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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

QUANDO A LITERATURA FAZ JUSTIÇA - RESENHA DO LIVRO "VIÚVA MACHADO"


A biografia da Viúva Machado, escrita por Elza Cirne, é muito boa. É daqueles livros que, a cada página lida, provocam no leitor o desejo de querer mais. Essa insaciedade literária é própria das boas obras. 

Poderia ter lido em três dias, no máximo. Mas quis saborear e fiquei com ele em minhas mãos por mais tempo. Biografia é um gênero que me seduz e, tratando-se da Viúva Machado, melhor ainda.
 
A justiça foi feita. Elza Cirne não somente purgou a imagem de Amélia Machado, desconstruindo a maior mentira espalhada nesta cidade — Natal —, que se estendeu por todo o estado, como também nos presta a ação libertadora de mostrar que a biografada foi uma grande mulher empreendedora. 

Devolvo o livro à biblioteca que me emprestou, mas antes, como faço com todos os livros que leio, guardo em meu acervo de leitor o fichamento. 

Obrigado, Elza Cirne, por um trabalho tão belo. Que bom que foi escrito por uma mulher, com sensibilidade, olhar artístico e textos leves, porém literários.
 
Quem ainda não leu Viúva Machado - a grandeza de uma mulher, faça o mais breve possível. Há nele um rio de ações, de histórias, de dores, sonhos e outras coisas que correm paralelo ao Rio Potengi.

Francisco Martins
13 de agosto 2026



quinta-feira, 7 de maio de 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS : "PERTO DA MEIA-NOITE"

 

"Perto da Meia-Noite" é um daqueles livros que o leitor tem a sensação de que está lado a lado com o narrador, dentro das próprias páginas. E, quando o autor é Josué Montello, melhor ainda, pois seu estilo é cativante. Comecei a ler o romance na última semana de abril e terminei ontem, 6 de maio.  
Tem menos de 300 páginas, poderia ter lido em dois dias no máximo, mas optei por uma leitura vagarosa, grande parte dela, deitado numa rede, hora ouvindo o barulho do mar de Maracajaú, ou então, no alpendre da minha casa, em Parnamirim, à noite, em outra rede, dividindo a leitura com a chuva e os  patos.
Daniel, Glorinha, Dr. Teixeira formam o tripé dessa história, mesclada com parte fictícia e outras reais. Um drama, onde o conflito central é bem construído. A prosa de Josué Montello, nesse livro, traz também características biográficas do autor, ele, sendo narrador, aluno de Daniel e colega de Glorinha, abre-se para o leitor,  falando da sua puberdade e o início da vida literária.
Recomendo a leitura, foram 19 anos de maturação até o livro ser concluído.

domingo, 28 de dezembro de 2025

"NÍSIA, SEMPRE PRESENTE!"

CONSTÂNCIA LIMA DUARTE
ESCRITORA E PESQUISADORA




    Ainda hoje, após tantos anos lendo e escrevendo sobre Nísia Floresta, ela continua me surpreendendo. Aliás, não só a mim, mas a todos que dela se aproximam e conhecem um pouco sua história. Pois é mesmo espantoso, convenhamos, pensar que há mais de duzentos anos nascia uma menina em Papary, que se tornaria exceção dentre as mulheres de seu tempo.

Constância Duarte
    Não foram poucos os motivos que Nísia Floresta deu para provocar surpresa e até escandalizar, tanto os contemporâneos como pessoas que a conheceram décadas após sua morte. Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Oliveira Lima, Inês Sabino, Henrique Castriciano, Rachel de Queiroz e Décio Pignatari, por exemplo, foram alguns que se deixaram fascinar por sua inédita preocupação com a vida precária das mulheres.
    Pois, enquanto a grande maioria das brasileiras vivia reclusa, sem nenhum direito e totalmente submetida ao poder patriarcal, Nísia Floresta viajava, dirigia um colégio feminino e escrevia livros em defesa das mulheres, dos escravizados e dos indígenas!

Nísia Floresta
    Nossa escritora foi, com certeza, uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos na grande imprensa, pois, desde 1830 seu nome aparece em periódicos nacionais. Se lembramos que apenas em 1816, a imprensa chegou ao país, mais se destaca o papel pioneiro desta norte-rio-grandense.
    Ao todo, ela publicou quinze livros – dentre romances, contos, crônicas, poemas e ensaios – escritos em português, francês, italiano e inglês, alguns, inclusive, com duas, três, quatro edições. E os textos parecem dialogar entre si como peças complementares de um mesmo plano de ação, visando formar e modificar consciências. Em seus escritos, Nísia Floresta deixa nítido o propósito de intervir no contexto moral e ideológico vigente, no que dizia respeito ao comportamento das mulheres e dos homens.


