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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

RETRATO DO MEU SERTÃO


Quando chove no sertão 
As plantas mudam a roupagem 
Vê-se logo outra paisagem
De encher alma e coração 
É Deus colocando a mão 
Onde a seca castigava
Ninguém mais aguentava 
Todo esse sofrimento 
Vivemos outro momento
Do jeito que se aguardava

O sertanejo se alegra 
Olha pro céu e agradece
Eleva ao Pai uma prece
Numa verdadeira entrega
E na fé que ele carrega 
Ara a terra pra plantar 
Se a semente germinar 
A safra tá garantida 
Armazenando comida 
Pra na mesa não faltar

E assim ele vai vivendo
Sem perder a esperança 
Esperando por mudança 
Que há muito vêm prometendo 
Você só sabe é vendo 
A história é sempre essa 
Aparece muita promessa 
Entra ano e sai ano
O que não falta é plano
Mas fica só na conversa

Digo por experiência 
Porque no sítio nasci
Um tempo bom que vivi
Em toda sua essência 
Sobrava resiliência 
Também era muito gostoso 
Um lar sempre harmonioso 
Com meus irmãos e meus pais
Tempo que não volta mais 
E tornou-se muito saudoso

A gente vai pra cidade 
E o sítio não sai da gente 
Ao descrever em repente 
Bate forte uma saudade 
Mas foi por necessidade 
Que deixamos aquele canto
Havia bastante encanto 
Em nossa bela moradia 
Onde ali se convivia
Sem medo e sem ter espanto

Tudo era muito ordeiro 
A comida era mais pura 
Podia-se comer gordura 
De janeiro a janeiro 
Um povo hospitaleiro 
Bastante respeitador 
Também muito trabalhador 
Que jamais se cansava 
Pois a luta começava 
Do nascer ao sol se pôr

Lembrando esse passado 
De grata recordação 
Havia tempo pra oração 
Vejam que grande legado 
Tudo era mais sossegado 
Não tinha essa agitação 
De WHATSAPP e televisão 
O banheiro era uma latrina 
A luz de uma lamparina 
Quando muito, um lampião

Hoje tá tudo diferente 
Luz elétrica, água encanada
Ninguém senta na calçada 
O longe está mais presente 
O perto parece ausente
É assim no dia a dia 
A chegada da tecnologia 
Trazendo facilidade
E o que outrora era felicidade 
Transformado em nostalgia

08-02-2025
Henrique Tadeu

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MEDALHA DA RESISTÊNCIA: O MAIOR TROFÉU CONFERIDO AOS HERÓIS MOSSOROENSES

 


    O Museu do Sertão guarda em seu acervo de raridades históricas uma peça de profundo significado: a Medalha da Resistência. Esta condecoração foi entregue em 13 de junho de 1977 pelo então prefeito de Mossoró, João Newton da Escóssia (1925-2017), com a presença do governador Tarcísio de Vasconcelos Maia (1916-1998). A solenidade de condecoração marcou o cinquentenário da vitoriosa defesa da cidade contra a tentativa de invasão do bando de Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1897-1938), ocorrida na tarde de 13 de junho de 1927. A comenda foi outorgada como um reconhecimento oficial à coragem e à determinação dos cerca de 200 heróis que enfrentaram a sanha do "Rei do Cangaço", sendo entregue aos poucos sobreviventes da época e aos descendentes daqueles que já haviam falecido.

   Com quase meio século de existência, este troféu é valorizado tanto por seu valor histórico quanto por sua beleza  artística. Cunhada em bronze, a medalha possui 5 centímetros de diâmetro e pesa 58 gramas, apresentando inscrições e a gravura de uma igreja em alto-relevo. O templo estampado na peça é a Igreja de São Vicente de Paula, de cuja torre partiram os disparos estratégicos dos guardiões da cidade. Ainda hoje, o templo preserva em suas paredes as marcas de bala daquele confronto, materializando a memória da resistência mossoroense.
   Diferente de honrarias contemporâneas, a Medalha da Resistência teve um propósito específico e singular: homenagear os homens que, de armas em punho, arriscaram a própria vida para proteger o solo mossoroense. Recentemente, em 2022, o atual prefeito de Mossoró Allyson Leandro Bezerra Silva instituiu a "Medalha Rodolfo Fernandes", destinada a homenagear anualmente cidadãos que prestam relevantes serviços ao município. Embora esta última medalha leve o nome do  prefeito-herói Rodolfo Fernandes (1875-1927) — líder político que comandou a defesa de Mossoró em 1927 —, ela possui uma finalidade  distinta da Medalha da Resistência de 1977, que permanece como o galardão máximo e exclusivo dos heróis que combateram diretamente os cangaceiros comandados pelo “Rei do Cangaço”.

Benedito Vasconcelos Mendes

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

SER ESCRITOR LIVRE

 

Escrever é, muitas vezes, como caminhar descalço por uma rua desconhecida. Cada palavra é uma pedra, cada frase um desvio, e o escritor precisa decidir se aceita o desconforto ou se inventa uma nova trilha. Ser escritor livre é justamente isso: não pedir licença ao mundo para existir em letras.

