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quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

PARA SABER MAIS SOBRE SEBASTIÃO FERNANDES, O POETA


Sebastião Fernandes além de ter sido Professor, Promotor Público, Procurador-Geral do Estado, Juiz, Diretor de Estado, Secretário Geral do Estado, Desembargador do Supremo Tribunal de Justiça, foi também poeta, tendo lançado o livro “Alma Deserta”, aos 26 anos.

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito de Recife, turma de 1902, Sebastião Fernandes estava de malas prontas para fazer carreira jurídica em São Paulo, onde contava com o apoio dos primos Gaspar e Tobias Monteiro, quando resolve atender o convite de Pedro Velho, Governador, e vai morar em Mossoró, exercendo a função de Promotor Público de Mossoró, assumindo o cargo em 1903, aos 23 anos de idade.

Em Mossoró permaneceu até o ano de 1907 onde colaborou bastante com a cultura local, conforme testemunham Câmara Cascudo e Raimundo Nonato, respectivamente em “Notas e Documentos para a História de Mossoró” e “Desembargador Sebastião Fernandes de Oliveira – o último fidalgo do Rio Grande do Norte”. Escrevi ese artigo como objetivo de apresentar ao leitor, um pouco da produção poética de Sebastião Fernandes, homem que viveu 61 anos.

Paulo Afonso Linhares, autor da plaqueta “Sebastião Fernandes: uma pluralidade inquieta” afirma que o poeta “faleceu placidamente no dia 29 de maio de 1941, em Natal. No seu último instante pediu a companhia da sua amada companheira de quase quatro décadas, D. Alice, a quem brindou com um derradeiro sorriso. Na morte, como na vida, Sebastião Fernandes manteve acesa a chama da paixão. Da paixão daqueles que, humanos, em nada estranham as coisas da humanidade, seguindo o pensamento vivo de Terencius, o grande poeta latino”.

Outra curiosidade sobre o dia da morte de Sebastião Fernandes, é contada pelo pesquisador e historiador Cláudio Augusto Pinto Galvão. Ei-la: “Algumas vezes disse que, se fosse homem de posses, contrataria uma grande orquestra para que, no momento de sua morte, tocasse a Ave-Maria de Gounod.

Na tarde daquele 29 de Maio a saúde de Sebastião Fernandes aos poucos se  esvaía e às 18 horas precisamente, sua vida chegava ao final. Naquele momento, quando o sol se punha do outro lado do Potengi, tingindo de luzes o céu de crepúsculo, o rádio de seu vizinho à Rua São Tomé, sem saber o que se passava na casa ao lado, realizava a sua vontade, tocando a Ave-Maria de Gounod” (Galvão, 1994; p. 18).

Há quem diga, que no campo literário, Sebastião Fernandes teve maior projeção na arte poética, que no drama. A produção poética de Sebastião Fernandes começou aos 15 anos e o exercício o acompanhou ao longo da vida.

“As letras foram sempre o meu maior prazer”, escreve Sebastião Fernandes, aos seus filhos. Poeta Romântico e Parnasiano que não se contentava apenas com a inspiração, mas também com a palavra, argamassa do poema, que por sua vez não podia fugir à forma. De que tratou a pena poética de Sebastião Fernandes?

 

Ele escreveu sobre variados temas, abordando o civismo, o amor, cidades, morte, sofrimento, mulher, estações, amigos, etc. Há uma escalada de maturidade poética em seus poemas, como é de praxe a todos que começam cedo a escrever. “Fiz versos simples diletantes, como quase todo moço, no Brasil, o faz” (Galvão, 1994, p. 26), mas não ficou na planície da simplicidade. Gosto quando Sebastião Fernandes em seus poemas, faz o eu-lírico filosofar.

 

 

“Às vezes fico só, dentro da noite imensa:

             Que silêncio imortal! – Homens que somos nós?!”

 

E neste mesmo poema, sem título, ele perguntava à solidão, como se a mesma não fosse um substantivo abstrato.

                                  “Dá-me, se podes tu, essa resposta aziaga:

                    – Para aonde vai a luz, quando a chama se extingue?

                    – A alma para aonde é que vai, quando a vida se apaga”                    (Galvão, 1994, p.96)

 

Em um outro poema “Varredor de Rua”, o poeta observa, em plena noite de lua, o trabalho do varredor, silencioso, solitário e faz o eu-lírico externar:

 

“Ah, se eu pudesse, com essa mesma calma,

                                Varrer, oh! Varredor, o lixo e a lama

                                            Dentre os castelos que erigi nesta alma”

 

Mesmo tendo a predominância do lírico em sua poesia, o poeta, em alguns casos, deixou transparecer o seu lado religioso, como em “Ato de Contrição”, escrito em 1936.

 

                            “Senhor, quanto me dói o mal que, porventura

possa eu fazer a alguém, possa eu fazer sofrer!

                             Não somos nós irmãos de toda criatura?

                             Uns aos outros, perdoar não é nosso dever?

