terça-feira, 20 de outubro de 2026

A PRAGA DA TUNÍSIA


Daniel trabalhava numa central de atendimento em Natal, num daqueles galpões onde o teto é baixo e as metas são altas. De fone de ouvido e roteiro na tela, falava com clientes de meio mundo: Portugal, Estados Unidos, Angola, Emirados. O serviço girava o planeta inteiro enquanto ele girava na mesma cadeira, em escalas de doze horas, com quinze minutos de almoço.

Era um serviço que desgasta a alma devagar. Os clientes nem sempre compreendiam — e nunca aceitavam o "não" como resposta definitiva. Queriam desconto que ele não podia dar, estorno que o sistema não liberava, milagre que não constava no roteiro. E quando a resposta era não, vinham os palavrões. Xingamento em inglês, praga em árabe, ofensa em crioulo. Daniel aprendeu a engolir sapo em três idiomas. À noite, não dormia. De dia, atendia com o coração na garganta. O coordenador, um homem que media a vida em segundos de ligação, só repetia: "Produtividade, menino. Sentimento é problema seu, resolve depois do expediente."

Foi numa dessas noites de turno invertido que a ligação veio do outro lado do mundo.

— Meu nome é Daniel, em que posso ajudá-lo? — disse ele, no inglês decorado de tanto repetir.

Do outro lado, um homem da Tunísia. Já era a sétima ligação dele — a cobrança indevida continuava no cartão, e o sistema, fiel ao sistema, continuava negando o estorno. O tunisiano falava rápido, nervoso, e Daniel repetia as frases de empatia que a empresa mandava repetir: "Eu entendo perfeitamente sua frustração, senhor." Só que ele não entendia. Não dá para entender quarenta minutos de raiva de dentro de um roteiro.

Quando o tunisiano percebeu que seu problema não teria solução — nem naquela noite, nem em nenhuma outra —, a voz dele mudou. Ficou baixa, pausada, de quem não está mais brigando: está sentenciando. E proferiu as palavras, devagar, sílaba por sílaba, como quem crava uma faca:

— Bi-soltán el-Djinn u bicôu-uét-hom, mas-rék bēsh iár-dja uách.

E desligou.

Daniel não conhecia o dialeto Derja. Até ali, a conversa tinha sido em inglês. Mas aquela pronúncia, vinda da África, atravessando o Mediterrâneo e o Atlântico para chegar ao fone de ouvido de um rapaz do Nordeste do Brasil, balançou as estruturas espirituais daquele jovem — se é que ele tinha alguma. Somente depois, Daniel viria a saber o que aquelas palavras determinavam: que um ser espiritual, um djinn, tinha ordem de caçá-lo e transformá-lo em fera. Mas naquela noite ele só sentiu o frio, e o fone queimando de um calor que não era de eletricidade.

Nos dias seguintes, o corpo começou a mudar.

Os pelos foram os primeiros: nasceram descontrolados, nas costas, no peito, nos braços. Daniel raspava de manhã e à tarde já estava coberto de novo. As unhas passaram a crescer num ritmo que não era de gente — precisava cortar todo santo dia, e mesmo assim rangiam no teclado. E o gosto pela comida mudou: o pão com ovo enjoou, o feijão virou pedra na garganta. O que o estômago pedia era carne crua. Vermelha, sangrenta, pulsando.

No espelho do banheiro da empresa, entre uma ligação e outra, ele jurou ver os caninos mais compridos. E nos corredores, começou a ouvir o latido dos cachorros da rua como se latissem dentro da sua cabeça.

O coordenador, claro, só viu o que interessava:

— Daniel, essa aparência não pode. Cliente não confia em gente desalinhada.

A empresa que o tratava como bicho estava reclamando do pelo.

Foi aí que Daniel lembrou da avó, lá do interior. Dona Zulmira, rezadeira, que benzia quebranto com café coado e fé de sessenta anos. Ele pegou o primeiro ônibus e foi.

A velha olhou para o neto, passou a mão no braço dele — no pelo que nascia — e não se assustou. Já tinha visto coisa feia na vida, mas nunca coisa tão triste.

— Isso aqui não é doença de corpo, meu filho. Isso é palavra com dente. Alguém te mordeu com a boca fechada.