    Foi também envolvido pelo intenso encantamento de Nísia Floresta que Roberto Lima de Souza – poeta, escritor, compositor e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras –, idealizou e construiu o poema-cordel que ora traz a público.
    Revelando extenso conhecimento sobre a escritora potiguar e gêneros literários – com destaque para o cordel e a herança épica – o poeta realiza verdadeira obra prima ao mesclar os dois gêneros. Do cordel, buscou o sofisticado estilo conhecido por “martelo agalopado”, composto de estrofes de versos decassilábicos, tônicas nas sílabas 3, 6 e 10, e rimas abbaacode. E da tradicional narrativa de poesia voltada para lendas e episódios da história cultural de um povo, Roberto Lima de Souza realizou esse primoroso trabalho em torno da venturosa vida de Nísia Floresta – objeto e sujeito de suas inspirações.
    Temos, então, muito bem articulados o martelo agalopado e as divisões clássicas do gênero épico: a Proposição – com o necessário apelo à inspiração para realizar a cantiga; a Invocação à musa “dos páramos celestes”; a Dedicatória, feita ao ilustre poeta e acadêmico Diógenes da Cunha Lima; seguidos de dez cantos que narram, detalhada e poeticamente as aventuras da heroína. Por fim, vem o Epílogo para encerrar a narrativa. Tudo construído com tal esmero que os leitores se veem envolvidos desde os primeiros versos.
    Surge, pois, neste poema, uma Nísia Floresta de corpo inteiro: a mulher, a mãe, a viajante incansável, a escritora inspirada. Uma brasileira de olhar reflexivo que, em sua longa trajetória de vida, ampliou os passos da jovem nordestina – tradutora de Os Direitos das Mulheres –, mantendo sempre uma postura altiva e consciente de si mesma.
    Assim, a luz que poeticamente emerge dos versos de Ao Brilhante Luar de Papary, reflete bem a vida e obra de Nísia Floresta – inesgotável fonte inspiradora da sensibilidade do poeta conterrâneo.


Fonte: Revista da ANRL,  Nº 85 – OUT/DEZ 2025, páginas 91 a 93.

segunda-feira, 31 de março de 2025

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: "QUARTEIRÃO DA FOME" DE RAIMUNDO NONATO

 


 "Quarteirão da Fome", livro da autoria de Raimundo Nonato, lançado pela Editora Pongetti - Rio de Janeiro, na categoria de romance. O livro não tem colofão, mas segundo Manoel Onofre Jr, saiu do prelo em 1949, sendo este o livro de estreia do escritor Raimundo Nonato.

A história tem como palco principal a fictícia cidade de “Bela Vista”, no Oeste Potiguar. Confesso que tive a felicidade de começar a ler Raimundo Nonato por outras obras, nos gêneros de memórias, histórias e etnografias e,  posso assegurar, que prefiro a pena do  escritor nesses campos, que a serviço do romance.

Esperava bem mais do romance. O autor não teve a arte de costurar o enredo, para não dizer que nem este existe. São capítulos distanciados da comunhão entre as personagens. Josué Montello nos ensina que “um personagem, para quem o cria, não é uma figura de papel, é um ser humano”.

 Em “Quarteirão da Fome” há vários personagens: Fábio, Dubas, Padre Anastácio, Lulu, Sônia, Adrião, Joca Pires, Carlos Pontes, Miluca, etc. Todos carentes de narrativas e de elos no romance. Não há no livro um projeto de história a ser seguido.  Que pretende passar o autor? Qual história e de quem ele desejaria contar? Diria que Raimundo Nonato se perdeu na elaboração do livro.

Os capítulos do livro são pequenos, sem sintonia literária e às vezes o narrador dedica-se mais no estilo de um ensaio, do que propriamente o gênero de romance. Prosseguindo na leitura de outros títulos, deparo-me com textos que são muitos similares, como em "Memórias de um retirante" (1957) e um capítulo de inteiro teor, em "Histórias de Lobishomem"(1951).

Volto a afirmar: Raimundo Nonato é um grande memorialista e historiador. Sua contribuição neste campo literário é rica, principalmente sobre a região Oeste Potiguar, mas não teve o dom de ser romancista.

Por ocasião da celebração do centenário de nascimento do autor, a editora Sarau das Letras fez a segunda edição  de "Quarteirão da Fome", em 2007.

 

FRANCISCO MARTINS

2025 ANO DO CENTENÁRIO DA DIPLOMAÇÃO DE RAIMUNDO NONATO COMO PROFESSOR

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: "OS TAMBORES DE SÃO LUÍS", DE JOSUÉ MONTELLO

 OS TAMBORES DE SÃO LUÍS”  continuam a rufar, 50 anos depois, conclamando leitores ávidos em conhecerem a saga de Damião.

 

Capa da 1ª edição


"Cada terra com seu uso, cada roca com o seu fuso

"

O escritor Josué Montello (1917-2006) escreveu mais de uma centena de romances, é o maior romancista do Maranhão, quer seja em produção literária e também em qualidade. Seus livros são dignos de aplausos.

Este ano, precisamente no dia 24 de dezembro, o romance “Os Tambores de São Luís” completa 50 anos que foi escrito. Josué Montello o escreveu primeiramente usando um caderno pautado, durante um ano, e depois, datilografando, que durou também outros doze meses. Durante essa etapa, o autor revia seu texto e sempre que achava necessário, refundia os capítulos. Desde sempre teve a preocupação com o bom texto.

Concluído em 1974, o texto ganhou corpo de livro somente no ano seguinte, quando em 19 de março de 1975, ele assinou o contrato de edição com a José Olympio Editora. Foram testemunhas Nelson de Melo e Carlos Drummond.

A literatura brasileira pode principiar a festa das bodas de ouro do livro “Os Tambores de São Luís”, 50 anos depois ele continua sendo um importante instrumento literário em prol da história que se constrói sobre a consciência negra.

Vamos celebrar a gestação desse clássico, cujo nascimento aconteceu em 3 de novembro de 1975, data em que Josué Montello teve em suas mãos, no escritório da José Olympio Editora, o primeiro exemplar do livro.

Para escrever esse romance, Josué Montello fez várias pesquisas, buscando “subsídios preciosos à hora da recomposição de ambientes de outrora”, principalmente em almanaques.

