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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O LOBISOMEM DA PRAIA - UM CAUSO DO LITORAL DE PITITINGA, ZUMBI E MARACAJAÚ

 


Quem nasce nessas bandas cresce ouvindo a mesma advertência, dita baixinho, quase um rezo: não atravesse a estrada de Zumbi em noite de lua cheia. A estrada carroçável corta a mata como um risco de faca — estreita, cheia de buracos de boi, ladeada de Pau Brasil, Aroeira e Ipê que se fecham por cima da cabeça da gente até esconder o céu. De dia ainda é um lugar bonito, o sol varando as copas e pintando o chão de claridade. Mas de noite a mata muda de alma. O ar fica grosso, os troncos viram vultos, e o vento, quando passa pela folhagem, não parece vento: parece uma respiração que caminha junto com você.

Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro a ver o buraco. Uns dizem que é uma cacimba antiga, cavada por escravos fugidos; outros, que a terra abriu sozinha no dia em que um padre amaldiçoou a região. Só sei que ele existe, escondido no coração da mata, e que em noite de lua cheia a escuridão dele escurece ainda mais, como se engolisse a claridade que vem do céu. Dizem que é de lá que ele sai.

Eu, Seu Zé Ariacó, pescador de jangada há quarenta anos, nunca precisei ver para acreditar. Minha vez de chegar perto veio numa sexta-feira de março, quando o mar estava melhor que nos últimos seis meses. A pescaria tinha sido farta — saí de Maracajaú com a jangada cheia, o sol já se pondo por trás dos coqueiros. Os rapazes me chamaram para esperar a lua subir e voltar juntos, em grupo, como sempre se fez. Mas eu tinha pressa: minha mulher estava adoentada em casa, em Zumbi, e eu queria lhe levar o peixe fresco e um pouco de dinheiro para a farmácia.

— Pelo amor de Deus, Ariacó — disse o mais velho, segurando meu braço. — Olha que céu. Olha que lua. O lobisomem está esperando por você.

Eu ri. Ri da cara deles, ri da lenda, ri de mim mesmo, que era homem de mar e não tinha medo de mata. Joguei o saco de peixes nas costas e pus o pé na estrada carroçável.

A noite caiu como quem fecha uma porta. A lua cheia subiu enorme, branca e iluminava as copas dos Ipês. Eu caminhava no meio da estrada, sob as árvores, e cada passo meu levantava poeira que brilhava feito cinza. Foi quando comecei a escutar.

Um uivo. Longe, mas atravessando a mata inteira, como se a voz viesse de dentro da terra. Parei. Segurei o saco de peixes contra o peito. O uivo veio de novo, mais perto, e nesse instante as cigarras se calaram. Os grilos se calaram. Até o vento parou, e a mata inteira ficou muda, esperando.

Então a terra tremeu.

Não foi terremoto — foi como se a estrada respirasse fundo, um arrepio correndo do buraco até as minhas botas. Eu sabia o que ia acontecer antes de ver. O cheiro chegou primeiro: um fedor de mato podre, pelo queimado, sangue velho. E aí ele saiu do buraco, desfazendo a terra com as quatro patas, e a lua acendeu o pelo dele como se fosse prata escura.

Eu corri. Corri como nunca corri na minha vida, os peixes espalhados pelo chão, o coração batendo na garganta. A mata fechada não me ajudava — cada tronco de Pau Brasil era uma parede, cada Aroeira uma prisão, e a estrada ia me levando para a praia, porque o caminho de casa passava por lá. E foi isso que ele quis. Ele sabia disso.

Pisquei os olhos e a areia estava sob meus pés. A praia de Pititinga se abria, imensa e prateada, com as jangadas descansando na areia como bichos dormindo. Lá estavam os rapazes, os mesmos que me advertiram, amarrando suas redes, rindo à toa da minha coragem. Atrás de mim, o uivo veio de novo — e desta vez ele não estava mais na mata. Estava na areia.

A cena que se seguiu ficou gravada em mim para sempre. O lobisomem correu para eles como um raio, e eu vi a mão dele se fechar em garras, agudas como anzóis, abrindo o peito do primeiro pescador antes que ele tivesse tempo de soltar o pito. A pele do bicho é grossa, feita de couro e cicatriz, e o corpo todo é cabeludo, tão cabeludo que a lua brilhava em cada fio. Quando ataca, não há escapatória: ele derruba, ele morde, ele rasga, e o mar só ouve o som do que acontece na areia.

Eu não sei explicar por que sobrevivi. Só sei que, no momento em que ele ergueu a cabeça ensanguentada e me mirou, minha mão tocou naquilo que os velhos chamam de herança de pescador: a faca que guardo na cintura desde os doze anos, dada por meu pai, passada de avô para neto. Faca de prata, diziam. A gente só desconfia, mas eles sabiam.

Tirei a faca da bainha. O bicho parou. E neste — o único gesto que a lenda nunca explica — ele deu um passo para trás. Baixou o focinho. E virou-se, e correu de volta à mata,  desaparecendo no buraco. 

Faz vinte anos. Os pescadores de Pititinga, Zumbi e Maracajaú ainda não saem do mar quando o céu está redondo. Dizem que ele continua lá, dormindo no buraco da mata, comendo terra e raiz, esperando. E eu ainda caminho a estrada carroçável toda semana. Mas vocês vão me perdoar — o saco de peixes agora eu carrego numa mão, e na outra, embainhada e pronta, a faca de prata do meu pai.


Francisco Martins

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A PRAGA DA TUNÍSIA


Daniel trabalhava numa central de atendimento em Natal, num daqueles galpões onde o teto é baixo e as metas são altas. De fone de ouvido e roteiro na tela, falava com clientes de meio mundo: Portugal, Estados Unidos, Angola, Emirados. O serviço girava o planeta inteiro enquanto ele girava na mesma cadeira, em escalas de doze horas, com quinze minutos de almoço.

Era um serviço que desgasta a alma devagar. Os clientes nem sempre compreendiam — e nunca aceitavam o "não" como resposta definitiva. Queriam desconto que ele não podia dar, estorno que o sistema não liberava, milagre que não constava no roteiro. E quando a resposta era não, vinham os palavrões. Xingamento em inglês, praga em árabe, ofensa em crioulo. Daniel aprendeu a engolir sapo em três idiomas. À noite, não dormia. De dia, atendia com o coração na garganta. O coordenador, um homem que media a vida em segundos de ligação, só repetia: "Produtividade, menino. Sentimento é problema seu, resolve depois do expediente."

Foi numa dessas noites de turno invertido que a ligação veio do outro lado do mundo.

— Meu nome é Daniel, em que posso ajudá-lo? — disse ele, no inglês decorado de tanto repetir.

Do outro lado, um homem da Tunísia. Já era a sétima ligação dele — a cobrança indevida continuava no cartão, e o sistema, fiel ao sistema, continuava negando o estorno. O tunisiano falava rápido, nervoso, e Daniel repetia as frases de empatia que a empresa mandava repetir: "Eu entendo perfeitamente sua frustração, senhor." Só que ele não entendia. Não dá para entender quarenta minutos de raiva de dentro de um roteiro.

