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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ORÍGENES LESSA E O CORDEL BRASILEIRO

Orígenes Lessa, quem é leitor facilmente vai lembrar desse nome.  Nasceu em 1903 na cidade de Lençóis Paulista (SP) e faleceu no Rio de Janeiro, em 1986,  um dia após o seu aniversário, no dia 13 de julho. Estava com  83 anos.


 Estreou na literatura em 1928 com o livro de contos "O escritor proibido", que foi muito bem recebido pela crítica.  Depois publicou outros livros e ensaios. Em 1970 ele voltou seu olhar para o público infantojuvenil para o qual escreveu mais de 40 livros. O sucesso  nessa área o tornou querido entre as crianças e os jovens do Brasil. Ele pertenceu a Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 10, tomando posse no dia 20 de novembro de 1981.

Orígenes Lessa  foi também  um grande colaborador no campo do cordel brasileiro.  Em 1923 ele  teve seu primeiro encontro com o cordel, quando estava visitando a cidade de Fortaleza -CE. Comprou folhetos e ficou "interessado pela seriedade dessa literatura" (palavras dele, fonte 1).  E foi graças a este interesse que ele chegou a ter um acervo com vários folhetos de cordéis. Sua cordelteca serviu de base para trabalhos de pesquisa da Casa Rui Barbosa.  E é sobre as atividades de Orígenes Lessa no campo do cordel brasileiro que eu quero escrever.

Em 1954 fez uma conferência na ABDE sobre  Literatura Popular em Versos. Esta palestra teve grande importância para a história do cordel brasileiro, pois despertou o "interesse" pelo assunto e a palestra foi citada na França, Estados Unidos e Portugal.

Orígenes Lessa, juntamente com Cavalcanti Proença e M. Diegues Jr dedicaram-se  à tarefa pioneira  da Coleção Literatura Popular em Verso, que é formada por dois Catálogos com mais 1.000 folhetos do cordel brasileiro, duas Antologias e  tomo sobre Estudos. Esses trabalhos foram publicados pelo Ministério da Educação e Cultura- Casa Rui Barbosa, nas décadas de 60 e 70.



No 1982 ainda colaborando com a Casa Rui Barbosa, fazendo pesquisa sobre o cordel, Orígenes Lessa publicou: "Inácio da Catingueira e Luís Gama: dois poetas negros contra o racismo dos mestiços"  e também escreveu um ensaio sobre "Getúlio Vargas na Literatura de Cordel" e preparou a antologia "O cordel e os desmantelos do mundo" com 25 folhetos sobre a moda.

 

 Há um livro infantojuvenil que também foca sobre o cordel brasileiro, em forma de prosa. Trata-se de "Aventuras em São Saruê", um texto que eu vou deixar para escrever sobre ele brevemente.

 Esse é Orígenes Lessa, um nome que devemos sempre lembrar e sermos agradecidos pelo seu empenho no estudo e pesquisa do cordel brasileiro. Foram poucos os intelectuais que tiveram a coragem de hastear essa bandeira naquele tempo. Por isso e muito mais meus aplausos ao escritor Orígenes Lessa.

Mané Beradeiro
Parnamirim/RN, 28 de janeiro de 2021

 

Fontes

1)  Suplemento Literário - O Estado de São Paulo - 31 de julho 1983 - página 9.

2) Fundação Casa Rui Barbosa < http://www.casaruibarbosa.gov.br/interna.php?ID_S=226&ID_M=67> Visualizada em 26 de janeiro 2021.