São 486 personagens no romance, que permanece inexcedível, quando o tema é escravidão, consciência negra. Foram mais de 20 anos de pesquisa. "Os Tambores de São Luís" tentam recompor três séculos de lutas da raça negra, que no corpo do texto , acontece numa caminhada do protagonista, Damião, que tem início às 22 horas do ano 1915 e vai terminar no dia seguinte, às 9 horas,  entre dois pontos da cidade de São Luís do Maranhão.

Não quero escrever uma resenha do que acontece com Damião.  Prefiro açaimar sobre isso e deixar que o leitor tenha a curiosidade de buscar o livro e sentir , ele próprio, como a escrita de Josué Montello é rútila.

As páginas desse romance  nos prende. Há nelas todo um cenário histórico, que tem o poder de levar o leitor para dentro do enredo e ter a sensação de que também caminha ao lado de Damião, sem ser percebido, mas tão perto dele, que escuta suas narrativas. Dentro dessas narrativas existem fatos históricos da sociedade do Maranhão. Um desses é sobre Ana Amélia Ferreira Vale. No diálogo que tem o Dr. Olímpio Machado com Dom Manuel ( páginas 112 e 113) lemos:

"O nosso Gonçalves Dias, amigo íntimo do Dr. Teófilo Leal, apaixonou-se por uma cunhada deste, a Ana Amélia, e a pediu em casamento à Dona Lourença Vale, mãe da moça e que Vossa Reverendíssima também conhece. O Gonçalves Dias não é um homem qualquer – é o maior poeta do Brasil e amigo pessoal do Imperador. O Maranhão não tem glória mais alta. Pois nada disso teve o menor significado para a nossa Dona Lourença, diante deste fato, de que o Gonçalves Dias não tem culpa: – ser ele mestiço e filho bastardo. E respondeu ao poeta, numa carta seca, com um não redondo. Não dava a filha a um mestiço. Mas a verdade é que o Gonçalves Dias, se quisesse, podia vir a São Luís, e levar a Ana Amélia, que estava disposta a fugir com ele. E não foi isso que fez. Humilhado, guardou a mágoa. E ao chegar ao Rio, casou numa das mais importantes famílias da Corte. A Ana Amélia, coitada, não perdoou a família. E quando o Domingo Porto, que é também bastardo e mestiço, lhe arrastou a asa, não hesitou em casar com ele, amparada pela Justiça. Vossa Reverendíssima já sabe que o casamento dela, aqui em São Luís, foi um deus-nos-acuda. Parecia que o mundo estava vindo abaixo. As amigas de Dona Lourença passaram a andar de preto, solidárias com o luto fechado da família Vale. O pai da Ana Amélia, instigado por Dona Lourença, foi ao cartório do Raimundo Belo e deserdou a filha, sob a alegação de que a moça tinha casado com o neto da negra Eméria, antiga escrava do coronel Antônio Furtado de Mendonça.

O Dr. Olímpio Machado estava agora debruçado sobre a cadeira, com os antebraços apoiados na madeira do espaldar. E procurando os olhos de Dom Manuel, depois de uma pausa:

– Vossa Reverendíssima já sabia desse fato? Asseguro-lhe que é absolutamente verdadeiro. O Domingos Vale deserdou a filha, por escritura pública, apenas porque o genro, Vice-Presidente da Província e Comandante da Guarda Nacional, é neto de uma escrava! Coisas deste nosso Maranhão, Senhor Dom Manuel da Silveira! Coisas deste nosso Maranhão!

E endireitando o busto, após outra pausa:

– Vossa Reverendíssima pensa que a família Vale se deu por satisfeita? De modo algum. Fez mais. Decidiu levar o Domingos Porto à ruína, na sua casa de comércio. De um dia para o outro, o Porto se viu com todos os seus créditos cortados. Ninguém quis mais negociar com ele. O resultado foi a falência, e o pobre do Porto obrigado a sair do Maranhão às pressas, para não cair nas unhas de seus perseguidores! Um horror, Senhor Bispo! Um verdadeiro horror! Eu, como Presidente da Província, nada pude fazer para ampará-lo. Só encontrei negativas. Era a cidade inteira contra um homem. E tudo por quê? Porque o Domingos Porto, que é um homem de primeira ordem, culto, educado, finíssimo, tem a desgraça de ser neto de uma escrava! Que é que Vossa Reverendíssima me diz a isto, Senhor Dom Manuel? Em que século estamos? E que terra é esta?"

É um livro e tanto. Mas adiante, o leitor vai se deparar com outro fato histórico, onde a personagem central é Dona  Ana Rosa Viana Ribeiro, que vai a julgamento por ser culpada pela morte de escravos menores.  

É preciso lembrar a advertência do autor: " Embora o romance se coloque, não no plano do documento, mas no da criação, poder-se-á estabelecer a concordância das duas vertentes, desde que ambas se confundam na harmonia da realidade romanesca".

Um romance que vai com certeza entrar na lista dos melhores livros já lidos. Na minha já faz parte, e eu, que nunca pensei em visitar o Maranhão, graças a esse livro, começo a ter o desejo de ir a São Luís e sentir o ambiente da história contada.

Não pense o leitor que é o livro é uma obra regional, não! Ele excede os limites do Maranhão e a sua mensagem atinge todo o Brasil Um clássico da nossa literatura. A data escolhida para o lançamento foi 9.12.1975, na própria loja da editora, no Rio de Janeiro, de onde ele partiu para o mundo.