                             

                             Conceda-me, Senhor, em toda a minha vida,

                             o dom de perdoar toda ofensa sofrida

                             E essa graça eternal de ser justo e ser bom”.

 

Neste mesmo diapasão, o poeta escreveu a trova:

 

“Quando a morte (oh! desconsolo! Dos meus),

                                ceifar-me também,

                                 Levo comigo um consolo:

                                 Nunca fiz mal a ninguém”.

 

Embora saibamos que Sebastião Fernandes publicou em 1906, o seu livro “Alma Deserta” e também tenha publicado seus poemas em jornais da sua época, o que realmente podemos dispor sobre sua produção, e que está ao alcance da mão do leitor, é a pesquisa que foi feita, organizada e publicada por Cláudio Galvão, com o título: “Poesia Inédita:

O livro se tornou realidade em 1994, e foi lançado pela Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, evolução da Escola de Aprendizes Artífices, na qual Sebastião Fernandes foi Diretor.

São mais de 70 poesias colhidas pelo pesquisador. Um trabalho louvável, pois sem ele, quase nada teríamos em conjunto. O livro “Alma Deserta” é raríssimo. Procurei a versão física do livro e não a encontrei. Perguntei à bibliotecária do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, do qual Sebastião Fernandes foi fundador, se existia algum exemplar no acervo. Não tem! Mas, conseguiu a versão digital e mandou para mim. E graças a boa vontade de Kate Coutinho de Jesus, pude finalmente ler “Alma Deserta”.

O prefácio foi escrito por Mathias Maciel Filho, em 11 de março de 1906. Apresenta o livro, não como crítico, mas como amigo do autor e não poupa elogios à obra. Os poemas foram escritos entre os anos de 1898 a 1906, ora em Natal, Recife e Mossoró.

O então jovem poeta, colocava sua pena a serviço da saudade, dos amigos, dos amores partidos, da fé e tantos outros temas. Nesse livro, Sebastião Fernandes escreveu três poemas que tratam sobre sua genitora. São eles: “Santa”, “A minha mãe”, “Carta à minha mãe”.

Deixo ao leitor a tarefa de ler “Alma Deserta”, vide link abaixo, e, assim como fez Mathias Maciel e tantos outros leitores daquele distante ano de 1906 e seguintes, possa você também degustar da cultura poética de Sebastião Fernandes.

Depois que li “Alma Deserta”, pus a mão no arado e comecei a capinar no vasto campo da internet e também consegui encontrar outros poemas, não citados por Claudio Galvão. São eles:

1) “Independência ou Morte” - 1897, Jornal “O Irís”

2) “Ave, Libertas” - LINHARES, 1988

3) “Artística”, Recife-PE, 1900 - publicada na Revista “A Tribuna do Congresso Literário” - Natal-RN, edição 31-8-1900

4) “Dia de Núpcias” - Idem, edição 31-1-1901

5) “Vem…” - Natal-1901 - Revista “A Tribuna do Congresso Literário”, ano 1901, edição não identificada

6) “Sonho Azul” - Idem, ano 1901, S. edição não identificada.

 

Importa dizer que a Revista “A Tribuna do Congresso Literário”, circulou no Rio Grande do Norte, quinzenalmente, tendo como colaboradores : Antonio Marinho, Ezequiel Wanderley, Francisco Palma, Henrique Castriciano, Manoel Dantas, Ovídio Fernandes, Pedro Soares, etc.

A Revista circulou pelo Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Ceará, Pará, Amazonas e pelas principais cidades do Rio Grande do Norte.

      Assim foi o poeta Sebastião Fernandes, homem de pluralidade e amante da arte poética. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, da Academia Norte-rio-grandense de Letras e patrono de uma cadeira na Academia Mossoroense de Letras e patrono da Biblioteca do Campus Central do IFRN, em Natal.

 

Francisco Martins.

30 de janeiro de 2025

 

Clique aqui e leia "Alma Deserta" Alma Deserta

 

FONTES:

 

LINHARES. Paulo Afonso. “Sebastião Fernandes: uma pluralidade inquieta”. Academia Mossoroense de Letras. Coleção Mossoroense - Série B - nº 553- 1988.

 

GALVÃO. Claudio. “Poesia Inédita”. Natal -RN- 1994.

 

FERNANDES. Sebastião. “Alma Deserta”. Mossoró - RN - 1906.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

VALÉRIO MESQUITA - A GRANDEZA CULTURAL DE MACAÍBA - ORGULHO ESTADUAL

 


Valério Alfredo Mesquita está aniversariando hoje. Completa 82 anos. Natural de Macaíba-RN, filho de Alfredo Mesquita Filho e Nair de Andrade Mesquita.  É escritor com livros publicados no gênero de crônica e ensaios.

Seu primeiro livro data 1968, "O tempo e sua dimensão". Mesmo ano em que se formou em Direito, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Hoje, sua produção literária já ultrapassou 25 edições, em vários títulos.