Quando o tunisiano percebeu que seu problema não teria solução — nem naquela noite, nem em nenhuma outra —, a voz dele mudou. Ficou baixa, pausada, de quem não está mais brigando: está sentenciando. E proferiu as palavras, devagar, sílaba por sílaba, como quem crava uma faca:

— Bi-soltán el-Djinn u bicôu-uét-hom, mas-rék bēsh iár-dja uách.

E desligou.

Daniel não conhecia o dialeto Derja. Até ali, a conversa tinha sido em inglês. Mas aquela pronúncia, vinda da África, atravessando o Mediterrâneo e o Atlântico para chegar ao fone de ouvido de um rapaz do Nordeste do Brasil, balançou as estruturas espirituais daquele jovem — se é que ele tinha alguma. Somente depois, Daniel viria a saber o que aquelas palavras determinavam: que um ser espiritual, um djinn, tinha ordem de caçá-lo e transformá-lo em fera. Mas naquela noite ele só sentiu o frio, e o fone queimando de um calor que não era de eletricidade.

Nos dias seguintes, o corpo começou a mudar.

Os pelos foram os primeiros: nasceram descontrolados, nas costas, no peito, nos braços. Daniel raspava de manhã e à tarde já estava coberto de novo. As unhas passaram a crescer num ritmo que não era de gente — precisava cortar todo santo dia, e mesmo assim rangiam no teclado. E o gosto pela comida mudou: o pão com ovo enjoou, o feijão virou pedra na garganta. O que o estômago pedia era carne crua. Vermelha, sangrenta, pulsando.

No espelho do banheiro da empresa, entre uma ligação e outra, ele jurou ver os caninos mais compridos. E nos corredores, começou a ouvir o latido dos cachorros da rua como se latissem dentro da sua cabeça.

O coordenador, claro, só viu o que interessava:

— Daniel, essa aparência não pode. Cliente não confia em gente desalinhada.

A empresa que o tratava como bicho estava reclamando do pelo.

Foi aí que Daniel lembrou da avó, lá do interior. Dona Zulmira, rezadeira, que benzia quebranto com café coado e fé de sessenta anos. Ele pegou o primeiro ônibus e foi.

A velha olhou para o neto, passou a mão no braço dele — no pelo que nascia — e não se assustou. Já tinha visto coisa feia na vida, mas nunca coisa tão triste.

— Isso aqui não é doença de corpo, meu filho. Isso é palavra com dente. Alguém te mordeu com a boca fechada.

Rezou. Benzeu com terço e com sal. Mas no meio da reza parou, olhou nos olhos do neto e disse a verdade que nenhuma reza diz em voz alta:

— Mas eu vou te falar uma coisa, Daniel. Essa praga só pegou porque você já estava sendo mordido todo dia. Fera não se faz com palavra de árabe não. Fera se faz com fome, com cansaço, com gente tratando gente como bicho e chamando isso de produção. Aquele homem só apontou o que já estava dentro de você, criando raiva no escuro.

Daniel pediu demissão na segunda-feira. O coordenador nem perguntou o porquê — só ficou contente de não pagar os dias que faltavam.

A cura veio devagar, como vem a doença. De volta à terra, dormindo noite inteira pela primeira vez em anos, comendo o bode guisado da avó — bem passado, com molho —, os pelos foram caindo, as unhas voltaram ao tamanho de mão de gente, e a carne crua deu lugar de novo ao café com açúcar da manhã. Em seis meses, o espelho mostrou de novo um homem. Um homem que acordava sem alarme e vivia sem fone de ouvido.

Dizem que em noites de lua cheia ainda se ouve um uivo na zona Norte de Natal. Mas quem conhece Daniel sabe que é lenda. Ele vive tranquilo, vendendo na feira, e só guardou um hábito estranho: nunca mais atende número desconhecido.

Porque fera, ele aprendeu, não é quem amanhece com pelo nas costas. Fera é quem faz do outro um bicho — e ainda cobra produtividade.

Francisco Martins

Imagem criada por IA.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

NÃO DEIXE DE LER ESTE CONTO DE TERROR: O LOBISOMEM DA PRAIA


 O escritor Francisco Martins vai publicar, nesse blog, o conto " O Lobisomem da Praia", no dia 23 de outubro. 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

O CHAPÉU DE BENVINDA


Em Riacho dos Ventos — cidade do sertão onde o sol chega antes das pessoas e vai embora depois delas —, todo mundo sabia quem era Dona Benvinda. Não pelo sobrenome, Alves da Rocha, que nem ela lembrava de onde tinha vindo. Sabiam pelo chapéu de palha, herdado da mãe, e pelo que ela fazia debaixo dele.

Foi Benvinda que ergueu a Panela Cheia, a cozinha comunitária que alimentava oitenta crianças e uma trintena de velhos todos os dias, com o que doava quem pudesse e o que plantava quem tinha um palmo de terra. Foi ela que, no ano da seca grande, armou a cadeira na frente da prefeitura e não saiu de lá enquanto não destravaram a água dos carros-pipa. Foi ela que ensinou gente de sessenta anos a assinar o próprio nome, à noite, na sala emprestada da igreja. Foi ela que segurou na mão de dona Cotinha na porta do INSS, do seu Raimundo na farmácia, da menina Ilza no hospital. Em Riacho dos Ventos, quase todo mundo já tinha sido "segurado na mão" por Benvinda um dia.

— Você devia estar lá dentro — o povo dizia. — Lá dentro, onde se decide.

Ela ria e puxava o chapéu sobre os olhos.

— Lá dentro a gente apodrece mais depressa, meu filho. Aqui fora é que a gente rega.

Mas a cidade é que apodrecia, e disso ninguém ria. Trinta anos era o reinado do coronel Homero Bezerra, dono de terras, de caminhões e de silêncios. O prefeito era seu afilhado, os vereadores, seus empregados com salário de câmara e obediência de peão. Em Riacho dos Ventos, obra boa era a que tinha a letra H do Homero estampada na placa, e saúde pública era a ambulância que levava gente pro hospital particular dele, com nota fiscal.

Quando a eleição chegou, foi o povo que foi atrás de Benvinda, e não o contrário. As mulheres da Panela Cheia primeiro. Depois os professores da escola que dava aula sem giz. Depois um bando de gente sem partido nenhum, que só tinha raiva e esperança na mesma medida.

O partido que ela escolheu era pequeno e de esquerda — em Riacho dos Ventos, palavra dessas soava a língua estrangeira. Não importava. Benvinda aceitou com uma condição, dita na porta da cozinha, pro bando inteiro:

— Eu não vou pra dentro pra me servir. Vou pra servir. Se um dia eu esquecer, o senhor me puxa da orelha e me lembra.

O slogan saiu sozinho, de tanto que era verdade: Benvinda vereadora — a mão que já segurou a sua.

O recado chegou cedo, como chega sempre: primeiro por um intermediário sorridente, depois por um papel dobrado, depois por um convite para um café na fazenda.

O escritório do coronel tinha ar-condicionado, couro de boi na parede e um Cristo de olhos baixos pregado atrás da mesa. Homero Bezerra não ofereceu café. Ofereceu duzentos mil.