Francisco Martins

10 de dezembro de 2024


Fontes consultadas

Jornal do Brasil - edição de 31-12-1979 artigo “Receita para os anos 80” - Josué Montello

___________ edição de 8-9-1987 artigo “Centenário da Abolição” - Josué Montello.

Diário do Entardecer - 1967 - 1977. Editora Nova Aguilar, 1998- 1ª edição


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: "ITACIRICA - A PEDRA QUE PENSAVA", DE WALDSON PINHEIRO

 Confesso que várias vezes eu peguei no livro e o soltei. A capa não me atraía e passava a sensação de que o assunto era técnico, didático, menos romance. Isso foi na década de 90 e depois, no primeiro lustro dos anos 2000.

capa da 1ª edição

Este ano eu disse a Mané Beradeiro que ele devia escrever um cordel sobre Waldson Pinheiro, um homem culto, poliglota e que está esquecido no seio cultural. O poeta aceitou a sugestão. Falei que o futuro homenageado escreveu um livro: "Itacirica - a pedra que pensava".  Ele me pede para falar sobre o livro, mas adianto que não li.
Fiquei pensando que seria bom ajudar o poeta cordelista e comecei  a garimpar o livro. Finalmente no início de setembro, consigo emprestado um exemplar da segunda edição. A primeira data de 1975.

Capa da 2ªedição
Aproveitei alguns momentos da tarde e me pus a ler "Itacirica". Logo nas primeiras páginas sinto o desejo de abandonar a leitura, mas pensando em Beradeiro e na oportunidade que tenho em ajudá-lo, continuo. Ponho-me a perguntar: Por que um homem tão sábio está escrevendo de maneira tão simples? Não encontrei resposta, até quando na semana passada, o poeta Beradeiro  me falou que "Itacirica" foi livro premiado pelo MOBRAL, aquele Movimento Brasileiro de Alfabetização, nos anos setenta. Sim, fazia sentindo o estilo utilizado pelo Professor Waldson Pinheiro.

O autor
E continuei a leitura, tendo o cuidado de premunir reflexões malsãs. "Itacirica", reclama ao leitor a sua atenção para uma história  romanceada, onde vai sendo construída a linha do tempo da nossa evolução, desde os tempos mais remotos até uns dias desses.
Vale a pena ler "Itacirica". Digo ainda mais, deve ser  incluído no rol dos livros literários para os nossos estudantes.

Beradeiro vai ficar alegre quando lhe falar do livro, e dizer que em 1974 ele foi elemento, com outros quatro livros, do conjunto das obras selecionadas pelo Prêmio Mobral de Literatura ( os outros autores foram de Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Porto Alegre.) ganhando 16 mil cruzeiros cada um e o melhor de tudo: os livros escolhidos tiveram edição  de 100 mil exemplares, por título. Não conheço nenhum outro escritor que no RN tenha alcançado tal êxito. Talvez Homero Homem.

Francisco Martins
02 de dezembro de 2024

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

CORDEL PARA CAPISTRANO DE ABREU - UM FOLHETO QUE TRAZ SEMENTES ÀS NOVAS LEITURAS

Capistrano de Abreu


 O poeta Marcos Campos escreveu um cordel biográfico sobre Capistrano de Abreu. O folheto recebeu  do autor um olhar especial, quer seja em seu projeto gráfico, impresso pela Offset Editora,  bem como um texto digno de aplausos, onde o leitor vai poder  degustar de um poema bem estruturado em todos os aspectos que pedem a cartilha do cordel brasileiro. São 32 sextilhas, distribuídas em 16 páginas.  O poeta apresenta o biografado e sua jornada de vida, de uma maneira cadenciada, que chegam ao nosso conhecimento como sementes que plantadas no roçado da curiosidade, com certeza fará com que, um  leitor mais exigente, vá buscar a complementação do que diz o poeta cordelista.
Poeta Marcos Campos

É certo que o cordel não pretende relatar minuciosamente a vida do grande Capistrano de Abreu, mas serve e muito de bússola, principalmente àqueles que pouco ou nada sabem sobre o historiador. Os bons cordéis merecem ser sempre lembrados e divulgados, como esse que data de 2020. Parabenizo o poeta.



Mané Beradeiro
28 novembro 2024



quinta-feira, 24 de outubro de 2024

"ENTRE VISLUMBRES E LETRAS" - UM LEITOR SATISFEITO


O silêncio é útil para que o poeta grite. Pelo menos é com esta técnica que a poeta Josimey Costa faz uso para temperar seus escritos.

Fiz a leitura de "Entre vislumbres e letras", livro de Josimey Costa. Imagens e palavras, dois elementos que se associam em um belo trabalho poético. O leitor lê a figura, que em si derrama mil palavras, e a poeta exprime numa única estrofe o que para ela a cena transmite.

As estrofes nos dão frases grávidas de filosofia, de vivência, que por sua vez nos fazem conhecer a profundidade da poética nascida na pena de Josimey Costa.

Ao terminar a leitura eu fiquei pensando: "e agora? Todas as vezes que eu olhar um quadro, uma paisagem, perguntarei que poema escreveria Josimey aqui"

A lição que me deu é que a poesia sempre permanece em nosso olhar. Faça-se poeta "entre vislumbres e letras".

Gostei de tudo, mas o que me tocou de forma intensa foi o poema da página 91 - "a saudade me olha na parede..." Ele tem a mesma sonoridade do verso de Drummond: "...Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói".