Tem uma especialidade quando se dedica a escrever sobre causos, principalmente os que envolvem políticos, pois nesse campo ele militou como prefeito e deputado estadual.

A cultura do Rio Grande do Norte deve muito a esse homem. Como gestor da Fundação José Augusto,  quando assumiu o cargo em outubro de 1980 e nele permaneceu até 1986, onde administrou  enfatizando o trinômio: restauração de patrimônio histórico, editoração ( 120 publicações) e animação cultural.

Foi Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Conselheiro e atual Presidente do Conselho Estadual de Cultura, membro de diversas instituições culturais, entre elas a Academia Norte-rio-grandense de Letras, onde ocupa a cadeira 21, desde o dia 30 de março de 2000.

Se fôssemos listar as ações e as bandeiras que Doutor Valério Mesquita  adotou  ao longo da sua vida pública, muito teremos para escrever. Homem de cultura e sobretudo de extrema sabedoria, que sabe administrar conflitos e ser resoluto.

Em suas mãos, ainda tremula a flâmula da esperança de que um dia, um governador ou governadora deste estado haverá de ter a coragem de abraçar a causa da restauração da "Casa Comercial do Guarapes, fundada em 1870, que importou e exportou produtos do seu porto para os EUA e Inglaterra".

A esse homem, nossos aplausos e votos de saúde e paz!

Francisco Martins


Fontes: 

Memória Acadêmica - Leide Câmara -  Editora IFRN/Natal - 2017, p. 379 a 381.

Fundação José Augusto 40 anos  - 1963/2003. Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine -  FJA/Natal 2004, página 109.184 a 188.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

HOMERO HOMEM CENTENÁRIO DE NASCIMENTO


Em 5 de janeiro de 1921, há exatos 100 anos, nasceu  no Engenho Catu, município de Canguaretama, Homero Homem de Siqueira Cavalcanti, sendo seus pais Joaquim Siqueira Cavalcanti Filho e Elisa Martins Delgado. Esta criança criaria asas e daria voos longos no campo da literatura brasileira. Homero Homem recebeu quando criança, a influência literaria da sua  Tia Bila (Umbelina de Siqueira), a primeira mulher comunista do Rio Grande do Norte.

Em Canguaretama Homero Homem fez seus primeiros estudos e quando ele tinha nove anos, seus pais vieram morar em Natal. A viagem foi de trem e quando chegou à estação final, no bairro da Ribeira, o menino Homero se encantou com a cidade que o acolhia. Anos depois ele dirá numa entrevista a Sanderson Negreiros: “Natal era uma cidade perfumadíssima, de ruas largas. Todas as casas com o seu jardim, os jasmins perfumados, as mangueiras perfumadas, floridas”. As memórias sensoriais são muito fortes e as levamos ao longo da nossa existência. Homero Homem não ficou à margem dessa lei sensitiva.

Hoje eu começo a fazer uma série de postagens sobre a vida e a obra de Homero Homem, aqui, em meu blog.

 

Francisco Martins

05 de janeiro 2021

 

Fonte:

 

Ganguleiro: ensaio biográfico sobre Homero Homem/ Alexis Almeida Peixoto. Natal, edição do autor, 2013.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

AURÉLIO PINHEIRO - UM (POTIGUAR) FUNDADOR DA ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS - AAL

  
 

     O Rio Grande do Norte ainda precisa descobrir Aurélio Pinheiro. Nei Leandro de Castro afirmou em entrevista concedida ao "Diário de Natal" (9 de novembro de 1983) que não conhecia a obra de Aurélio Pinheiro. Se um escritor renomado afirmou isso, o que poderemos esperar do grande público?  Estou trabalhando numa pesquisa que vai gerar um ensaio sobre as obras de Aurélio Pinheiro, natural de São José de Mipibu, onde nasceu em 28 de janeiro de 1882. Aqui, no RN, quem mais escreveu sobre ele foi Américo de Oliveira Costa, que o escolheu para ser o patrono da cadeira 27, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Aurélio Pinheiro faleceu na cidade de Niteroi-RJ, aos 56 anos, no dia 17 de novembro de 1938.

 

    No Rio Grande do Norte ele é  homenageado como: patrono da cadeira 27 da ANL; patrono da cadeira 5 da Academia Macauense de Letras e Artes;  nome de rua no Bairro Vermelho, em Natal; foi patrono do concurso de ficção literária realizado pela Fundação José Augusto e a Prefeitura Municipal de São José de Mipibu, em maio de 1985, cujo ganhador foi Francisco Sobreira, com a novela "Material de que são feitos os sonhos"; tem seu nome em uma escola de Macau.

    Hoje quero dizer que Aurélio Pinheiro foi um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras-AAL, fundada em 1 de janeiro de 1918. Tinha Aurélio 36 anos e vivia na região Norte, trabalhando como médico. Aurélio foi o fundador e primeiro ocupante da cadeira 3. Escolheu para patrono Raul Pompeia. Quando  Aurélio Pinheiro se mudou para o Rio de Janeiro, a cadeira foi ocupada por Agnelo Bitencourt, que optou para ter como patrono o poeta Gonçalves Dias . Na linhagem da família Bitencourt vieram  depois os filhos Ulisses  e Agnelo Uchoa, seguidos de Anísio Melo e em 16 de dezembro de 2011 foi a cadeira ocupada por  Arthur Virgílio Neto.