O escritor livre não se prende ao relógio, nem às regras rígidas da gramática como se fossem algemas. Ele as conhece, claro, mas escolhe quando quebrá-las — como quem desafina de propósito para criar uma música nova. A liberdade está em poder narrar o silêncio de uma praça às três da manhã, ou transformar uma xícara de café em metáfora para a eternidade.

Há quem diga que escrever é trabalho, disciplina, suor. E é. Mas ser escritor livre é também brincar, rir das próprias palavras, deixar que elas se embaralhem e se reinventem com suas próprias réguas. É não temer o julgamento, porque a escrita não é tribunal: é janela. Quem lê, espreita; quem escreve, abre.

No fundo, ser escritor livre é aceitar que a literatura não cabe em molduras. É permitir que o texto seja pássaro: às vezes pousa, às vezes voa, às vezes se perde no horizonte. E o escritor, em sua liberdade, não tenta prendê-lo. Apenas observa, registra e segue.

Porque escrever livremente é isso: não buscar aplauso, mas respiro. Não buscar perfeição, mas verdade. E, quando a última palavra se encerra, o escritor sabe que não terminou nada — apenas começou outra forma de ser.

Taniamá Vieira da Silva Barreto

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O ÚLTIMO ABOLICIONISTA DE MOSSORÓ

     Raimundo Nonato (da Silva) é o último abolicionista ainda "vivo" e remanescente da campanha de libertação dos escravos em Mossoró, culminada com a vitória de 30 de setembro de 1883. Tanto pesquisou daquele movimento, tanto se informou com quem sabia e onde se sabia, e escreveu e escreve livros, ensaios, conferências, discursos, artigos, ao longo do tempo, desde a mocidade, sobre as figuras e os episódios daquela campanha; e pelo fato, também, de ano após ano, seguidamente, ser sempre convocado e trazido (uma vez que se encontra domiciliado no Rio), pela prefeitura e pela Maçonaria de Mossoró, pra orador ou integrante "honoris causa", das comemorações ali procedidas, no transcurso da data alvissareira  _ que já se tornou ele como que uma espécie de "testemunha", diga-se mais, de "cúmplice" da história, incorporado impregnado metamorfoseado por aqueles fastos lendário. A impressão que se tem, afinal, é a de que Nonato "teria secretariado " o presidente Joaquim Bezerra da Costa Mendes, da "Sociedade Libertadora Mossoroense", "assistido" aos comícios de Almino Afonso; andara "articulado" às conspirações da Loja "24 de Junho", "acompanhado" as vigílias e as "marches-aux-flambeaux", comandadas pelo líder negro Rafael Mossoroense da Glória, pelas ruas noturnas e ardentes da capital do grande país do oeste "segurando" a mão veneranda do patriarca Francisco Romão Filgueira...

    No ano de 1983, ano do centenário da libertação dos escravos, Nonato nos deu a "História social da abolição em Mossoró" (Coleção Mossoroense, vol. CCLXXXV - Centro Gráfico do Senado Federal, 1983). E eis o seu grande livro, o livro que dele todos esperávamos, tudo o mais que produziu antes, sobre o velho tema, resultando como que estudos e esboços preparatórios para a síntese completa e definitiva, que ele representa e vale. 

    No seu trabalho, Nonato não se limitou às origens, ao desenvolvimento, ao "granfinale" da campanha. Foi mais além. E aquém.

    Ao lado dos fatos e das circunstâncias históricas, ele ergueu, em resumos informativos, as grandes linhas da vida econômica, social e política de Mossoró, desde que, região da ribeira do Apodi, nela se plantaram as raízes da fazenda Santa Luzia, primeiro com José de Oliveira Leite, depois com o português de Braga, o sargento Antonio de Souza Machado, pelos meados do século XVIII. Para ajudá-lo e apoiá-lo nessa reconstituição, convocou os corretos pesquisadores e historiadores da área, como Francisco Fausto de Souza, Luís da Câmara Cascudo, Vingt-un Rosado, Nestor dos Santos Lima, outros ainda. Alcançados, mais adiante, os dias do movimento abolicionista, que são o seu objetivo principal, os amplos painéis de desdobram. E é então, como na bela imagem de Edgar Barbosa, o mais inteligente criador de imagens literárias do Rio Grande do Norte, que assistimos à arrancada cívica de todo um povo, movido pelo ideal libertário, "gente digna de se levar uma cruzada, a uma expedição, a toda empresa que necessita de fé".

    Nonato parece não ter esquecido nada. Situações, perfis, detalhes, no palco e nos bastidores, caldos e rescaldos daquelas horas ásperas. Tudo ele perscrutou e juntou, _ repita-se _ para nos retransmitir naquela sua linguagem descritiva, corrente, coloquial.

