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domingo, 19 de abril de 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS - "FUZUÊ EM ENTREPELADO"

No dia 14 de junho de 2023, o escritor Antônio Melo lançou o livro "Fuzuê em Entrepelado". Publicado pela Z Editora, o livro é daqueles que o leitor agarra e não quer mais soltar, dada a beleza literária dos contos.

Antônio Melo 
 Antônio Melo transporta em seus textos a realidade da vida, o humor que ela contém em suas mais variadas formas, mas também registra cenas de vidas marginalizadas. Suas personagens estão nas páginas e nas ruas; nós as encontramos em nosso cotidiano. E é esse olhar de Antônio Melo que faz dele muito mais do que um escritor: um Contador de Histórias. "Fuzuê em Entrepelado" é um título excelente para ser lido com nossos jovens, nas escolas de Ensino Médio, oferecendo-lhes elementos para a reflexão sobre a sociedade em que vivemos.

Aconselho a leitura dos contos e convido a se deleitar com as palavras que, em cada página, nos dão a sensação de estarmos ouvindo um podcast.


Francisco Martins


Foto do autor: Jornal Tribuna do Norte, edição do dia 23 de fevereiro de 2020, coluna Roda Viva, de Cassiano Arruda.

domingo, 28 de dezembro de 2025

"NÍSIA, SEMPRE PRESENTE!"

CONSTÂNCIA LIMA DUARTE
ESCRITORA E PESQUISADORA




    Ainda hoje, após tantos anos lendo e escrevendo sobre Nísia Floresta, ela continua me surpreendendo. Aliás, não só a mim, mas a todos que dela se aproximam e conhecem um pouco sua história. Pois é mesmo espantoso, convenhamos, pensar que há mais de duzentos anos nascia uma menina em Papary, que se tornaria exceção dentre as mulheres de seu tempo.

Constância Duarte
    Não foram poucos os motivos que Nísia Floresta deu para provocar surpresa e até escandalizar, tanto os contemporâneos como pessoas que a conheceram décadas após sua morte. Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Oliveira Lima, Inês Sabino, Henrique Castriciano, Rachel de Queiroz e Décio Pignatari, por exemplo, foram alguns que se deixaram fascinar por sua inédita preocupação com a vida precária das mulheres.
    Pois, enquanto a grande maioria das brasileiras vivia reclusa, sem nenhum direito e totalmente submetida ao poder patriarcal, Nísia Floresta viajava, dirigia um colégio feminino e escrevia livros em defesa das mulheres, dos escravizados e dos indígenas!

Nísia Floresta
    Nossa escritora foi, com certeza, uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos na grande imprensa, pois, desde 1830 seu nome aparece em periódicos nacionais. Se lembramos que apenas em 1816, a imprensa chegou ao país, mais se destaca o papel pioneiro desta norte-rio-grandense.
    Ao todo, ela publicou quinze livros – dentre romances, contos, crônicas, poemas e ensaios – escritos em português, francês, italiano e inglês, alguns, inclusive, com duas, três, quatro edições. E os textos parecem dialogar entre si como peças complementares de um mesmo plano de ação, visando formar e modificar consciências. Em seus escritos, Nísia Floresta deixa nítido o propósito de intervir no contexto moral e ideológico vigente, no que dizia respeito ao comportamento das mulheres e dos homens.


    Foi também envolvido pelo intenso encantamento de Nísia Floresta que Roberto Lima de Souza – poeta, escritor, compositor e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras –, idealizou e construiu o poema-cordel que ora traz a público.
    Revelando extenso conhecimento sobre a escritora potiguar e gêneros literários – com destaque para o cordel e a herança épica – o poeta realiza verdadeira obra prima ao mesclar os dois gêneros. Do cordel, buscou o sofisticado estilo conhecido por “martelo agalopado”, composto de estrofes de versos decassilábicos, tônicas nas sílabas 3, 6 e 10, e rimas abbaacode. E da tradicional narrativa de poesia voltada para lendas e episódios da história cultural de um povo, Roberto Lima de Souza realizou esse primoroso trabalho em torno da venturosa vida de Nísia Floresta – objeto e sujeito de suas inspirações.
    Temos, então, muito bem articulados o martelo agalopado e as divisões clássicas do gênero épico: a Proposição – com o necessário apelo à inspiração para realizar a cantiga; a Invocação à musa “dos páramos celestes”; a Dedicatória, feita ao ilustre poeta e acadêmico Diógenes da Cunha Lima; seguidos de dez cantos que narram, detalhada e poeticamente as aventuras da heroína. Por fim, vem o Epílogo para encerrar a narrativa. Tudo construído com tal esmero que os leitores se veem envolvidos desde os primeiros versos.
    Surge, pois, neste poema, uma Nísia Floresta de corpo inteiro: a mulher, a mãe, a viajante incansável, a escritora inspirada. Uma brasileira de olhar reflexivo que, em sua longa trajetória de vida, ampliou os passos da jovem nordestina – tradutora de Os Direitos das Mulheres –, mantendo sempre uma postura altiva e consciente de si mesma.
    Assim, a luz que poeticamente emerge dos versos de Ao Brilhante Luar de Papary, reflete bem a vida e obra de Nísia Floresta – inesgotável fonte inspiradora da sensibilidade do poeta conterrâneo.


