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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: 'EM NOME DO SERENÍSSIMO REI'


O livro foi escrito por Jean Fonseca Leite Nesi, lançado em 2026, tem 266 páginas e durante  três dias esteve em minhas mãos, sendo instrumento de boa leitura. Jean Fonseca parte de uma fato histórico e com base nele, desenvolve a construção do seu romance. O protagonista tem dezoito anos e recebe  dos seus pais a forte frase: "Então vai e vive o que nasceste para viver" (p.19).

O jovem vai atravessar o  oceano Atlântico, é o início do século XVI, ele se chama Antonio, mas seu nome vai ser mudado e passará a  ter outro significado. É uma história que envolve o leitor, rica em cultura. Tem  paginas recheadas de medo, insegurança, pavor, guerra, amor, família, culinária, canibalismo, etc. Vale a pena colocar esse título na sua lista de leitura.

O que aconteceu com Antonio?

Qual foi a grande mudança na vida dele?

Ele voltou a rever seus pais?

Essas e outras perguntas terão suas respostas na história "Em nome do Sereníssimo Rei", livro que veio para ficar entre os melhores romances históricos da literatura potiguar. Parabéns à escritora.

Francisco Martins

14 de outubro de 2026.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A SUBSTITUTA

 

Helena foi contratada numa terça-feira de manhã, em uma daquelas empresas que prestam serviços a outras empresas — uma agência de substituições, como se dizia no ramo. O contrato era claro: quando um funcionário de qualquer empresa-cliente tirasse férias, Helena entrava no lugar. Não importava o ofício. Importava que ela soubesse exercê-lo.

E ela sabia. Não por dom, mas por disciplina: Helena tinha passado dez anos colecionando profissões como outros colecionam selos. Fora recepcionista, auxiliar de cozinha, operadora de caixa, balconista de farmácia, assistente de biblioteca, telefonista de hotel. Guardava de cada ofício não apenas o manual, mas o gesto — a forma exata de segurar a bandeja, de dobrar o comprovante, de olhar o cliente nos olhos sem prometer nada demais.

— A senhora é uma curinga — disse o gerente da agência, no primeiro dia, com admiração sincera.

— Sou uma profissional — corrigiu ela, sem sorriso. — Curinga é quem serve para qualquer jogo. Eu sirvo para o jogo certo, no lugar certo.

E assim foi por dois anos. Helena substituiu a recepcionista do escritório de advocacia e aprendeu os nomes de todos os clientes antes do primeiro café. Substituiu a cozinheira do colégio e as crianças notaram que a comida estava "diferente, mas boa". Substituiu a balconista da floricultura e descobriu, para a própria surpresa, que sabia o que cada arranjo dizia sem que ninguém precisasse explicar. Em toda missão, dava-se bem. Não era amada — era respeitada, o que para Helena sempre bastou.

Até que chegou a segunda-feira em que o gerente a chamou com uma expressão que ela nunca tinha visto nele.

— É uma substituição diferente — começou ele, e parou. Recomeçou. — A cliente é uma empresa de consultoria. A funcionária que vai tirar férias é... uma acompanhante. Ela acompanha executivos em jantares, eventos, viagens. É um serviço contratado pela própria empresa. E eles pediram uma substituta.

Helena ficou em silêncio. O gerente continuou, apressado, como quem despeja um copo de água quente de uma vez:

— O contrato é o mesmo. Mesmo valor, mesmo período, mesmas garantias. A senhora não é obrigada a aceitar. Eu preciso apenas registrar a resposta.

Ela olhou pela janela do escritório. A cidade seguia seu movimento de sempre: gente indo trabalhar, gente voltando, gente fingindo que uma coisa era a outra.

— Posso pensar? — perguntou.

— A senhora tem até sexta-feira.

Naquela noite, Helena não dormiu. Não por medo — ela conhecia o próprio corpo e sabia defender seus limites em qualquer profissão, inclusive nessa situação. O que a impediu de dormir foi outra coisa, mais antiga e mais difícil: a pergunta sobre quem ela era. Durante dez anos, Helena tinha sido todas as profissões e, por isso, talvez nenhuma. Ela substituía pessoas. Entrava na vida dos outros, usava o crachá dos outros, respondia pelo nome dos outros. E agora o trabalho pedia algo que nenhuma outra missão havia pedido: que ela substituísse não o ofício de alguém, mas a intimidade de alguém. Onde terminava a profissão e onde começava a pessoa?

Pensou na acompanhante — aquela mulher que ela nunca tinha visto, mas que agora existia para ela como uma sombra na beira da própria vida. Uma mulher que acompanhava executivos e que, ao tirar férias, precisava ser substituída como se substitui uma telefonista. Alguém, em algum escritório, havia decidido que a vida dela era um posto a ser preenchido.

E foi essa a coisa que a incomodou — não o que pediam dela, mas como pediam. Como se pessoas fossem vagas.

Na sexta-feira, Helena voltou à agência. O gerente a recebeu de pé, nervoso.

— E então?

— Vou recusar — disse ela.

O gerente abriu a boca, mas ela levantou a mão e continuou:

— Não pelo que vocês estão pensando. Eu não julgo a profissão dela — nem julgo a minha reação. Eu recuso pelo motivo contrário. Durante dez anos, eu entrei no lugar das pessoas e fiz o trabalho delas com respeito. Mas esse pedido não me pede para fazer o trabalho de uma mulher. Me pede para me tornar a ausência de uma mulher. É diferente. Ela tira férias como qualquer trabalhadora — e o que ela faz nas férias é assunto dela, não um posto vazio a ser preenchido. Se a empresa dela precisa de acompanhantes, que contrate acompanhantes. Contrate pessoas. Não substitutos de pessoas.

Houve um silêncio. Depois, o gerente disse em voz baixa:

— Sabe que isso pode custar seu contrato?

— Sei — respondeu Helena. — Mas eu passei dez anos aprendendo profissões para nunca ser trocável. Seria estranho perder o contrato justamente por me recusar a ser trocável.

Ela saiu da agência sem saber se tinha emprego na segunda-feira. Não sabia também que, no mesmo dia, o gerente escreveu no relatório interno uma frase que mudaria a empresa: "A substituta Helena recusou a vaga e estava certa. Revisar o que consideramos substituível."

A empresa não a demitiu. Sem que Helena soubesse, a recusa dela circulou entre os diretores como um documento raro — o tipo de coisa que ninguém vê escrito há muito tempo. Três meses depois, ela foi promovida: deixou de ser substituta e passou a ser quem escolhia as substituições, treinava as novas contratadas e definia, em cada contrato, o que era trabalho e o que era pessoa.

E a acompanhante? Helena a encontrou por acaso, um ano depois, em uma cafeteria. Reconheceu-a pelo crachá antigo que a agência mandara arquivar. Conversaram como duas estranhas que não eram estranhas — porque uma havia recusado ocupar o lugar da outra, e esse gesto, embora nunca dito, estava entre elas como um acordo silencioso.

— Você me substituiria? — perguntou a mulher, no fim, meio brincando.