    Eis um velho amigo, desses cuja presença carregamos pela idade madura, pelo resto da vida, ligado às nossas boas lembranças da adolescência e da mocidade. Sabemos como lhe foram difíceis os dias da formação, no duro ofício de sobreviver, pobre, humilde, sem apoios familiares. Seu valor pessoal tomou-se, por isso mesmo, muito mais alto, porque ele chegou aos níveis a que os melhores companheiros de sua, de nossa geração atingiram, pelo esforço próprio, quotidiano, obstinado. Fez-se a si mesmo. Suas reservas de vitalidade e espírito são inesgotáveis, animadas sempre de um bom humor, de uma malícia contagiante, de uma memória pitoresca e diversa. Mais de cinquenta livros, e plaquetes publicados, a grande maioria voltada para assuntos e pessoas de Mossoró. Acaba-se por concluir, percorrendo-se as páginas de muitos deles, que nenhum tipo humano da grande cidade e adjacências, que tivesse alguma característica peculiar e especial escapou de registro e evocação; homens públicos, homens comuns, padres, jornalistas, sacristãos, funcionários, simples bodegueiros _ mesmo os cangaceiros, de Jesuíno Brilhante a Lampião. Alguns livros também autobiográficos. Enfim, uma bra sem travos e agravos, na marcha, embora dos solavancos da existência.

    "História social da abolição em Mossoró" é um livro que se lê com interesse e proveito. Mossoró há de recolhê-lo como um dos documentários, como um dos títulos mais altos de sua identidade comunitária.

AMÉRICO DE OLIVEIRA COSTA - Escritor

 Fonte: "Conversa à luz das piracas - minhas memórias do oeste potiguar". Raimundo Nonato,  Coleção Mossoroense, Volume CCCLXXXVII. Ano 1988, páginas 14 e 15.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

O HOMEM DO SILÊNCIO

 

Moro numa rua silenciosa. Não conheço a maioria dos vizinhos. Minha casa é silenciosa. Até a televisão dei para a diarista. Ouço música vez ou outra e no computador vejo “Oeste Sem Filtro”, comentaristas, séries e filmes. Sempre em tom discreto. Há quem não suporte o silêncio; tem gente que liga a televisão só para não sofrer com o vazio sonoro. Outros dormem com TV ligada.

Estou no outro extremo do espectro: não suporto barulho constante, principalmente quando o barulho não é da minha escolha. Nunca grito, não falo alto, considero o silêncio abençoado. Através dele, ouço o vento nas folhas do jardim, o canto dos pássaros, os meus pensamentos. Basta um vendedor ambulante, gritando na rua anunciando seu produto, para minha paz ser ameaçada. 

Autor: Antonio Naud

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

SEMANA NONATIANA, EM MEMÓRIA DE RAIMUNDO, O FILHO DA VITÓRIA - IIIª PARTE - FINAL

 Ah, como bem o definiu Sanderson Negreiros, um dos nossos:


Causer admirável, figura humana que impressiona pela vitalidade e inquietação existencial, memória fotográfica e perispiritual de tudo que viu, sofreu, amou e viveu, fixador paciente de nossa sociologia regional, ditada e autodidata das melhores passagens do cotidiano; verve, voraz e perspicaz, poeta contador de história e animal perdido na selva carioca; guardião de auroras e também de crepúsculos, incapaz de odiar e voltado para os temas que esgotam o filosofar.


Nunca é tarde, em um ambiente assim, de emoção e de saudade - repita-se - embalarmos também na lembrança dos versos da poetisa Hirma Varela, dedicados a Raimundo Nonato da Silva:


Ele escreveu suas vivências,

Cada página escrita

foi crescendo e juntas estas viraram livros

que ele ia distribuindo entre os amigos.

Contava histórias de sua terra,

em ritmo lento de quem sorrir.

Falava em chuva, em seca, em ruas palmilhadas de saudade,

dizia nomes dos que se foram e os quais ele amou.


O acadêmico e confrade Paulo Macedo desabafa conosco:


Há lembranças fortes de nossa amizade, com os conselhos que dele recebi no começo de minha vida jornalística, incentivo, orientação até.


Desta tribuna, portanto, sublima-se a nossa homenagem singela e emocional. Todas as lembranças ficam, como lição e testemunho imperecíveis. Legou um exemplo de vida, na contemporaneidade, a todos nós, pobres e efêmeras criaturas humanas, feitas à imagem e semelhança de Deus.

Afinal, chega-se ao epílogo desta oração protocolar, em memória de Raimundo Nonato da Silva.

Se poucos dissemos, que se culpe o tempo. E se esse tempo não nos cansou, deve-se à existência fecunda e digna de Raimundo Nonato da Silva, que nos fascina e nos humaniza.

Por isso, recorremos à lição de Fernando Pessoa:


Tudo vale a pena se a alma não é pequena.


O certo é que a nossa palavra nasceu do coração, sem o rigoroso apego ao curriculum-vitae; longe da frieza das datas, não nos preocupando com a ordem cronológica dos títulos, dos cargos do homenageado, mas, acima dessas circunstâncias, palmilhando os caminhos do afeto, da amizade e da valorização da

cultura, que é eterna, sobressaindo a narrativa de seus próprios amigos e admiradores. Assim a homenagem foi mais ampla e fraternal.

Tudo brotou mesmo do coração, no vôo alto e sereno do pensamento, à luz da solidariedade, da emoção incontida, da saudade que ainda perdura, como que vislumbrando a sabedoria de Kahlil Gibran:


Quando atingires teu objetivo, verás tudo mais belo, mesmo com olhos que nunca viram a beleza.


Enfim, configura-se a nossa louvação a Raimundo Nonato da Silva. Simples, solidária, espontânea, sentida, com cheiro de terra, marcada pelo calor humano, do bem-querer, às vezes embargando a voz, no instante evocativo que passa e que se vive.