Fonte: Revista da ANRL,  Nº 85 – OUT/DEZ 2025, páginas 91 a 93.

segunda-feira, 31 de março de 2025

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: "QUARTEIRÃO DA FOME" DE RAIMUNDO NONATO

 


 "Quarteirão da Fome", livro da autoria de Raimundo Nonato, lançado pela Editora Pongetti - Rio de Janeiro, na categoria de romance. O livro não tem colofão, mas segundo Manoel Onofre Jr, saiu do prelo em 1949, sendo este o livro de estreia do escritor Raimundo Nonato.

A história tem como palco principal a fictícia cidade de “Bela Vista”, no Oeste Potiguar. Confesso que tive a felicidade de começar a ler Raimundo Nonato por outras obras, nos gêneros de memórias, histórias e etnografias e,  posso assegurar, que prefiro a pena do  escritor nesses campos, que a serviço do romance.

Esperava bem mais do romance. O autor não teve a arte de costurar o enredo, para não dizer que nem este existe. São capítulos distanciados da comunhão entre as personagens. Josué Montello nos ensina que “um personagem, para quem o cria, não é uma figura de papel, é um ser humano”.

 Em “Quarteirão da Fome” há vários personagens: Fábio, Dubas, Padre Anastácio, Lulu, Sônia, Adrião, Joca Pires, Carlos Pontes, Miluca, etc. Todos carentes de narrativas e de elos no romance. Não há no livro um projeto de história a ser seguido.  Que pretende passar o autor? Qual história e de quem ele desejaria contar? Diria que Raimundo Nonato se perdeu na elaboração do livro.

Os capítulos do livro são pequenos, sem sintonia literária e às vezes o narrador dedica-se mais no estilo de um ensaio, do que propriamente o gênero de romance. Prosseguindo na leitura de outros títulos, deparo-me com textos que são muitos similares, como em "Memórias de um retirante" (1957) e um capítulo de inteiro teor, em "Histórias de Lobishomem"(1951).

Volto a afirmar: Raimundo Nonato é um grande memorialista e historiador. Sua contribuição neste campo literário é rica, principalmente sobre a região Oeste Potiguar, mas não teve o dom de ser romancista.

Por ocasião da celebração do centenário de nascimento do autor, a editora Sarau das Letras fez a segunda edição  de "Quarteirão da Fome", em 2007.

 

FRANCISCO MARTINS

2025 ANO DO CENTENÁRIO DA DIPLOMAÇÃO DE RAIMUNDO NONATO COMO PROFESSOR

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: "ITACIRICA - A PEDRA QUE PENSAVA", DE WALDSON PINHEIRO

 Confesso que várias vezes eu peguei no livro e o soltei. A capa não me atraía e passava a sensação de que o assunto era técnico, didático, menos romance. Isso foi na década de 90 e depois, no primeiro lustro dos anos 2000.

capa da 1ª edição

Este ano eu disse a Mané Beradeiro que ele devia escrever um cordel sobre Waldson Pinheiro, um homem culto, poliglota e que está esquecido no seio cultural. O poeta aceitou a sugestão. Falei que o futuro homenageado escreveu um livro: "Itacirica - a pedra que pensava".  Ele me pede para falar sobre o livro, mas adianto que não li.
Fiquei pensando que seria bom ajudar o poeta cordelista e comecei  a garimpar o livro. Finalmente no início de setembro, consigo emprestado um exemplar da segunda edição. A primeira data de 1975.

Capa da 2ªedição
Aproveitei alguns momentos da tarde e me pus a ler "Itacirica". Logo nas primeiras páginas sinto o desejo de abandonar a leitura, mas pensando em Beradeiro e na oportunidade que tenho em ajudá-lo, continuo. Ponho-me a perguntar: Por que um homem tão sábio está escrevendo de maneira tão simples? Não encontrei resposta, até quando na semana passada, o poeta Beradeiro  me falou que "Itacirica" foi livro premiado pelo MOBRAL, aquele Movimento Brasileiro de Alfabetização, nos anos setenta. Sim, fazia sentindo o estilo utilizado pelo Professor Waldson Pinheiro.

O autor
E continuei a leitura, tendo o cuidado de premunir reflexões malsãs. "Itacirica", reclama ao leitor a sua atenção para uma história  romanceada, onde vai sendo construída a linha do tempo da nossa evolução, desde os tempos mais remotos até uns dias desses.
Vale a pena ler "Itacirica". Digo ainda mais, deve ser  incluído no rol dos livros literários para os nossos estudantes.