— Não — respondeu Helena, sorrindo pela primeira vez naquela mesa. — Mas posso ensinar alguém a cozinhar, a receber, a telefonar. E você pode me ensinar o que é acompanhar alguém sem se perder em ninguém.

As duas riram. E, naquela tarde, nasceu algo que nenhuma das duas esperava: não uma substituição, mas uma parceria. Porque, no fim, Helena havia aprendido a lição de todos os seus ofícios: ninguém substitui ninguém. A gente apenas ocupa, por um tempo, o posto de alguém — e o respeito por essa pessoa é o que separa um profissional de um curinga.

 

Francisco Martins – 1 de outubro de 2026.


terça-feira, 29 de setembro de 2026

O SEQUESTRO DA RIMA

 

   Na cidade de Versália, os poetas acordaram naquela manhã com uma estranheza que não sabiam nomear. O padeiro, que escrevia sonetos enquanto sovava o pão, tentou dizer "o sol doira a janela" — e a palavra saiu torta, sem eco, sem o doce encontro de sons que sempre a acompanhara. Algo faltava. Como o que acontece quando esquecemos uma nota de uma música conhecida: a melodia existe, mas o encaixe perfeito se perdeu.

      Foi o velho Anacleto, o mais antigo poeta da cidade, quem deu o nome ao desastre. Ao tentar compor um verso para a neta, percebeu que a rima havia sumido. Não uma rima específica — todas. O dicionário da língua estava intacto, as palavras todas no lugar, mas aquele laço invisível que fazia "amor" responder a "flor" e "mar” a "sonhar" simplesmente deixara de existir. Era como se a própria música da linguagem tivesse sido arrancada do mundo.

      E então chegou a carta. O envelope era de papel pardo. Dizia apenas: "A rima está conosco. Se quiserem vê-la viva, tragam o último verso perfeito já escrito. Assinado: Os Prosadores."

     Os poetas ficaram perturbados. E como não ficariam? Eram homens e mulheres que viviam daquela harmonia secreta. Sem a rima, seus versos saíam mancos, suas canções de ninar não embalavam, seus poemas de amor soavam como listas de compras. O jovem Eulálio, que escrevia trovas para a amada, tentou declamar e gaguejou.                A poetisa Clotilde, famosa pelos seus tercetos, chorou ao ver suas estrofes desmoronarem como castelos de areia.

— Sem a rima, somos apenas pessoas que escrevem frases — lamentou Anacleto, com os olhos úmidos. — Não somos nada.

           Enquanto o resto de Versália  murmurava em pânico, um grupo seco se reuniu na praça sob o plátano. Eram os poetas de verso livre — os que nunca pediram licença à rima para escrever. E eles, ao contrário de todos, estavam... tranquilos.

— Eu avisei — disse o jovem Bento, cruzando os braços com um sorriso de quem finalmente tinha razão. — A rima era uma muleta. Agora veremos quem sabe andar sozinho.

     E havia algo de verdade naquilo. Enquanto os sonetistas gaguejavam e os trovadores choravam sobre suas trovas mutiladas, Bento escrevia no ar, com as mãos, frases que não podiam rimar — mas que nunca precisaram rimar. Seu poema sobre o vento saiu inteiro, limpo, sem um único tropeço. Os versos livres, pela primeira vez na história de Versália, eram os únicos que continuavam de pé.

— Vejam — proclamou ele, erguendo o papel. — Isto é poesia. Sem algemas, sem correntes, sem o eco barato das palavras que se repetem.

       A multidão perturbada olhou para ele com uma mistura de inveja e ressentimento. Como podia aquele rapaz celebrar, quando a própria música da língua estava presa? E Bento, por um instante, sentiu-se vitorioso.

        Mas aquele momento, como todo triunfo por eliminação, não durou. Ao entardecer, Bento foi até a beira do rio, onde costumava escrever. E ali, sozinho, tentou compor um verso sobre a memória da mãe. As palavras vieram — vieram sempre. Mas quando chegou ao fim da frase, algo lhe faltou. Não a rima, não exatamente. Faltava-lhe aquele quebra-cabeça invisível, aquele jogo de esconder que fazia a língua dançar. Seu verso saiu elegante, correto... e vazio. Como a música tocada sem o silêncio entre as notas.

        Foi então que ele entendeu o que os sonetistas sempre souberam: a rima não era uma algema. Era um convite. Não prendia a palavra — fazia a palavra esperar por outra, ansiosa, e o encontro das duas era o próprio prazer de escrever.

         Bento voltou à praça. Os versos livres ainda estavam de pé, mas já não sorriam.

   Havia algo que os Prosadores — aquela sociedade secreta de escritores de prosa que sempre invejaram o prestígio dos poetas — não haviam previsto. Ao sequestrar a rima, eles a tinham aprisionado em uma masmorra de papel, mas esqueceram que a rima, sendo feita de som e de memória, não podia ser contida por muros.

          Naquela noite, enquanto os poetas velavam em silêncio, a pequena neta de Anacleto, que não sabia o que era rima nem prosa, mas sabia o que era música, cantou, sem querer, uma cantiga de roda. A rima, ouvindo aquela voz pura do outro lado da masmorra, reconheceu o chamado. E respondeu.

           Foi um estalo. Um verso antigo, sussurrado por gerações, atravessou o papel, quebrou o selo e voltou a habitar a boca das crianças. E, de criança em criança, de boca em boca, de coração em coração, a rima retornou à cidade — não como prisioneira, mas como algo que nunca podia ter sido presa, porque vivia não em um lugar, mas em todos os lugares onde alguém cantava.

Quando a rima retornou e a cidade voltou a cantar, os Prosadores foram encontrados. Não fugiram. Estavam reunidos na mesma masmorra de papel de onde a rima escapara, sentados em silêncio, como quem espera um julgamento.

E foi o velho Anacleto quem os enfrentou.

— Por quê? — perguntou ele, sem raiva, apenas com a voz cansada de quem perdeu e reconquistou algo em uma única noite. — Por que sequestrar a rima?

O líder dos Prosadores, um homem magro chamado Severino, ergueu os olhos. E, pela primeira vez, não havia inveja neles. Havia cansaço.

— Porque nós também queríamos ser lembrados — disse ele. — Vocês, poetas, têm a rima. E a rima é memória. Uma trova de amor sobrevive séculos porque o "amor" encontra o "flor" e o ouvido guarda os dois juntos. Nossos romances, nossos ensaios, nossas crônicas... são lidos e nem sempre lembrados. Não têm o laço que prende a palavra à memória. Nós não sequestramos a rima por ódio a vocês. Nós a sequestramos porque, sem ela, achávamos que talvez — só talvez — o mundo finalmente prestasse atenção em nós.

Houve um longo silêncio.

Continuou Severino:

— Ao prender a rima, descobrimos que ela nunca foi a inimiga. Ela era a prova de que a língua pode dançar. E nós, que escrevemos prosa, também dançamos — só que com outro ritmo. Não precisávamos roubar a música dela. A gente só precisava ouvir a nossa.

Anacleto estendeu a mão.