— Desiste, Benvinda. Ou entra na minha chapa e vota comigo. Duzentos mil agora, a Panela Cheia bancada por mim pro resto da sua vida, emprego pro seu menino na obra da prefeitura. Você continua cuidando da sua gente, todo mundo sai ganhando. Aqui, minha filha, a gente não elege gente. A gente adquire gente.

Benvinda olhou pro Cristo de olhos baixos, que pareceu desculpar-se também. Olhou pro coronel. Ajustou o chapéu no colo.

— O senhor me desculpe, coronel, mas o senhor tá oferecendo dinheiro pra mercadoria errada. O senhor compra boi, compra voto, compra silêncio de vereador. Dignidade o senhor não tem dinheiro pra pagar — e eu não tenho ela pra vender. Ela não é minha. É do povo que eu seguro na mão.

Levantou-se, calçada de chinelo, mais alta do que qualquer fazenda dele.

— E o senhor podia experimentar cuidar de gente, um dia. Faz bem pro coração.

Homero sorriu devagar, com paciência de quem já enterrou adversários melhores.

— A gente vai ver, então, quanto tempo dura uma mulher teimosa sem gás e sem farinha.

O gás acabou primeiro. Depois as doações da prefeitura, que "o orçamento não permitia mais". Depois veio a vistoria da vigilância, que fechou a Panela Cheia por falta de um alvará que ela nunca precisara em quinze anos. O carro-pipa parou de passar na rua dela — "roteiro novo da secretaria". Seu Antônio, o filho pedreiro, foi dispensado da obra "por ordem de cima", sem carteira assinada nem explicação.

O rádio da cidade, que era do sobrinho do coronel, descobriu uma Benvinda que ninguém conhecia: a mulher que "queria negociar caro e não conseguiu o preço", que "guardava as doações pra vender", que era "comunista de feira, querendo tomar a terra dos pequenos pra dar pros de fora". Panfleto anônimo trazia a foto dela recortada, com os olhos escurecidos a caneta. Numa terça-feira de mercado, um recado apareceu pregado na porta da cozinha: cuidado com o que a senhora quer pra sua família.

Foi aí que Benvinda fez a coisa mais perigosa que uma mulher pode fazer na cidade de um coronel: continuou.

A Panela Cheia reabriu no quintal dela, no fogão de lenha que o marido falecido tinha feito de um tambor. As mulheres voltaram, cada uma com o que tinha: um quilo de feijão, uma abóbora, um punhado de sal. O almoço ficou pronto mais tarde e servido mais cedo, e nunca, em quinze anos, tinha estado tão cheio.

A campanha dela não tinha dinheiro pra carro de som, e foi isso que a salvou. Entrou nos quintais, nas varandas, nas filas do posto. O neto da dona Cotinha criou um grupo no telefone que se espalhou como fumaça. E um sábado, na caminhada, aconteceu o milagre sem nome: quarenta pessoas saíram da praça com chapéu de palha na cabeça, imitando ela. Na semana seguinte, eram duzentos. O chapéu, que o coronel chamava de "palhaçada de coitada", virou bandeira — e bandeira nenhuma campanha compra, porque bandeira a gente só ganha servindo.

As mentiras do rádio batiam na cidade e escorriam, sem colar. Como ia a mulher que ensinou metade do comércio a assinar nota fiscal roubar doação? Como ia quem segurou a mão de todo mundo na porta do hospital vender remédio? O povo de Riacho dos Ventos não sabia ler bem os panfletos, mas sabia ler Benvinda de trinta anos de vista.

— Quem cuida do povo — dizia ela, no fim de cada reunião de quintal — não precisa comprar o povo.

Na noite da apuração, a Panela Cheia virou sala de espera. Ninguém jantou. Quando o número saiu — mil trezentos e doze votos, a última das nove cadeiras, por vinte e três votos de diferença — o quintal fez um barulho que assustou os passarinhos do feijoeiro: metade grito, metade choro, e o chapéu de Benvinda subindo no ar como um sol pequeno.

O coronel elegeu o prefeito. Mas pela primeira vez em trinta anos, sentou na frente da câmara um voto que ele não tinha comprado.

Na sessão de posse, o vereador mais velho, homem do grupo, pediu que a eleita retirasse o chapéu, "em respeito ao regimento". Benvinda se levantou, devagar, e respondeu pro microfone com a voz de quem ensinou gente a assinar o nome:

— Esse regimento o senhor pode ler depois. Esse chapéu aqui, o senhor não. Ele é de quem me elegeu, e quem me elegeu tá todo aqui em cima, na galeria. E embaixo dele é que eu vou trabalhar.

O chapéu ficou em cima da mesa, entre o regimento e o caneco de água, durante os quatro anos seguintes. E em cima dele, todo ano, o projeto de lei da Panela Cheia: alimentação de verdade pra escola pública de Riacho dos Ventos.

Dizem que o coronel, antes de morrer, perguntou a alguém de confiança quanto custava, afinal, aquela mulher teimosa. E dizem que a resposta, que ele levou pro túmulo sem acreditar, foi a mais barata que ele já ouviu na vida:

— Custa nada, coronel. Só não se vende.

Francisco Martins

13 de outubro de 2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A SUBSTITUTA

 

Helena foi contratada numa terça-feira de manhã, em uma daquelas empresas que prestam serviços a outras empresas — uma agência de substituições, como se dizia no ramo. O contrato era claro: quando um funcionário de qualquer empresa-cliente tirasse férias, Helena entrava no lugar. Não importava o ofício. Importava que ela soubesse exercê-lo.

E ela sabia. Não por dom, mas por disciplina: Helena tinha passado dez anos colecionando profissões como outros colecionam selos. Fora recepcionista, auxiliar de cozinha, operadora de caixa, balconista de farmácia, assistente de biblioteca, telefonista de hotel. Guardava de cada ofício não apenas o manual, mas o gesto — a forma exata de segurar a bandeja, de dobrar o comprovante, de olhar o cliente nos olhos sem prometer nada demais.

— A senhora é uma curinga — disse o gerente da agência, no primeiro dia, com admiração sincera.

— Sou uma profissional — corrigiu ela, sem sorriso. — Curinga é quem serve para qualquer jogo. Eu sirvo para o jogo certo, no lugar certo.

E assim foi por dois anos. Helena substituiu a recepcionista do escritório de advocacia e aprendeu os nomes de todos os clientes antes do primeiro café. Substituiu a cozinheira do colégio e as crianças notaram que a comida estava "diferente, mas boa". Substituiu a balconista da floricultura e descobriu, para a própria surpresa, que sabia o que cada arranjo dizia sem que ninguém precisasse explicar. Em toda missão, dava-se bem. Não era amada — era respeitada, o que para Helena sempre bastou.

Até que chegou a segunda-feira em que o gerente a chamou com uma expressão que ela nunca tinha visto nele.

— É uma substituição diferente — começou ele, e parou. Recomeçou. — A cliente é uma empresa de consultoria. A funcionária que vai tirar férias é... uma acompanhante. Ela acompanha executivos em jantares, eventos, viagens. É um serviço contratado pela própria empresa. E eles pediram uma substituta.