Esta a mensagem de fé, de confiança, à geração de hoje e do porvir, no exemplo de amor às letras, da dedicação à pesquisa, em sentido universal.

Nada mais fizemos senão cumprir com um pouco do muito que ainda deve e continuará devendo o Rio Grande do Norte a Raimundo Nonato da Silva, no apanágio de seu nome e de sua obra, de seu espírito e de sua inteligência, imprimindo maior projeção cultural, para o nosso povo e nossa terra.

Nossa voz, agora, emudece, elevando o pensamento a Deus, joelhos dobrados e vista para os céus, em homenagem a Raimundo Nonato da Silva, ainda e sempre imortal, na dadivosa lembrança de todos.

Ontem, imaginem, lemos isto, em papel amarrotado:


Quando o sofrimento vier ao teu encontro, deixe rolar dos teus olhos uma lágrima, dos teus lábios um sorriso e do teu coração uma prece a Deus. Só assim serás feliz.


E diremos nós: Como viveu, feliz deve estar mesmo, na morada celestial, Raimundo Nonato da Silva.


(Discurso proferido na sessão solene da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, em 29 de setembro de 1994, e no IHG/RN, na data de 27/11/2007, comemorativa do Centenário de Nascimento do saudoso acadêmico)


terça-feira, 19 de agosto de 2025

SEMANA NONATIANA -EM MEMÓRIA DE RAIMUNDO NONATO, O FILHO DA VITÓRIA - IIª PARTE


Continuamos com a palavra cedida ao escriba Enélio Lima Petrovich, que prossegue escrevendo sobre Raimundo Nonato, o homenageado da semana.


E ainda no livro Memórias de um Retirante, faz esta confissão:


Não cheguei a ter infância, nem conheci a mocidade, pois mal abri os olhos para o mundo, fui logo atirado nos rudes afazeres do campo, no trato da terra, da vida solta no meio agreste de uma natureza madrasta, onde o sol já se encontrava nos baixios, cambitando olho de cana, num jerico desgraçado, botando lenha do mato para a fornalha, quando não ficava rodando ao pé dos arrancadores, juntando mandioca, num balaio, para levar à casa de farinha, até completar a arranca, que tinha medida certa. Oito cargas de caçuás, carregados em boi, e doze, quando se tratava de burros ou cavalos. O dia de trabalho, assim principiado, não raro se prolongava pela noite a dentro, para ganhar o salário de seiscentos réis, seis tostões, como se diz, em moeda do tempo. (Págs. 49/50)


Sem dúvida, sendo este o seu relato pessoal, vale ressaltar, pari passu, a grandeza de um Luís da Câmara Cascudo, patrono e fundador desta Academia, quando afirmou:


A simplicidade de seu trato valoriza a esplêndida documentação de sua obra. Menino da Serra do Martins, emigrou com a família para Mossoró, fazendo a jornada a pé, evocando num livro que merece reedição. Tudo em Raimundo Nonato foi iniciativa pessoal. Não sei se nasceu de sete meses, mas posso afirmar, à vista do original, ao qual me reporto, e dou fé, que nada lhe deram gratuitamente.

No Rio de Janeiro, Raimundo Nonato, magistrado, historiador, mestre de indagação artística, econômica, editorial, representa, psicologicamente, um órgão suplementar, sensitivo, indispensável à multidão nordestina que o Rio fixou. É a voz que não deixa esquecer o sertão.


E arremata o mestre Cascudo:


Nobre e linda vida, simples e poderosa de exemplo intelectual e moral, em serviço e louvor da Terra e da Gente, nos horizontes permanentes da dedicação incomparável. Levou para as cordilheiras artificiais dos arranha-céus o clima inspirador das serranias legítimas do oeste norte-rio-grandense. Do Paraíso, onde pretendo fixar-me, aplaudirei as realizações de sua existência, sem mancha de inveja e nódoa de recalcado despeito nas amarguras da decepção tenebrante. Deus o abençoe, Raimundo Nonato, jovem-amigo-velho.


Realmente, Raimundo Nonato da Silva era a bondade, a simpatia, a inteligência, o saber e a espontaneidade. Conversar com ele significava enriquecimento de informações sobre fatos e pessoas. Estava sempre pronto a ajudar os outros, pelo seu coração magnânimo.

E nesta sequência de depoimentos e conceitos, que fluíram da sensibilidade de quantos conviveram com ele, não poderíamos olvidar a louvação do padre Jorge O’Grady de Paiva, em agosto de 1977, durante a missa de ação de graças. Completava Raimundo 70 anos.

Eis alguns enfoques:


Como admiro, admirei e admirarei sempre, esse rebento de boa cepa norte-rio-grandense! De tudo pode ele descer, menos da amizade, pois tem o Dom de a fazer, como raros e o de a conservar, como poucos.

O nome, de origem gótica (Ragin-mundo), significa a quem o intelecto protege e ele tem vivido, sempre, sob o escudo protetor de sua inteligência.