— Então escrevam — disse ele. — Escrevam a prosa de vocês com o mesmo cuidado com que nós escrevemos os versos. Saibam que memória não mora só na rima. Mora no que é dito com verdade e provém do coração.

 

Francisco Martins

28 de setembro de 2026

 

 

 

 

 

        


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

MENINAS NO COLO DO CANGACEIRO

Manoel Batista de Morais -  um nome que não tem peso na história, pois poucos são capazes de identificar quem foi o dono desse nome, mas, ao citarmos Antonio Silvino, aí sim, é possível imaginar a figura do cangaceiro, pois ambos os nomes representam a mesma pessoa.

Antonio Silvino

  E é sobre Antonio Silvino que eu trazer uma história contada por Oswaldo Lamartine, em nota de rodapé, no livro "Velhos Costumes do Meu Sertão", que foi escrito por seu pai Juvenal Lamartine de Faria

Juvenal Lamartine

Escreveu Oswaldo: " Não sabemos precisar a data, mas vale a pena recapitular o fato: Olga e Maria de Lourdes, filhas de Juvenal Lamartine, meninas de 7 para 9 anos, voltavam, à noitinha, em companhia de uma casal de empregadas, do Acari para a Fazenda Ingá onde moravam. No lugar Pitombeiras, numa casa à beira da estrada, esbarraram com homens armados sob a chefia de Antonio Silvino. Este indagou da mucama de quem eram filhas as meninas e onde andava o pai delas. Informado de que viajara e na casa estava a mãe das meninas, colocou-as no colo, ofereceu-lhes miçangas e perfumes e notando-as ariscas, perguntou se estavam com medo do rifle, "eu não sinhô que papai tem uma porção lá em casa". Despedindo-se recomendou: "Peça a sua mãe que quando escrevê prá seu pai diga a ele que não tenha raiva de mim não ..."  (2021, p. 171).

Olga Lamartine Paiva (26 de março 1905 a 25 outubro 1997)

Maria de Lourdes Lamartine Varela ( 17 abril 1906 a 19 novembro 1992)


Fonte:
Velhos costumes do meu sertão - Juvenal Lamartine - Natal: Sefarad, 2021

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

THIAGO GONZAGA ENTREVISTOU O ESCRITOR TONY DE SOUZA



Entrevista com o escritor Tony de Souza
Entrevistador: Thiago Gonzaga

1. Tony, fale um pouco da sua infância no interior do Rio Grande do Norte. Que lembranças daquele período você guarda?

Nasci em Governador Dix-Sept Rosado (antiga Vila São Sebastião, RN). Meu pai, conhecido como Antônio Padeiro, contrariando minha mãe, vendeu a padaria e comprou um caminhão. Com isso, passou a viver na estrada.
Minha mãe, com seus três primeiros filhos, foi morar no sítio de seu pai, meu avô Vicente Carlos. Minha mãe vivia triste, mas, para mim, aquele lugar era um paraíso. Tomava leite tirado da vaca na hora, tinha mel das colmeias do sítio, e meu avô era uma pessoa muito carinhosa. Ele nos tratava muito bem e eu me sentia um reizinho.
Era uma pessoa especial e muito ativa. Além de cuidar do sítio, era marceneiro e dava aulas de alfabetização para quem quisesse estudar.

2. Como surgiu o seu interesse pela literatura?

Meu pai era analfabeto, mas adorava romances de cordel. Pedia para quem soubesse ler que recitasse os cordéis de que gostava, como O Pavão Misterioso e as histórias do personagem Pedrinho. Ele decorava os versos e os recitava enquanto trabalhava na padaria, fazendo o pão. E também me ensinava a fazer o pão.
Minha mãe era professora e tentou muitas vezes alfabetizar meu pai, mas não conseguiu. Porém, não permitiu, com muita veemência, que seus filhos deixassem de estudar por qualquer intercorrência da vida.
Ela era uma excelente contadora de histórias. Inclusive, tenho um livro publicado com as histórias de Trancoso que ela nos contava, principalmente em um período em que tínhamos poucos livros em casa.




3. Você se lembra dos primeiros livros ou autores que despertaram sua paixão pela leitura?

Comecei a ler textos da literatura brasileira na época do exame de admissão ao ginásio e comecei a decorar esses textos, assim como fazia com a literatura de cordel.
Ainda não tinha acesso a livros, mas às histórias em quadrinhos, que eram muito populares e acessíveis na minha época.
O primeiro livro que chegou às minhas mãos foi Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo, e depois Jubiabá, de Jorge Amado. Este último foi meu irmão Assis quem me deu, às vésperas de eu viajar para São Paulo, em busca dos meus sonhos.

4. Em que momento o cinema entrou na sua vida? Houve algum acontecimento, filme ou livro que fez você entrar nesse universo?

Como espectador, meus primeiros filmes foram assistidos em Natal e Mossoró. Eram principalmente faroestes, como Django! e Ringo!, além de filmes mitológicos, como Hércules, Maciste e outros.
Em São Paulo, comecei a frequentar cineclubes e conheci o que era o cinema de arte, além de outros filmes e diretores nacionais que me encantaram, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, e A Margem, de Ozualdo Candeias, entre outros.
Inclusive, a adaptação do conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, para o cinema foi objeto de estudo da minha dissertação de mestrado na PUC-SP, que posteriormente se tornou meu primeiro livro teórico publicado.
Nos primeiros anos vivendo em São Paulo, fui ator de teatro. Uma das colegas de uma peça teatral me falou que havia conhecido um diretor de cinema que estava selecionando atores para um filme. Pedi para que ela me levasse junto.
Na época, já frequentava o Museu Lasar Segall, conhecido como um espaço dedicado às artes em geral, inclusive ao cinema. Foi ali que comecei a ler a teoria dos diretores de cinema russos, o que me apresentou ao cinema de arte. Passei a ser um frequentador assíduo e um leitor voraz.
No dia combinado, fomos ao teste de atores do filme. Ao nos encontrarmos com o diretor, ele nos disse que o elenco já estava completo.
Esse diretor era muito simpático. Ficamos conversando sobre cinema, e ele gostou do conteúdo da conversa. Ao final, disse que iria propor meu nome para ser incluído na equipe de filmagem, mas eu teria que sair da peça teatral que estava em cartaz.
Foi dessa forma que entrei no universo do cinema paulista, cuja história conto nos livros A Boca do Cinema Paulista e Perseguidor de Fantasma.

5. Quais foram suas primeiras influências literárias? Existem autores que o acompanharam desde o início da sua formação?

No decorrer da minha trajetória no teatro e no cinema, a base do meu desenvolvimento foi a leitura, ora teórica, ora de ficção. Foi uma pesquisa constante.
Hoje posso perceber que aquele menino carente de livros me fez ir atrás de tudo isso. Atualmente, a leitura é nosso maior entretenimento, e escrever um romance é uma forma de nos sentirmos vivos e de proporcionar prazer e conhecimento para outras pessoas.
Minhas afinidades literárias são muitas, mas registro aqui os escritores Antonio Torres, que é meu patrono na Academia Contemporânea de Letras de São Paulo, e Ignácio de Loyola Brandão.