Helena ficou em silêncio. O gerente continuou, apressado, como quem despeja um copo de água quente de uma vez:

— O contrato é o mesmo. Mesmo valor, mesmo período, mesmas garantias. A senhora não é obrigada a aceitar. Eu preciso apenas registrar a resposta.

Ela olhou pela janela do escritório. A cidade seguia seu movimento de sempre: gente indo trabalhar, gente voltando, gente fingindo que uma coisa era a outra.

— Posso pensar? — perguntou.

— A senhora tem até sexta-feira.

Naquela noite, Helena não dormiu. Não por medo — ela conhecia o próprio corpo e sabia defender seus limites em qualquer profissão, inclusive nessa situação. O que a impediu de dormir foi outra coisa, mais antiga e mais difícil: a pergunta sobre quem ela era. Durante dez anos, Helena tinha sido todas as profissões e, por isso, talvez nenhuma. Ela substituía pessoas. Entrava na vida dos outros, usava o crachá dos outros, respondia pelo nome dos outros. E agora o trabalho pedia algo que nenhuma outra missão havia pedido: que ela substituísse não o ofício de alguém, mas a intimidade de alguém. Onde terminava a profissão e onde começava a pessoa?

Pensou na acompanhante — aquela mulher que ela nunca tinha visto, mas que agora existia para ela como uma sombra na beira da própria vida. Uma mulher que acompanhava executivos e que, ao tirar férias, precisava ser substituída como se substitui uma telefonista. Alguém, em algum escritório, havia decidido que a vida dela era um posto a ser preenchido.

E foi essa a coisa que a incomodou — não o que pediam dela, mas como pediam. Como se pessoas fossem vagas.

Na sexta-feira, Helena voltou à agência. O gerente a recebeu de pé, nervoso.

— E então?

— Vou recusar — disse ela.

O gerente abriu a boca, mas ela levantou a mão e continuou:

— Não pelo que vocês estão pensando. Eu não julgo a profissão dela — nem julgo a minha reação. Eu recuso pelo motivo contrário. Durante dez anos, eu entrei no lugar das pessoas e fiz o trabalho delas com respeito. Mas esse pedido não me pede para fazer o trabalho de uma mulher. Me pede para me tornar a ausência de uma mulher. É diferente. Ela tira férias como qualquer trabalhadora — e o que ela faz nas férias é assunto dela, não um posto vazio a ser preenchido. Se a empresa dela precisa de acompanhantes, que contrate acompanhantes. Contrate pessoas. Não substitutos de pessoas.

Houve um silêncio. Depois, o gerente disse em voz baixa:

— Sabe que isso pode custar seu contrato?

— Sei — respondeu Helena. — Mas eu passei dez anos aprendendo profissões para nunca ser trocável. Seria estranho perder o contrato justamente por me recusar a ser trocável.

Ela saiu da agência sem saber se tinha emprego na segunda-feira. Não sabia também que, no mesmo dia, o gerente escreveu no relatório interno uma frase que mudaria a empresa: "A substituta Helena recusou a vaga e estava certa. Revisar o que consideramos substituível."

A empresa não a demitiu. Sem que Helena soubesse, a recusa dela circulou entre os diretores como um documento raro — o tipo de coisa que ninguém vê escrito há muito tempo. Três meses depois, ela foi promovida: deixou de ser substituta e passou a ser quem escolhia as substituições, treinava as novas contratadas e definia, em cada contrato, o que era trabalho e o que era pessoa.

E a acompanhante? Helena a encontrou por acaso, um ano depois, em uma cafeteria. Reconheceu-a pelo crachá antigo que a agência mandara arquivar. Conversaram como duas estranhas que não eram estranhas — porque uma havia recusado ocupar o lugar da outra, e esse gesto, embora nunca dito, estava entre elas como um acordo silencioso.

— Você me substituiria? — perguntou a mulher, no fim, meio brincando.

— Não — respondeu Helena, sorrindo pela primeira vez naquela mesa. — Mas posso ensinar alguém a cozinhar, a receber, a telefonar. E você pode me ensinar o que é acompanhar alguém sem se perder em ninguém.

As duas riram. E, naquela tarde, nasceu algo que nenhuma das duas esperava: não uma substituição, mas uma parceria. Porque, no fim, Helena havia aprendido a lição de todos os seus ofícios: ninguém substitui ninguém. A gente apenas ocupa, por um tempo, o posto de alguém — e o respeito por essa pessoa é o que separa um profissional de um curinga.

 

Francisco Martins – 1 de outubro de 2026.


terça-feira, 29 de setembro de 2026

O SEQUESTRO DA RIMA

 

   Na cidade de Versália, os poetas acordaram naquela manhã com uma estranheza que não sabiam nomear. O padeiro, que escrevia sonetos enquanto sovava o pão, tentou dizer "o sol doira a janela" — e a palavra saiu torta, sem eco, sem o doce encontro de sons que sempre a acompanhara. Algo faltava. Como o que acontece quando esquecemos uma nota de uma música conhecida: a melodia existe, mas o encaixe perfeito se perdeu.

      Foi o velho Anacleto, o mais antigo poeta da cidade, quem deu o nome ao desastre. Ao tentar compor um verso para a neta, percebeu que a rima havia sumido. Não uma rima específica — todas. O dicionário da língua estava intacto, as palavras todas no lugar, mas aquele laço invisível que fazia "amor" responder a "flor" e "mar” a "sonhar" simplesmente deixara de existir. Era como se a própria música da linguagem tivesse sido arrancada do mundo.

      E então chegou a carta. O envelope era de papel pardo. Dizia apenas: "A rima está conosco. Se quiserem vê-la viva, tragam o último verso perfeito já escrito. Assinado: Os Prosadores."

     Os poetas ficaram perturbados. E como não ficariam? Eram homens e mulheres que viviam daquela harmonia secreta. Sem a rima, seus versos saíam mancos, suas canções de ninar não embalavam, seus poemas de amor soavam como listas de compras. O jovem Eulálio, que escrevia trovas para a amada, tentou declamar e gaguejou.                A poetisa Clotilde, famosa pelos seus tercetos, chorou ao ver suas estrofes desmoronarem como castelos de areia.

— Sem a rima, somos apenas pessoas que escrevem frases — lamentou Anacleto, com os olhos úmidos. — Não somos nada.

           Enquanto o resto de Versália  murmurava em pânico, um grupo seco se reuniu na praça sob o plátano. Eram os poetas de verso livre — os que nunca pediram licença à rima para escrever. E eles, ao contrário de todos, estavam... tranquilos.

— Eu avisei — disse o jovem Bento, cruzando os braços com um sorriso de quem finalmente tinha razão. — A rima era uma muleta. Agora veremos quem sabe andar sozinho.

     E havia algo de verdade naquilo. Enquanto os sonetistas gaguejavam e os trovadores choravam sobre suas trovas mutiladas, Bento escrevia no ar, com as mãos, frases que não podiam rimar — mas que nunca precisaram rimar. Seu poema sobre o vento saiu inteiro, limpo, sem um único tropeço. Os versos livres, pela primeira vez na história de Versália, eram os únicos que continuavam de pé.

— Vejam — proclamou ele, erguendo o papel. — Isto é poesia. Sem algemas, sem correntes, sem o eco barato das palavras que se repetem.

