz. A luz da sala vai ficando alaranjada, depois vermelha, e o ar fica pesado. A senhora não percebe, mas eu percebo. E grito, mas a senhora não me ouve.

Acordo com o coração disparado e a sensação de que preciso impedir algo que já está em movimento.

Ontem à noite, o sonho mudou. Vi números — 29, 30, 1. Vi um jornal, a data de outubro. E vi a senhora caída, a cabeça tocando o assoalho, a mão ainda segurando o broche. Havia fumaça.

Não sei se sou louco. Não sei se isso que escrevo é loucura. Mas passei a manhã na prefeitura de Nice, conferindo listas de passageiros, endereços, consulados. Descobri que a senhora existe — uma professora de literatura brasileira, que esteve em Aix-en-Provence em julho passado, num congresso. Deram-me seu endereço em Natal.

Pensei em não escrever. Pensei em rasgar esta carta. Mas a imagem da senhora caída naquela sala não me sai da cabeça.

Não sei o que vai acontecer. Só sei que acontece em outubro. Nos primeiros dias. E tem a ver com fogo. A senhora tem uma jaqueira no quintal?

Com todo o respeito e toda a estranheza que esta carta lhe causa,

Jean-Luc Moreau

O leitor levantou os olhos do papel. àquela hora da tarde, com a luz dourada entrando pela porta de vidro fosco. Respirou fundo.

Guardou a carta dentro do livro. Nos dias seguintes, a carta não lhe saía do pensamento. Quem era Isabel de Holanda Cavalcanti? O que teria acontecido naqueles primeiros dias de outubro de 1972? E, acima de tudo — ela teria recebido a carta a tempo?

Começou a pesquisa por onde qualquer um começaria: a internet. Isabel de Holanda Cavalcanti, professora universitária, Natal. Não foi difícil. Encontrou um verbete no site da Academia Norte-Riograndense de Letras: Isabel de Holanda Cavalcanti (1921-1972). A data de falecimento o fez parar. 3 de outubro de 1972. Três dias depois do carimbo no envelope.

O coração do leitor bateu mais forte. Leu o resto do verbete com os olhos queimando: Faleceu em decorrência de um incêndio em sua residência, na Rua General Câmara, 67. Professora de Literatura de Língua Portuguesa da UFRN, deixou vasta obra crítica...

Incêndio.

 A palavra ficou pulsando na tela. O leitor fechou o navegador, abriu a gaveta onde guardara o envelope azul. Tirou a carta com cuidado. Leu-a de novo, devagar. A luz da sala — alaranjada, depois vermelha. A fumaça. A jaqueira no quintal — será que existia?

 A carta saíra de Nice no dia  30. Voara da Riviera Francesa até o Rio Grande do Norte. Se tivesse chegado no dia 2 ou 3 de outubro, teria sido tarde demais? Ou teria chegado antes, e Isabel a lera — e não dera importância?

O leitor passou o polegar sobre a assinatura de Jean-Luc. Um homem jovem, francês, que tivera visões. Que tentara avisar uma mulher que não conhecia. Que escrevera uma carta do outro lado do Atlântico para impedir uma tragédia.

 E que, muito provavelmente, nunca soube se ela chegou a ler.

 

Francisco Martins
13 de maio de 2026

Ilustrações criadas por IA.

 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

COMO NASCEU O CONTO " A CARTA DE NICE"

 



 Encontrei este envelope em um livro. Não havia nada dentro dele, mas sabemos que ele foi portador de uma carta para alguém que morava em Natal, que seu remetente morava  na cidade de Nice, França e que foi postado em 30 de setembro de 1972. Isso atesta que já se passaram 53 anos. Fiquei pensando que essas informações poderiam me render um conto.  Foi o suficiente para que a ideia começasse a dar seus saltos em minha mente, como bem  escreveu Machado de Assis: "Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te."

Não permite ser devorado e dei corpo a ideia, trouxe personagens, história, sentimentos, o resultado é que na manhã de hoje eu escrevi "A Carta de Nice". 


Francisco Martins




Memórias Póstumas de Braz Cubas,  Capítulo 2, O Emplasto.

SESSÃO DO CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA TEVE A PRESENÇA DE GUSTAVO ROSADO

 Na tarde de ontem, o CEC realizou a sua XIª sessão ordinária, sob a presidência do Conselheiro Valério Mesquita. A reunião teve a participação do Doutor Gustavo Rosado, Secretário de Estado da Infraestrutura.