6. Como nasceu a ideia do seu primeiro livro? Foi um projeto planejado ou os textos foram se reunindo naturalmente ao longo do tempo?

Após concluir os estudos de graduação, mestrado e doutorado, saturado da escrita acadêmica e de escrever roteiros de cinema, resolvi arriscar escrever meu primeiro romance.
O tema girou em torno da minha história de vida no Rio Grande do Norte e da minha vinda para São Paulo. Transformar o papo de roda de amigos em romance foi uma dica da minha esposa.
Ao dar meus primeiros passos como autor, inspirei-me nas obras de J. D. Salinger, principalmente em O Apanhador no Campo de Centeio, e na obra de John Fante. Eles foram meus ídolos na época.

7. O que mudou em sua escrita desde os primeiros livros até os textos mais recentes?

No meu primeiro livro lançado, um amigo afirmou: “Antonio, esse é o seu primeiro livro de uma obra, não é?”
O que veio a significar essa afirmação para mim?
Eu tinha ideia do que era construir uma obra na área cinematográfica, de acordo com os estudos que tinha feito sobre cinema. A literatura, porém, era um campo novo para mim. Optei pelo romance, tendo em vista minha experiência como roteirista.
Também o fato de ler não apenas os clássicos, mas novos autores, como Javier Marías, Enrique Vila-Matas e John Berger, entre outros, levou-me a arriscar a construção de novas formas de narrar um romance, que não seguem uma estrutura dramática clássica.
Apresento ao público um romance em que ele poderá se deparar com um roteiro, um diário, uma correspondência; ora o alter ego pode estar em destaque, ora outro personagem; ora em primeira pessoa, ora não.

8. Quais são seus projetos literários para o futuro e o que os leitores podem esperar dos seus próximos livros?

Tenho duas ideias a desenvolver: uma sobre minha experiência com a espiritualidade e a busca por uma vida mais sustentável, e outra sobre obras biográficas.

9. Fale-nos sobre seu novo livro, que você vai lançar aqui em Natal, na Livraria Manimbu.

Minha intenção foi escrever algo bem-humorado sobre um personagem, “o cavador de filmes”, uma figura já ultrapassada no tempo e que, nos dias atuais, acabou se envolvendo em manobras obscuras de lavagem de dinheiro.
Ele procura os amigos de antigamente para ajudá-lo a sair dessa enrascada.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

QUANDO A LITERATURA FAZ JUSTIÇA - RESENHA DO LIVRO "VIÚVA MACHADO"


A biografia da Viúva Machado, escrita por Elza Cirne, é muito boa. É daqueles livros que, a cada página lida, provocam no leitor o desejo de querer mais. Essa insaciedade literária é própria das boas obras. 

Poderia ter lido em três dias, no máximo. Mas quis saborear e fiquei com ele em minhas mãos por mais tempo. Biografia é um gênero que me seduz e, tratando-se da Viúva Machado, melhor ainda.
 
A justiça foi feita. Elza Cirne não somente purgou a imagem de Amélia Machado, desconstruindo a maior mentira espalhada nesta cidade — Natal —, que se estendeu por todo o estado, como também nos presta a ação libertadora de mostrar que a biografada foi uma grande mulher empreendedora. 

Devolvo o livro à biblioteca que me emprestou, mas antes, como faço com todos os livros que leio, guardo em meu acervo de leitor o fichamento. 

Obrigado, Elza Cirne, por um trabalho tão belo. Que bom que foi escrito por uma mulher, com sensibilidade, olhar artístico e textos leves, porém literários.
 
Quem ainda não leu Viúva Machado - a grandeza de uma mulher, faça o mais breve possível. Há nele um rio de ações, de histórias, de dores, sonhos e outras coisas que correm paralelo ao Rio Potengi.

Francisco Martins
13 de agosto 2026



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

MEU DEPOIMENTO DE QUANDO COMECEI A FRENQUENTAR A BIBLIOTECA DR PACHECO DANTAS

 

A Biblioteca Pacheco Dantas é muito importante na minha vida. Lembro bem o primeiro dia em que entrei nesse espaço sagrado dos livros. Quem me levou até lá foi a minha mãe, que gostava de ler e viu que ali eu poderia lhe dar mais sossego, pois sempre fui uma criança sapeca. Tinha hora certa para ser castigado, pois todos os dias fazia travessuras. Mamãe decidiu então me levar àquele templo, na esperança de que eu gostasse dos livros. Fui recebido por Dona Leda, com aquele jeito tão carinhoso. Deu-me livros infantis e disse-me que poderia voltar todos os dias. Lembro que naquele dia os meus couros foram poupados. Então, passei a ser um frequentador assíduo daquela casa. Quantos livros eu li! Quanta cultura e conhecimento adquiri!

Recordo que, em um domingo, houve uma gincana cultural promovida pela Juventude Franciscana (JUFRA), da qual participavam os jovens. Em determinado momento, foi feita a pergunta: quem tinha como lema "Morrer, se preciso for; matar, nunca"? O silêncio foi geral entre os participantes; nenhum sabia a resposta. Foi então que gritei: "Eu sei quem disse!" A turma me olhou e riu da minha atitude. Mesmo assim, ouviram o menino de nove anos, leitor, que surpreendeu aqueles jovens. "Quem teve esse lema foi o Marechal Rondon", falei. E, ao me perguntarem por que eu sabia, argumentei que era leitor da Biblioteca Pacheco Dantas. Vieram aplausos. Foi a primeira menção honrosa que, de forma indireta, a comunidade estava me dando.

Hoje sou escritor, cordelista, contador de histórias e pesquisador. Faço parte de diversas instituições culturais, e foi aí, neste piso ladrilhado, onde janelas e portas estão abertas para receber quem desejar aumentar seus conhecimentos, que comecei a nutrir minha alma. Obrigado a todos os que, ao longo dos 81 anos, têm servido a esse propósito.

 

Francisco Martins

12 de agosto 2026

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

XV MOSTRA LITERÁRIA DA ESCOLA MARIA DE LOURDES MEDEIROS (LAGOA NOVA-RN)

 Há momentos na vida que marcam a gente de forma intensa. Quinta e sexta-feira passadas, eu tive alguns que ficaram tatuados em minha alma. O cenário foi na acolhedora cidade de Lagoa Nova-RN,  na Unidade Municipal de Educação Infantil Maria de Lourdes Medeiros.

Ali eu fui recepcionado à noite, com professores, funcionários e convidados que prepararam  com muito carinho a abertura da XV Mostra Cultural daquela instituição. Sou grato a escritora Paula Belmino por sugerir meu nome a  Maria Salete Galdino Luiz (mentora desse projeto), que me fez o convite e escolheu minha produção de cordel para essa Mostra Literária. 




Na sexta-feira, pela manhã, eu contei histórias para as crianças. Foi o momento em que elas tiveram a oportunidade de conhecer Mané Beradeiro, o autor dos folhetos que irão ler durante o mês de agosto. 