       A multidão perturbada olhou para ele com uma mistura de inveja e ressentimento. Como podia aquele rapaz celebrar, quando a própria música da língua estava presa? E Bento, por um instante, sentiu-se vitorioso.

        Mas aquele momento, como todo triunfo por eliminação, não durou. Ao entardecer, Bento foi até a beira do rio, onde costumava escrever. E ali, sozinho, tentou compor um verso sobre a memória da mãe. As palavras vieram — vieram sempre. Mas quando chegou ao fim da frase, algo lhe faltou. Não a rima, não exatamente. Faltava-lhe aquele quebra-cabeça invisível, aquele jogo de esconder que fazia a língua dançar. Seu verso saiu elegante, correto... e vazio. Como a música tocada sem o silêncio entre as notas.

        Foi então que ele entendeu o que os sonetistas sempre souberam: a rima não era uma algema. Era um convite. Não prendia a palavra — fazia a palavra esperar por outra, ansiosa, e o encontro das duas era o próprio prazer de escrever.

         Bento voltou à praça. Os versos livres ainda estavam de pé, mas já não sorriam.

   Havia algo que os Prosadores — aquela sociedade secreta de escritores de prosa que sempre invejaram o prestígio dos poetas — não haviam previsto. Ao sequestrar a rima, eles a tinham aprisionado em uma masmorra de papel, mas esqueceram que a rima, sendo feita de som e de memória, não podia ser contida por muros.

          Naquela noite, enquanto os poetas velavam em silêncio, a pequena neta de Anacleto, que não sabia o que era rima nem prosa, mas sabia o que era música, cantou, sem querer, uma cantiga de roda. A rima, ouvindo aquela voz pura do outro lado da masmorra, reconheceu o chamado. E respondeu.

           Foi um estalo. Um verso antigo, sussurrado por gerações, atravessou o papel, quebrou o selo e voltou a habitar a boca das crianças. E, de criança em criança, de boca em boca, de coração em coração, a rima retornou à cidade — não como prisioneira, mas como algo que nunca podia ter sido presa, porque vivia não em um lugar, mas em todos os lugares onde alguém cantava.

Quando a rima retornou e a cidade voltou a cantar, os Prosadores foram encontrados. Não fugiram. Estavam reunidos na mesma masmorra de papel de onde a rima escapara, sentados em silêncio, como quem espera um julgamento.

E foi o velho Anacleto quem os enfrentou.

— Por quê? — perguntou ele, sem raiva, apenas com a voz cansada de quem perdeu e reconquistou algo em uma única noite. — Por que sequestrar a rima?

O líder dos Prosadores, um homem magro chamado Severino, ergueu os olhos. E, pela primeira vez, não havia inveja neles. Havia cansaço.

— Porque nós também queríamos ser lembrados — disse ele. — Vocês, poetas, têm a rima. E a rima é memória. Uma trova de amor sobrevive séculos porque o "amor" encontra o "flor" e o ouvido guarda os dois juntos. Nossos romances, nossos ensaios, nossas crônicas... são lidos e nem sempre lembrados. Não têm o laço que prende a palavra à memória. Nós não sequestramos a rima por ódio a vocês. Nós a sequestramos porque, sem ela, achávamos que talvez — só talvez — o mundo finalmente prestasse atenção em nós.

Houve um longo silêncio.

Continuou Severino:

— Ao prender a rima, descobrimos que ela nunca foi a inimiga. Ela era a prova de que a língua pode dançar. E nós, que escrevemos prosa, também dançamos — só que com outro ritmo. Não precisávamos roubar a música dela. A gente só precisava ouvir a nossa.

Anacleto estendeu a mão.

— Então escrevam — disse ele. — Escrevam a prosa de vocês com o mesmo cuidado com que nós escrevemos os versos. Saibam que memória não mora só na rima. Mora no que é dito com verdade e provém do coração.

 

Francisco Martins

28 de setembro de 2026

 

 

 

 

 

        


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A CARTA DE NICE

O leitor — chamemos-lhe apenas leitor, pois o nome não importa agora — estava folheando um livro, quando sua mão encontra um envelope de carta, internacional. Isso lhe chamou a atenção, afinal, em 2026, tempo de whatsApp, e-mails, redes sociais, não há mais espaço para cartas.

O envelope trazia as cores branca, vermelha e azul. O selo dizia o país de origem: República Francesa, e o carimbo dos Correios — nítido, perfeito, como se o tempo tivesse respeitado aquele 30 de setembro de 1972.

Pegou o envelope com cuidado, quase com reverência. O papel era fino como as asas de uma libélula. O remetente: Jean-Luc Moreau, 14, bis Rue de la Buffa, 06, Nice, França. O destinatário: D. Isabel de Holanda Cavalcanti, Rua General Câmara, 67, Natal-RN, Brasil.

Percebeu que estava aberto, dentro, a carta, escrita numa caligrafia inclinada à direita, firme como quem não hesita, e ao mesmo tempo trêmula nos contornos, como quem escreve sob o peso de algo que aperta o peito.

O leitor  pensou se deveria ler a correspondência que não lhe pertencia, endereçada a uma mulher que, muito provavelmente, já não estava entre os vivos. Cinquenta e quatro anos se passaram. Mas a curiosidade foi maior e  ele puxou aquela folha única.

 A tinta era escura, um azul-petróleo, e as letras pareciam ter sido feitas com uma caneta-tinteiro que ora soltava mais tinta, ora menos — como o fôlego de alguém que corre e para, corre e para.

O leitor sentou-se no banco de madeira do sebo e começou a ler.

Nice, 28 de setembro de 1972

Cara Senhora Isabel,

Há três semanas tenho sonhado com a senhora. Não sei quem é, nunca a vi, nunca ouvi seu nome antes. Mas nos meus sonhos a senhora está sentada numa sala de paredes altas, cheia de livros, com uma janela que dá para um jardim — e lá fora uma jaqueira imensa. A senhora veste um vestido escuro e lê em voz alta, mas não consigo ouvir o que diz.

No sonho, sempre olho para suas mãos. A senhora segura um objeto pequeno e prateado — um prendedor de cabelos, talvez, ou um broche. E há algo errado com a luz. A luz da sala vai ficando alaranjada, depois vermelha, e o ar fica pesado. A senhora não percebe, mas eu percebo. E grito, mas a senhora não me ouve.

Acordo com o coração disparado e a sensação de que preciso impedir algo que já está em movimento.

Ontem à noite, o sonho mudou. Vi números — 29, 30, 1. Vi um jornal, a data de outubro. E vi a senhora caída, a cabeça tocando o assoalho, a mão ainda segurando o broche. Havia fumaça.

Não sei se sou louco. Não sei se isso que escrevo é loucura. Mas passei a manhã na prefeitura de Nice, conferindo listas de passageiros, endereços, consulados. Descobri que a senhora existe — uma professora de literatura brasileira, que esteve em Aix-en-Provence em julho passado, num congresso. Deram-me seu endereço em Natal.

Pensei em não escrever. Pensei em rasgar esta carta. Mas a imagem da senhora caída naquela sala não me sai da cabeça.

Não sei o que vai acontecer. Só sei que acontece em outubro. Nos primeiros dias. E tem a ver com fogo. A senhora tem uma jaqueira no quintal?