 O Secretário Gustavo Rosado falou sobre o trabalho realizado nas praças públicas de Natal. que foram revitalizadas e estão sendo entregues à Prefeitura de Natal.  A sessão teve a participação dos seguintes componentes do Conselho: Leide Câmara, Rejane de Souza, Mary Land Brito, Manoel Onofre, Armando Holanda, Gilson Matias, Cícero Macedo, Diva Cunha, Sonia Faustino, Josimey Costa, além do Presidente Valério Mesquita e da Vice presidente  Eulália Duarte Barros.



terça-feira, 12 de maio de 2026

VOCÊ SABE A RESPOSTA?


 Responda se souber: Quem foi  a primeira mulher, personagem de ficção literária potiguar, vítima de assassinato? Diga o nome, o autor e a obra. Você concorre a um kit de livros. Comente aqui. O prazo é até o dia 30 de junho de 2026

quinta-feira, 7 de maio de 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS : "PERTO DA MEIA-NOITE"

 

"Perto da Meia-Noite" é um daqueles livros que o leitor tem a sensação de que está lado a lado com o narrador, dentro das próprias páginas. E, quando o autor é Josué Montello, melhor ainda, pois seu estilo é cativante. Comecei a ler o romance na última semana de abril e terminei ontem, 6 de maio.  
Tem menos de 300 páginas, poderia ter lido em dois dias no máximo, mas optei por uma leitura vagarosa, grande parte dela, deitado numa rede, hora ouvindo o barulho do mar de Maracajaú, ou então, no alpendre da minha casa, em Parnamirim, à noite, em outra rede, dividindo a leitura com a chuva e os  patos.
Daniel, Glorinha, Dr. Teixeira formam o tripé dessa história, mesclada com parte fictícia e outras reais. Um drama, onde o conflito central é bem construído. A prosa de Josué Montello, nesse livro, traz também características biográficas do autor, ele, sendo narrador, aluno de Daniel e colega de Glorinha, abre-se para o leitor,  falando da sua puberdade e o início da vida literária.
Recomendo a leitura, foram 19 anos de maturação até o livro ser concluído.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

ASSIM DISSERAM ELES ...


"Todo caminho que trilhamos pela primeira vez é muito mais longo do que o mesmo caminho quando já o conhecemos"

Thomas Mann, em "A Montanha Mágica" 

DIMENSÕES DA CONDIÇÃO FEMININA NA POESIA DE MYRIAM COELI

 



                                                               
 Paulo de Tarso Correia de Melo


A literatura escrita por mulheres tem tradição no Rio Grande do Norte. Na “História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins, Nísia Floresta é localizada como a primeira romancista nacional. Segue-se a ela, no início deste século, Auta de Souza, também editada em Paris, prefaciada por Olavo Bilac e Alceu Amoroso Lima. Apontada por Jackson de Figueiredo como “a maior poeta mística do país”, conta, ainda em nossos dias, com uma invejável forma de consagração popular, quando aparece pretensamente psicografada pelo Brasil afora, em recantos distantes do seu Rio Grande do Norte.

Pelos meados deste século, a tradição continua, e começo eu a ser testemunha ocular desta história. Tive a adolescência iluminada pelo incomparável azul dos olhos de Madalena Pereira. Nos limites dos bairros de Petrópolis e Tirol, morava Palmyra Wanderley, premiada pela Academia Brasileira de Letras. Nas proximidades, também morava eu e a encontrava em seus passeios matinais, quando as acácias floriam. Antes disso, Zila Mamede, amiga de minha mãe e, consequentemente, minha amiga pelo resto de sua vida, ajudara a bordar minhas roupas de recém-nascido. Paguei-lhe trinta anos depois, escrevendo a introdução às suas obras completas. Na juventude, Myriam Coeli e Celso Silveira, foram alguns dos irmãos mais velhos que não tive. Diva Cunha, colega de faculdade, casou com meu amigo mais fraterno. Hoje, ao lado de Nivaldete Xavier, Marise Castro e Iracema Macedo, conta-se entre amigas e companheiras de ofício. Conheço, portanto, bem de perto, uma boa parte da melhor literatura escrita por mulheres no Estado e hoje é de Myriam Coeli, tão oportuna e merecidamente homenageada pela AJEB, que devo e quero falar.

Myriam Coeli de Araújo Dantas da Silveira nasceu, por acaso, em Manaus, Amazonas. Aos dois meses de idade, por morte de seu pai, José Silvino de Araújo, a família retorna a São José de Mipibu, na região do agreste norte rio-grandense. Apesar disso, sempre que leio as suas odes, pergunto-me se a amplidão do pensamento poético e a largueza do verso não têm algo a ver com a impressão de ter nascido rodeada pela floresta amazônica.