E acrescenta o padre O’Grady:


Homem que se fez por si, pelo esforço pessoal, a tudo e a todos sabendo prender e cativar (omissis). Dono de invejável memória, como se ocultasse, no cérebro, fita magnética, pôs a mesma a serviço de sua pena e avolumou a bibliografia potiguar, notadamente a da zona do oeste do Estado. Fausto de novo gênero neo-goetheano, fez reviver, das cinzas do passado, pela magia da pesquisa e poder de evocação, lugares, tempos, homens, coisas, figuras e fatos; reavivou lendas, superstições, abusões, tradições, costumes, roteiros, dando à literatura regional obras editadas pelos órgãos oficiais de âmbito municipal, estadual e nacional.


Mas, tempo corre célere, sem que, nesta homenagem do afeto e da saudade, possamos evidenciar todos os ângulos da vida do homenageado e suas produções literárias, em dezenas de livros e opúsculos.

Estamos convictos, porém, de que este encontro muito bem sintetiza a prova do carinho, do respeito, do reconhecimento a quem, para exemplo dos seus conterrâneos, soube vencer todos os obstáculos, a vaidade de muitos, as incertezas da vida tumultuária.

Raimundo Nonato bem pode repetir São Paulo, através de Timóteo:


Combati o bom combate. Terminei a minha carreira. Guardei a fé.


Se ainda não bastasse a prova dessas manifestações de apreço e de amizade para com o homenageado, assim se expressou o saudoso Peregrino Júnior, também imortal e benemérito de nosso Instituto Histórico, quando apresentou Visões e Abusões Nordestinas - Vol. 1, que editamos:


É esse Raimundo Nonato, presença humana, viva, palpitante e incomparável do nosso Rio Grande do Norte, no cenário cultural do Rio, onde todos o estimamos e admiramos com imensa ternura intelectual.


Além do mais, na presidência do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, nos incorporamos a esta homenagem, vez que a nossa admiração exalta a incessante operosidade na pesquisa meticulosa, a divulgação correta e nítida, de aspectos salientes e tornados característicos na História do Rio Grande do Norte. Essa atividade situa Raimundo Nonato, sócio da Casa da Memória Potiguar, no plano dos historiadores sociais, dignos de menção e louvor."


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

SEMANA NONATIANA -EM MEMÓRIA DE RAIMUNDO NONATO, O FILHO DA VITÓRIA

 

Esta semana é especial, nela vamos celebrar a memória de Raimundo Nonato da Silva, o protagonista do cordel escrito por Mané Beradeiro, que tem como título "Raimundo Nonato, o filho da vitória", que será lançado em outubro desse ano.  Raimundo nasceu e morreu no mês de agosto (1907-1993). Diante da grandeza desse homem: cambiteiro, engraxate, acendedor de lampiões, professor,  jornalista, escritor, etnógrafo, historiador, 1º diretor do SENAC/RN, advogado e Juiz de Direito, nada mais justo que acender a lamparina  que trará luz àqueles que pouco ou nada sabem sobre esse notável potiguar. Começamos com um texto da autoria de Enélio Lima Petrovich, então Presidente do Instituto Histórico e Geografico do Rio Grande do Norte.  Vamos à Iª  parte.



EVOCANDO RAIMUNDO NONATO DA SILVA

Nem todas as estradas são de pedra. As da amizade são de arminho.

(Raimundo Nonato)


Na magnitude desta hora noturna, impregnada de emoção e saudade, que transcende o cotidiano traumático, emerge a nossa palavra, votiva e evocativa, in memoriam de Raimundo Nonato da Silva, o mestre, o amigo, o confrade, a criatura humana.

É o instante das recordações felizes, guardadas em nosso espírito, corações ao alto e mente sã, nos conclamando para interpretar os sentimentos de louvor e reverência dos que participam deste cenáculo da cultura potiguar.

A esta Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, pelo seu merecimento, Raimundo Nonato da Silva pertencia, ocupando a cadeira nº 1, sendo patrono o padre Miguelinho, e seu 1º ocupante fundador, Adauto da Câmara.

Ao partir, em 22 de agosto de 1993, após 86 anos de uma existência profícua e jubilosa, deixou um legado de sabedoria, compreensão e humanismo.

Com a responsabilidade, pois, da incumbência que nos atribuiu o presidente, escritor e poeta Diógenes da Cunha Lima, procuraremos atender ao chamamento e, em nome da tradicional entidade, falar e discorrer algo sobre o homenageado, invisível, mas presente na lembrança dos conterrâneos e familiares. De um sem número de brasileiros.

E quando recebemos a tarefa, de imediato fluiu a pergunta a nós mesmos:

— O que dizer acerca da vida e da obra de Raimundo Nonato da Silva, com quem mantínhamos uma convivência valorizadora e pacífica ao longo de mais de 30 anos?

Desde logo, permitam-nos uma breve reflexão.

Na cidade maravilhosa, hoje tão violenta, quantas vezes ocorriam os nossos encontros, em conversas alegres e descontraídas, quer nos bancos da Cinelândia, quase ao meio-dia, quer em fins de tarde, na calçada da Mesbla. Ainda no Centro Norte-Rio-Grandense. Ali, Arnóbio Cabral, Renato Rebouças, Osvaldo Lamartine e tantos outros amigos leais.

Com que carinho falava sempre sobre Vingt-Un Rosado, José Augusto Rodrigues, Manoel Rodrigues de Melo, Raimundo Soares de Brito e Francisco Meneleu.