Agradeço pelo carinho recebido, os sorrisos  e abraços, a grandeza das crianças. Parabéns à escola e sigo acompanhando as ações do projeto


Francisco Martins/Mané Beradeiro

sábado, 25 de julho de 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS - A REVISTA Nº 87 DA ANRL - PARTE FINAL.

Contos, crônicas e poemas são gêneros constantes nas edições da Revista da ANRL. Quem primeiro publicou um conto na Revista foi Bezerra Jr. (cadeira 23), na edição nº 4, de 1956. A crônica, por sua vez, precedeu esse marco, figurando na edição nº 3, de 1955, sob a autoria de Câmara Cascudo (cadeira 13). Os poemas estão presentes desde a edição inaugural da Revista, em 1951, com textos de Bezerra Jr., Antonio Soares (cadeira 7), Carolina Wanderley (cadeira 6) e Palmira Wanderley (cadeira 20).

A coleção de Revistas da ANRL , pertencente a Francisco Martins

Confesso que nutro predileção pela crônica, embora não menospreze os contos e poemas. O acervo histórico das Revistas apresenta excelentes textos nestes três gêneros, abrangendo assuntos variados, escritos tanto por acadêmicos quanto por colaboradores. Passo a expor minha opinião acerca do conteúdo constante na edição 87.

Clauder Arcanjo (cadeira 12) mantém sua abordagem característica de escrever contos permeados por elementos populares. O cenário apresentado é simples, contudo, a tessitura narrativa é bem construída e logra prender a atenção do leitor do início ao fim. Já Edilson Nobre Jr. (cadeira 36) compôs uma história que se situa na linha tênue entre o conto e a crônica. Tal fenômeno ocorre pois o autor transporta o leitor ao quindênio do século XX, onde peças da história refletem diretamente nas decisões do protagonista Fernão.

Ivan Lira de Carvalho (cadeira 34), com a obra "A Matemática da Beata", revela a esperteza de uma católica que oferta com uma mão e retira muito mais com a outra. O conto sugere um aproveitamento de mote real — fato que apenas o autor poderá confirmar. Francisco Sobreira, premiado contista, traz um olhar penetrante em "A Mulher que passa", demonstrando sutileza ao criar personagens de notável sensualidade.

Por fim, Alfredo Neves, em "O Homem que procurava a vida", convida o leitor a refletir sobre a existência e o propósito da jornada humana. Registro, outrossim, minha participação nesta edição com o conto intitulado "O Conclave dos Narizes".

No caderno de poemas, observa-se um verdadeiro sarau com as participações de Lívio Oliveira (cadeira 15), Rizolete Fernandes e Roberto Lima (cadeira 9). Poemas constituem sempre um desafio no que tange à sua plena compreensão. Faz-se necessário ler com parcimônia, por vezes em voz alta; o conhecimento prévio da estrutura utilizada na construção auxilia sobremaneira o processo interpretativo.

Contudo, os poemas encerram profundas subjetividades e, confesso, nem sempre logro encontrar o propósito exato do autor ou autora. Não obstante, deleito-me invariavelmente na cadência dos versos e no lirismo das composições apresentadas.

Francisco Martins

25 de julho de 2026



quarta-feira, 17 de junho de 2026

FRANCISCO MARTINS ANUNCIA SÉRIE DE FÁBULAS COM PRINCÍPIOS BÍBLICOS PARA CRIANÇAS


 

É com grande entusiasmo que o autor Francisco Martins anuncia o desenvolvimento de uma série especial de fábulas destinadas ao público infantil. Este projeto nasce da profunda convicção de que a literatura é uma das ferramentas mais eficazes para a formação do caráter e da espiritualidade na infância. Ao unir o universo lúdico e imaginativo das fábulas a ensinamentos bíblicos fundamentais, o autor propõe uma experiência de leitura que transcende o entretenimento, oferecendo às crianças e suas famílias uma base sólida de princípios eternos apresentados de forma leve e envolvente.

A proposta central desta série é traduzir conceitos teológicos profundos em narrativas acessíveis e cativantes. Francisco Martins utiliza a estrutura clássica da fábula para ensinar valores inegociáveis como a fé, a obediência, o arrependimento e a redenção. O objetivo é que, através da identificação com os personagens e seus dilemas, os pequenos leitores possam compreender a natureza do amor de Deus e a importância de caminhar segundo os Seus preceitos. Cada história é desenhada para ser uma ponte entre o coração da criança e a verdade das Escrituras, tornando o aprendizado bíblico uma jornada de descoberta e encantamento.

A série já conta com obras fundamentais que exemplificam o compromisso do autor com a qualidade literária e a fidelidade bíblica. Abaixo, apresentamos os títulos que já integram este projeto:

●        "For" e "Miga": Esta história utiliza o simbolismo de pequenos e esforçados personagens para ilustrar virtudes como a perseverança, a humildade e a lealdade. No cotidiano cristão, muitas vezes os pequenos atos de fidelidade são os que mais glorificam a Deus, e esta fábula ensina que o valor de um indivíduo não reside em seu tamanho, mas na integridade de seu coração.

●        "O Balido de Lumina": Uma narrativa emocionante que explora a vulnerabilidade e a necessidade humana de cuidado. A trama foca no momento em que a fragilidade encontra o socorro divino, destacando a importância do arrependimento e do clamor sincero ao Bom Pastor. É uma lição inesquecível sobre como a voz de Deus sempre alcança aqueles que O buscam em meio à escuridão.

●        "Áquila e as Asas da Fé": Uma poderosa ilustração de redenção e soberania que enfatiza como a confiança plena no Criador permite que a criança supere as tempestades e os medos da vida. Através da figura majestosa do resgatador, a história demonstra que o verdadeiro descanso e a proteção inabalável são encontrados sob as asas da fidelidade divina. Esta fábula aponta para a segurança absoluta que temos Naquele que nos resgatou para uma nova vida.

A nova série de Francisco Martins promete ser uma ferramenta valiosa de discipulado infantil, auxiliando pais, educadores e líderes ministeriais na nobre missão de instruir a próxima geração no caminho em que deve andar. O convite é estendido a todos que desejam investir em um conteúdo que alimenta a alma e fortalece o espírito. Acompanhe esta série e descubra como as fábulas podem se tornar aliadas poderosas na transmissão da mensagem do Evangelho para os corações mais jovens.

Quem desejar receber as fábulas, que são gratuítas, basta enviar uma mensagem para o whatsApp do autor (84) 9.8719-4534,  escrevendo: quero acompanhar as fábulas. Semanalmente ele envia.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

ANRL - 90 ANOS - CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA LITERÁRIA - EDIÇÃO 007 - AFONSO BEZERRA

  
Afonso Bezerra

  Afonso Ligório Bezerra - patrono da cadeira 40 - que viveu 22 anos (1907-1930) natural de Carapebas, atual cidade Afonso Bezerra, foi jornalista, escritor, poeta, ensaísta e grande defensor da fé cristã( católica).
    Sua produção literária estava espalhada pelos jornais que ele tinha participação. O escritor Manoel Rodrigues de Melo, pesquisou e organizou o livro "Afonso Bezerra - Ensaios, Contos e Crônicas". O livro se tornou realidade trinta anos após o falecimento do autor.
    A ANRL abriu suas portas ao público, e em 9 de junho de 1967, foi feito o lançamento, estando presente o acadêmico Nilo Pereira, prefaciador da obra, amigo do homenageado, proferindo palestra sobre a obra e o autor ( Revista 7, p. 171 a 176 ).
    Naquela data, se vivo fosse, Afonso Bezerra estaria celebrando 60 anos de nascimento.