Beradeiro vai ficar alegre quando lhe falar do livro, e dizer que em 1974 ele foi elemento, com outros quatro livros, do conjunto das obras selecionadas pelo Prêmio Mobral de Literatura ( os outros autores foram de Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Porto Alegre.) ganhando 16 mil cruzeiros cada um e o melhor de tudo: os livros escolhidos tiveram edição  de 100 mil exemplares, por título. Não conheço nenhum outro escritor que no RN tenha alcançado tal êxito. Talvez Homero Homem.

Francisco Martins
02 de dezembro de 2024

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

CORDEL PARA CAPISTRANO DE ABREU - UM FOLHETO QUE TRAZ SEMENTES ÀS NOVAS LEITURAS

Capistrano de Abreu


 O poeta Marcos Campos escreveu um cordel biográfico sobre Capistrano de Abreu. O folheto recebeu  do autor um olhar especial, quer seja em seu projeto gráfico, impresso pela Offset Editora,  bem como um texto digno de aplausos, onde o leitor vai poder  degustar de um poema bem estruturado em todos os aspectos que pedem a cartilha do cordel brasileiro. São 32 sextilhas, distribuídas em 16 páginas.  O poeta apresenta o biografado e sua jornada de vida, de uma maneira cadenciada, que chegam ao nosso conhecimento como sementes que plantadas no roçado da curiosidade, com certeza fará com que, um  leitor mais exigente, vá buscar a complementação do que diz o poeta cordelista.
Poeta Marcos Campos

É certo que o cordel não pretende relatar minuciosamente a vida do grande Capistrano de Abreu, mas serve e muito de bússola, principalmente àqueles que pouco ou nada sabem sobre o historiador. Os bons cordéis merecem ser sempre lembrados e divulgados, como esse que data de 2020. Parabenizo o poeta.



Mané Beradeiro
28 novembro 2024



quinta-feira, 24 de outubro de 2024

"ENTRE VISLUMBRES E LETRAS" - UM LEITOR SATISFEITO


O silêncio é útil para que o poeta grite. Pelo menos é com esta técnica que a poeta Josimey Costa faz uso para temperar seus escritos.

Fiz a leitura de "Entre vislumbres e letras", livro de Josimey Costa. Imagens e palavras, dois elementos que se associam em um belo trabalho poético. O leitor lê a figura, que em si derrama mil palavras, e a poeta exprime numa única estrofe o que para ela a cena transmite.

As estrofes nos dão frases grávidas de filosofia, de vivência, que por sua vez nos fazem conhecer a profundidade da poética nascida na pena de Josimey Costa.

Ao terminar a leitura eu fiquei pensando: "e agora? Todas as vezes que eu olhar um quadro, uma paisagem, perguntarei que poema escreveria Josimey aqui"

A lição que me deu é que a poesia sempre permanece em nosso olhar. Faça-se poeta "entre vislumbres e letras".

Gostei de tudo, mas o que me tocou de forma intensa foi o poema da página 91 - "a saudade me olha na parede..." Ele tem a mesma sonoridade do verso de Drummond: "...Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói".


Francisco Martins

segunda-feira, 24 de junho de 2024

UM CLÁSSICO DE VICTOR HUGO GANHA RELEITURA EM CORDEL



Escrito por Victor Hugo, e publicado em 1862, na França, o livro "Os Miseráveis" registra o grito dos pobres na sociedade francesa do século XIX.  Não demorou para se tornar um clássico da literatura mundial.

Li "Os Miseráveis" nos anos 90 e confesso que ainda não assisti o filme. Gosto mais de criar as próprias cenas na leitura, embora saiba que a sétima arte é formidável.

Hoje eu quero focar meu olhar de crítico para um recente trabalho, do autor Gilberto Cardoso, "Os Miseráveis - em cordel".

Vinte e quatro capítulos formam o livro, todo escrito em estrofes com sete pés (ABCBDDB). Um trabalho construído no tempo da Pandemia do Corona Vírus, que exigiu muito do autor, mas o resultado foi digno de aplausos.

Convido os professores da língua portuguesa, e principalmente os que trabalham com Literatura no RN, a tomarem conhecimento dessa obra escrita por Gilberto Cardoso.

Apresentá-la aos alunos do Ensino Médio é atingir o alvo com várias setas, de forma simultânea. Vejamos:

1º) O professor estará cumprindo o que determina a Lei nº 11.231, de 4 de agosto de 2022, que inclui a Literatura Potiguar nas Escolas da rede estadual de ensino e particular.

2º) A escola incentiva o fomento à literatura de cordel (Lei nº 10.950, de 13 de julho de 2021).

3º) Incentiva a Cultura da Leitura e da Escrita ( Lei nº 10.690, de 11 de fevereiro de 2020).

4º) O leitor tem a oportunidade de conhecer a releitura de um clássico francês, no gênero de cordel.

Esse é o tipo de cordelivro que nasceu para somar e fazer parte de um conjunto de obras congêneres, que contam histórias clássicas, nesse gênero de poesia, o cordel.

Gilberto Cardoso construiu 539 estrofes, totalizando 3.773 versos. Tendo a capacidade de escrever e recontar "Os Miseráveis", sem levar ao leitor a sensação de cansaço.  Breve irei assistir o filme e então poderei dizer: li o livro, o cordel e vi o filme. Louvo o autor e poeta cordelista, Gilberto Cardoso.Parabéns!