Agora, tudo cessou.

Lá retomando, já algumas vezes, após o seu encantamento, percorremos os mesmos caminhos. O banco da praça Floriano sem ele. Não se ouve mais a sua voz, narrando episódios de nossa história e destacando figuras de sua época. Também o Centro continua de luto, com a sua ausência tão sentida, carregando o peso da saudade perene.

Entretanto — convenhamos — assim é e será sempre a vida de todos nós. Vida que, cedo ou tarde, com a morte, tem de metamorfosear-se, para o encontro com Deus.

Na verdade, não nos parece fácil, através de rápido discurso acadêmico, evocar, em plenitude, a vida e a obra de Raimundo Nonato da Silva. Poucos são os minutos para a homenagem, na forma estatutária.

Todavia, sob a égide dos melhores propósitos, aqui estamos reunidos, em romaria lírica e sentimental, e a exemplo do próprio homenageado que tão bem espargia a sua erudição, seu humor, seu entusiasmo e sua humildade, galardões raros ungidos em uma só pessoa, queremos nós, de uma forma um tanto diferente, tributar-lhe o preito do reconhecimento, trazendo também nesta singela exaltação, conceitos e ideias de quantos o admiram e aplaudem.

Decerto, se tanto soube enaltecer, com justiça, em livros e publicações diversas e valiosas, fatos históricos, amigos e conhecidos, sobreleva, obviamente, a abrangência desta evocação, inserindo a seu respeito depoimentos de seus amigos, conhecidos e admiradores, em conta ilimitada.

Antes, porém, foi o próprio Raimundo Nonato da Silva que nos declarou:


Eu, Raimundo Nonato da Silva, nasci em Martins, a 18 de agosto do ano de 1907. Sei que fui batizado, deram-me um nome e atiraram no mundo para lutar e chegar até aqui. Em 1919, batido pela seca, emigrei para Mossoró. Ali comecei aquilo que se chama estudo, pois até então, com 13 anos, era heróica e gloriosamente analfabeto, como afirmava Câmara Cascudo. Caminhei para o curso Normal e saí diplomado professor em 1925, tendo seguidamente percorrido todo interior do Estado até a capital, ensinando gerações, em cursos de todos os níveis. Mais tarde, em idade já avançada, fiz o Curso de Direito na Faculdade de Alagoas, onde me diplomei em 1955, e, depois, fui juiz de Direito, em 1957.

Nas atividades da vida ocupei cargos diversos no Estado. Fui chefe de gabinete do governador Dix-Sept Rosado, diretor de Departamento do SENAC e, no Rio de Janeiro, assistente do diretor do Ensino Comercial, dr. Lafayette Belfort Garcia.

Pertenço a várias instituições culturais do país — Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Instituto de Genealogia de São Paulo e Federação das Academias de Letras do Brasil, entre outras.

Sou casado com Maria Edite Bessa e Silva e tenho sete filhos.


Presentes, nesta solenidade, a sua filha El da Silva Bessa e seu filho Eledil Einstein da Silva Bessa, este acompanhado de sua esposa Vânia Leite Bessa e os netos do inesquecível Raimundo Nonato, Marcelo e Carolina.


(continua amanhã)


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

GRACINDA FREIRE, CEM ANOS DEPOIS: O SILÊNCIO ELOQUENTE DA GRANDE ATRIZ ESQUECIDA



Num país de memória frágil e cultura tantas vezes relegada a segundo plano, não surpreende que o centenário de nascimento de Gracinda Freire passe quase despercebido pelo grande público. E, no entanto, trata-se de uma das figuras mais expressivas do teatro brasileiro do século XX — uma artista completa, de formação sólida, que transitou com naturalidade entre palcos, estúdios de rádio e produções televisivas em uma era em que ser atriz exigia, antes de tudo, coragem.

Nascida em 31 de julho de 1925, Gracinda construiu uma carreira à margem do estrelato fácil, mas no centro da criação artística. Foi dessas intérpretes que jamais se renderam ao lugar-comum ou à superficialidade. Seu nome pode não habitar o panteão popular onde brilham ícones da TV ou do cinema nacional, mas entre artistas, diretores e estudiosos da dramaturgia, Gracinda é uma referência de entrega, ética e excelência.

Ela integrou o ciclo virtuoso dos anos 1950 e 60, quando o teatro brasileiro buscava sua própria identidade entre as influências europeias e os dramas sociais do país. Atuou com vigor em montagens memoráveis e foi pioneira nos teleteatros das TVs Tupi e Cultura, onde ajudou a moldar a linguagem dramática televisiva brasileira. Mais do que uma atriz, era uma militante da arte. Acreditava que o teatro era, antes de tudo, um ato político e poético.

Sua morte precoce, em 1995, encerrou uma jornada sem alardes, mas profunda. Ainda assim, a ausência de homenagens institucionais ou reedições de seus trabalhos denuncia algo maior: o quanto o Brasil se permite esquecer seus melhores intérpretes quando eles não se encaixam nas vitrines do mercado ou nas lógicas do espetáculo.

Celebrar Gracinda Freire, portanto, não é apenas um gesto de justiça histórica. É também uma forma de reafirmar que o talento, a integridade e a vocação não podem ser medidos por número de seguidores, capas de revistas ou reprises de novela. Ela representa uma geração de artistas que formaram a base da nossa linguagem cênica, muitas vezes sem os holofotes que mereciam.