    Por enquanto é isso.


Francisco Martins

26 de outubro de 2020

    
 

 



terça-feira, 28 de novembro de 2017

RODOLFO GARCIA UM ÍCONE QUE SERVIU ÀS LETRAS E AO BRASIL





Quando eu era criança e andava pela Rua Rodolfo Garcia, em Ceará Mirim, sempre tinha curiosidade em saber quem tinha sido aquele homem que dava nome à rua das minhas peraltices. Cresci e vim saber que se tratava de um historiador. Hoje, passados muitos anos, quando minha infância ficou fixa no vale, contemplando a rosa verde, tomo a liberdade de com base em minhas leituras trazer um pouco de quem foi Rodolfo Garcia.
Rodolfo Augusto de Amorim Garcia era descendente da família numerosa Amorim Garcia, onde as origens brasileiras têm como berço a cidade de Aracati-CE. No Rio Grande do Norte os Amorim Garcia se fizeram presentes em Nova Cruz, Santana do Matos, São José de Mipibu, Natal, Ceará-Mirim, e depois Pau dos Ferros e Martins.
Em Ceará-Mirim veio morar Augusto Carlos de Amorim Garcia, proprietário do Engenho do Meio (cujas ruínas nem mais existem), bacharel em Direito, chegando a ser juiz da monarquia. Casou com Maria Augusta Carrilho de Amorim Garcia. O casal teve que mudar para o vizinho estado da Paraíba, por questões políticas. Quando isso aconteceu, Augusto Carlos já tinha seis filhos: Emília, Aprígio, José, Antônio, Alice, Artur e Rodolfo, que nasceu em 25 de maio de 1873.
Estudou para ser militar mais não concluiu esse objetivo, pois foi desligado da Escola Militar da Praia Vermelha por questões filosóficas e posteriormente ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde colou grau no ano de 1908. Casou com Ester de Oliveira, pertencente à família dos Barões de Beberibe. Mais uma vez, a perseguição política se fez presente em sua vida e desta feita o levou em 1913 para a cidade do Rio de Janeiro. Depois de formado em Direito exerceu algumas atividades laborais tais como: jornalista, professor de história, geografia, francês e português.
Foi em 1914, aos 41 anos, que verdadeiramente ele encontrou sua vocação profissional: bibliotecário. Rodolfo Garcia escreveu “Sistemas de Classificação Bibliográfica”. Foi bibliotecário do Instituto Histórico do Rio de Janeiro, Diretor do Museu Histórico e Diretor da Biblioteca Nacional, essas duas últimas funções respectivamente em 1930 a 1932. O convívio com o universo dos livros fez dele um pesquisador incansável. Tornou-se historiador, consagrando seu nome no rol dos grandes homens do Rio Grande do Norte, na seguinte ordem cronológica: Vicente de Lemos, Tavares de Lyra, Rodolfo Garcia e Câmara Cascudo.
Sua produção como historiador foi extensa:
“A Associação Brasileira de Bibliotecários, em publicação prefaciada por Antônio Caetano Dias, enumera, como “simples subsídios bibliográficos de Rodolfo Garcia”, trinta e quatro dos seus principais trabalhos. São estudos sobre a cultura da indiaria brasileira, os missionários capuchinhos, história das explorações científicas do Brasil, estudos sobre os judeus no Brasil Colonial e do santo Ofício da Bahia, Catecismo da Doutrina Cristã na Língua Portuguesa, Florilégio da Poesia Brasileira”. (VIVEIROS, 1976.)
Não foram apenas trinta e quatro obras publicadas, mas cerca de cem volumes ao longo de treze anos de pesquisador. Foi como historiador que se candidatou a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, cadeira trinta e nove, sendo eleito no primeiro escrutínio, no mês de agosto de 1934. Rodolfo Garcia foi o primeiro potiguar a fazer parte da Academia Brasileira de Letras, sua posse aconteceu em abril de 1935, já bem próximo dele completar 61 anos. O Rio Grande do Norte sabendo da importância dessa conquista participou doando ao imortal o seu fardão. Participou de outras entidades culturais tais como: Instituto Geográfico Brasileiro, Institutos Históricos de Pernambuco, Ceará, Alagoas, Bahia e Rio Grande do Norte, além do Instituto Histórico do Uruguai.
No dia 14 de novembro de 1949, aos 76 anos, na cidade do Rio de janeiro, faleceu aquele que soube fazer da sua vida uma dedicação a serviço das letras e do Brasil. Passados quase 67 anos da sua partida, o nome de Rodolfo Garcia é homenageado com nome de ruas em Natal, Ceará Mirim, Rio de janeiro, Sorocaba, Campo Grande, além de ser patrono de uma escola municipal no Rio de Janeiro. Na Academia Brasileira de Letras é patrono da Biblioteca que foi inaugurada em 2005, com mais de 70 mil volumes.
Em tudo isso permanece Rodolfo Garcia no topo, como o maior ceará-mirinense que este país conheceu e para orgulho nosso é patrono da cadeira nº 7 da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes – ACLA. Quantas voltas a Terra terá que dá em torno do Sol para que venha nascer outro homem ou mulher com esta magnitude?