No Grupo Escolar Barão do Mipibu, Myriam faz o curso primário. Em seguida, vem para Natal, para o colégio de belo nome, o Atheneu, primeiro ginásio do Brasil, fundado em 1825, onde faz ginasial e clássico. Ao terminá-los, Natal ainda não contava com universidade. Transfere-se para Recife, onde, na Faculdade de Filosofia São José, das Dorotéias, gradua-se em Letras Neo-Latinas. Em 1954, bolsista do Instituto de Cultura Hispânica, diploma-se pela Escola Oficial de Jornalismo de Madrid, tornando-se a primeira mulher no Estado a ter curso de Jornalismo, o que faz indispensável a homenagem que lhe presta, nesta semana, a Associação das Escritoras e Jornalistas do Brasil.

De volta ao Estado, casa-se com Celso Dantas da Silveira, com quem tem dois filhos: Christiana Coeli e Eli Celso. Além da poesia, dedicou sua vida às duas atividades para as quais havia se preparado, o magistério e o jornalismo. Volta ao Atheneu para ensinar Língua Latina e Literatura Portuguesa; Língua Francesa no Colégio Municipal João XXIII, Língua e Literatura Portuguesa na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, História da Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia e História da Imprensa na Faculdade de Jornalismo. Invejo todos e cada um dos alunos que se encontram com a sua sabedoria mansa, com a sua paciente ternura.

  Myriam Coeli trabalhou em todos os jornais da época - Tribuna do Norte, Diário de Natal e A República - e foi a primeira jornalista profissional do Estado a dar plantão em jornal. Conheci-a com pouco tempo de casada. Não morava ainda na casa bonita da Alexandrino, mas na Rua São Tomé, exatamente por trás do jornal A República. Fantasio o retorno do plantão. Myriam saindo do prédio d’A República, subindo um quarteirão, sem mudar de calçada, pela Juvino Barreto, na calma noite da Ribeira da época, dobrando a esquina da São Tomé e avistando Celso esperando na frente de casa, Christiana e Eli já adormecidos. Eu sempre tive a impressão que, como Swedenborg, vez por outra ela se atrasava, conversando com os anjos entre as duas esquinas do pequeno percurso enluarado.

Para falar da poesia de Myriam Coeli, em uma conversa de poucos minutos, começo dizendo que foi e continua sendo a mais universal das nossas poetas. Já se registra em  Imagem Virtual, seu primeiro livro, lançado em parceria com Celso, em 1961: “A Europa empresta ao seu trabalho poético uma forma e sentido mais amplos.” Exemplo disso é o último poema do livro, Carta a Gagarin, onde Myriam mistura magistralmente a “frágeis esperanças do cotidiano”, o fato universal.

   Camarada,

   a emocionada mão que te saúda

   deste pedaço da América

é pura e suave;

as palavras que escrevo

para exaltar a tua aventura pelo espaço

quero-as simples e antigas

como as canções com que adormeço minhas crianças;

e dizer com elas - as palavras purificadas -

que trouxeste profunda alegria

por sabermos - poetas que somos - transitórios em terra azul e imatura:

por sabermos - artesãos que somos - do futuro de nossos filhos

nesta contrastante terra azul que teus humanos olhos viram.

Nós, teus irmãos de origem, te agradecemos

o que nos revelaste: do céu escuro, do sol brilhante e estrelas

e agradecemos as paisagens que viste e a mensagem azul que delas irradiaste

para as nossas frágeis esperanças do cotidiano

e nos orgulhamos de ti, profundamente;

-todos de nossa casa, de nossa cidade, dos quatro cantos do mundo,

todos que lutamos, que sofremos, que temos parcas alegrias e carregamos     esperanças

todos nós que temos no peito canções e braços de berço

e nos alimentamos de azul;

todos em qualquer situação ou latitude,

nos apontamos a mão e te brindamos o nosso abraço, um largo e caloroso abraço.

E mais te oferto: a úmida ternura

que pressinto brilhar nos olhos de meus filhos Christiana Coeli e Eli Celso

quando eu canto para adormecê-los.


O trabalho poético extremamente cuidadoso de Myriam, faz com que, embora publicando constantemente em jornais e revistas literárias, antes da publicação do primeiro livro e entre o primeiro e segundo, se estabeleça um intervalo de vinte anos entre Imagem Virtual e Vivência sobre Vivência. Neste segundo livro, dividido em Livro de Odes e Cantos de Oferta e Servidão, a poesia de Myriam se agiganta, “ganha aquela altura da poesia em que nada existe a acrescentar”, como disse no prefácio Luís Carlos Guimarães. Exemplo disso é o poema Arquitetura.


No seu covil

de barro e vidro

com artefatos

mecanizados,

se agita o homem

o branco enigma

de deus amalgama.

E tem a vida 

árvore amarga

frutificada

no corpo e fala.

Se chama acende

de espera e sonho

há insone grito

em suas cavas.

A vida o prende

em suas malhas

de frágeis lãs

-obreira sábia

que a teia tece

com murchas mãos

tácito enleio

de céu no lodo

no instante breve

dentro do nada.


