segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Princípios básicos da cirurgia oncológica

“Senhor, sabemos o que somos,
Mas não sabemos o que poderemos ser”
(Hamlet)
 
Por Edilson Pinto, Professor, médico e escritor.
 
Eu sei que, para aqueles que têm mania de contar citações por texto escrito, eu não deveria abordar esse assunto. Mas, como professor e coordenador da disciplina de oncologia da UFRN, há mais de 10 anos, sinto-me na obrigação de esclarecer aos leitores sobre a importância do tema na vida de cada um de nós. Afinal, o câncer é a segunda causa de mortalidade no nosso país, segundo o Instituto Nacional de Câncer - INCA. (às vezes, penso que o INCA se engana... Na verdade, o câncer é a maior causa de mortalidade do nosso país, “matando” os nossos bens e, principalmente, os nossos sonhos).
Falar da cirurgia oncológica é falar do magnífico, visionário e extraordinário cirurgião americano William Halsted que, ainda no século XIX, estabeleceu a rigorosa técnica asséptica para os procedimentos cirúrgicos na doença cancerosa. Para Halsted, não adiantava nada operar um tumor maligno, sem estabelecer uma margem de segurança, bem ampliada, livre de doença.
Talvez, o leitor esteja um pouco confuso com esses termos técnicos. Mas vou tentar simplificá-los. Vamos pensar em um câncer bem agressivo. Não! Não estou falando do melanoma. Até porque existe hoje um câncer bem mais agressivo chamado CORRUPÇÃO na política pública do nosso país. Doença essa, que surgiu desde Colombo e as caravelas SANTA MARIA, PINTA e NIÑA... Só que o câncer-corrupção, do século XXI, ganhou níveis de agressividade, nunca vistos na terra do samba e pandeiro...
Disseminação em massa, com metástases extremamente nocivas, nos Correios, Bancos estatais, Petrobrás, etc, etc... Essas células malignas se multiplicam numa proporção estratosférica, de fazer bilhões e bilhões de dólares virarem um mero pixuleco... E, assim, não há cidadão que aguente tanta mandioca!
Pois bem! Para tratar essa doença, é inútil retirar apenas uma parte cancerosa, deixando a “outra” assumir o seu lugar. Os estudos mostram que, quando retiramos apenas uma parte do tumor - violando a sua cápsula, e disseminando células malignas nas áreas sadias, ainda livre de doença-, o câncer resurge de forma tão avassaladora - com Propagação de Movimentos Desordenados e Brutais-, que não há nada mais que possa conter a sua disseminação. Nem mesmo um antídoto, que me parece o único que ainda nos resta como esperança, chamado de SM (Sérgio Moro)...
Mas, SM sozinho não poderá deter tanta agressividade. Ele precisa de ajuda. E aí é que entra a cirurgia oncológica e os seus princípios básicos. Princípios esses, tenho certeza que Halsted se baseou nos ensinamentos de Cristo: “E se a tua mão direita te serve de escândalo, corta-a e lança-a fora de ti; porque é melhor que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno”.
Por isso, não adianta retirar apenas um dedo e permanecer a mão corrupta. Os outros nove dedos restantes agirão com a mesma agressividade... E haja pixuleco!
Agora, que fique bem claro, que a mão corrupta não é exclusividade dos partidos políticos. O câncer nem vem da mão esquerda e nem da mão direita. O câncer-corrupto é uma exclusividade do homem. E aí, Augusto dos Anjos foi feliz ao dizer: “Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras/ sente inevitável, Necessidade de também ser fera... A mão que afaga é a mesma que apedreja”; E é por isso que o cancioneiro canta alto a sua dor e alerta: “A mão que toca um violão/ Se for preciso/ Faz a guerra/ Mata o mundo/ Fere a terra”...
Portanto, dentro dos princípios da cirurgia oncológica, é inútil tirar o câncer-corrupto se não modificarmos a fonte nutricional da corrupção, neste caso, o povo brasileiro... É o povo que vota errado, aliás, muitas vezes vota certo! Certo de obter vantagens: cargo comissionado, uma feirinha, um enxovalzinho...  É o povo que bate nos peitos e grita: eu sou honesto e, na primeira oportunidade, compra recibo para sonegar o imposto de renda; é o povo que fura a fila do cinema; que assina a lista de presença do colega que faltou; é o povo que leva cola no celular para fazer a prova; é o povo que recebe diárias para viajar a serviço público, sem ter saído um milímetro da sua casa; é o povo que coloca um colega para ser seu auxiliar “virtual” em uma cirurgia, só para fraudar o convênio...
Ah! A humanidade... Sete milhões de anos - do Homo erectus ao Homo (e agora também mulher) sapiens-, e ainda não tomamos jeito... Continuamos imaturos! E nada melhor para começar a atingir essa maturidade do que buscar a AUTOÉTICA, que tanto nos ensina Edgar Morin: “Insisto sobre a necessidade de uma cultura psíquica permanente de autoexame e de autocrítica, pois que somos profundamente ignorantes ao nosso próprio respeito e, inconscientemente, mentimos com frequência”...
                Termino esse artigo sobre cirurgia oncológica, com o belo diálogo, na cena I, no terceiro ato, de Hamlet: “Oh! Como isso é verdade! Como tais palavras fustigam minha consciência, como se fosse um duro chicote! O rosto de uma meretriz, coberto pela tinta sedutora dos enfeites, não é mais repugnante do que meu crime... SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO! Que é mais nobre para a alma: sofrer os dardos e setas de um destino cruel, ou pegar em armas contra um mar de calamidades para por fim, resistindo? Morrer... dormir: nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os inúmeros naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... Dormir!... talvez sonhar! Sim! Eis a dificuldade!”.