Francisco Martins

domingo, 13 de outubro de 2024

NÃO FAÇA ISSO COM O CORDEL

 " O compromisso da crítica é com a verdade"
Álvaro Lins



Por qual razão é tão difícil a alguns poetas, que pretendem ter  textos no gênero de cordel, fazer a coisa certa? Tenho a impressão que esses poetas não sabem, e se sabem, negam-se a aplicar na construção do poema, a estrutura básica e imprescindível da rima, métrica e oração.

Publicam-se folhetos e livros, classificados no gênero do cordel, e quando os lemos, encontramos com certa frequência a distorção à arte. Essa infidelidade presta um desserviço ao cordel brasileiro. Ninguém é pressionado a escrever nesse gênero, mas, uma vez decidido a escrever cordel, tem o poeta autor, a obrigatoriedade de fazê-lo com maestria. Escreva, peça a alguém para revisar, e que essa pessoa tenha conhecimento sobre o assunto. Aprenda com os melhores!

Eu poderia publicar aqui nomes de poetas e os títulos das suas obras, onde aparecem esses erros. Deixarei, porém, no anonimato, nem todos os avaliados têm a maturidade de aceitar a crítica.É bem verdade que muitos "poetas" estão surgindo e publicando seus poemas, mas quem ficará neste roçado do cordel daqui a dez anos? Muitos sairão da vereda bem antes dos três anos de caminhada. Estarei torcendo para que fiquem os bons.

Veja este exemplo:

Naquele tempo, minha gente!
Mulher era "bitolada"
Só dirigia fogão,
Cuidava dos filhos e da casa,
Nísia começou a escrever,
na história vamos ver,
Foi verdadeira batalha!

O autor da estrofe acima não é um poeta novato. Pelo contrário, sua produção em folhetos já ultrapassou mais de 150 títulos. É notável a  discrepância há no lugar das rimas: bitolada/casa/batalha. O  poeta aprendiz pode errar numa construção dessa, pois ele é iniciante, mas, se tiver um olhar crítico à sua produção, ele mesmo verá que precisa corrigir.

Igual ao autor acima tem muitos outros que se comportam como ele na produção. Não ficarei mostrando estrofes doentes, que já deveriam ter sidos tratadas pelos seus próprios poetas.

Não me canso de dar meu testemunho sobre isso. Meus primeiros folhetos tinham muitos erros. Fui aprendendo com os bons e os clássicos. Tive e ainda tenho a coragem de corrigir o que erro. Nisso não há desmérito, pelo contrário, é gesto de respeito ao cordel.

Chamo a atenção também para associações e academias que se propõem a organizar antologias do cordel brasileiro.  Tenham muito cuidado quem for ser o antologista responsável pela coleta do material. Recentemente adquiri e li uma antologia, organizada pela Casa do Cordel,em Natal, que infelizmente está repleta de poemas em cordel que deixam a desejar. 

O cordel brasileiro caminha para duzentos anos - nenhuma antologia da literatura brasileira, até onde sei, dedicou algumas páginas ao gênero - talvez por desconhecimento dos antologistas, por não gostarem do estilo, por terem o pensamento de que o poeta cordelista é um poeta de subliteratura, não sei! O que sei e propago  é temos a missão de fazermos o melhor pelo cordel.

Por fim, compreendam-me, não quero com esse meu ofício de crítico dizer que sou melhor do que  ninguém, mas desejo que se saiba, usando as palavras de Paul Souday: " A crítica é a consciência da literatura".

Por fim, não esqueçam: métrica, rima e oração é trinômio indispensável no cordel.

Mané Beradeiro
13 de outubro de 2024

segunda-feira, 24 de junho de 2024

UM CLÁSSICO DE VICTOR HUGO GANHA RELEITURA EM CORDEL



Escrito por Victor Hugo, e publicado em 1862, na França, o livro "Os Miseráveis" registra o grito dos pobres na sociedade francesa do século XIX.  Não demorou para se tornar um clássico da literatura mundial.

Li "Os Miseráveis" nos anos 90 e confesso que ainda não assisti o filme. Gosto mais de criar as próprias cenas na leitura, embora saiba que a sétima arte é formidável.

Hoje eu quero focar meu olhar de crítico para um recente trabalho, do autor Gilberto Cardoso, "Os Miseráveis - em cordel".

Vinte e quatro capítulos formam o livro, todo escrito em estrofes com sete pés (ABCBDDB). Um trabalho construído no tempo da Pandemia do Corona Vírus, que exigiu muito do autor, mas o resultado foi digno de aplausos.

Convido os professores da língua portuguesa, e principalmente os que trabalham com Literatura no RN, a tomarem conhecimento dessa obra escrita por Gilberto Cardoso.

Apresentá-la aos alunos do Ensino Médio é atingir o alvo com várias setas, de forma simultânea. Vejamos:

1º) O professor estará cumprindo o que determina a Lei nº 11.231, de 4 de agosto de 2022, que inclui a Literatura Potiguar nas Escolas da rede estadual de ensino e particular.

2º) A escola incentiva o fomento à literatura de cordel (Lei nº 10.950, de 13 de julho de 2021).

3º) Incentiva a Cultura da Leitura e da Escrita ( Lei nº 10.690, de 11 de fevereiro de 2020).

4º) O leitor tem a oportunidade de conhecer a releitura de um clássico francês, no gênero de cordel.