Rezou. Benzeu com terço e com sal. Mas no meio da reza parou, olhou nos olhos do neto e disse a verdade que nenhuma reza diz em voz alta:

— Mas eu vou te falar uma coisa, Daniel. Essa praga só pegou porque você já estava sendo mordido todo dia. Fera não se faz com palavra de árabe não. Fera se faz com fome, com cansaço, com gente tratando gente como bicho e chamando isso de produção. Aquele homem só apontou o que já estava dentro de você, criando raiva no escuro.

Daniel pediu demissão na segunda-feira. O coordenador nem perguntou o porquê — só ficou contente de não pagar os dias que faltavam.

A cura veio devagar, como vem a doença. De volta à terra, dormindo noite inteira pela primeira vez em anos, comendo o bode guisado da avó — bem passado, com molho —, os pelos foram caindo, as unhas voltaram ao tamanho de mão de gente, e a carne crua deu lugar de novo ao café com açúcar da manhã. Em seis meses, o espelho mostrou de novo um homem. Um homem que acordava sem alarme e vivia sem fone de ouvido.

Dizem que em noites de lua cheia ainda se ouve um uivo na zona Norte de Natal. Mas quem conhece Daniel sabe que é lenda. Ele vive tranquilo, vendendo na feira, e só guardou um hábito estranho: nunca mais atende número desconhecido.

Porque fera, ele aprendeu, não é quem amanhece com pelo nas costas. Fera é quem faz do outro um bicho — e ainda cobra produtividade.

Francisco Martins

Imagem criada por IA.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

NÃO DEIXE DE LER ESTE CONTO DE TERROR: O LOBISOMEM DA PRAIA


 O escritor Francisco Martins vai publicar, nesse blog, o conto " O Lobisomem da Praia", no dia 23 de outubro. 

POEMAS EM 10 SALMOS - PARTE IV

 


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CENTELHA DE CORDEL

 

Uma casa como esta
Faz a gente se alegrar
Ninguém bate em sua porta
Querendo lhe perturbar
Tampouco chega a shopee
Com o bordão a gritar.

É um mundo isolado
Sem vizinho, sem barulho
Em cima somente o céu.
Muito alto pra mergulho
Quem esta mansão fez
Tem dinheiro e orgulho.

Mané Beradeiro
15 de outubro 2026

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

BRASÃO DO IHGRN EM QUILLING

 


Nesta obra, o artista Francisco Martins apresenta uma releitura do brasão do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), executada na técnica do quilling — também conhecida como filigrana de papel — na qual finas tiras de papel são enroladas, moldadas e coladas para formar relevos, texturas e volumes.

O brasão central reproduz os elementos da heráldica institucional: o barco à vela sobre ondas estilizadas, as duas palmeiras laterais, a estrela de cinco pontas no topo e a ornamentação de flores e folhagens na base. Cada elemento é construído com precisão: bobinas fechadas para as flores, a estrela e os detalhes do barco; bobinas soltas e moldadas em dois tons de azul para dar volume às ondas; e tiras franjadas para criar a textura orgânica das copas das palmeiras.

A paleta — azul do mar, verde das folhagens, marrom dos troncos e do barco, amarelo das flores — assenta sobre um fundo de papel marmorizado em tons de bege, que confere sobriedade ao conjunto. A moldura de madeira crua, de acabamento fosco, estabelece um contraste deliberado entre o rústico e o delicado, valorizando a fragilidade do material e o rigor do traço.

Assinada e datada pelo artista no canto inferior esquerdo, a peça une memória institucional e arte manual: o emblema centenário do Instituto ganha nova materialidade, em que o papel assume o lugar da tinta e do metal.

Ficha Técnica:
Filigranista: Francisco Martins
Obra: Brasão do IHGRN (releitura)
Técnica: Quilling ( filigrana em papel)
Dimensões: 26x34 cm
Moldura: Madeira crua, acabamento fosco
Ano: 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: 'EM NOME DO SERENÍSSIMO REI'


O livro foi escrito por Jean Fonseca Leite Nesi, lançado em 2026, tem 266 páginas e durante  três dias esteve em minhas mãos, sendo instrumento de boa leitura. Jean Fonseca parte de uma fato histórico e com base nele, desenvolve a construção do seu romance. O protagonista tem dezoito anos e recebe  dos seus pais a forte frase: "Então vai e vive o que nasceste para viver" (p.19).