Mané Beradeiro - 24 de junho de 2024



 


quinta-feira, 21 de setembro de 2023

COMENTANDO MINHAS LEITURAS - A INCRÍVEL HISTÓRIA DE JOÃO DE SOUZA ... 16º/2023

 

Tony de Sousa, escritor natural do Rio Grande do Norte, residente em São Paulo, escreveu vários livros e o primeiro dele que li, por sinal foi ontem à noite, tem como título: "A Incrivel História de João de Souza, Vaqueiro da Paraíba, na Terra da Garoa",  lançado em 2020, pela editora Matarazzo, São Paulo. Julgando o livro pela capa fiz um pre-juízo de que se tratava de alguma ficção  no eixo Nordeste -Sudeste. Puro engano! Trata-se um ensaio biográfico, do seu tio João de Souza.


O livro é narrado na primeira pessoa e escrito de tal forma que o leitor tem a sensação de que está ouvindo o próprio João de Souza nos contar as histórias nele presente. João, um nome tão comum no seio das famílias nordestinas e que ao mesmo tempo carrega consigo a indelével marca  de homens que souberam fazer o mundo melhor. Esse João não foi diferente. É um herói, um vencedor, sua guerra durou toda a sua existência. Venceu a si próprio para poder derrotar as circunstâncias adversas aos seus objetivos. Nem quero citar aqui para não diminuir a vontade do leitor de ler.

João de Souza é sem dúvida um bom livro. Parabéns a Tony de Sousa por ter escrito esse texto biográfico e enriquecido o baú da literatura brasileira.

terça-feira, 12 de julho de 2022

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: "A CIDADE EM CHAMAS" - CHAMOU MINHA ATENÇÃO!

Diz o povo em seu saber
Que fogo ladeira acima
A água ladeira abaixo
são coisas que não anima
Por isso meu camarada
Não passe nesta estrada
Nem queira sentir o clima

Isso é coisa pra Bombeiro
Que sabe bem o que faz
A ele nosso louvor
Que da dor nos dá a paz
É anjo aqui na terra
A verdade que encerra
Em espírito tão audaz"

Mané Beradeiro.

Flademir Gonçalves Dantas, guardem bem esse nome, ele tem muita coisa a nos dar no campo da literatura de pesquisa. Quem é ele?  É um homem que tem 40 anos, casado, pai de dois filhos, estudou em escolas públicas, prestou concurso para  soldado no Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande Norte (2002), graduou-se em  História e Direito e é Mestre em História. Atualmente é 3º Sargento Bombeiro Militar.


Li recentemente o seu  livro " A Cidade em Chamas: O serviço de extinção de incêndios em Natal/RN (1917-1955). Fui ao lançamento que aconteceu no dia 9 de junho deste ano, na sede do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, do qual ele faz parte. A dedicatória veio assim: "Ao amigo Martins Neto, dedico esse livro para ser lido com capa, capacete e cilindro de ar respirável, pois as chamas do passado ainda queimam ."



Há livros que você ler e esquece. Há aqueles que são lidos e ficam por algum tempo em nossa memória e existem os que têm o poder de nos cativar. O livro "A Cidade em chamas ..." vai ficar na minha biblioteca por muitos anos. Primeiro porque é fruto de uma pesquisa árdua ( e quem é pesquisador sabe bem o que isso representa), segundo: ele traz um resgate  valioso e inédito na lacuna da História do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte. Some-se a isso, que através dele mergulhamos numa Natal  dos séculos XIX e XX com suas fragilidades na  inexistência e depois na estrutura de uma corporação dos bombeiros.  Enquanto o fogo queima, Flademir Dantas vai tirando das cinzas o calor da história e monta um painel repleto de cenas que Natal viveu.


Não pretendo tirar o sabor do mel que Flademir tem guardado nas páginas do seu livro aos leitores, mas posso reavivar a chama da curiosidade e dizer que vale a pena tê-lo. O projeto gráfico é muito bom. Capa bonita, diagramação bem feita, revisão  textual excelente, papel pólen no miolo ( que não cansa a vista), muitas fotografias, etc. O próprio autor promete que esse é a primeira parte de uma trilogia: " Esse é o primeiro volume de uma trilogia que almeja rascunhar a centenária História do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte ...". Parabenizo o autor, pois um trabalho deste nível fica para sempre! 

Aguardamos ansiosos os outros livros.