Esse é o tipo de cordelivro que nasceu para somar e fazer parte de um conjunto de obras congêneres, que contam histórias clássicas, nesse gênero de poesia, o cordel.

Gilberto Cardoso construiu 539 estrofes, totalizando 3.773 versos. Tendo a capacidade de escrever e recontar "Os Miseráveis", sem levar ao leitor a sensação de cansaço.  Breve irei assistir o filme e então poderei dizer: li o livro, o cordel e vi o filme. Louvo o autor e poeta cordelista, Gilberto Cardoso.Parabéns!

Mané Beradeiro - 24 de junho de 2024



 


quarta-feira, 23 de agosto de 2023

UM CORDEL QUE TEM A HISTÓRIA DA COMISSÃO DO FOLCLORE

 Josenira Fraga distribuiu na manhã de ontem, por ocasião de um evento no Instituto Ludovicus, em Natal,   o folheto em cordel com o título: " 75 anos da Comissão do Folclore - 75 anos de muita cultura para o RN".

Parabenizo a autora  por ter trazido às páginas do cordel brasileiro, esse poema biográfico que nos revela traços da história dessa instituição tão importante à cultura potiguar. A estrutura do folheto tem 24 estrofes em sextilhas, com rimas nos versos pares, o que comumente denominamos "xaxaxa".

O cordel  quando é bem escrito ele é harmonioso, o leitor é fisgado pela sonoridade das rimas e o movimento sincrônico dos versos.  Esta sincronia é prejudicada quando o autor deixa escapar versos desmetrificados, que conhecemos no popular como "pé-quebrado".

Não sei o que aconteceu  durante o processo de produção e editorial do folheto que agora analiso, parece-me e quero nisso crer, que foi impresso  repentinamente, sem passar pelo crivo de um revisor. Sim! pois é notória a presença de alguns erros tanto na grafia de algumas palavras, algumas atribuídas à digitação, mas há uma parcela que é da inteira responsabilidade da autora, refiro-me à métrica. Encontrei 13 versos, que são elementos do conjunto "pé-quebrado".

A autora não começou a escrever cordel recentemente, ela está na nessa estrada deste 1979. Fica a dica para que em publicações futuras haja um olhar mais criterioso, dando espaço tão somente aos aplausos, pois criticar é deveras perigoso e nem sempre compreendido.


Mané Beradeiro

23 de agosto 2023


quinta-feira, 26 de maio de 2022

PEDRO COELHO - OLHAR MINERAL

 


    Eulália Duarte Barros, escritora, Conselheira do Conselho Estadual de Cultura do RN e Acadêmica da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras nos presenteia com mais uma obra: "Pedro Coelho - Olhar Mineral".
   Um livro que começa se abrindo para o leitor com imagens fotográficas que retratam o homenageado com família e amigos. Clichês em preto e branco que formam páginas do álbum da vida.
    Passam-se algumas folhas e o ledor vai esbarrar num poema de Zila Mamede, dedicado a Pedro Coelho, que traz o subtítulo do livro.
  Tem razão Ângela Almeida quando escreve: " o que poderia ser simples tornou-se complexo". E o leitor não veja isso como uma pedra literária criada pela autora, mas, sim, por causa das possibilidades  de prismas que o livro nos oferece.
    Eulália Barros passa a ser a própria voz da "Casa da Seridó". A personalidade da casa é o reflexo do próprio Pedro, caridoso e até certo ponto, senhor das dores, coração flamejante.
   A ficha catalográfica teima em querer que o leitor acredite ser esse um livro de memória, mas não é. Sua beleza, suas ilustrações me levam a afirmar: não, não é memória. Ele vai muito mais além, é prosa poética, é cântico de louvor é canção de amizade. 

Francisco Martins.



segunda-feira, 25 de abril de 2022

CORDELISTAS CONTEMPORÂNEOS -UM REGISTRO EM 2022 - PARTE I

 Imaginem o mundo sem Zeca Pereira, como seria pobre. Alguém poderá pensar: "mas ele não é tão universal assim. É apenas uma gota no oceano da humanidade". Sim, mas sem a existência dele, esse oceano estaria incompleto. Há homens que não gritam e são ouvidos a milhares de quilômetros da sua localidade. Zeca Pereira é um deles. 


José Pereira dos Anjos - Zeca Pereira

"Do meu sangue fiz a tinta,
Dos cabelos um pincel,
Da palma da mão esquerda
Uma folha de papel
Pra escrever com a direita
Tudo que devo ao cordel"
(ZECA PEREIRA, 2020, P. 413)

Inicio essa resenha enaltecendo o editor, folheteiro, poeta cordelista Zeca Pereira para fazer justiça ao seu trabalho a favor do cordel brasileiro. No roçado da Nordestina Editora, que começou a existir em março de 2016,  já desabrocharam produções literárias que honram as estantes das cordeltecas e dos poetas e pesquisadores que prezam por bons livros. Vejamos alguns:

Cordelistas Contemporâneos - 2017

Além do Cordel - antologia versátil - 2017

O Baú do Medo - coletânea de cordéis de suspense e terror. - 2019

Anuário do Cordel Brasileiro - 2019

O ABC do Cordel, além de Rima, Métrica e Oração - 2020 (manual para quem deseja escrever cordel)

Dicionário Biobibliográfico dos Cordelistas Contemporâneos, - com pequenas biografias de 204 poetas - 2020

Nova Antologia de Cordelistas Baianos - com  30 poetas - 2021

Cordelistas Contemporâneos - 2022

Some-se a isso a grande quantidade de folhetos que a editora lança  constantemente, quer sejam dos cordelistas atuais ou as obras clássicas desse gênero literário. Venho hoje tratar sobre o mais recente trabalho da Nordestina Editora que tem o título "Cordelistas Contemporâneos - Coletânea 2022",  nele temos a oportunidade de conhecermos um pouco do quem vem sendo produzido em cordel  em cinco regiões brasileiras.