O jovem vai atravessar o  oceano Atlântico, é o início do século XVI, ele se chama Antonio, mas seu nome vai ser mudado e passará a  ter outro significado. É uma história que envolve o leitor, rica em cultura. Tem  paginas recheadas de medo, insegurança, pavor, guerra, amor, família, culinária, canibalismo, etc. Vale a pena colocar esse título na sua lista de leitura.

O que aconteceu com Antonio?

Qual foi a grande mudança na vida dele?

Ele voltou a rever seus pais?

Essas e outras perguntas terão suas respostas na história "Em nome do Sereníssimo Rei", livro que veio para ficar entre os melhores romances históricos da literatura potiguar. Parabéns à escritora.

Francisco Martins

14 de outubro de 2026.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

ENCONTRO DAS ACADEMIAS

 


Discurso de Solenidade da Comenda Genibaldo Barros, lido por sua esposa Eulália Duarte Barros

 

“Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos de honestidade, de caridade e da ciência”.

 

       Esse juramento de HIPÓCRATES, é uma declaração solene do compromisso médico na festa da sua formatura.

       HIPÓCRATES estabelece as bases de conduta moral na medicina, na entrada oficial do estudante na área da saúde, e afirma: a responsabilidade e o respeito à vida humana.

 

            “Curar quando possível

              aliviar quando necessário

              e consolar sempre”

 

       Esse juramento, foi feito por então formando Genibaldo Barros, na Faculdade de Medicina da Bahia, no dia 13 de julho de 1952.

 

       Um menino do Seridó, sertão que o ensinou a ouvir o mundo no compasso dos ventos nas serras azuis, a enxergar a vida, onde a seca queimava o verde e secava a água, e escutar o silêncio como quem reza.

       No sertão do Seridó, a força, a fé e a dignidade fizeram crescer mulheres fortes e homens como Genibaldo Barros.

       Com o seu diploma na mão, órfão de pai e mãe, teve que dar o seu primeiro passo na estrada de sua vida de médico. Teve a benção e a ajuda do Dr. Mariano Coelho (amigo fraternal do seu pai Dr. Tristão de Barros, a quem eu rendo uma homenagem). Depois do estágio no Rio de Janeiro e mestrado com o Dr Raul Vacareza em Buenos Aires, veio para Currais Novo. Em Natal, assumiu a direção do Sanatório Getúlio Vargas, Hospital para Tuberculose.

       Convidado pelo então governador José Cortez Pereira, assumiu a Secretaria de Saúde, fazendo com sucesso uma campanha de vacinação em todo o RN.

        O gov. Tarcísio Maia o convidou para ser o seu vice-governador, ele que não militava na política.

        E aí sem juramento, mas com os seus princípios de ética, firmeza e honradez, contribuiu para a paz pública.

       Depois Reitor, outra etapa em sua vida, onde aplica os princípios do equilíbrio e sensatez.

       O menino órfão de Currais Novos, havia se tornado médico, gestor de instituições, sem jamais abandonar os princípios morais que lhe tinha norteado a sua vida médica.

       E plagiando Hipócrates:

       “Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida de minha profissão, honrada para sempre entre os homens, e se dela me afastar ou infringir, o contrário me aconteça”

       Acho, ou afirmo que Genibaldo cumpriu.

       Hoje, nessa Solenidade é uma honra maior e um motivo de orgulho para Genibaldo.

       Somos gratos (a nossa família) por este gesto.

       Não sei se seriam essas palavras, que Genibaldo daria nesta nesta noite memorável.

       Certamente diria do seu orgulho e honra de estar em uma Comenda que o honra e emociona e diria:

       Muito obrigado por me homenagearem em VIDA. Esta é a verdadeira homenagem a um amigo, a um colega, a um portador de CRM 56.

       E aquela frase de Genibaldo:

       - Meus colegas de ontem e de hoje, meus amigos “Seguem a juventude”. 


O CHAPÉU DE BENVINDA


Em Riacho dos Ventos — cidade do sertão onde o sol chega antes das pessoas e vai embora depois delas —, todo mundo sabia quem era Dona Benvinda. Não pelo sobrenome, Alves da Rocha, que nem ela lembrava de onde tinha vindo. Sabiam pelo chapéu de palha, herdado da mãe, e pelo que ela fazia debaixo dele.