Francisco Martins
12 de julho de 2022





quinta-feira, 26 de maio de 2022

PEDRO COELHO - OLHAR MINERAL

 


    Eulália Duarte Barros, escritora, Conselheira do Conselho Estadual de Cultura do RN e Acadêmica da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras nos presenteia com mais uma obra: "Pedro Coelho - Olhar Mineral".
   Um livro que começa se abrindo para o leitor com imagens fotográficas que retratam o homenageado com família e amigos. Clichês em preto e branco que formam páginas do álbum da vida.
    Passam-se algumas folhas e o ledor vai esbarrar num poema de Zila Mamede, dedicado a Pedro Coelho, que traz o subtítulo do livro.
  Tem razão Ângela Almeida quando escreve: " o que poderia ser simples tornou-se complexo". E o leitor não veja isso como uma pedra literária criada pela autora, mas, sim, por causa das possibilidades  de prismas que o livro nos oferece.
    Eulália Barros passa a ser a própria voz da "Casa da Seridó". A personalidade da casa é o reflexo do próprio Pedro, caridoso e até certo ponto, senhor das dores, coração flamejante.
   A ficha catalográfica teima em querer que o leitor acredite ser esse um livro de memória, mas não é. Sua beleza, suas ilustrações me levam a afirmar: não, não é memória. Ele vai muito mais além, é prosa poética, é cântico de louvor é canção de amizade. 

Francisco Martins.



segunda-feira, 25 de abril de 2022

CORDELISTAS CONTEMPORÂNEOS -UM REGISTRO EM 2022 - PARTE I

 Imaginem o mundo sem Zeca Pereira, como seria pobre. Alguém poderá pensar: "mas ele não é tão universal assim. É apenas uma gota no oceano da humanidade". Sim, mas sem a existência dele, esse oceano estaria incompleto. Há homens que não gritam e são ouvidos a milhares de quilômetros da sua localidade. Zeca Pereira é um deles. 


José Pereira dos Anjos - Zeca Pereira

"Do meu sangue fiz a tinta,
Dos cabelos um pincel,
Da palma da mão esquerda
Uma folha de papel
Pra escrever com a direita
Tudo que devo ao cordel"
(ZECA PEREIRA, 2020, P. 413)

Inicio essa resenha enaltecendo o editor, folheteiro, poeta cordelista Zeca Pereira para fazer justiça ao seu trabalho a favor do cordel brasileiro. No roçado da Nordestina Editora, que começou a existir em março de 2016,  já desabrocharam produções literárias que honram as estantes das cordeltecas e dos poetas e pesquisadores que prezam por bons livros. Vejamos alguns:

Cordelistas Contemporâneos - 2017

Além do Cordel - antologia versátil - 2017

O Baú do Medo - coletânea de cordéis de suspense e terror. - 2019

Anuário do Cordel Brasileiro - 2019

O ABC do Cordel, além de Rima, Métrica e Oração - 2020 (manual para quem deseja escrever cordel)

Dicionário Biobibliográfico dos Cordelistas Contemporâneos, - com pequenas biografias de 204 poetas - 2020

Nova Antologia de Cordelistas Baianos - com  30 poetas - 2021

Cordelistas Contemporâneos - 2022

Some-se a isso a grande quantidade de folhetos que a editora lança  constantemente, quer sejam dos cordelistas atuais ou as obras clássicas desse gênero literário. Venho hoje tratar sobre o mais recente trabalho da Nordestina Editora que tem o título "Cordelistas Contemporâneos - Coletânea 2022",  nele temos a oportunidade de conhecermos um pouco do quem vem sendo produzido em cordel  em cinco regiões brasileiras.


A antologia se apresenta  da seguinte forma, no tocante a participação dos  poetas e das poetas cordelistas: ao todo foram 49 participantes, sendo 13 mulheres (27%) e  36 homens (73%).



Quando analiso a faixa etária dos participantes a situação é a seguinte:





O cordel continua encantando todas as idades.  De 32 a 80 anos vamos encontrar nesse livro, pessoas escrevendo sobre os mais diversos assuntos.

Apenas 11 estados se fazem presentes nessa antologia. Devo entretanto adiantar que isso não significa que os poetas são naturais destes estados, com raríssimas exceções,  para os estados de São Paulo, que tem o poeta  Márcio Fabiano e Rio Grande do Sul, com José Heitor Fonseca e os poetas do Pará ( AroDinei Gaia,  Flávio Barjes e Niro Carper). Os demais, todos são nordestinos, poetas que vivem em outras  locais  deste extenso Brasil, longe do seu berço. Esse quadro corrobora que  o  nordestino é inegavelmente o maior semeador e sustentador dessa literatura.



Se foco a participação por Regiões do Brasil o quadro fica assim:






Percebam que existem verdadeiros poetas quixotescos, que sozinhos trazem a presença do cordel nesse livro. Refiro-me a Aurineide Alencar (Centro-Oeste) e a José Heitor Fonseca (Sul). A eles, nossos aplausos, pela coragem e determinação de continuarem levando a literatura do cordel brasileiro.

Há um outro fator que é muito importante levarmos em conta. Trata-se do nível de estudo alcançado pelos poetas. Se outrora, os poetas populares, quer sejam cantadores de violas, repentistas e cordelistas eram tidos  na categoria de homens e mulheres não letrados, hoje a situação é totalmente diferente. Percebam que aqui, dos 49 poetas que compõem a antologia, 33 são graduados e 16  estão entre aqueles  que não informaram ou não  têm um curso superior. Entre os graduados,  mais da maioria buscou especialização e  pós-graduação. Isso não significa que essa turma é maior em qualidade poética que aquela dos 16 não graduados. Não vai ser o nível de formação que fará o poeta. Lembremo-nos de Paulo Freire: "Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes".