A antologia se apresenta  da seguinte forma, no tocante a participação dos  poetas e das poetas cordelistas: ao todo foram 49 participantes, sendo 13 mulheres (27%) e  36 homens (73%).



Quando analiso a faixa etária dos participantes a situação é a seguinte:





O cordel continua encantando todas as idades.  De 32 a 80 anos vamos encontrar nesse livro, pessoas escrevendo sobre os mais diversos assuntos.

Apenas 11 estados se fazem presentes nessa antologia. Devo entretanto adiantar que isso não significa que os poetas são naturais destes estados, com raríssimas exceções,  para os estados de São Paulo, que tem o poeta  Márcio Fabiano e Rio Grande do Sul, com José Heitor Fonseca e os poetas do Pará ( AroDinei Gaia,  Flávio Barjes e Niro Carper). Os demais, todos são nordestinos, poetas que vivem em outras  locais  deste extenso Brasil, longe do seu berço. Esse quadro corrobora que  o  nordestino é inegavelmente o maior semeador e sustentador dessa literatura.



Se foco a participação por Regiões do Brasil o quadro fica assim:






Percebam que existem verdadeiros poetas quixotescos, que sozinhos trazem a presença do cordel nesse livro. Refiro-me a Aurineide Alencar (Centro-Oeste) e a José Heitor Fonseca (Sul). A eles, nossos aplausos, pela coragem e determinação de continuarem levando a literatura do cordel brasileiro.

Há um outro fator que é muito importante levarmos em conta. Trata-se do nível de estudo alcançado pelos poetas. Se outrora, os poetas populares, quer sejam cantadores de violas, repentistas e cordelistas eram tidos  na categoria de homens e mulheres não letrados, hoje a situação é totalmente diferente. Percebam que aqui, dos 49 poetas que compõem a antologia, 33 são graduados e 16  estão entre aqueles  que não informaram ou não  têm um curso superior. Entre os graduados,  mais da maioria buscou especialização e  pós-graduação. Isso não significa que essa turma é maior em qualidade poética que aquela dos 16 não graduados. Não vai ser o nível de formação que fará o poeta. Lembremo-nos de Paulo Freire: "Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes".




Uma coisa é certa, quanto mais subimos na escala do conhecimento, maior se torna a responsabilidade naquilo que produzimos, e isso se aplica ao cordel. 

Feitas as considerações acima, é chegada a hora de avaliarmos a produção literária. 


"Os assuntos são infinitos.
Todos os motivos políticos,
locais e nacionais fazem
nascer dezenas de folhetos"
(CASCUDO, 1953, P.11)

E passados 69 anos depois que Cascudo escreveu "Cinco Livros do Povo", no qual ele vai se debruçar sobre a literatura popular, hoje conhecida como cordel,  nossos poetas continuam a escrever sobre os mais variados assuntos.  Vou resenhar sobre cada texto e estarei publicando por aqui, na segunda e última parte desta postagem. Aguardem.

Sem perder o rumo e o prumo ...


Mané Beradeiro
25 de abril 2022
Parnamirim-RN



Fontes consultadas:

Dicionário Biobibliográfico dos Cordelistas Contemporâneos -  Zeca Pereira - Org. Barreiras-BA: Nordestina Editora, 2020.
 
Cinco Livros do Povo. Luis da Câmara Cascudo. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1953.




segunda-feira, 21 de março de 2022

UM OLHAR SOBRE A COLEÇÃO DEZ MULHERES POTIGUARES - CORDEL

 



A Casa do Cordel, pelo quinto ano consecutivo, concretizou mais uma edição da Coleção Dez Mulheres Potiguares, que é um projeto voltado a homenagear as mulheres, através do gênero de cordel, onde as autoras escrevem sobre outras. Tenho acompanhado todas as edições, na qualidade de leitor e principalmente como crítico do cordel brasileiro, e até onde sei, o único do Rio Grande do Norte, que tem a coragem de escrever sobre esse gênero e tornar pública a opinião. É bem verdade que há aqueles que falam, mas não escrevem. São palavras soltas ao sabor do vento. As minhas, optei por gravá-las na pedra.

Tal atitude tem seu preço, e acreditem, nem sempre é saboroso como o mel, e isso se dá pelo fato de que o autor ou autora, objeto da crítica, às vezes não aceita ver seu cordel ser analisado de forma tão criteriosa. O que eu quero na verdade é mostrar o zelo que devemos ter por essa poesia. Se há regras que tenhamos a preocupação de segui-las; se há sugestões para melhorar a produção, que tenhamos a humildade de acatá-las. Eu mesmo sou um poeta cordelista que cresci em minha trajetória por ter vontade e disciplina. Muitos erros cometi nos primeiros folhetos, mas não me amarrei a eles. Como dizia Rafael Negreiros: “Não sou estátua para não mudar de posição”.