Foi Benvinda que ergueu a Panela Cheia, a cozinha comunitária que alimentava oitenta crianças e uma trintena de velhos todos os dias, com o que doava quem pudesse e o que plantava quem tinha um palmo de terra. Foi ela que, no ano da seca grande, armou a cadeira na frente da prefeitura e não saiu de lá enquanto não destravaram a água dos carros-pipa. Foi ela que ensinou gente de sessenta anos a assinar o próprio nome, à noite, na sala emprestada da igreja. Foi ela que segurou na mão de dona Cotinha na porta do INSS, do seu Raimundo na farmácia, da menina Ilza no hospital. Em Riacho dos Ventos, quase todo mundo já tinha sido "segurado na mão" por Benvinda um dia.

— Você devia estar lá dentro — o povo dizia. — Lá dentro, onde se decide.

Ela ria e puxava o chapéu sobre os olhos.

— Lá dentro a gente apodrece mais depressa, meu filho. Aqui fora é que a gente rega.

Mas a cidade é que apodrecia, e disso ninguém ria. Trinta anos era o reinado do coronel Homero Bezerra, dono de terras, de caminhões e de silêncios. O prefeito era seu afilhado, os vereadores, seus empregados com salário de câmara e obediência de peão. Em Riacho dos Ventos, obra boa era a que tinha a letra H do Homero estampada na placa, e saúde pública era a ambulância que levava gente pro hospital particular dele, com nota fiscal.

Quando a eleição chegou, foi o povo que foi atrás de Benvinda, e não o contrário. As mulheres da Panela Cheia primeiro. Depois os professores da escola que dava aula sem giz. Depois um bando de gente sem partido nenhum, que só tinha raiva e esperança na mesma medida.

O partido que ela escolheu era pequeno e de esquerda — em Riacho dos Ventos, palavra dessas soava a língua estrangeira. Não importava. Benvinda aceitou com uma condição, dita na porta da cozinha, pro bando inteiro:

— Eu não vou pra dentro pra me servir. Vou pra servir. Se um dia eu esquecer, o senhor me puxa da orelha e me lembra.

O slogan saiu sozinho, de tanto que era verdade: Benvinda vereadora — a mão que já segurou a sua.

O recado chegou cedo, como chega sempre: primeiro por um intermediário sorridente, depois por um papel dobrado, depois por um convite para um café na fazenda.

O escritório do coronel tinha ar-condicionado, couro de boi na parede e um Cristo de olhos baixos pregado atrás da mesa. Homero Bezerra não ofereceu café. Ofereceu duzentos mil.

— Desiste, Benvinda. Ou entra na minha chapa e vota comigo. Duzentos mil agora, a Panela Cheia bancada por mim pro resto da sua vida, emprego pro seu menino na obra da prefeitura. Você continua cuidando da sua gente, todo mundo sai ganhando. Aqui, minha filha, a gente não elege gente. A gente adquire gente.

Benvinda olhou pro Cristo de olhos baixos, que pareceu desculpar-se também. Olhou pro coronel. Ajustou o chapéu no colo.

— O senhor me desculpe, coronel, mas o senhor tá oferecendo dinheiro pra mercadoria errada. O senhor compra boi, compra voto, compra silêncio de vereador. Dignidade o senhor não tem dinheiro pra pagar — e eu não tenho ela pra vender. Ela não é minha. É do povo que eu seguro na mão.

Levantou-se, calçada de chinelo, mais alta do que qualquer fazenda dele.

— E o senhor podia experimentar cuidar de gente, um dia. Faz bem pro coração.

Homero sorriu devagar, com paciência de quem já enterrou adversários melhores.

— A gente vai ver, então, quanto tempo dura uma mulher teimosa sem gás e sem farinha.

O gás acabou primeiro. Depois as doações da prefeitura, que "o orçamento não permitia mais". Depois veio a vistoria da vigilância, que fechou a Panela Cheia por falta de um alvará que ela nunca precisara em quinze anos. O carro-pipa parou de passar na rua dela — "roteiro novo da secretaria". Seu Antônio, o filho pedreiro, foi dispensado da obra "por ordem de cima", sem carteira assinada nem explicação.