Obs: Foto criada por  IA, de Afonso Bezerra,  obtida do instagran de Aldenora Bezerra ( @aldenora.bezerra.5)



segunda-feira, 18 de maio de 2026

domingo, 17 de maio de 2026

ANRL 90 ANOS - CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA LITERÁRIA - EDIÇÃO 006 - CASCUDO ERA CONTRA OBRAS INÉDITAS POST MORTEM

 Você sabia que Câmara Cascudo não era favorável a publicação de  obras inéditas, deixadas pelos autores? Quem testifica isso é Veríssimo de Melo, no artigo "Um jornal e uma época - Relembranças" , lembrando  a crônica escrita por Câmara Cascudo, " Espólio do Escritor", publicada no jornal "A República", edição do dia 6 de abril de 1946.

"... A propósito, ele trazia o depoimento de paul Valery, que encarregou a viúva de reunir, dispor e publicar toda a sua papelada inédita, incompleta ou em notas, depois de sua morte. Já Henri Bergson, o filósofo, pediu à viúva que destruísse  tudo. Cascudo comenta os dois pontos de vista e acrescenta; "minha opinião é a do velho Bergson. Sou contra a publicação de inéditos, de trabalhos incompletos, rascunhos, modelagem irregular que a morte deixou inacabada. Publique-se a correspondência, selecionando-se, somente. As publicações póstumas servem para comprometer a beleza, harmonia, equilíbrio e limpidez da obra intelectual" (p. 146/147)


1) Revista da ANRL,  volume 27, nº 15, novembro 1979/80, páginas 134 a 148

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A CARTA DE NICE

O leitor — chamemos-lhe apenas leitor, pois o nome não importa agora — estava folheando um livro, quando sua mão encontra um envelope de carta, internacional. Isso lhe chamou a atenção, afinal, em 2026, tempo de whatsApp, e-mails, redes sociais, não há mais espaço para cartas.

O envelope trazia as cores branca, vermelha e azul. O selo dizia o país de origem: República Francesa, e o carimbo dos Correios — nítido, perfeito, como se o tempo tivesse respeitado aquele 30 de setembro de 1972.

Pegou o envelope com cuidado, quase com reverência. O papel era fino como as asas de uma libélula. O remetente: Jean-Luc Moreau, 14, bis Rue de la Buffa, 06, Nice, França. O destinatário: D. Isabel de Holanda Cavalcanti, Rua General Câmara, 67, Natal-RN, Brasil.

Percebeu que estava aberto, dentro, a carta, escrita numa caligrafia inclinada à direita, firme como quem não hesita, e ao mesmo tempo trêmula nos contornos, como quem escreve sob o peso de algo que aperta o peito.

O leitor  pensou se deveria ler a correspondência que não lhe pertencia, endereçada a uma mulher que, muito provavelmente, já não estava entre os vivos. Cinquenta e quatro anos se passaram. Mas a curiosidade foi maior e  ele puxou aquela folha única.

 A tinta era escura, um azul-petróleo, e as letras pareciam ter sido feitas com uma caneta-tinteiro que ora soltava mais tinta, ora menos — como o fôlego de alguém que corre e para, corre e para.

O leitor sentou-se no banco de madeira do sebo e começou a ler.

Nice, 28 de setembro de 1972

Cara Senhora Isabel,

Há três semanas tenho sonhado com a senhora. Não sei quem é, nunca a vi, nunca ouvi seu nome antes. Mas nos meus sonhos a senhora está sentada numa sala de paredes altas, cheia de livros, com uma janela que dá para um jardim — e lá fora uma jaqueira imensa. A senhora veste um vestido escuro e lê em voz alta, mas não consigo ouvir o que diz.

No sonho, sempre olho para suas mãos. A senhora segura um objeto pequeno e prateado — um prendedor de cabelos, talvez, ou um broche. E há algo errado com a luz. A luz da sala vai ficando alaranjada, depois vermelha, e o ar fica pesado. A senhora não percebe, mas eu percebo. E grito, mas a senhora não me ouve.

Acordo com o coração disparado e a sensação de que preciso impedir algo que já está em movimento.

Ontem à noite, o sonho mudou. Vi números — 29, 30, 1. Vi um jornal, a data de outubro. E vi a senhora caída, a cabeça tocando o assoalho, a mão ainda segurando o broche. Havia fumaça.

Não sei se sou louco. Não sei se isso que escrevo é loucura. Mas passei a manhã na prefeitura de Nice, conferindo listas de passageiros, endereços, consulados. Descobri que a senhora existe — uma professora de literatura brasileira, que esteve em Aix-en-Provence em julho passado, num congresso. Deram-me seu endereço em Natal.

Pensei em não escrever. Pensei em rasgar esta carta. Mas a imagem da senhora caída naquela sala não me sai da cabeça.

Não sei o que vai acontecer. Só sei que acontece em outubro. Nos primeiros dias. E tem a ver com fogo. A senhora tem uma jaqueira no quintal?

Com todo o respeito e toda a estranheza que esta carta lhe causa,

Jean-Luc Moreau

O leitor levantou os olhos do papel. àquela hora da tarde, com a luz dourada entrando pela porta de vidro fosco. Respirou fundo.

Guardou a carta dentro do livro. Nos dias seguintes, a carta não lhe saía do pensamento. Quem era Isabel de Holanda Cavalcanti? O que teria acontecido naqueles primeiros dias de outubro de 1972? E, acima de tudo — ela teria recebido a carta a tempo?

Começou a pesquisa por onde qualquer um começaria: a internet. Isabel de Holanda Cavalcanti, professora universitária, Natal. Não foi difícil. Encontrou um verbete no site da Academia Norte-Riograndense de Letras: Isabel de Holanda Cavalcanti (1921-1972). A data de falecimento o fez parar. 3 de outubro de 1972. Três dias depois do carimbo no envelope.

O coração do leitor bateu mais forte. Leu o resto do verbete com os olhos queimando: Faleceu em decorrência de um incêndio em sua residência, na Rua General Câmara, 67. Professora de Literatura de Língua Portuguesa da UFRN, deixou vasta obra crítica...

Incêndio.

 A palavra ficou pulsando na tela. O leitor fechou o navegador, abriu a gaveta onde guardara o envelope azul. Tirou a carta com cuidado. Leu-a de novo, devagar. A luz da sala — alaranjada, depois vermelha. A fumaça. A jaqueira no quintal — será que existia?

 A carta saíra de Nice no dia  30. Voara da Riviera Francesa até o Rio Grande do Norte. Se tivesse chegado no dia 2 ou 3 de outubro, teria sido tarde demais? Ou teria chegado antes, e Isabel a lera — e não dera importância?