Uma coisa é certa, quanto mais subimos na escala do conhecimento, maior se torna a responsabilidade naquilo que produzimos, e isso se aplica ao cordel. 

Feitas as considerações acima, é chegada a hora de avaliarmos a produção literária. 


"Os assuntos são infinitos.
Todos os motivos políticos,
locais e nacionais fazem
nascer dezenas de folhetos"
(CASCUDO, 1953, P.11)

E passados 69 anos depois que Cascudo escreveu "Cinco Livros do Povo", no qual ele vai se debruçar sobre a literatura popular, hoje conhecida como cordel,  nossos poetas continuam a escrever sobre os mais variados assuntos.  Vou resenhar sobre cada texto e estarei publicando por aqui, na segunda e última parte desta postagem. Aguardem.

Sem perder o rumo e o prumo ...


Mané Beradeiro
25 de abril 2022
Parnamirim-RN



Fontes consultadas:

Dicionário Biobibliográfico dos Cordelistas Contemporâneos -  Zeca Pereira - Org. Barreiras-BA: Nordestina Editora, 2020.
 
Cinco Livros do Povo. Luis da Câmara Cascudo. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1953.




segunda-feira, 21 de março de 2022

UM OLHAR SOBRE A COLEÇÃO DEZ MULHERES POTIGUARES - CORDEL

 



A Casa do Cordel, pelo quinto ano consecutivo, concretizou mais uma edição da Coleção Dez Mulheres Potiguares, que é um projeto voltado a homenagear as mulheres, através do gênero de cordel, onde as autoras escrevem sobre outras. Tenho acompanhado todas as edições, na qualidade de leitor e principalmente como crítico do cordel brasileiro, e até onde sei, o único do Rio Grande do Norte, que tem a coragem de escrever sobre esse gênero e tornar pública a opinião. É bem verdade que há aqueles que falam, mas não escrevem. São palavras soltas ao sabor do vento. As minhas, optei por gravá-las na pedra.

Tal atitude tem seu preço, e acreditem, nem sempre é saboroso como o mel, e isso se dá pelo fato de que o autor ou autora, objeto da crítica, às vezes não aceita ver seu cordel ser analisado de forma tão criteriosa. O que eu quero na verdade é mostrar o zelo que devemos ter por essa poesia. Se há regras que tenhamos a preocupação de segui-las; se há sugestões para melhorar a produção, que tenhamos a humildade de acatá-las. Eu mesmo sou um poeta cordelista que cresci em minha trajetória por ter vontade e disciplina. Muitos erros cometi nos primeiros folhetos, mas não me amarrei a eles. Como dizia Rafael Negreiros: “Não sou estátua para não mudar de posição”.

Feitas tais considerações é hora de apresentar o que vi na quinta edição da coleção “Dez Mulheres Potiguares”, As poetas cordelistas foram (por ordem alfabética):

1)    Célia Melo (Bombom) - Ana Paula campos: Mulher de todas as tribos

2)     Fátima Régis - Titina Medeiros: A arte e a resistência de uma atriz potiguar

3)    Geralda Efigênia - Eliane Amorim das Virgens Oliveira: Primeira desembargadora do RN

4)    Gorete Macêdo - Maria de Lourdes Alves Leite: Pioneira na Justiça do Trabalho Potiguar

5)    Járdia Maia - Lindalva Torquato Fernandes: Da Política no Sertão para a justiça no TCE - Ministra TCE

6)    Jussiara Soares - Áurea de Gois: A poetisa de Extremoz

7)    Rita Cruz - Daluzinha Avliz: A Contadora de Histórias

8)    Rosa Régis - Dona nenén: A sua arte deu cores ao galo de São Gonçalo

9)    Sírlia Lima - Wilma de Faria: Uma rosa vermelha e uma líder guerreira

10) Vani Fragosa - Fátima Bezerra: A esperança fazendo a história.

        Li e reli várias vezes os dez folhetos - vou apresentar um quadro geral sobre as observações, caso alguma autora deseje saber a análise que foi feita sobre o seu poema, posso enviar pelo e-mail.  Como é do conhecimento de todos, o gênero do cordel possui entre suas características, três que são inegociáveis: métrica - rima - oração. Tratarei disso à luz da Tabela Beradeiriana, que vai nos mostrar a eficiência poética do conjunto dos textos analisados. Nove folhetos têm 32 estrofes e apenas um tem 31 estrofes, em sextilhas, com versos heptassílabos (pelo menos deveriam ser), isto é, sete sílabas poéticas. Assim sendo, considerei para fim da aplicação da Tabela Beradeiriana, que a coleção teria um único texto com 319 estrofes, 1914 versos, dos quais 957 devem ser rimados e ter boa oração. 

