Que rufem
os tambores – ou melhor, que se agucem as narinas! Era o dia da "Reunião
Anual dos Narizes de Especialidade", um evento tão peculiar que nem a
Sociedade Internacional de Otorrinolaringologia tinha coragem de endossar. Na
mesa redonda (na verdade, uma mesa de bilhar adaptada), os mais distintos
órgãos olfativos do país se reuniam para discutir suas proezas e, claro,
cheirar uns aos outros.
O
primeiro a se pronunciar, com uma delicadeza quase etérea, foi o Nariz do
Ginecologista. "Caros colegas," começou ele, ajustando seus
óculos invisíveis, "minha especialidade exige uma sensibilidade ímpar. Sou
perito em desvendar mistérios ocultos, em decifrar mensagens sutis onde outros
apenas sentiriam... bem, digamos, a complexidade da vida. Meu trabalho é como
ser um detetive de aromas íntimos, sempre em busca da harmonia, ou da sua
ausência." Ele fez uma pausa dramática. "E sempre, sempre com o
máximo de discrição."
Em
seguida, irrompendo com uma alegria terrosa, veio o Nariz do Jardineiro.
"Ah, discrição é para os fracos!" exclamou, com um leve rastro de
adubo. "Eu sou o poeta da podridão, o maestro da matéria orgânica! Conheço
o cheiro da terra úmida antes da chuva, o aroma da flor desabrochando e o
lamento do fungo que se apossa do roseiral. Meu nariz é uma enciclopédia viva
de cheiros verdes, flores e, sim, do cocô de galinha que faz a vida brotar! Sem
mim, o mundo seria um canteiro sem graça!"
O Nariz
do Padeiro, ainda com uma pontinha de farinha no septo, soltou um suspiro
de êxtase. "Verdes? Flores? Desculpem a franqueza, mas nada se compara ao
néctar divino do fermento ativando! Eu sou o guardião do pão nosso de cada dia!
Meu olfato distingue o trigo sarraceno do integral, o ponto exato da massa que
cresce e o cheirinho de queimado que indica que o cliente vai reclamar. Sou um
alquimista de fragrâncias douradas, do doce do croissant ao rústico do pão de
centeio. Minha vida é uma sinfonia de forno e delícia!"
Um nariz
pequeno e encurvado, com uma leve coloração de tinta de jornal, pigarreou. Era
o Nariz do Leitor. "Eu sou o portal para mundos infinitos",
disse ele, com uma voz um tanto empoeirada. "Consigo sentir o aroma de uma
biblioteca antiga, com suas histórias adormecidas em pergaminhos, ou o cheiro
fresco de um livro recém-impresso, prometendo novas aventuras. Percebo o café
derramado na página 73, o cheiro de maresia de um romance de piratas e até o
resquício de lágrimas em um drama romântico. Meu nariz lê as entrelinhas
invisíveis de cada narrativa!"
Um
silêncio constrangido pairou no ar. Então, um nariz gordo, com um brilho
suspeito e um leve aroma de uísque barato e charuto, inclinou-se à frente. Era
o Nariz do Político Corrupto. Ele limpou a garganta, um som que parecia
raspar notas de dinheiro. "Amigos e... bem, colegas," começou ele,
com um sorriso afetado, "todos vocês têm talentos louváveis. Mas o meu
nariz? Ah, o meu nariz é o mais pragmático de todos. Ele fareja o dinheiro a
quilômetros de distância, detecta o cheiro de um contrato superfaturado antes
mesmo de ser assinado, sente a oportunidade em cada crise. Ele distingue o
aroma do suborno disfarçado de 'doação de campanha' e o cheiro do medo nos
olhos do eleitor. E o melhor de tudo? Ele é totalmente imune ao cheiro de ética
ou moralidade. Não perco tempo com isso, sabe? Meu foco é no aroma
inconfundível do lucro fácil."
Os outros
narizes se encolheram, alguns com nojo, outros com uma pontinha de inveja
secreta. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o Nariz do Jardineiro
sentiu o cheiro de algo podre, mas não era de adubo. Era o cheiro da pura e
inabalável... corrupção.
Mas,
antes que a reunião pudesse terminar em total desânimo, um pequeno e curioso
nariz, que até então estava observando com olhos arregalados, levantou-se com
entusiasmo. Era o Nariz da Criança. Sua voz, fina e clara, cortou o ar
viciado. "Eu... eu gosto de cheirar o cheiro de bolo de vó, sabe? E o
cheiro do meu cachorrinho depois do banho! E o cheiro de terra molhada quando a
gente faz castelo de areia!" Seus olhos brilhavam. "Mas o que eu mais
quero é sentir o cheiro de um mundo que não tem cheiro de coisa feia, nem de
briga. Um mundo que cheire a flor, a pão quentinho e a abraço de mamãe. Um
mundo só de cheiro bom!"
Os
narizes mais velhos se entreolharam, alguns com um pingo de vergonha, outros
com um raro vislumbre de esperança. O cheiro de um mundo só de cheiro bom...
Aquele pequeno nariz, com sua inocência e anseio, de repente fez todos os
outros narizes, por um breve instante, questionarem o que realmente valia a
pena farejar.
E assim
terminou a reunião, com cada nariz voltando para suas respectivas rotinas, cada
um com sua peculiar habilidade olfativa. Mas, ao passarem pela porta de saída,
todos foram surpreendidos por um aroma diferente, que os envolveu como um
abraço invisível. Ali, discreto, estava um Nariz que Cheirava Amor e Perdão.
Não falava, não se gabava, apenas exalava uma fragrância suave de aceitação e
de renovação. E, enquanto cada nariz seguia seu caminho, aquele aroma os
acompanhava, ensinando-lhes, silenciosamente, que a arte mais nobre de todas
era a de sentir e espalhar os cheiros que curam a alma.
Francisco
Martins
9 de
março 2026