Francisco Martins

Referências

CALMOM, Pedro. Rodolfo Garcia - elogio fúnebre. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v. 209, outubro-dezembro, p. 232-236, 1950.
VIVEIROS, Paulo. Rodolfo Garcia. Tempo Universitário, Natal, v. 1, nº 1, p. 25-38, 1976.
Disponível em http://www.academia.org.br/bibliotecas/biblioteca-rodolfo-garcia. Visualizada em 12 mar 2016


Nota: Texto publicado originalmente na Revista da ACLA - Ano I, nº  I, Outubro 2017, páginas  65 a 67.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AMARO CAVALCANTI




Amaro Cavalcanti nasceu a 15 de agosto de 1849 numa pequena povoação do município do Caicó, a povoação de Jardim de Piranhas, hoje próspera e florescente cidade encravada na zona do alto sertão norte-riograndense. Seu pai, Amaro Cavalcanti Soares de Brito, era casado com Dona Ana de Barros Cavalcanti e dedicava-se ao professorado primário, à lavoura e criação. Tinha dois filhos varões: ele e seu irmão mais velho, João Maria Cavalcanti de Brito, que seria sacerdote digno e exemplar, uma das grandes figuras exponenciais do clero brasileiro pela sua fé inabalável, pelo seu espírito de renúncia, pelas suas peregrinas virtudes cristãs.
A princípio, a sorte não lhe sorriu. Tinha sede de saber e a falta de recursos paternos não lhe permitira que, ultimado seu curso de primeiras letras, fizesse estudos regulares e sistematizados de humanidades. Apenas teve auxílio de um ou outro professor particular. As dificuldades porém, nunca o intimidaram. Fez-se autodidata, devorando os livros que lhe caiam em mãos por aquisição ou empréstimo e, aos poucos, por si, foi cultivando como pode sua poderosa inteligência. Ainda adolescente, viu-se obrigado a ganhar a vida e começou a mourejar no comércio, especialmente de gado, viajando pelo interior da sua e das províncias vizinhas. Com essas viagens e o que ia aprendendo, ao mesmo tempo que ensinava, descortinaram-se aos seus olhos novos e mais amplos horizontes. Por volta de 1870 a 1981, disputou e obteve em concurso a cadeira de latim da cidade de Baturité, no Ceará. Ali se estabeleceu, ensaiando suas primeiras armas na imprensa, familiarizando-se com o fôro, publicando seus primeiros trabalhos, grangeando relativa notoriedade. Mudou-se, não sei em que ano, para Fortaleza, onde continuou a exercer o magistério secundário. Já era alguém, tanto assim que, em 1879, recebia do governo provincial a honrosa incumbência de estudar nos Estados Unidos os melhores métodos e sistemas de instrução elementar adaptáveis ao nosso meio o que lhe proporcionou a feliz oportunidade de matricular-se na Albany Law School, de New York, onde se graduou em direito, cabendo-lhe, embora estrangeiro, o primeiro lugar entre os seus 58 companheiros de formatura e sendo por isso escolhido para orador de sua turma. Voltando ao Brasil em fins de 1881, habilitou-se a advogar no império e ocupou por dois anos os cargos de direitos do Liceu e inspetor da instrução pública do Ceará, que representou em 1883 num Congresso pedagógico realizado nesta Capital. Desde então aqui fixou residência, entrando para o corpo docente do Colégio Pedro II, abrindo escritório de advocacia e laborando em vários outros campos de atividade. O Rio de Janeiro se tornou, a partir desse tempo, o principal cenário de seus triunfos.

