sábado, 19 de novembro de 2016

DISCURSO DE POSSE E ELOGIO AO PATRONO

Antonio Glicério - 1981 - 1921


Exma. Sra. Joventina Simões, Presidente desta Academia.
Exmas. Autoridades presentes ou representadas,
Senhores Acadêmicos,
Meus familiares, amigos, convidados,
Meus senhores e minhas senhoras,

Serei breve, como breve foi a vida do meu patrono.
Chego a esta casa conduzido pelas mãos de  uma senhora,   ela não é minha mãe, mas me deu vida, pois através dela ganhei o que há de mais precioso na minha existência, que é a minha esposa.  Agradeço a ela, Maria da Conceição de Oliveira Pimentel, professora,  por ter dados estes passos  comigo, conduzindo-me à Casa de Pedro Simões Neto.
A imortalidade daqueles que integram esta Academia Cearamirinense de Letras e Artes – ACLA - Pedro Simões Neto é consagrada, aqui e em outras Arcádias literárias não pelo número de anos que vivemos, afinal, no tocante a isso, somos efêmeros.  O poeta bíblico, Davi, escreveu:
       
 A duração da nossa vida é setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam aos            oitenta, o que ela lhes pode dar não é mais do que cansaço e aborrecimento. O tempo passa de tal maneira que temos a sensação de voarmos (Salmo 90:10)
Diante desta realidade cabe a cada membro da Academia deixar às gerações o seu legado de produção artística na prosa e/ou poesia.  Isso sim, nos fará imortal. Ficaremos presentes nas páginas que escrevemos, no conjunto das letras que conseguimos sincronizar dando corpo a ideia do texto.
        Ocupo a cadeira  18,  sendo seu fundador e primeiro ocupante.  Essa cadeira tem como patrono Antonio Glicério. Quem foi ele? Que sabemos sobre sua existência?  Antonio Glicério nasceu em Ceará Mirim no dia 2 de julho de 1881, no Engenho Verde-Nasce.  Nilo Pereira escrevendo a Veríssimo de Melo diz que Antonio Glicério era filho da escrava Sancha Conceição, mucama famíliar muito querida e que gostava  de contar estórias. Foi poeta, boêmio.
 Não  chegou a ter grandes estudos, provavelmente apenas o que corresponde hoje ao Ensino Fundamental II. Aos 9 anos já morava em Natal, onde teve como professor o Padre João Maria. O  poeta Bezerra Júnior,  descreve no seu discurso de posse na Academia Norte-rio-grandense de Letras, que ele era um homem pálido, esguio e melancólico.
 Foi poeta que abraçou o estilo romântico no início do século XX. Vejamos, por exemplo este soneto, publicado no jornal  A República, em 1908.
        Vamos cantar o nosso amor, sozinhos,
 longe de tudo que é descrente: vamos!
Onde somente os ternos passarinhos
Beijam, sorrindo, os orvalhos ramos.

Vamos gozar os íntimos carinhos
Nos róseos lares onde nos amamos
E ouvir o doce gorjear  dos ninhos
Enquanto flor, na primavera estamos.

Vamos, beijando as adoradas folhas,
Puras, estreitas, duleidas, formosas,
De nossa verde e fúlgida existência

Cantar o nosso amor imaculado
Como num leito santo e perfumado
Cantar, ditosa, a alma da inocência.

Como se vê, Antônio Glicério podia até não ter formação acadêmica, mas suas leituras, fez dele um homem culto, que escrevia com maestria.  A leitura é sem sombra de dúvida, a mais natural das formações intelectuais.  Antonio Glicério foi também profissional gráfico, tendo sido tipógrafo, onde  trabalhou na composição e paginação do jornal A República, e foi funcionário do Grupo Escolar Padre Miguelinho, em Natal.
Casou  aos 29 anos com Leopoldina Matos, em 16 de maio de 1911 e chegou a preparar seu único livro de poemas,  que chamou de Cantilenas, embora o mesmo não tenho sido publicado. Em 5 de junho de 1921, doente, vitimado pela tuberculose, um destino que tanto atingiu os poetas românticos, faleceu aos 39 anos na cidade de Santo Antonio do Santo da Onça –RN.
Hoje seu nome é referenciado como patrono das cadeiras 23 e 18, respectivamente na Academia Norte-rio-grandense de Letras e na Academia Cearamirinense de Letras e Artes-ACLA-Pedro Simões Neto, além de dá nome a uma rua  no bairro de Lagoa Seca, na capital.
Meus senhores, minhas senhoras, termino meu elogio ao patrono e  lembro que nesta noite sou apenas aquela criança que brincava pelas ruas de Ceará-Mirim, correndo acima e abaixo, indo muitas vezes ao rio, onde tomava banho escondido dos meus pais.
Ceará Mirim sempre permanece dentro de mim e agora, mais do que nunca hei de amá-la mais e mais e cantá-la como o verso da prosa poética de Edgar Barbosa:
Vejo-te sempre com o teu longo vestido verde, com as torres altas de tua igreja; vejo-te ainda em minha lembrança e no meu sonho.
        Obrigado.

Ceará Mirim- RN, 18 de novembro de 2016