O rádio da cidade, que era do sobrinho do coronel, descobriu uma Benvinda que ninguém conhecia: a mulher que "queria negociar caro e não conseguiu o preço", que "guardava as doações pra vender", que era "comunista de feira, querendo tomar a terra dos pequenos pra dar pros de fora". Panfleto anônimo trazia a foto dela recortada, com os olhos escurecidos a caneta. Numa terça-feira de mercado, um recado apareceu pregado na porta da cozinha: cuidado com o que a senhora quer pra sua família.

Foi aí que Benvinda fez a coisa mais perigosa que uma mulher pode fazer na cidade de um coronel: continuou.

A Panela Cheia reabriu no quintal dela, no fogão de lenha que o marido falecido tinha feito de um tambor. As mulheres voltaram, cada uma com o que tinha: um quilo de feijão, uma abóbora, um punhado de sal. O almoço ficou pronto mais tarde e servido mais cedo, e nunca, em quinze anos, tinha estado tão cheio.

A campanha dela não tinha dinheiro pra carro de som, e foi isso que a salvou. Entrou nos quintais, nas varandas, nas filas do posto. O neto da dona Cotinha criou um grupo no telefone que se espalhou como fumaça. E um sábado, na caminhada, aconteceu o milagre sem nome: quarenta pessoas saíram da praça com chapéu de palha na cabeça, imitando ela. Na semana seguinte, eram duzentos. O chapéu, que o coronel chamava de "palhaçada de coitada", virou bandeira — e bandeira nenhuma campanha compra, porque bandeira a gente só ganha servindo.

As mentiras do rádio batiam na cidade e escorriam, sem colar. Como ia a mulher que ensinou metade do comércio a assinar nota fiscal roubar doação? Como ia quem segurou a mão de todo mundo na porta do hospital vender remédio? O povo de Riacho dos Ventos não sabia ler bem os panfletos, mas sabia ler Benvinda de trinta anos de vista.

— Quem cuida do povo — dizia ela, no fim de cada reunião de quintal — não precisa comprar o povo.

Na noite da apuração, a Panela Cheia virou sala de espera. Ninguém jantou. Quando o número saiu — mil trezentos e doze votos, a última das nove cadeiras, por vinte e três votos de diferença — o quintal fez um barulho que assustou os passarinhos do feijoeiro: metade grito, metade choro, e o chapéu de Benvinda subindo no ar como um sol pequeno.

O coronel elegeu o prefeito. Mas pela primeira vez em trinta anos, sentou na frente da câmara um voto que ele não tinha comprado.

Na sessão de posse, o vereador mais velho, homem do grupo, pediu que a eleita retirasse o chapéu, "em respeito ao regimento". Benvinda se levantou, devagar, e respondeu pro microfone com a voz de quem ensinou gente a assinar o nome:

— Esse regimento o senhor pode ler depois. Esse chapéu aqui, o senhor não. Ele é de quem me elegeu, e quem me elegeu tá todo aqui em cima, na galeria. E embaixo dele é que eu vou trabalhar.

O chapéu ficou em cima da mesa, entre o regimento e o caneco de água, durante os quatro anos seguintes. E em cima dele, todo ano, o projeto de lei da Panela Cheia: alimentação de verdade pra escola pública de Riacho dos Ventos.

Dizem que o coronel, antes de morrer, perguntou a alguém de confiança quanto custava, afinal, aquela mulher teimosa. E dizem que a resposta, que ele levou pro túmulo sem acreditar, foi a mais barata que ele já ouviu na vida:

— Custa nada, coronel. Só não se vende.

Francisco Martins

13 de outubro de 2026

REVISTA Nº 88 DA ANRL - PARTE I


 

CATEMBA DA MAROCA

 

Nascido em 2022, no vale do Rio Baquipe, em Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte, o projeto musical Catemba da Maroca surgiu por iniciativa do teatrólogo, ator e compositor Crésio Torres, reunindo música, teatro e manifestações da cultura popular em uma experiência artística de identidade potiguar e nordestina.
 
Com fortes influências do forró, xaxado, xote, baião, maracatu e frevo, a Catemba da Maroca mergulha na riqueza das tradições afro-indígenas brasileiras, dialogando com expressões como o bambelô, o coco de roda, o boi de reis, o congo de guerra, os caboclinhos e as cirandas. Um universo de ritmos, saberes e encantamentos que encontra especial inspiração nas tradições culturais do Massapê Boca-da-Matense.
 