 O Resultado foi este:

MÉTRICA: 97, 87%

RIMA = 99,37%

ORAÇÃO = 95,65%

 A média geral do Índice de Aproveitamento Poético dessa coleção foi de 96,63%. Algumas participantes obtiveram o IAP de  100 %, e outras menos, mais nenhuma ficou abaixo  de 92%. O que é digno de aplausos.

Quais ensinamentos podemos tirar dessa análise crítica?

 1º) É preciso sempre ter a preocupação de mandar revisar o texto poético, antes de   entregá-lo para a impressão final.

2º) Há excelentes poetas cordelistas no RN mas existem aquelas que ainda precisam solidificar seus poemas.

3º) A Casa do Cordel, instituição que tem prestado relevante serviço ao Cordel  Brasileiro, não pode achar que um trabalho com dez poetas participantes, não careça passar pelo crivo de um Conselho Editorial. Se isso tivesse acontecido, com certeza o IAP seria muito maior.

4º) É mister promover um curso de formação sobre métrica, rima e oração, para que possamos dessa maneira capacitar os poetas (homens e mulheres) que têm dificuldade no assunto.

 Outras observações são importantes que se façam, são elas:

 1º) Há uma carência grande da presença de imagens poéticas nos folhetos. É preciso que o poeta saia da linguagem comum e traga ao seu texto elementos que causem ao leitor emoções, devaneios e vontade de continuar lendo outros poemas desse autor.

2º) Tente na construção do verso dizer o que pretende, sem causar ruptura na sonoridade.

                     Exemplos:

               “ Em Brasília adentrou na

                 Câmara dos Deputados”

 

               “ Foi na Faculdade de Nova

                 Friburgo estudar”

 

3º) Mantenha-se fiel ao tema que se propôs poetizar. É frustrante o leitor perceber que o autor não tratou sobre o que diz o título do cordel. Nesta coleção “Dez Mulheres Potiguares - 5ª edição” dois folhetos apresentam isso:          

 Daluzinha Avlis: A Contadora de Histórias - Não há uma única estrofe que trate sobre as atividades da Daluzinha, no ofício de contadora de histórias e o registro da Maratona de Histórias, algo tão singular criado por ela.

 Lindalva Torquato Fernandes - Da Política no sertão para a justiça no TCE - Ministra do TCE - Também aqui não encontramos nada que diga respeito à presença da homenageada no Tribunal de Contas do Estado - TCE.

 Finalmente há coisas boas a serem ditas sobre a coleção em pauta:

As cordelistas têm um bom domínio da rima e oração.

As mulheres que foram temas dos poemas revelam a importância da luta da mulher na cultura e história potiguar

O Cordel Brasileiro, escrito por mulheres, ganha cada vez mais espaço e conquista leitores

As artistas xilogravuristas ( Célia Albuquerque, Cecília Guimarães, Letícia Paregas e Kimberly) fizeram um trabalho louvável.

. O Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte, em sua sessão plenária, de terça-feira pp, aprovou voto de congratulação pelo conjunto da obra. A proposição foi feita pela Conselheira Sônia Maria Ferreira Faustino e o voto será enviado brevemente à Casa do Cordel, as poetas participantes e à Professora Doutora em Literatura Comparada (UFRN), do Instituto Kennedy e da Rede Pública de Natal - Aparecida Rego, que escreveu a apresentação dessa coleção.

Mané Beradeiro, em 21 de março de 2022.


 A imagem que ilustra o artigo foi tirada do seguinte  endereço: https://www.soumaisrn.com.br/2022/03/08/coletanea-de-cordeis-homenageia-mulheres-que-fizeram-historia-no-rn-neste-8-de-marco/  Visualizada em 21 de março  de 2022.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: PUSSANGA - MOLDURA DO BRASIL AMAZÔNICO

 "Pussanga" é o título de um dos livros de Peregrino Jr, escritor potiguar, que foi membro e Presidente da Academia Brasileira de Letras-ABL e da Academia Norte-rio-grandense de Letras, além de outras instituições. As histórias de "Pussanga" são lendas, superstições, costumes, ofícios laborais do homem que vivia  na Amazônia, no segundo decênio do  século XX.

Peregrino Jr

O livro foi premiado em 1929 pela ABL e recebeu tradução para vários idiomas. "Pussanga" é sinônimo de medicamento caseiro, conforme vemos no conto de abertura Garrafada Indígena: "nessa pussanga, tem infusão de muyrakitan".

Escrevo sobre livros antigos porque muitos leitores sequer sabem da existência deles. E é sempre bom lembrar que livro novo é todo aquele que ainda não foi lido. Em "Pussanga, Peregrino Jr nos leva a Belém (PA) onde vamos encontrar José Caruana e Vicente Dória, numa tentativa de sociedade comercial. Isso no primeiro conto já citado acima. Na sequência, em Areia Gulosa temos Antonio e Josino, o primeiro, nordestino de Catolé do Rocha (PB), o outro de Óbidos (PA). O conto tem como local a fazenda "Boa Esperança", do Coronel Zé Júlio. Ali veremos a força do trabalho e a ingratidão de uma mulher, bem como a prática da entrega de terra para cultivo em troca de uma percentagem (10%) ao proprietário.