Lembro uma reunião em casa de Diógenes da Cunha Lima, imediatamente após o lançamento de Vivência sobre Vivência, engenhoso desde o título. Sentei-me ao lado de Myriam e falei com entusiasmo da depuração de sua poesia, parecendo que o sofrimento físico a fazia melhor, desde que já a consumia nesta época o câncer que a levou e que ela enfrentava corajosamente. No meio da conversa, com a modéstia que sempre lhe marcou, Myriam escapou aos elogios com uma nota bem-humorada:

-Pare, Paulinho, ou daqui a pouco você vai me desejar que piore de saúde para escrever mais bonito.

Eu não desejei, não poderia nunca, mas aconteceu.

Cantigas de Amigo, o terceiro livro de Myriam, mereceu o Prêmio Municipal de Poesia Otoniel Menezes e tem como prefácio dois belíssimos poemas-autógafos de Stella Leonardos. Neste livro, Myriam demonstra todo seu conhecimento das raízes da poesia de língua portuguesa, numa reconstrução da tradição somente comparável às alturas de Cecília Meireles e da própria Stella.


Neste engano que é o tempo

Eu caminho. Eu me colho.

Meu trovar, travo, recolho.

Ferida viva eu me aguento.


Neste desdouro eu me encontro

E teço minha parábola

Em tear de silêncio e sôbola

Que, tecendo em nu, confronto


Com que sem ser, poderia.

Assim caminho, assim canto.

Amor, pena que descanto

Que amante só ousaria.


Agradeço a oportunidade que a AJEB me oferece, motivando-me a escrever um pouco sobre Myriam Coeli, coisa que ainda lhe devo, um estudo aprofundado de toda obra, à semelhança dos que fiz para Zila Mamede, Sanderson Negreiros, Luís Carlos Guimarães e Deífilo Gurgel. Em relação à poeta, não me satisfazem a introdução que fiz para sua póstuma fortuna crítica Ave Myriam e umas quadras tortas que escrevi para uma coletânea lançada na ocasião em que completaria 70 anos. Ainda não é desta vez que faço o estudo pretendido, mas quis aproveitar o momento para dar uma amostragem dirigida da poesia de Myriam. O Carta a Gagarin é poema de poeta mãe cidadã do mundo. Arquitetura é poema de mulher poeta metafísica do mais alto nível. O poema XXIII de Cantigas de Amigo é de mulher poeta amante, como o é o livro em sua totalidade. Quero encerrar com Variações para Rondó, dedicado a sua avó Maria Carolina, peça de seu precioso Inventário, Prêmio Estadual de Poesia - 1981 - da Fundação José Augusto, publicado postumamente. O poema é uma arqueologia da condição tradicional da mulher na sociedade brasileira. Terno, doce e bem-humorado, como era Myriam.


De compostura conventual,

a avó que foi sinhá

e as avós da avó

sentam-se em longas mesas

cobertas de linho branco de delicados bordados.


Tão meninas e tão barrocas,

metidas em tantas roupas

sobrando nos sofás.


De velhas estórias que se guardam, ficaram as avós

como a lenda na lembrança,

deixando-se servir por negras de África,

em porcelanas de Inglaterra e França.

Porque de sins serviam a seus senhores.


Tão meninas e tão barrocas

metidas em tantas roupas

viviam essas sinhás.

Para os folguedos não esquecidos

da quadra infantil,

nas grandes salas, valsas de piano ressoavam,

o riso, o choro de crianças

e os embalos das mucamas.


Essas meninas barrocas

lembraram suas bonecas

esquecidas nos sofás.


Tinham os gestos breves das polcas e minuetos

deslizantes em salões de pinho de Riga - pés gracis;

e os falares intrigantes, embora de amor constante.

Nas cabeças inquietas, sonho que desatina.

O sorriso se escondia por trás de leques da China.


Tão meninas e tão barrocas,

de graça muita, alegria pouca,

suspiravam essas sinhás.


Tão românticas passaram em varandas patriarcais

de apuradas formas de ânforas, rosetas e flor-de-lis

e em lembranças se arrumaram

assim em retratos, de golas altas e cabelos em bandós,

ornatos de colares de ouro, e pedrarias;

tão infantas, Deus meu, mas tão matriarcais,

tão sós e tão serenas em suas entampas retocadas,


tão meninas e tão barrocas,

enfatuadas com tantas roupas,

rendado nos sofás,


que hoje para esta avó de avoengas sinhás

o meu beijo dirijo, assaz respeitoso,

neste século XX desgracioso,

sem dengues, sem leques,

sem doçuras de sinhás.


Ah! quem nos dera assim meninas tão barrocas,

vestidas naquelas mesmas roupas

arrumadas nos sofás!



                                                                                    Natal, 19/11/97.