Feitas tais considerações é hora de apresentar o que vi na quinta edição da coleção “Dez Mulheres Potiguares”, As poetas cordelistas foram (por ordem alfabética):

1)    Célia Melo (Bombom) - Ana Paula campos: Mulher de todas as tribos

2)     Fátima Régis - Titina Medeiros: A arte e a resistência de uma atriz potiguar

3)    Geralda Efigênia - Eliane Amorim das Virgens Oliveira: Primeira desembargadora do RN

4)    Gorete Macêdo - Maria de Lourdes Alves Leite: Pioneira na Justiça do Trabalho Potiguar

5)    Járdia Maia - Lindalva Torquato Fernandes: Da Política no Sertão para a justiça no TCE - Ministra TCE

6)    Jussiara Soares - Áurea de Gois: A poetisa de Extremoz

7)    Rita Cruz - Daluzinha Avliz: A Contadora de Histórias

8)    Rosa Régis - Dona nenén: A sua arte deu cores ao galo de São Gonçalo

9)    Sírlia Lima - Wilma de Faria: Uma rosa vermelha e uma líder guerreira

10) Vani Fragosa - Fátima Bezerra: A esperança fazendo a história.

        Li e reli várias vezes os dez folhetos - vou apresentar um quadro geral sobre as observações, caso alguma autora deseje saber a análise que foi feita sobre o seu poema, posso enviar pelo e-mail.  Como é do conhecimento de todos, o gênero do cordel possui entre suas características, três que são inegociáveis: métrica - rima - oração. Tratarei disso à luz da Tabela Beradeiriana, que vai nos mostrar a eficiência poética do conjunto dos textos analisados. Nove folhetos têm 32 estrofes e apenas um tem 31 estrofes, em sextilhas, com versos heptassílabos (pelo menos deveriam ser), isto é, sete sílabas poéticas. Assim sendo, considerei para fim da aplicação da Tabela Beradeiriana, que a coleção teria um único texto com 319 estrofes, 1914 versos, dos quais 957 devem ser rimados e ter boa oração. 

 O Resultado foi este:

MÉTRICA: 97, 87%

RIMA = 99,37%

ORAÇÃO = 95,65%

 A média geral do Índice de Aproveitamento Poético dessa coleção foi de 96,63%. Algumas participantes obtiveram o IAP de  100 %, e outras menos, mais nenhuma ficou abaixo  de 92%. O que é digno de aplausos.

Quais ensinamentos podemos tirar dessa análise crítica?

 1º) É preciso sempre ter a preocupação de mandar revisar o texto poético, antes de   entregá-lo para a impressão final.

2º) Há excelentes poetas cordelistas no RN mas existem aquelas que ainda precisam solidificar seus poemas.

3º) A Casa do Cordel, instituição que tem prestado relevante serviço ao Cordel  Brasileiro, não pode achar que um trabalho com dez poetas participantes, não careça passar pelo crivo de um Conselho Editorial. Se isso tivesse acontecido, com certeza o IAP seria muito maior.

4º) É mister promover um curso de formação sobre métrica, rima e oração, para que possamos dessa maneira capacitar os poetas (homens e mulheres) que têm dificuldade no assunto.

 Outras observações são importantes que se façam, são elas:

 1º) Há uma carência grande da presença de imagens poéticas nos folhetos. É preciso que o poeta saia da linguagem comum e traga ao seu texto elementos que causem ao leitor emoções, devaneios e vontade de continuar lendo outros poemas desse autor.

2º) Tente na construção do verso dizer o que pretende, sem causar ruptura na sonoridade.

                     Exemplos:

               “ Em Brasília adentrou na

                 Câmara dos Deputados”

 

               “ Foi na Faculdade de Nova

                 Friburgo estudar”

 

3º) Mantenha-se fiel ao tema que se propôs poetizar. É frustrante o leitor perceber que o autor não tratou sobre o que diz o título do cordel. Nesta coleção “Dez Mulheres Potiguares - 5ª edição” dois folhetos apresentam isso:          

 Daluzinha Avlis: A Contadora de Histórias - Não há uma única estrofe que trate sobre as atividades da Daluzinha, no ofício de contadora de histórias e o registro da Maratona de Histórias, algo tão singular criado por ela.

 Lindalva Torquato Fernandes - Da Política no sertão para a justiça no TCE - Ministra do TCE - Também aqui não encontramos nada que diga respeito à presença da homenageada no Tribunal de Contas do Estado - TCE.

 Finalmente há coisas boas a serem ditas sobre a coleção em pauta:

As cordelistas têm um bom domínio da rima e oração.

As mulheres que foram temas dos poemas revelam a importância da luta da mulher na cultura e história potiguar

O Cordel Brasileiro, escrito por mulheres, ganha cada vez mais espaço e conquista leitores

As artistas xilogravuristas ( Célia Albuquerque, Cecília Guimarães, Letícia Paregas e Kimberly) fizeram um trabalho louvável.

. O Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte, em sua sessão plenária, de terça-feira pp, aprovou voto de congratulação pelo conjunto da obra. A proposição foi feita pela Conselheira Sônia Maria Ferreira Faustino e o voto será enviado brevemente à Casa do Cordel, as poetas participantes e à Professora Doutora em Literatura Comparada (UFRN), do Instituto Kennedy e da Rede Pública de Natal - Aparecida Rego, que escreveu a apresentação dessa coleção.

Mané Beradeiro, em 21 de março de 2022.


 A imagem que ilustra o artigo foi tirada do seguinte  endereço: https://www.soumaisrn.com.br/2022/03/08/coletanea-de-cordeis-homenageia-mulheres-que-fizeram-historia-no-rn-neste-8-de-marco/  Visualizada em 21 de março  de 2022.