Com foco na criação autoral, o grupo entrelaça o lúdico teatral à música, construindo performances que celebram a diversidade, a memória, a ancestralidade e a força criativa da cultura popular.
 
Seu repertório reúne composições de artistas como Ivo Maia, Alexandre Lacerda, Yranh Barreto, Crésio Torres, Val Souto, Cadu Araújo, Helino Julião e Zé Luiz de Ponta do Mato, além de outros compositores potiguares e nordestinos, sem deixar de lado as cantorias e expressões musicais que habitam o imaginário popular.
 
No palco, a Catemba da Maroca transforma música e teatro em uma viagem pelo universo lúdico, instigante e inebriante do Nordeste Brasileiro — sua história, seus personagens, seus ritmos e suas narrativas encantadoras e bravias.

sábado, 10 de outubro de 2026

CAJUEIRO DE PIRANGI

 

Há obras que nascem do papel. E há obras que nascem da nossa memória afetiva. 
Tive a alegria de transformar o maior símbolo vivo do nosso Rio Grande do Norte - o Cajueiro de Pirangi, em Parnamirim - em arte em quilling.
O maior cajueiro do mundo tem 9 mil metros quadrados e mais de 130 anos de história. É quase impossível passar por Pirangi e não se emocionar com aquela árvore que não para de crescer, que se espalha e cria raízes onde toca o chão. Foi essa ideia de abundância e resistência que quis trazer para o papel.
Nesta releitura, optei por focar no fruto. Três cajus amarelos, maduros, pendentes de um galho retorcido. Cada caju foi construído com dezenas de rolinhos fechados em tons de amarelo ouro, criando volume e textura. A castanha, em marrom escuro, com enrolamento mais apertado, faz o contraponto. As folhas, em um verde intenso e profundo, foram feitas na técnica de folha com contorno, e os gavinhas em espiral dão o movimento de que o galho está vivo, crescendo.
Tudo sobre fundo branco, para que as cores falem por si. A escolha da moldura em madeira, em tom mogno escuro, não foi por acaso: ela remete ao tronco, à terra, à força do cajueiro. É uma moldura caixa, com acetato, que protege mas deixa a sombra dos rolinhos aparecer, criando aquele efeito 3D que só o quilling permite.
Mais que um quadro decorativo, este "Cajueiro de Pirangi" é uma homenagem à nossa terra. É o RN em forma de papel, enrolado com paciência, fio a fio.
Se você já esteve embaixo daquele cajueiro gigante, vai se reconhecer aqui. Se ainda não foi, convido você a sentir um pouquinho da sombra dele dentro de casa.

Ficha técnica:
Filigranista: Francisco Martins
Obra: Cajueiro de Pirangi
Técnica: Quilling (filigrana em papel)
Dimensões:  48x34 cm
Moldura: Madeira maciça em tom mogno com acetato
Ano: 2026

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

POEMAS EM 10 SALMOS - PARTE II

 


ANA MARIA DE SALES LA GRECA MARINHO OCUPARÁ A CADEIRA 37 DA ANRL

 

A escritora Ana Maria de Sales La Greca Marinho foi eleita ontem para a Academia Norte-rio-grandense de Letras. A autora do romance “Não é o Everest” e outras obras ocupará a cadeira 37, que tem como Patrono Jorge Fernandes e que já pertenceu a Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães e Elder Heronildes da Silva. / Foto de Leide Câmara.

A ESCRITORA JOSIMEY COSTA LANÇARÁ LIVRO DIA 16 PRÓXIMO

 


QUINTA CULTURAL NO IHGRN

 


sábado, 3 de outubro de 2026

TEREZA PANÇA

 


COISAS DE POETA

 

Ontem, quando eu passei ao lado deste prédio, na avenida Deodoro, em Natal,  fiquei espantado com a quantidade de ares-condicionados. Parei  tirei esta foto.

Continuei caminhando, e pensei: qual seria a reação de uma casa bem simples, olhando para esse prédio e perguntando o que são essas caixinhas externas? Seriam verrugas? Então, pedi a IA para fazer o card desse pensamento.