Em dezembro de 1884, foi eleito deputado geral pelo Ceará, sendo depurado pela Câmara no chamado terceiro escrutínio, - o do reconhecimento de poderes. Doeu-lhe a injustiça e, desgostoso, afastou-se das lutas esterilizantes dos partidos monárquicos, evoluindo para o radicalismo liberal. Nas proximidades da queda da realeza já era propagandista ardoroso do regime republicano, com a vitória do qual se revelou e cresceu, em projeções luminosas, sua inconfundível personalidade de homem de Estado.
Senador à Constituinte de 1891 pelo Rio Grande do Norte, sua terra natal, assinalou-se naquela assembleia pelo brilho e operosidade com que colaborou na feitura da Constituição, o mesmo sucedendo na primeira legislatura do Senado, quando se destacou em numerosas iniciativas e discussões sobre alguns dos mais palpitantes problemas nacionais da época: reforma monetária, questões orçamentárias, confissões religiosas, reorganização de serviços públicos, discriminação de rendas, bancos de emissão, estado de sítio, tantos outros.
De 1893 a 1894 desempenhou, com êxito, delicada missão diplomática no Paraguai e, não tendo logrado a renovação de seu mandato senatorial, ficou fora do Parlamento até o fim da segunda legislatura. Eleito deputado à terceira, não chegou a tomar posse de sua cadeira por ter sido nomeado ministro da Justiça na interinidade de Manuel Vitorino e haver permanecido no exercício da pasta após o retorno de Prudente de Morais à suprema magistratura da República. Logo em seguida sobreveio a cisão do Partido Republicano Federal e, com ela, profundos dissentimentos políticos, que o impediram de voltar ao Congresso, dada a evidência em que estivera na última fase do tormentoso governo do venerando presidente paulista. Retraiu-se, não mais disputando mandatos legislativos e encerrando de vez sua carreira parlamentar em que deixara imperecível tradição se seus dotes superiores de orador, que, sem pretensões acadêmicas, conseguira impressionar e convencer o auditório pela clareza com que focalizava os diferentes aspectos dos assuntos em debate e pela dialética segura de sua cerrada argumentação.
No Ministério da Justiça conquistou os foros de administrador competente e avisado no tocante aos serviços sob sua direção e, ainda os de governante corajoso e enérgico na defesa da autoridade legalmente constituída, por vezes ameaçada numa quadra de acentuadas discórdias partidárias, durante a qual, pode-se dizer hoje, mais de cinquenta anos decorridos – o governo e a oposição pecaram, por igual, nos excessos de suas atitudes, arrastados por paixões incandescentes, que só serenariam na presidência de Campos Sales. Iniciada esta, volveu aos seus velhos e prediletos estudos de direito, na solidão de seu gabinete de trabalho, fazendo aquela parada de que falou Nabuco e que é indispensável aos homens de pensamento para darem a justa medida de seu valor. Pôs-se à margem dos acontecimentos e, inteiramente alheio às competições irritantes do partidarismo extremado, a que se não amoldava com facilidade, leu e escreveu muito. A política passara a ser uma folha solta na história de sua vida. Reapareceu em cena em 1905 para ser consultor do Ministério das Relações Exteriores, a convite do inolvidável barão do Rio Branco. E já o internacionalista consagrado, cujas opiniões são ouvidas e acatadas nos altos conselhos do governo, que, no ano seguinte, o nomeia para fazer parte da delegação brasileira naTerceira Conferência Americana aqui reunida, na qual avultaram suas eruditas e substanciosas contribuições. Pouco depois, ministro do Supremo Tribunal Federal, onde grangeou, pela sua ilustração e saber, tal autoridade que, ao falecer, dele diria o ilustre brasileiro ministro Pires e Albuquerque, seu ex-colega. Filho do seu próprio esforço, galgando, a poder de talento, de tenacidade e de trabalho, todos os graus de uma brilhante e fecunda carreira – professor, advogado, político, administrador, diplomata, jurisconsulto, e magistrado do Supremo Tribunal da República, - o Dr. Amaro Cavalcanti foi um raro e nobre exemplo do poder da inteligência quando servido pelo amor ao trabalho e pela dedicação à causa pública. Não conheço outro que se lhe avantage...
Perfeita esta síntese de sua vida, que ele andou por seu pé, e constitui magnífico ensinamento às novas gerações.
Aposentado em dezembro de 1914 no cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, não se manteve inativo, exercendo com inigualável elevação a presidênciada Sociedade Brasileira de Direito Internacional, que pouco antes fundara e que se afirmou desde a primeira hora uma das instituições basilares do Itamarati, de que continua a ser precioso órgão de consulta pela cultura especializada de seus membros. Simples posto de passagem, porque, em 1915, era escolhido para representar o Brasil na Conferência Financeira de Washington, comissão a que deu excepcional relevo.
Do meado para o fim do governo de Wenceslau Braz, foi-lhe confiada a direção da Prefeitura desta cidade, que administrou de forma moderada, como comprovam eloquentemente as ruidosas manifestações de reconhecimento e respeito que lhe prestou, por vezes, o povo carioca, notadamente ao confiar-lhe o título de Prefeito das estradas de rodagem pelo vigor com que atacou e resolveu, em parte, o problema do transporte urbano e suburbano desta Capital.