Quando o leitor correr os olhos pelo conto "Carimbó" vai encontrar o nonagenário Zé Vicente, escravo que sabe muito sobre a presença do negro no Amazonas. Através dele conheceremos o Quilombo de Trombetas e a sua organização política, econômica e cultural.  " No ritmo do Carimbó dançando a dança negra os negros velhos recordam as senzalas tristes".

Geralmente os escritores têm uma história dedicada à beleza da mulher. Peregrino Jr não fugiu a  regra e deu formosura e curvas a "Feitiço", o nome pelo qual era conhecida a linda criada do Coronel  Rodopiano. A cabocla descrita por Peregrino Jr é sem sombra de dúvida o protótipo literário do que mais tarde iremos conhecer em "Dona Flor", personagem de Jorge Amado. "Tinha bom cheiro de carne morena, mas nela havia também a maldição". Qual seria essa maldição? Vale a pena conhecer Feitiço, um conto que mostra a saga de uma jovem mulher, lutando pela vida, numa rota de sobrevivência que se passa entre Belém(PA) até o Rio de Janeiro.

No centro do livro temos o conto "O Putirum dos Espectros"  no qual o autor vai mostrar a forma de sobrevivência de uma família pobre, através da prática da barganha. No sexto conto "O Sobejo da Cobra Grande" temos um jogo de ciúmes entre Leôncio e Luizinha, adolescentes. Ele capaz de realizar grandes gestos de coragem por amor a ela.

"Recordações da Madeira- Marmoré" é o único texto nesse livro, no qual a narrativa está na primeira pessoa. Pode ser um conto, mas há traços de ser uma crônica. O autor relata sua estada de três meses em Guajará-Mirim, fronteira com a Bolívia.

No oitavo conto, o leitor mais uma vez terá um encontro com a cultura machista que imperava naquela região, fazendo da mulher um mero instrumento, um objeto de prazer. "Ladrão de mulheres" trata disso e muito mais. Já no "O Espritado" a temática é a crença de que não se deve fazer esforço laboral nos dias grandes da Semana Santa. Zeferino foi caçar e  "ficou possuído de uma mau espírito! Sabe como é? Espritado, patrão".

E a viagem vai terminar no décimo conto "A Fogueira de Guajará". Nele tudo acontece num ambiente de festa junina, em Guajará, reinado do Coronel Antonio Gomes, rico e solteirão que tem como filosofia: " Não se deve fazer a vida pior do que ela é". Que pode uma curiboca fazer na vida de um cinquentão? Deixarei para o leitor buscar a resposta.

E assim fica resenhado "Pussanga", livro de Peregrino Jr, lançado em 1929 quando ele tinha 31 anos. A segunda edição veio em 1945 e a terceira em 1948. Peregrino Jr nasceu em Natal no dia 12 de março de 1898 e faleceu aos 85 anos, no dia 23 de outubro de 1983.

Francisco Martins
18 outubro 2021





terça-feira, 5 de outubro de 2021

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: NA BODEGA DE DONA MARGARETH

 

"As Bodegas da Rua do Patu e outras histórias" é o segundo livro de Margareth Pereira, desta vez no estilo de contos e crônicas. Lançado em 2018, tem o selo da Editora CJA e em suas 71 páginas há 17 histórias que nos chamam à reflexão da vida.

A prefaciadora, Professora Doutora Cláudia Santa Rosa, escreve: "Há livros que a gente se apega, identifica cheiro, cor, gosto ...Em seus escritos, Margareth deixa todas as pistas de um vasto repertório, forjado nas memórias de várias épocas".

E foi com este norte que eu entrei nos escritos da autora Margareth Pereira. A linha do desenvolvimento exposta por ela contém vários cenários, alguns têm a geografia bem definida (Ceará-Mirim), e outros, não revelada.

Margareth Pereira

Margareth Pereira nos põe diante de uma grande tela, em branco. Deixa ao nosso alcance tintas variadas e pinceis de modelos diferentes. Com sua escrita, sua vivência e criatividade nos convida a pintar nessa tela as imagens das histórias.

É bem verdade que as ilustrações de Júlio Siqueira já fazem parte do trabalho, mas não custa fazermos a nossa também.

Os contos e as crônicas pegam o tempo e o  ontem e o hoje se mesclam. Margareth Pereira nos transporta à rusticidade dos balcões das bodegas, faz a gente ter encontros com crianças vestidas de solidão, reforça a máxima de que "o amor não passa", nos surpreende com o final do  conto  "Entalo", traça analogias do comportamento humano com alguns animais, rega sementes de amor em corações adolescentes, indaga o porquê daquela vida sem cor e sem sabor e escreve outras histórias.

Tudo isso encontrei na Bodega de Dona Margareth. Vá lá você também!

Francisco Martins
05 de outubro 2021