Com todo o respeito e toda a estranheza que esta carta lhe causa,

Jean-Luc Moreau

O leitor levantou os olhos do papel. àquela hora da tarde, com a luz dourada entrando pela porta de vidro fosco. Respirou fundo.

Guardou a carta dentro do livro. Nos dias seguintes, a carta não lhe saía do pensamento. Quem era Isabel de Holanda Cavalcanti? O que teria acontecido naqueles primeiros dias de outubro de 1972? E, acima de tudo — ela teria recebido a carta a tempo?

Começou a pesquisa por onde qualquer um começaria: a internet. Isabel de Holanda Cavalcanti, professora universitária, Natal. Não foi difícil. Encontrou um verbete no site da Academia Norte-Riograndense de Letras: Isabel de Holanda Cavalcanti (1921-1972). A data de falecimento o fez parar. 3 de outubro de 1972. Três dias depois do carimbo no envelope.

O coração do leitor bateu mais forte. Leu o resto do verbete com os olhos queimando: Faleceu em decorrência de um incêndio em sua residência, na Rua General Câmara, 67. Professora de Literatura de Língua Portuguesa da UFRN, deixou vasta obra crítica...

Incêndio.

 A palavra ficou pulsando na tela. O leitor fechou o navegador, abriu a gaveta onde guardara o envelope azul. Tirou a carta com cuidado. Leu-a de novo, devagar. A luz da sala — alaranjada, depois vermelha. A fumaça. A jaqueira no quintal — será que existia?

 A carta saíra de Nice no dia  30. Voara da Riviera Francesa até o Rio Grande do Norte. Se tivesse chegado no dia 2 ou 3 de outubro, teria sido tarde demais? Ou teria chegado antes, e Isabel a lera — e não dera importância?

O leitor passou o polegar sobre a assinatura de Jean-Luc. Um homem jovem, francês, que tivera visões. Que tentara avisar uma mulher que não conhecia. Que escrevera uma carta do outro lado do Atlântico para impedir uma tragédia.

 E que, muito provavelmente, nunca soube se ela chegou a ler.

 

Francisco Martins
13 de maio de 2026

Ilustrações criadas por IA.

 



terça-feira, 10 de março de 2026

O CONCLAVE DOS NARIZES

 



Que rufem os tambores – ou melhor, que se agucem as narinas! Era o dia da "Reunião Anual dos Narizes de Especialidade", um evento tão peculiar que nem a Sociedade Internacional de Otorrinolaringologia tinha coragem de endossar. Na mesa redonda (na verdade, uma mesa de bilhar adaptada), os mais distintos órgãos olfativos do país se reuniam para discutir suas proezas e, claro, cheirar uns aos outros.

O primeiro a se pronunciar, com uma delicadeza quase etérea, foi o Nariz do Ginecologista. "Caros colegas," começou ele, ajustando seus óculos invisíveis, "minha especialidade exige uma sensibilidade ímpar. Sou perito em desvendar mistérios ocultos, em decifrar mensagens sutis onde outros apenas sentiriam... bem, digamos, a complexidade da vida. Meu trabalho é como ser um detetive de aromas íntimos, sempre em busca da harmonia, ou da sua ausência." Ele fez uma pausa dramática. "E sempre, sempre com o máximo de discrição."

Em seguida, irrompendo com uma alegria terrosa, veio o Nariz do Jardineiro. "Ah, discrição é para os fracos!" exclamou, com um leve rastro de adubo. "Eu sou o poeta da podridão, o maestro da matéria orgânica! Conheço o cheiro da terra úmida antes da chuva, o aroma da flor desabrochando e o lamento do fungo que se apossa do roseiral. Meu nariz é uma enciclopédia viva de cheiros verdes, flores e, sim, do cocô de galinha que faz a vida brotar! Sem mim, o mundo seria um canteiro sem graça!"

O Nariz do Padeiro, ainda com uma pontinha de farinha no septo, soltou um suspiro de êxtase. "Verdes? Flores? Desculpem a franqueza, mas nada se compara ao néctar divino do fermento ativando! Eu sou o guardião do pão nosso de cada dia! Meu olfato distingue o trigo sarraceno do integral, o ponto exato da massa que cresce e o cheirinho de queimado que indica que o cliente vai reclamar. Sou um alquimista de fragrâncias douradas, do doce do croissant ao rústico do pão de centeio. Minha vida é uma sinfonia de forno e delícia!"

Um nariz pequeno e encurvado, com uma leve coloração de tinta de jornal, pigarreou. Era o Nariz do Leitor. "Eu sou o portal para mundos infinitos", disse ele, com uma voz um tanto empoeirada. "Consigo sentir o aroma de uma biblioteca antiga, com suas histórias adormecidas em pergaminhos, ou o cheiro fresco de um livro recém-impresso, prometendo novas aventuras. Percebo o café derramado na página 73, o cheiro de maresia de um romance de piratas e até o resquício de lágrimas em um drama romântico. Meu nariz lê as entrelinhas invisíveis de cada narrativa!"

Um silêncio constrangido pairou no ar. Então, um nariz gordo, com um brilho suspeito e um leve aroma de uísque barato e charuto, inclinou-se à frente. Era o Nariz do Político Corrupto. Ele limpou a garganta, um som que parecia raspar notas de dinheiro. "Amigos e... bem, colegas," começou ele, com um sorriso afetado, "todos vocês têm talentos louváveis. Mas o meu nariz? Ah, o meu nariz é o mais pragmático de todos. Ele fareja o dinheiro a quilômetros de distância, detecta o cheiro de um contrato superfaturado antes mesmo de ser assinado, sente a oportunidade em cada crise. Ele distingue o aroma do suborno disfarçado de 'doação de campanha' e o cheiro do medo nos olhos do eleitor. E o melhor de tudo? Ele é totalmente imune ao cheiro de ética ou moralidade. Não perco tempo com isso, sabe? Meu foco é no aroma inconfundível do lucro fácil."

Os outros narizes se encolheram, alguns com nojo, outros com uma pontinha de inveja secreta. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o Nariz do Jardineiro sentiu o cheiro de algo podre, mas não era de adubo. Era o cheiro da pura e inabalável... corrupção.

Mas, antes que a reunião pudesse terminar em total desânimo, um pequeno e curioso nariz, que até então estava observando com olhos arregalados, levantou-se com entusiasmo. Era o Nariz da Criança. Sua voz, fina e clara, cortou o ar viciado. "Eu... eu gosto de cheirar o cheiro de bolo de vó, sabe? E o cheiro do meu cachorrinho depois do banho! E o cheiro de terra molhada quando a gente faz castelo de areia!" Seus olhos brilhavam. "Mas o que eu mais quero é sentir o cheiro de um mundo que não tem cheiro de coisa feia, nem de briga. Um mundo que cheire a flor, a pão quentinho e a abraço de mamãe. Um mundo só de cheiro bom!"

Os narizes mais velhos se entreolharam, alguns com um pingo de vergonha, outros com um raro vislumbre de esperança. O cheiro de um mundo só de cheiro bom... Aquele pequeno nariz, com sua inocência e anseio, de repente fez todos os outros narizes, por um breve instante, questionarem o que realmente valia a pena farejar.