Da Prefeitura saiu para a pasta da Fazenda no quatriênio presidencial de 1918 a 1922. Efêmera sua permanência nesta pasta: novembro de 1918 a janeiro de 1919. Somente a aceitaria a instâncias de Rodrigues Alves; e, tendo o mesmo desaparecido dentre os vivos antes de entrar no exercício de sua segunda presidência, apressou-se em abandoná-la. Havia se traçado um programa de ação e, na impossibilidade de executá-lo, o poder já não lhe oferecia atrativos. Qual era esse programa soube-se depois, através de valioso documento publicado no Jornal do Comércio de 15 de agosto de 1923 e que me permite resumir em seus pontos essenciais: a) – exposição detalhada da situação em que se deparavam os diferentes países envolvidos na primeira guerra mundial no momento em que esta ia chegando ao seu termo; b) – panorama geral do Brasil no após guerra; c) – objetivos que deveriam ser visados pela nossa política de recuperação econômica e reconstrução financeira; d) – medidas e providências que, entre outras lhe pareciam aconselháveis; regulamentação do trabalho nas fábricas e quaisquer serviços industriais (hora de sua duração, garantia de salário, condições de sanidade e segurança, pronta indenização de acidentes, definição precisa de direitos e obrigações de operários e patrões) ; saneamento geral do país; disseminação do ensino profissional; bases e condições segundo as quais convinha promover o desenvolvimento de nossas indústrias fundamentais, tais como a agricultura, a pecuária, a mineração do carvão de pedra, e siderurgia, algumas mais; amparo às indústrias do ouro, da borracha, dos óleos, da pesca, dos tecidos, das manufaturas em geral; encampação dos portos; solução do problema do transporte e das secas do nordeste; reforma monetária; criação de um fundo internacional em ouro para que fosse assegurada a relativa estabilidade do câmbio; fortalecimento dos fundos de garantia e de resgate; instituição de estabelecimentos de crédito, inclusive um banco central de emissão, se as circunstâncias indicassem manifestamente sua necessidade; defesa da produção nos mercados internos e externos; criação do imposto de renda; revisão das leis tributárias. Em poucas palavras, a reorganização de nossas forças econômicas e, em consequência dessa reorganização, a normalidade da vida financeira da República.
Como se vê, o programa de um estadista de visão clara, consciente de suas responsabilidades e com poderosos instintos de criação e realização.
Ao deixar o Ministério da Fazenda, era quase setuagenário. Sentia-se cansado e seu estado de saúde reclamava prolongado repouso. Mas a providência não quis que o tivesse. Reservava-lhe ainda um lugar de juiz na mais elevada corte da Justiça do Mundo, o Tribunal Arbitral de Haia, de que foi notabilíssimo ornamento até sua morte, em 28 de janeiro de 1922.
Vultoso e opulento o acervo de suas produções, conforme se verifica desta bibliografia aliás incompleta:
A religião (1874);
Livro popular (1881);
Educação elementar nos Estados Unidos (1881);
Notícia cronológica da educação popular no Brasil (1883);
Ensino moral e religioso nas escolas (1883);
Meios de desenvolver a instrução primária nos municípios rurais ( 1884);
The brasilian language and its agglutinations (1884);
Financesdu Brasil (1889);
Resenha financeira do Império (1890);
Reforma monetária e bancária (1891);
Política e finanças (1892);
O meio circulante nacional (1893);
Elementos de Finanças (1896);
Tributação constitucional (1896);
Regime federativo (1900);
Unidade de direito processual (1901);
Direito das obrigações (1901);
O arbitramento no direito internacional (1901);
A justiça internacional (1902);
Taxas proibitivas nas tarifas aduaneiras (1903);
Responsabilidade civil do estado ( 1905);
Trabalhos na Terceira Conferência Internacional Americana (1906);
Revisão das sentenças dos tribunais estaduais pela Suprema Corte dos Estados Unidos da América (1910);
The federal judiciary in Brasil and the United States of America (1911);
Pan-AmericanQuestions (1913);
La codificationduDroit Internacional Americain ( 1914);
A vida econômica e financeira do Brasil (1915);
A neutralidade e as restrições do comércio internacional na guerra europeia(1916);
A Sociedade das Nações ( 1920).
Destes trabalhos, que engrandecem o patrimônio de nossas letras, uns são prova que basta de sua reconhecida capacidade de jurisconsulto abalizado e economista eminente; outros traduzem as tendências naturais de seu espírito pacifista, sem os exageros dos pensadores para quem não há guerra justa nem paz humilhante; muitos atestam a solidez e variedade de seus conhecimentos sobre vários assuntos estranhos às suas habituais cogitações; todos demonstram a mística nacionalista, que vivifica sua obra de escritor e a que se referiu, em 12 de dezembro de 1897, ao empossar-se de sua cadeira neste Instituto. Na sessão solene daquele dia, saudou-o em nome de nosso douto sodalício, o conselheiro Aquino e Castro, seu presidente, que proferiu famosa oração, a que respondeu, agradecendo, em discurso também famoso, do qual transcrevo este trecho bem significativo: “Onde quer que encontrardes um escrito meu podeis ficar certos de que ele foi elaborado sobre fatos do Brasil ou em virtude dos interesses do Brasil...” Queria dizer que, mesmo expondo, discutindo, sustentando ou combatendo ideias e princípios, escolas e doutrinas, nunca esquecia as realidades brasileiras, que se aprazia em comparar com as de outros povos da América e da Europa, por ele observados de perto e com excepcional proveito, porque falava e escrevia corretamente, além do português, o francês, o inglês, o espanhol e o alemão.
