Quem nasce nessas bandas cresce ouvindo a mesma advertência, dita baixinho, quase um rezo: não atravesse a estrada de Zumbi em noite de lua cheia. A estrada carroçável corta a mata como um risco de faca — estreita, cheia de buracos de boi, ladeada de Pau Brasil, Aroeira e Ipê que se fecham por cima da cabeça da gente até esconder o céu. De dia ainda é um lugar bonito, o sol varando as copas e pintando o chão de claridade. Mas de noite a mata muda de alma. O ar fica grosso, os troncos viram vultos, e o vento, quando passa pela folhagem, não parece vento: parece uma respiração que caminha junto com você.
Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro a
ver o buraco. Uns dizem que é uma cacimba antiga, cavada por escravos fugidos;
outros, que a terra abriu sozinha no dia em que um padre amaldiçoou a região.
Só sei que ele existe, escondido no coração da mata, e que em noite de lua
cheia a escuridão dele escurece ainda mais, como se engolisse a claridade que
vem do céu. Dizem que é de lá que ele sai.
Eu, Seu Zé Ariacó, pescador de jangada há
quarenta anos, nunca precisei ver para acreditar. Minha vez de chegar perto
veio numa sexta-feira de março, quando o mar estava melhor que nos últimos seis
meses. A pescaria tinha sido farta — saí de Maracajaú com a jangada cheia, o
sol já se pondo por trás dos coqueiros. Os rapazes me chamaram para esperar a
lua subir e voltar juntos, em grupo, como sempre se fez. Mas eu tinha pressa:
minha mulher estava adoentada em casa, em Zumbi, e eu queria lhe levar o peixe
fresco e um pouco de dinheiro para a farmácia.
— Pelo amor de Deus, Ariacó — disse o mais
velho, segurando meu braço. — Olha que céu. Olha que lua. O lobisomem está
esperando por você.
Eu ri. Ri da cara deles, ri da lenda, ri de
mim mesmo, que era homem de mar e não tinha medo de mata. Joguei o saco de
peixes nas costas e pus o pé na estrada carroçável.
A noite caiu como quem fecha uma porta. A
lua cheia subiu enorme, branca e iluminava as copas dos Ipês. Eu caminhava no
meio da estrada, sob as árvores, e cada passo meu levantava poeira que brilhava
feito cinza. Foi quando comecei a escutar.
Um uivo. Longe, mas atravessando a mata
inteira, como se a voz viesse de dentro da terra. Parei. Segurei o saco de
peixes contra o peito. O uivo veio de novo, mais perto, e nesse instante as
cigarras se calaram. Os grilos se calaram. Até o vento parou, e a mata inteira
ficou muda, esperando.
Então a terra tremeu.
Não foi terremoto — foi como se a estrada
respirasse fundo, um arrepio correndo do buraco até as minhas botas. Eu sabia o
que ia acontecer antes de ver. O cheiro chegou primeiro: um fedor de mato
podre, pelo queimado, sangue velho. E aí ele saiu do buraco, desfazendo a terra
com as quatro patas, e a lua acendeu o pelo dele como se fosse prata escura.
Eu corri. Corri como nunca corri na minha
vida, os peixes espalhados pelo chão, o coração batendo na garganta. A mata
fechada não me ajudava — cada tronco de Pau Brasil era uma parede, cada Aroeira
uma prisão, e a estrada ia me levando para a praia, porque o caminho de casa
passava por lá. E foi isso que ele quis. Ele sabia disso.
Pisquei os olhos e a areia estava sob meus
pés. A praia de Pititinga se abria, imensa e prateada, com as jangadas
descansando na areia como bichos dormindo. Lá estavam os rapazes, os mesmos que
me advertiram, amarrando suas redes, rindo à toa da minha coragem. Atrás de
mim, o uivo veio de novo — e desta vez ele não estava mais na mata. Estava na
areia.
A cena que se seguiu ficou gravada em mim
para sempre. O lobisomem correu para eles como um raio, e eu vi a mão dele se
fechar em garras, agudas como anzóis, abrindo o peito do primeiro pescador
antes que ele tivesse tempo de soltar o pito. A pele do bicho é grossa, feita
de couro e cicatriz, e o corpo todo é cabeludo, tão cabeludo que a lua brilhava
em cada fio. Quando ataca, não há escapatória: ele derruba, ele morde, ele
rasga, e o mar só ouve o som do que acontece na areia.
Tirei a faca da bainha. O bicho parou. E neste — o único gesto que a lenda nunca explica — ele deu um passo para trás. Baixou o focinho. E virou-se, e correu de volta à mata, desaparecendo no buraco.
Faz vinte anos. Os pescadores de Pititinga,
Zumbi e Maracajaú ainda não saem do mar quando o céu está redondo. Dizem que
ele continua lá, dormindo no buraco da mata, comendo terra e raiz, esperando. E
eu ainda caminho a estrada carroçável toda semana. Mas vocês vão me perdoar — o
saco de peixes agora eu carrego numa mão, e na outra, embainhada e pronta, a
faca de prata do meu pai.
Francisco Martins