 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

CEM ANOS DEPOIS O MAL PERMANECE




Francisco Martins

Os contos completos de Monteiro Lobato estão presentes em quatro livros: Urupês (1918), Cidades Mortas (1919), Negrinha (1920) e o Macaco que se fez homem (1923). Ao todo totalizam sessenta e seis contos. Desse conjunto, quatro celebram centenário em 2016, são eles: “A Vingança da Peropa”, “Um Suplício Moderno”, “Pollice Verso” e “O Espião Alemão”. Os três primeiros estão em Urupês e o último integra Cidades Mortas. Esses não são os contos mais antigos de Lobato, de todos os que foram datados, há três que já estão nas páginas da literatura com seus cento e dezesseis anos: Café Café, Cavalinhos e Noite de São João, escritos em 1900.
                O quê há de tão especial nos contos acima que completam centenário de criação?  Nada de extraordinário. Mas, tomei a iniciativa de enquanto leitor, buscar um viés que interligasse a trama lobatiana dos três contos com a sociedade do presente século. Será possível?  Até quando a literatura permite que isso aconteça? Afinal, lemos para quê? Alguns dirão: para entretenimento, outros afirmarão – para buscar conhecimento, e tem os que lêem pela cultura.              
                Independente do tipo de leitor que somos,  habituais ou ocasionais, uma coisa é certa, devemos  ter em mente o poder da leitura:
Que ninguém leia por nós para que ninguém seja dono de nossas vidas. Esse é o valor da leitura. Ler para aprender a nos ler no próprio mundo... uma pessoa, um país, uma nação é uma forma própria de ler e de se ler (BÉRTOLO)
Seguiremos então na busca do viés que penso encontrar nos contos centenários, objeto deste artigo. Primeiramente vejamos “A Vingança da Peroba”,  no qual vamos nos deparar com João Nunes, o pai de  José Benedito, apelidado por Pernambi, com sete anos, a quem o pai já ensinava a tomar pinga. Sua máxima filosófica era: “Homem que não bebe, não pita, não tem faca de ponta, não é homem” (LOBATO, p.70). Aqui encontramos a ponta do viés, inda hoje, um século depois, a sociedade vive mais do que ontem mergulhada no problema das drogas.  Se antes fora o álcool que destruiu tantos males, hoje, fora das páginas ficcionais está bem presente o craque, a cocaína e outras drogas que acabam com nossas crianças e jovens.  
Saiamos do conto  acima e vamos às páginas de um outro “Um Suplício Moderno”, nesse, a personagem central é Biriba, um homem, funcionário público, explorado em todos os sentidos, no salário e nos afazeres. O próprio narrador do conto diz: “Mundam de formas as coisas; a essência nunca muda” (LOBATO, p. 83).  Fiquei a pensar nos “Biribas” que estão hoje sendo servidores municipais e estaduais e federais, nos “Biribas” da ativa e aposentados, que sofrem com a atual crise política e econômica em que vive o Brasil.
Já no terceiro conto desta análise, em  “Pollice Verso”,  após a leitura percebi que ainda hoje, em pleno século XXI existem profissionais de saúde fazendo gesto do polegar virado para baixo, condenando à morte seus pacientes. Apenas um pequeno grupo vê a medicina como um sacerdócio. Fala mais alto o dinheiro. Sempre haverá neste meio profissional a figura de Inácio Gama, médico que assim se comportava: “Inácio não enxergava em Mendanha o doente, mas uma bolada maior ou menor, conforme a habilidade do seu jogo” (Ibid., p. 105)
Por fim, no quarto conto, “O Espião Alemão”,  Lobato inicia o texto falando das guerras e com muita sabedoria exprime: “Homens e coisas passam, mas guerra fica” e transporta o leitor até um pequeno lugarejo de cinco mil habitantes, Itaoca, que por sinal se faz presente em diversos contos da sua obra. Aqui, o escritor nos mostra o quanto é possível com artimanhas, produzir e trazer à população uma situação perigosa:
A situação é gravíssima, senhores! Itaoca está sobre um vulcão! Minada de todos os lados, a vida das nossas famílias, a honra das nossas esposas, as mãozinhas das nossas crianças (sensação) correm o maior dos riscos! (Id., 2014, p. 312)
                Eis que já se passaram cem anos que foram escritos esses contos, mas a droga, a exploração do homem em seu trabalho, a inoperante prestação dos serviços  públicos e a escassez de  pessoas com condutas íntegras dão campo ao crescimento e existência destes males em nossa sociedade.