O leitor passou o polegar sobre a assinatura de Jean-Luc. Um homem jovem, francês, que tivera visões. Que tentara avisar uma mulher que não conhecia. Que escrevera uma carta do outro lado do Atlântico para impedir uma tragédia.

 E que, muito provavelmente, nunca soube se ela chegou a ler.

 

Francisco Martins
13 de maio de 2026

Ilustrações criadas por IA.

 



terça-feira, 12 de maio de 2026

VOCÊ SABE A RESPOSTA?


 Responda se souber: Quem foi  a primeira mulher, personagem de ficção literária potiguar, vítima de assassinato? Diga o nome, o autor e a obra. Você concorre a um kit de livros. Comente aqui. O prazo é até o dia 30 de junho de 2026

quinta-feira, 7 de maio de 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS : "PERTO DA MEIA-NOITE"

 

"Perto da Meia-Noite" é um daqueles livros que o leitor tem a sensação de que está lado a lado com o narrador, dentro das próprias páginas. E, quando o autor é Josué Montello, melhor ainda, pois seu estilo é cativante. Comecei a ler o romance na última semana de abril e terminei ontem, 6 de maio.  
Tem menos de 300 páginas, poderia ter lido em dois dias no máximo, mas optei por uma leitura vagarosa, grande parte dela, deitado numa rede, hora ouvindo o barulho do mar de Maracajaú, ou então, no alpendre da minha casa, em Parnamirim, à noite, em outra rede, dividindo a leitura com a chuva e os  patos.
Daniel, Glorinha, Dr. Teixeira formam o tripé dessa história, mesclada com parte fictícia e outras reais. Um drama, onde o conflito central é bem construído. A prosa de Josué Montello, nesse livro, traz também características biográficas do autor, ele, sendo narrador, aluno de Daniel e colega de Glorinha, abre-se para o leitor,  falando da sua puberdade e o início da vida literária.
Recomendo a leitura, foram 19 anos de maturação até o livro ser concluído.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

DIMENSÕES DA CONDIÇÃO FEMININA NA POESIA DE MYRIAM COELI

 



                                                               
 Paulo de Tarso Correia de Melo


A literatura escrita por mulheres tem tradição no Rio Grande do Norte. Na “História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins, Nísia Floresta é localizada como a primeira romancista nacional. Segue-se a ela, no início deste século, Auta de Souza, também editada em Paris, prefaciada por Olavo Bilac e Alceu Amoroso Lima. Apontada por Jackson de Figueiredo como “a maior poeta mística do país”, conta, ainda em nossos dias, com uma invejável forma de consagração popular, quando aparece pretensamente psicografada pelo Brasil afora, em recantos distantes do seu Rio Grande do Norte.

Pelos meados deste século, a tradição continua, e começo eu a ser testemunha ocular desta história. Tive a adolescência iluminada pelo incomparável azul dos olhos de Madalena Pereira. Nos limites dos bairros de Petrópolis e Tirol, morava Palmyra Wanderley, premiada pela Academia Brasileira de Letras. Nas proximidades, também morava eu e a encontrava em seus passeios matinais, quando as acácias floriam. Antes disso, Zila Mamede, amiga de minha mãe e, consequentemente, minha amiga pelo resto de sua vida, ajudara a bordar minhas roupas de recém-nascido. Paguei-lhe trinta anos depois, escrevendo a introdução às suas obras completas. Na juventude, Myriam Coeli e Celso Silveira, foram alguns dos irmãos mais velhos que não tive. Diva Cunha, colega de faculdade, casou com meu amigo mais fraterno. Hoje, ao lado de Nivaldete Xavier, Marise Castro e Iracema Macedo, conta-se entre amigas e companheiras de ofício. Conheço, portanto, bem de perto, uma boa parte da melhor literatura escrita por mulheres no Estado e hoje é de Myriam Coeli, tão oportuna e merecidamente homenageada pela AJEB, que devo e quero falar.

Myriam Coeli de Araújo Dantas da Silveira nasceu, por acaso, em Manaus, Amazonas. Aos dois meses de idade, por morte de seu pai, José Silvino de Araújo, a família retorna a São José de Mipibu, na região do agreste norte rio-grandense. Apesar disso, sempre que leio as suas odes, pergunto-me se a amplidão do pensamento poético e a largueza do verso não têm algo a ver com a impressão de ter nascido rodeada pela floresta amazônica.

No Grupo Escolar Barão do Mipibu, Myriam faz o curso primário. Em seguida, vem para Natal, para o colégio de belo nome, o Atheneu, primeiro ginásio do Brasil, fundado em 1825, onde faz ginasial e clássico. Ao terminá-los, Natal ainda não contava com universidade. Transfere-se para Recife, onde, na Faculdade de Filosofia São José, das Dorotéias, gradua-se em Letras Neo-Latinas. Em 1954, bolsista do Instituto de Cultura Hispânica, diploma-se pela Escola Oficial de Jornalismo de Madrid, tornando-se a primeira mulher no Estado a ter curso de Jornalismo, o que faz indispensável a homenagem que lhe presta, nesta semana, a Associação das Escritoras e Jornalistas do Brasil.

De volta ao Estado, casa-se com Celso Dantas da Silveira, com quem tem dois filhos: Christiana Coeli e Eli Celso. Além da poesia, dedicou sua vida às duas atividades para as quais havia se preparado, o magistério e o jornalismo. Volta ao Atheneu para ensinar Língua Latina e Literatura Portuguesa; Língua Francesa no Colégio Municipal João XXIII, Língua e Literatura Portuguesa na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, História da Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia e História da Imprensa na Faculdade de Jornalismo. Invejo todos e cada um dos alunos que se encontram com a sua sabedoria mansa, com a sua paciente ternura.

  Myriam Coeli trabalhou em todos os jornais da época - Tribuna do Norte, Diário de Natal e A República - e foi a primeira jornalista profissional do Estado a dar plantão em jornal. Conheci-a com pouco tempo de casada. Não morava ainda na casa bonita da Alexandrino, mas na Rua São Tomé, exatamente por trás do jornal A República. Fantasio o retorno do plantão. Myriam saindo do prédio d’A República, subindo um quarteirão, sem mudar de calçada, pela Juvino Barreto, na calma noite da Ribeira da época, dobrando a esquina da São Tomé e avistando Celso esperando na frente de casa, Christiana e Eli já adormecidos. Eu sempre tive a impressão que, como Swedenborg, vez por outra ela se atrasava, conversando com os anjos entre as duas esquinas do pequeno percurso enluarado.

Para falar da poesia de Myriam Coeli, em uma conversa de poucos minutos, começo dizendo que foi e continua sendo a mais universal das nossas poetas. Já se registra em  Imagem Virtual, seu primeiro livro, lançado em parceria com Celso, em 1961: “A Europa empresta ao seu trabalho poético uma forma e sentido mais amplos.” Exemplo disso é o último poema do livro, Carta a Gagarin, onde Myriam mistura magistralmente a “frágeis esperanças do cotidiano”, o fato universal.