Alguém já escreveu que depende muita vez da primeira influência recebida pelo nosso espírito o destino que temos de realizar. Com Amaro foi assim: e esta a razão pela qual cumpre ressaltar aqui dois fatores, a meu ver decisivos, em sua formação: o meio físico e o ambiente moral dos sertões nordestinos, que aparelham os que neles nasceram ou neles vivem do destemor e da coragem com que enfrentam as lutas de todos os dias, da fortaleza de ânimo e da resistência de caráter com que vencem os golpes da adversidade. Sabem-no os que conhecem os efeitos das secas, que, conquanto menos desastrosas do que outrora, flagelam e exaurem, periodicamente, aqueles sertões, em provações supremas, que eu próprio já tive ocasião de descrever em quadros sombrios, como este: “Com as longas estiagens, esteriliza-se o solo; desnudam-se os campos; aniquila-se a criação; esgotam-se todos os recursos; e grandes levas de retirantes, exaustos e em desespero, procuram, deslocando-se para o litoral, fugir a uma morte certa, impiedosamente dizimados, sob um céu de fogo e sobre terras que abrasam. Aos milhares, se aglomeram nas cidades e nos portos, em grande promiscuidade, de perniciosos efeitos para a ordem e a saúde pública; mas nem aí podem permanecer, porque, sem meios com que possam assegurar a subsistência, são forçados à recorrer à esmola, que humilha, e, vencidos pelo infortúnio, a abandonar a terra de seu berço, a que nada mais os prende nos transes angustiosos de seu martírio...” Começa então o êxodo para outras regiões do país, onde não encontram, de ordinário, nenhum lenitivo aos seus inenarráveis sofrimentos, vítimas que são de triste e doloroso fadário...
Na infância, na adolescência e na mocidade, Amaro assistira a algumas dessas tremendas e devastadoras calamidades, que gravaram para sempre em sua memória os episódios dantescos de que fora testemunha ocular. Valeram-lhe por lições. Deram-lhe estímulos e forças nos instantes de desalento. Enfibraram-lhe a energia máscula. Armaram-no de serena bravura. Fizeram dele o lutador de rija têmpera, que, em qualquer arena de combate, jamais deixou de ser representante genuíno da raça varonil e forte, que sem embargo das asperezas e hostilidades de ingrato clima, povoou os sertões do Norte e devassou vastas regiões da Amazônia misteriosa. Daí os assomos e impulsos de sua franqueza, às vezes rude, que sabia dominar e conter em justos limites, graças à sua fina educação, aprimorada no convívio das elites sociais e dirigentes do nosso e de outros povos.
Tal é, ligeiramente esboçado, em linhas descoloridas o perfil do grande Self manmade, que foi, em seu tempo e sem favor, uma das mais culminantes expressões da intelectualidade brasileira.
Conheci-o pessoalmente quando deputado federal pela primeira vez. Não tivemos grandes expansões e, talvez por militarmos então em arraiais opostos da política local, nossas relações ficaram sendo por alguns anos muito cerimoniosas e de mera cortesia. A cordialidade de que se revestiam mais tarde veio lentamente e só foi completa de 1905 em diante, devido, entre outros, a um fato que vem de molde relembrar. Era eu governador do Rio Grande do Norte e, tendo falecido seu queridíssimo irmão padre João Maria, um verdadeiroapóstolo da caridade, cuja morte enlutou o Estado inteiro, entendeu de tributar-lhe, interpretando, particular e oficialmente, os sentimentos unânimes de sua população, as mais carinhosas homenagens de dor e de pesar. Meu gesto sensibilizou-o sobremodo e nossas almas se abriram de tudo. No ano seguinte, - ele ministro do Supremo Tribunal Federal e eu ministro da Justiça, - nos aproximamos de vez. Precisávamos ser muito amigos, dissera-me em sua primeira visita: e, realmente, o fomos, a tal ponto que, ao demitir-se do ministério em junho de 1909, por motivo do falecimento do preclaro presidente Afonso Pena, escrevia-me de Paris, onde se achava, cativante missiva, em que se lê, a par de lisonjeiras e generosas referências a merecimentos que não tenho, esta passagem que diz tudo: escreva-me de que quero continuar a ser maior amigo do Tavares de Lira do que era do Ministro da Justiça... Não repetia uma frase convencional. Dizia o que sentia. Era sincero. E nos doze anos que se seguiram, até que o levou a lei inexorável de contingência humana, nossa identificação foi absoluta. Inequívocas e irrecusáveis as demonstrações que demos um ao outro, na intimidade e nas posições que ainda viemos a ocupar, do bem que nos queríamos.
E que fique a recordação da boa, confiante e afetuosa amizade que nos uniu em dias idos como fecho destas páginas inspiradas pela minha doce, comovida e inextinguível saudade”.



MINISTRO A. TAVARES DE LIRA
Rio – 15-8-949

Referência: Revista do IHGB, volume 204, julho a setembro 1949. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1951