Referências:
BÉRTOLO, Constantino. Revista Emília, In: Ler para quê? Fronteiras e horizontes. Disponível em: http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=475. Visualizada em 25 jul 2015.
LOBATO, Monteiro. Contos Completos. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014







               
               

segunda-feira, 4 de julho de 2016

AMANHÃ SERÁ LANÇADA A REVISTA Nº 47 DA ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS

Amanhã, terça-feira, à tarde, por volta das 17 h, será feito o lançamento da Revista nº 47 ( Abril a junho 2016) da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. A Revista com publicação trimestral tem como Diretor o Acadêmico Manoel Onofre Jr e Editor Thiago Gonzaga. Nessa edição há a participação de  17 Acadêmicos (54,8%). O ideal é que a participação dos imortais fosse bem maior, algo em torno de 70%, infelizmente nem sempre eles escrevem à revista. Já tive a prioridade de lê-la e confesso que está muito boa. Artigos, ensaios, contos, crônicas, poemas e discursos preenchem as 166 páginas.  Chamo a atenção para o conto "Traição e morte na Fortaleza da Barra", de Demétrio Diniz, no qual há mescla de história e ficção, muito bom para ser apresentado àqueles que precisam conhecer a história de Natal.  Iaperi Araújo e Júnior Dalberto também abrilhantam o periódico com contos. Inegável afirmar que esse número vem bem melhor do que o anterior. Está com mais característica de uma revista literária. Oxalá, que assim continue. Parabéns à Academia  e principalmente aos que fazem e contribuem para este serviço de registro da literatura em nosso Rio Grande do Norte.  Quem desejar  ler ou baixar a revista é só acessar o link: http://media.wix.com/ugd/d72a24_9ccab6383a0b4b60be380e2d16954c65.pdf

quarta-feira, 29 de julho de 2009

FOI AUTA DE SOUZA UMA POETISA MÍSTICA?

Durante muitos anos se pensou que Auta de Souza foi uma poetisa mística. Isto se deve ao fato das suas poesias sempre terem como tema a ligação Homem/Deus. O poeta Francisco Palma a chamou de "Cotovia Mística das Rimas"; o próprio Olavo Bilac assim se refere a Auta: "mas a nota mais encantadora do livro é a do misticismo, que dá a algumas das suas poesias." Nem mesmo o irmão Henrique Castriciano ficou fora deste conceito quando assim escreveu: "mas, sem a dor que lhe requintou a fé, Auta certamente não teria encontrado a forma com que dá cor e relevo às visões do seu misticismo." Outros também afirmaram isto, como Tristão de Ataíde, Jackson de Figueiredo, Perilo Gomes e Palmira Wanderley.
Mas é com Câmara Cascudo que esta cortina há de cair, pois assim se expressa o mestre: "A minha geração em Natal, aqueles que começaram a escrever ao redor de 1928, receberam Auta de Souza como a Poetisa Mística do Brasil. Nenhum de nós sabia o que vinha a ser misticismo. O título era sonoro e orgulhador para o nosso provincianismo sedento de notoriedade. OLavo Bilac e Nestor Vitor diziam-na "mística". Podiam resolver. Tinham autoridade. Estávamos todos enganados. Eles e nós".
Desta forma, é certo afirmar que Auta de Souza não é poetisa mística. O místico tortura a carne para edificar o espírito. Ela jamais se enclaustrou, nunca teve êxtases ou visões, não vivia de forma contemplativa. E para fechar esta afirmação com segurança, veja o que diz a Doutora Maria de Lourdes Belchior, da Universidade de Lisboa: "Não há escritores místicos na Literatura Portuguesa, nem na Literatura Brasileira. Existem, tão só, autores espirituais."
Inegável é que "a religiosidade de Auta de Souza era profunda, sincera, modular, mas não ascética, mortificante, mística" (Câmara Cascudo).
Então, pelas razões expostas acima, Auta de Souza não é poetisa mística. Seria ela uma simbolista? Esta pergunta respondo brevemente.