No centenário de Gracinda, é urgente lembrar: o teatro brasileiro tem uma dívida com seus pilares. E são nomes como o dela que sustentam, em silêncio, a grandeza de nossa cultura. Que sua “viagem” não tenha sido em vão — e que saibamos, ainda que tardiamente, reverenciar quem nos ensinou a arte de representar com a alma.

Alex Medeiros


quarta-feira, 14 de maio de 2025

VALÉRIO MESQUITA LANÇA AMANHÃ DOIS LIVROS NA SEDE DA ANRL


 Todos nós, permanentemente, olhamos o tempo nos seus mais diversos significados: se é chuvoso ou quente; se está tarde ou cedo para chegarmos ou sairmos; os tempos de outrora, os de hoje e os vindouros; o tempo que o tempo faz e por aí em vante.

Mas, entre todos os escritores que conheço, poucos criaram uma relação tão forte com esse elemento - ora majestático ora corriqueiro -, o Tempo Rei, quanto Valério Mesquita. Não à toa, o seu primeiro livro, escrito no alvor da sua vida intelectual, foi intitulado “O tempo e sua dimensão”. Pequenos ensaios de um estudante de Direito tentando abarcar a dimensão do elemento mais inalcançável do universo. 


Depois disso, Valério agregou essa palavra ao seu universo criativo a ponto de exibi-lo não apenas na sua temática notadamente memorialística, mas, várias vezes, nos próprios títulos dos seus livros. Como é o caso deste mais recente, “Na linha do tempo”.

E agora, talvez por um ditame desses senhor inescapável, Valério juntou a reedição do seu primeiro livro e o mais recente para lançá-los ao mesmo tempo. 

É o que teremos nesta quinta-feira/15, a partir das 17 h, na Academia Norte-riograndense de Letras, com Valério autografando “O tempo e sua dimensão” e “Na linha do tempo”.


Osair Vasconcelos
Jornalista

segunda-feira, 28 de abril de 2025

SOCIEDADE BRASILEIRA DE FOLCLORE - 84 ANOS DA SUA FUNDAÇÃO

    
Quarta-feira próxima, lembramos a data de fundação da Sociedade Brasileira de Folclore, fundada em Natal-RN, por Câmara Cascudo. 84 anos passaram por debaixo da ponte da História. Até quando funcionou esta Sociedade, pioneira no Brasil?  Ainda não tenho a resposta, e enquanto a busco,  ofereço aos leitores o texto de Raimundo Nonato.




Câmara Cascudo



"SOCIEDADE BRASILEIRA DE FOLCLORE - NATAL/RN


 O verbete dá motivo para o comentário de hoje.

    Fundada a 30 de abril de 1941, na Rua da Conceição, 393, residência do escritor Câmara Cascudo, a Sociedade Brasileira de Folk-Lore teve seus primeiros estatutos discutidos e aprovados na mesma data e publicados na República, órgão oficial, na edição de 7 de maio. Foram registrados no Primeiro Cartório Judiciário, privativo das pessoas jurídicas do termo e comarca do Natal, sob o número de ordem 19, folhas 13 e verso do Livro A, nº 1, do Registro Civil de Pessoas Jurídicas, pelo respectivo oficial Manuel Procópio de Moura, em 29 de maio de 1941. Reunidos em folheto, foram abundantemente distribuídos."
    Preceituavam ditos estatutos:
                "Art. 1º A Sociedade Brasileira de Folk-Lore, fundada a 30 de abril de 1941, com sede e foro na Cidade do Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, Brasil, reconhecida de utilidade pública pela Lei Estadual nº 41, de 20 de outubro de 1948, com duração ilimitada, destina-se a pesquisa, estudo, sistematização e defesa do folk-lore em todas as suas manifestações.
                Art. 2º A SBFL, compor-se-á de 35 membros efetivos e um número ilimitado de titulares residentes noutros Estados do Brasil e cidadãos estrangeiros."
    A Diretoria 1949-1954, da SBFL, estava assim constituída:
         Dr. Luís da Câmara Cascudo. Presidente e fundador, em 30-4-41. Presidente perpétuo por deliberação unânime da sociedade, em 7-4-49.
     Desembargador Luís Tavares de Lira - Vice-Presidente
     Dr. Juvenal Lamartine de Farias - Vice-Presidente
     Manuel Rodrigues de Melo - Secretário Geral
     Dr. Veríssimo de Melo - Secretário
     Hélio Galvão - Secretário
     Dr. Paulo Pinheiro de Viveiros - Presidente do Conselho Cultural

Membros efetivos - Residentes em Natal:

    Aderbal de França
    Dr. Aldo Fernandes Raposo de Melo
    Deputado Aluízio Alves (residente no Rio de Janeiro)
    Dr. Américo de Oliveira Costa
    Prof. Antonio Gomes da Rocha Fagundes
    Desembargador Antonio Soares de Araújo
    Prof. Clementino Câmara
    Deputado Dioclécio Dantas Duarte (residente no Rio)
    Dr Eloy de Souza
    Desembargador Felipe Neri de Brito Guerra
    Hélio Galvão
    Dr. Jerônimo Rodrigues (residente no Rio de Janeiro)
   Dr. Jerônimo Vingt-un Rosado Maia (residente na cidade de Mossoró - Rio Grande do Norte)
    Dr Juvenal Lamartine de Farias
    Dr. Luís da Câmara Cascudo
    Luís Eugênio Ferreira Veiga
    Desembargador Luís Tavares de Lira
    Manuel Rodrigues de Melo
    Dr. Nestor dos Santos Lima
    Dr. Osvaldo Lamartine
    Dr. Paulo Pinheiro de Viveiros 
    Prof. Raimundo Nonato da Silva
    Sergio Severo de Albuquerque Maranhão
    Prof. Severino Bezerra de Melo
    Dr. Sílvio Piza Pedrosa
    Dr. Veríssimo de Melo
    Maestro Waldemar de Almeida
    Os trabalhos da etnografia e da pesquisa ficaram enriquecidas no Rio Grande do Norte com a instalação desta sociedade de cultura, que marca o espírito de pioneirismo de Luís da Câmara Cascudo - o incurável provinciano, o maior dos folcloristas do Brasil."




Fonte: Raimundo Nonato, em "Árvores de Costado - histórias que a história esquece". Ano, 1981, páginas 195 e '96.


terça-feira, 19 de novembro de 2024

O CASO DE ANA AMÉLIA FERREIRA VALE

     Josué Montello quando foi escrever  " Os Tambores de São Luís", livro que tem 20 anos de pesquisa e  dois anos de produção, ele teve a  ideia de trazer para dentro do romance, fatos históricos da sociedade do Maranhão. Um desses fatos é sobre ANA AMÉLIA FERREIRA VALE.  Conheça lendo o texto abaixo. Vem a calhar nesta Semana Nacional da Consciência Negra

"O nosso Gonçalves Dias, amigo íntimo do Dr. Teófilo Leal, apaixonou-se por uma cunhada deste, a Ana Amélia, e a pediu em casamento à Dona Lourença Vale, mãe da moça e que Vossa Reverendíssima também conhece. O Gonçalves Dias não é um homem qualquer – é o maior poeta do Brasil e amigo pessoal do Imperador. O Maranhão não tem glória mais alta. Pois nada disso teve o menor significado para a nossa Dona Lourença, diante deste fato, de que o Gonçalves Dias não tem culpa: – ser ele mestiço e filho bastardo. E respondeu ao poeta, numa carta seca, com um não redondo. Não dava a filha a um mestiço. Mas a verdade é que o Gonçalves Dias, se quisesse, podia vir a São Luís, e levar a Ana Amélia, que estava disposta a fugir com ele. E não foi isso que fez. Humilhado, guardou a mágoa. E ao chegar ao Rio, casou numa das mais importantes famílias da Corte. A Ana Amélia, coitada, não perdoou a família. E quando o Domingo Porto, que é também bastardo e mestiço, lhe arrastou a asa, não hesitou em casar com ele, amparada pela Justiça. Vossa Reverendíssima já sabe que o casamento dela, aqui em São Luís, foi um deus-nos-acuda. Parecia que o mundo estava vindo abaixo. As amigas de Dona Lourença passaram a andar de preto, solidárias com o luto fechado da família Vale. O pai da Ana Amélia, instigado por Dona Lourença, foi ao cartório do Raimundo Belo e deserdou a filha, sob a alegação de que a moça tinha casado com o neto da negra Eméria, antiga escrava do coronel Antônio Furtado de Mendonça.

O Dr. Olímpio Machado estava agora debruçado sobre a cadeira, com os antebraços apoiados na madeira do espaldar. E procurando os olhos de Dom Manuel, depois de uma pausa:

– Vossa Reverendíssima já sabia desse fato? Asseguro-lhe que é absolutamente verdadeiro. O Domingos Vale deserdou a filha, por escritura pública, apenas porque o genro, Vice-Presidente da Província e Comandante da Guarda Nacional, é neto de uma escrava! Coisas deste nosso Maranhão, Senhor Dom Manuel da Silveira! Coisas deste nosso Maranhão!

E endireitando o busto, após outra pausa:

– Vossa Reverendíssima pensa que a família Vale se deu por satisfeita? De modo algum. Fez mais. Decidiu levar o Domingos Porto à ruína, na sua casa de comércio. De um dia para o outro, o Porto se viu com todos os seus créditos cortados. Ninguém quis mais negociar com ele. O resultado foi a falência, e o pobre do Porto obrigado a sair do Maranhão às pressas, para não cair nas unhas de seus perseguidores! Um horror, Senhor Bispo! Um verdadeiro horror! Eu, como Presidente da Província, nada pude fazer para ampará-lo. Só encontrei negativas. Era a cidade inteira contra um homem. E tudo por quê? Porque o Domingos Porto, que é um homem de primeira ordem, culto, educado, finíssimo, tem a desgraça de ser neto de uma escrava! Que é que Vossa Reverendíssima me diz a isto, Senhor Dom Manuel? Em que século estamos? E que terra é esta?"


Fonte: "Os Tambores de São Luís" - Josué Montello - EDitora José Olympio - 1975. 1ª ed. Rio de Janeiro, páginas 112 e 113.