   Camarada,

   a emocionada mão que te saúda

   deste pedaço da América

é pura e suave;

as palavras que escrevo

para exaltar a tua aventura pelo espaço

quero-as simples e antigas

como as canções com que adormeço minhas crianças;

e dizer com elas - as palavras purificadas -

que trouxeste profunda alegria

por sabermos - poetas que somos - transitórios em terra azul e imatura:

por sabermos - artesãos que somos - do futuro de nossos filhos

nesta contrastante terra azul que teus humanos olhos viram.

Nós, teus irmãos de origem, te agradecemos

o que nos revelaste: do céu escuro, do sol brilhante e estrelas

e agradecemos as paisagens que viste e a mensagem azul que delas irradiaste

para as nossas frágeis esperanças do cotidiano

e nos orgulhamos de ti, profundamente;

-todos de nossa casa, de nossa cidade, dos quatro cantos do mundo,

todos que lutamos, que sofremos, que temos parcas alegrias e carregamos     esperanças

todos nós que temos no peito canções e braços de berço

e nos alimentamos de azul;

todos em qualquer situação ou latitude,

nos apontamos a mão e te brindamos o nosso abraço, um largo e caloroso abraço.

E mais te oferto: a úmida ternura

que pressinto brilhar nos olhos de meus filhos Christiana Coeli e Eli Celso

quando eu canto para adormecê-los.


O trabalho poético extremamente cuidadoso de Myriam, faz com que, embora publicando constantemente em jornais e revistas literárias, antes da publicação do primeiro livro e entre o primeiro e segundo, se estabeleça um intervalo de vinte anos entre Imagem Virtual e Vivência sobre Vivência. Neste segundo livro, dividido em Livro de Odes e Cantos de Oferta e Servidão, a poesia de Myriam se agiganta, “ganha aquela altura da poesia em que nada existe a acrescentar”, como disse no prefácio Luís Carlos Guimarães. Exemplo disso é o poema Arquitetura.


No seu covil

de barro e vidro

com artefatos

mecanizados,

se agita o homem

o branco enigma

de deus amalgama.

E tem a vida 

árvore amarga

frutificada

no corpo e fala.

Se chama acende

de espera e sonho

há insone grito

em suas cavas.

A vida o prende

em suas malhas

de frágeis lãs

-obreira sábia

que a teia tece

com murchas mãos

tácito enleio

de céu no lodo

no instante breve

dentro do nada.


Lembro uma reunião em casa de Diógenes da Cunha Lima, imediatamente após o lançamento de Vivência sobre Vivência, engenhoso desde o título. Sentei-me ao lado de Myriam e falei com entusiasmo da depuração de sua poesia, parecendo que o sofrimento físico a fazia melhor, desde que já a consumia nesta época o câncer que a levou e que ela enfrentava corajosamente. No meio da conversa, com a modéstia que sempre lhe marcou, Myriam escapou aos elogios com uma nota bem-humorada:

-Pare, Paulinho, ou daqui a pouco você vai me desejar que piore de saúde para escrever mais bonito.

Eu não desejei, não poderia nunca, mas aconteceu.

Cantigas de Amigo, o terceiro livro de Myriam, mereceu o Prêmio Municipal de Poesia Otoniel Menezes e tem como prefácio dois belíssimos poemas-autógafos de Stella Leonardos. Neste livro, Myriam demonstra todo seu conhecimento das raízes da poesia de língua portuguesa, numa reconstrução da tradição somente comparável às alturas de Cecília Meireles e da própria Stella.


Neste engano que é o tempo

Eu caminho. Eu me colho.

Meu trovar, travo, recolho.

Ferida viva eu me aguento.


Neste desdouro eu me encontro

E teço minha parábola

Em tear de silêncio e sôbola

Que, tecendo em nu, confronto


Com que sem ser, poderia.

Assim caminho, assim canto.

Amor, pena que descanto

Que amante só ousaria.


Agradeço a oportunidade que a AJEB me oferece, motivando-me a escrever um pouco sobre Myriam Coeli, coisa que ainda lhe devo, um estudo aprofundado de toda obra, à semelhança dos que fiz para Zila Mamede, Sanderson Negreiros, Luís Carlos Guimarães e Deífilo Gurgel. Em relação à poeta, não me satisfazem a introdução que fiz para sua póstuma fortuna crítica Ave Myriam e umas quadras tortas que escrevi para uma coletânea lançada na ocasião em que completaria 70 anos. Ainda não é desta vez que faço o estudo pretendido, mas quis aproveitar o momento para dar uma amostragem dirigida da poesia de Myriam. O Carta a Gagarin é poema de poeta mãe cidadã do mundo. Arquitetura é poema de mulher poeta metafísica do mais alto nível. O poema XXIII de Cantigas de Amigo é de mulher poeta amante, como o é o livro em sua totalidade. Quero encerrar com Variações para Rondó, dedicado a sua avó Maria Carolina, peça de seu precioso Inventário, Prêmio Estadual de Poesia - 1981 - da Fundação José Augusto, publicado postumamente. O poema é uma arqueologia da condição tradicional da mulher na sociedade brasileira. Terno, doce e bem-humorado, como era Myriam.


De compostura conventual,

a avó que foi sinhá

e as avós da avó

sentam-se em longas mesas

cobertas de linho branco de delicados bordados.


Tão meninas e tão barrocas,

metidas em tantas roupas

sobrando nos sofás.


De velhas estórias que se guardam, ficaram as avós

como a lenda na lembrança,

deixando-se servir por negras de África,

em porcelanas de Inglaterra e França.

Porque de sins serviam a seus senhores.


Tão meninas e tão barrocas

metidas em tantas roupas

viviam essas sinhás.

Para os folguedos não esquecidos

da quadra infantil,

nas grandes salas, valsas de piano ressoavam,

o riso, o choro de crianças

e os embalos das mucamas.


Essas meninas barrocas

lembraram suas bonecas

esquecidas nos sofás.


Tinham os gestos breves das polcas e minuetos

deslizantes em salões de pinho de Riga - pés gracis;

e os falares intrigantes, embora de amor constante.

Nas cabeças inquietas, sonho que desatina.

O sorriso se escondia por trás de leques da China.


Tão meninas e tão barrocas,

de graça muita, alegria pouca,

suspiravam essas sinhás.


Tão românticas passaram em varandas patriarcais

de apuradas formas de ânforas, rosetas e flor-de-lis

e em lembranças se arrumaram

assim em retratos, de golas altas e cabelos em bandós,

ornatos de colares de ouro, e pedrarias;

tão infantas, Deus meu, mas tão matriarcais,

tão sós e tão serenas em suas entampas retocadas,


tão meninas e tão barrocas,

enfatuadas com tantas roupas,

rendado nos sofás,


que hoje para esta avó de avoengas sinhás

o meu beijo dirijo, assaz respeitoso,

neste século XX desgracioso,

sem dengues, sem leques,

sem doçuras de sinhás.


Ah! quem nos dera assim meninas tão barrocas,

vestidas naquelas mesmas roupas

arrumadas nos sofás!



                                                                                    Natal, 19/11/97.