E assim terminou a reunião, com cada nariz voltando para suas respectivas rotinas, cada um com sua peculiar habilidade olfativa. Mas, ao passarem pela porta de saída, todos foram surpreendidos por um aroma diferente, que os envolveu como um abraço invisível. Ali, discreto, estava um Nariz que Cheirava Amor e Perdão. Não falava, não se gabava, apenas exalava uma fragrância suave de aceitação e de renovação. E, enquanto cada nariz seguia seu caminho, aquele aroma os acompanhava, ensinando-lhes, silenciosamente, que a arte mais nobre de todas era a de sentir e espalhar os cheiros que curam a alma.

 

Francisco Martins

9 de março 2026


domingo, 28 de dezembro de 2025

LANÇAMENTO DO CONTO A MÃE DA LUA, DE JOHNATHAN TRINDADE

 

  Ambientado no Nordeste entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o conto narra a trajetória trágica e apaixonada de Francisco Jerônimo, um homem marcado por uma tragédia e que busca sua redenção. Rivalidades que atravessam sua infância culminam em um ciclo de vingança, obrigando-o a abandonar sua terra natal e assumir uma nova identidade.
  No Comum, pequeno povoado do Rio Grande do Norte, ele recomeça do zero, prospera como fazendeiro e encontra o amor em Cecília, com quem constrói uma família. Contudo, o passado violento, a ambição alheia e as forças da superstição nordestina jamais o abandonam. A figura mítica da mãe-da-lua, ave de canto agourento ligada a antigas lendas indígenas, acompanha a narrativa como um presságio constante.
  Entre ascensão e queda, o conto percorre décadas de transformações sociais, conflitos de terra, corrupção, traição e injustiças, mostrando como o destino de Francisco e Cecília é selado tanto por escolhas humanas quanto por forças que parecem ultrapassar a razão. Ao final, amor, culpa e memória se entrelaçam em um desfecho poético, no qual a lenda se confunde com a própria história.



segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A PRIMEIRA NOITE DE TIÃO E ROSA

 


Tião, homem de mãos calejadas  e coração de ouro, olhava para a sua noiva, Rosa, com um brilho nos olhos que as estrelas do sertão invejariam. A festa de casamento tinha sido simples, mas cheia de alegria, regada a cachaça, forró e muita prosa boa. Agora, a casa estava em silêncio, apenas o som grilado dos insetos e o vento sussurrante na palha do telhado quebrava a quietude da noite.

Rosa, com seu vestido branco de algodão, estava sentada na beira da cama de casal, a primeira que eles teriam juntos. O véu, feito de renda que sua mãe teceu, repousava sobre os ombros, e o cheiro de flor de laranjeira perfumava o ar. Tião sentia um misto de nervosismo e uma felicidade imensa. Tinha esperado a vida inteira por aquele momento.

Ele se aproximou devagar, os passos pesados no chão de terra batida. Rosa ergueu o olhar, e seus olhos grandes e escuros, cheios de doçura, encontraram os dele. Um sorriso tímido surgiu em seus lábios.

"Minha Rosa", ele murmurou, a voz rouca de emoção, "agora somos um só, diante de Deus e dos homens."

Ela estendeu a mão, e Tião a segurou com ternura, sentindo a maciez da pele dela. Não havia pressa, apenas a certeza de um amor que brotou devagar, como a chuva mansa que prepara a terra para a vida. Ele tirou o chapéu de couro e o pendurou no prego da parede, um gesto de quem se despe de seu dia para abraçar a intimidade da noite.

Rosa se levantou, e Tião a ajudou a desatar o espartilho do vestido. Cada botão, cada laço, era um passo para uma nova jornada. O silêncio era preenchido pela respiração dos dois, pelo batucar suave de seus corações. Quando o vestido escorregou e caiu no chão como uma nuvem branca, Rosa estava ali, em sua simplicidade e beleza, iluminada pela luz bruxuleante da lamparina.

Tião tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, percorrendo a linha da mandíbula, a curva do pescoço. Era a confirmação de um sonho, a materialização de um desejo puro e profundo. Eles não precisavam de muitas palavras. O olhar trocado entre eles dizia tudo: respeito, carinho, e a promessa de uma vida partilhada.

Naquela noite, sob o céu estrelado do sertão, Tião e Rosa iniciaram sua história. Não foi uma noite de arroubos ou paixões desenfreadas, mas de uma doçura singela, um encontro de almas que se reconheceram e se acolheram, plantando as sementes de um amor duradouro, forte como o umbuzeiro e resiliente como a caatinga. A primeira noite de núpcias foi o selo de um pacto, a confirmação de que, dali em diante, eles caminhariam juntos, sob o mesmo sol, sob a mesma lua, e com o mesmo coração.

Mané Beradeiro

24 novembro de 2025

terça-feira, 22 de novembro de 2022

QUEM É ELE?

 

 Um homem velho, tão velho quanto a escuridão. Ele ainda existe, a morte não o quer. Desistiu dele  já faz muito tempo.  Para não feri-lo com seu aguilhão, ela propôs um pacto e ele aceitou. "Ficarei longe de ti para sempre, mas te darei por companheira a solidão".  Muitas civilizações já nasceram e morreram deste que ele e a Morte assinaram esse pacto. Até mesmo a solidão, que com ele conviveu o suficiente  para romper  a linha do tempo, também se foi. 


E ele, o mais solitário de todos os homens do Universo, sentiu que seu corpo era formado não por células como a natureza dos demais, mas sim, pelas areias dos desertos e o ar que respirava vinha do carinho que o vento vazia naquelas areias.


Sem amigos, sem família, sem celular. Pasmem! Esse homem não tem redes sociais, inexiste ao mundo da Internet. E mesmo assim, é sábio. Tem mais conhecimento que o Google. Os anos, e estamos falando de milhões, deram a ele a sabedoria. Semeia tudo que sabe, distribuindo aos ventos, que leva aos cientistas, poetas, escritores, artistas, escultores, cozinheiros, magistrados, etc.

Há em suas mãos um cálice, ornado com pedras preciosas, do qual ele tira as fibras que vão formar os corações maternos. Que material é esse? É uma incógnita! A Terra vai girar muitos milhões de ano até ser descoberto a fórmula   dos corações que acalentam os filhos.

Dele também  é a Palavra, ou seria Ele mesmo a própria? Para provar há quem confirme que "se fez homem e habitou entre nós".

Tudo nele é fonte. Seu nome? Bem eu o chamo de ....


Francisco Martins

22 novembro 2022

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A LIGAÇÃO

 

-Alô
-Alô!
-Posso falar com Deus?
-Quem deseja?
-Um filho dele
-Um momento por favor
-Não, não faça isso! Eu suplico pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
-O que foi? Porque essa agonia?
-Um "momento" aí no Céu são muitos anos aqui na Terra, lembre-se do que está escrito em 2 Pedro 3:8: Um dia para o Senhor é como mil anos
-Verdade! Como pude esquecer disso. A frase é minha.
-Tá brincando? Então estou falando com Pedro?
-Sim
-Não acredito! Pedro Apóstolo?
-Ele mesmo
-Que legal! Mas você não é o Porteiro Celestial, o homem que tem as chaves do Céu?
-Não é bem assim ...
-Tá, depois a gente fala sobre isso, mas como meus créditos estão poucos, por favor passe a ligação para Deus.
-Seu nome?
-Mané Beradeiro
-Não acredito! O poeta cordelista que escreve folhetos bíblicos?
-Ele mesmo
-Nós gostamos muito dos seus poemas
-Nós, quem?
-Eu e muita gente que eterniza por aqui. Quando você chegar aqui vai conhecê-la.
-Eita!
-Vou passar a ligação ...
-Obrigado.
SEUS CRÉDITOS ACABARAM. POR FAVOR RECARREGUE E TENTE NOVAMENTE!
-Quê? Eu só queria dizer obrigado por 2021.


Mané Beradeiro 30 de dezembro 2021

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

MARINHEIROS

 Dentro do ano  em que comemoramos os 100 anos do nascimento do escritor Homero Homem, trago aos leitores mais um conto, pérola achada em minhas pesquisas. 

 


Uma noite meu pai chegou, vinha molhado dos pés à cabeça. Bateu as botinas no degrau da entrada, limpou o barro que aderira ao solado, desvencilhou-se do pesado oleado de marujo, entrou silencioso. Era de poucas palavras, hábito contraído na solidão das grandes viagens beirando acosta, de um extremo a outro do Estado. Alto e robusto, ostentava uma força maciça e lenta de marinheiro; as mãos eram duras e enormes, servidas de dedos onde repontavam calos. De tão grossos até pareciam inchados os dedos de meu pai. Recordo bem o seu físico áspero e agigantado, mas, por mais que me esforce,não consigo reter as suas feições. Lembro-me bem de seus olhos. Tinha-os pardos, de uma tonalidade que eu nunca vi reproduzida em ninguém mais. Fitavam parados, teimando esconder aquela velada fosforescência que irradiavam. Pareciam lutar contra a luz, os olhos de meu pai.

O mais nele tenho fielmente fixado: certos gestos, a voz rude, o jeitão agressivo com que fazia as perguntas - um súbito rompante de voz que ia se atenuando até transformar-se em murmúrio, que era o seu tom habitual de conversa.

Meu pai se desembaraçou da roupa encharcada, sentou à mesa. Minha madrasta trouxe quase em seguida o jantar: sopa de feijão, peixe frito com farofa de dendê e café. Meu pai comia calado, os grandes músculos faciais contraindo-se, relaxando-se. Eu acompanhava com tenção estudada os pequenos besouros que rodopiavam em torno do candieiro, fugidos da chuva que caía lá fora. Estava à espreita de uma oportunidade para contar-lhe o meu dia. Afinal tomei coragem, fui direto ao assunto.

-Estive hoje lá em cima; estou matriculado, meu pai.

Ele levantou a vista,olhou-me como procurando se lembrar do que falava eu; bebericou o café soprando no pires, e disse:

-Está direito…

A frieza me doeu. Estava acostumado a ela, meu pai era assim mesmo. Mas a situação era tão especial que me dera coragem para engendrar aquela conversa. Disfarcei a decepção com nova investida; a vontade de falar era grande.

-Sabe, meu pai, os exames começam depois do Carnaval.

-Hum… -fez ele.

Inútil. Refugiei-me num silêncio amuado, duro silêncio de menino sem mãe, acostumado à solidão. Meu pai acabara de tomar café, acendia o cachimbo - uma pesada peça de raiz de roseira, ornada com anéis de latão. Soprou a primeira baforada e, envolvido pela fumaça, falou devagar pondo-me os olhos em cima:

-Você espera passar no exame, João?

Tive um choque. A pergunta de meu pai era uma resposta, um eco à minha ânsia de comunicação e extravasamento. Raro meu pai falar assim, encarando-me como um igual. Era um homem entrincheirado em seu silêncio, um silêncio pesado como o resto de sua pessoa: difícil de romper. Cedo me acostumara a ele. Em casa, eu e minha madrasta, ninguém se espantava. Aquela frincha aberta em seu mutismo rasgava pela primeira vez uma perspectiva nova em minha infância, que era como a sombra miúda da solidão grisalha de meu pai. Naquele minuto eu compreendia anos inteiros de sua vida. Sentia-me tranquilo, embora uma emoção nova tomasse conta de mim. Ficamos assim um bocado - eu e meu pai. Foi ele que quebrou o silêncio.

-João - começou - estive pensando. Sou um sujeito rude, um homem do mar. Tenho sabido de seus planos, sua madrasta já me falou. A princípio não concordei muito, você sabe, filho de marinheiro pertence ao mar. Pensava que você um dia iria comigo. Pensava que assim ia ser com você.

Calou-se, deu uma baforada comprida, soprou a cinza que aflorara às bordas do cachimbo. E prosseguiu:

-Você saiu à sua mãe, foi feito para ficar em terra. Está me pedindo conselho, leio em seus olhos. Mas não sei o que diga, não. Nunca estudei, criei-me sem necessidade de livros; marinheiro precisa é de saúde e de fé em Deus, que a sabença tirada dos livros de nada adianta quando se está embarcado. Você escolheu sua vida, está certo; não atrapalho vocação de filho. Já para dar conselho retirante às coisas do mar, para isso não sirvo. Pense bem: você é filho de marujo, neto de marujo, marujo também. Está na massa do sangue. Os rapazes da cidade alta, estes sim, nasceram para estudar mesmo, ser doutor, subir na vida. Levam vida de estudante, os pais dão tudo. Com você é diferente; precisa trabalhar, o meu é pouco pro gasto, inda mais com despesas de livro, um horror de dinheiro. Enfim,você sabe…

Calou-se, suspirando fundo, foi à janela, ficou olhando as luzes da cidade refletindo-se nas águas do rio em estrias de fogo inquieto.

Tomado de desânimo eu olhava a sombra enorme de meu pai. Tocado pela claridade que vinha de fora, ele me parecia muito só, pequeno e desamparado. Tinha ímpetos de gritar-lhe - “não importa, meu pai, lutarei por nós dois!” Mas o silêncio nos pegou em cheio, ficamos assim um pedaço. Depois meu pai deixou a janela, teve outro suspiro velho de descrença, começou a desenrolar a rede que pendia do armador. Bocejei para disfarçar o tumulto que tomara de mim. E de súbito as palavras começaram a me sair da boca cheias de decisão:

-Amanhã começo a me preparar para o exame.

-Quem é quem vai lhe ensinar - perguntou meu pai impulsionando a rede para o balanço.

-Seu Geraldo da farmácia; cobra só quinze mil réis por mês…

Novo silêncio. A rede rangia monótona - rin… rin… rin…

-João!

-Sinhô, meu pai?

-Vá dormir para acordar cedo, menino. Se tem mesmo de ser doutor, precisa ir se preparando.

Tive ímpeto de correr para meu pai, abraçá-lo, tanger o punho de sua rede a noite inteira. Mas ele ressonava já, o peito enorme subindo e descendo com regularidade. Era um sono pesado e total. Sono de marinheiro que chega do mar.

 

9 de Maio de 1953