sábado, 19 de novembro de 2016

O PARTO

A história do vaqueiro continua, depois que ele pediu a moça para namorar com ele (PEDIDO), recebeu  o sim ( RESPOSTA DA DONZELA), teve o casamento (NUPCIAS SERTANEJA),  engravidou a mulher (DESEJO DE BUCHUDA), vem agora a hora do nascime to da criança, leia:


A mulher tem uma arma de forte convicção
Quando a danada usa golpeia o coração
O poder de fogo é alto não há quem resista não!
Vaqueiro dormindo fora com medo da castração
Ouvia de onde estava  os soluços da mulher
Que toda noite chorava, batia e fincava o pé
Dizendo que bago cozido toda gestante quer.

Quando o dia raiou na manhã de sexta-feira
Há muito que seu marido já estava no curral
Pensativo,  com um plano, infalível, sem igual.
Capou o novilho branco e gritou descomunal
Fingindo ter sido o seu extraído do local.
Entregou o sacrifício falando à mulher:
-Por você corro este risco, dou beijo em jacaré,
Me agarro com tacaca, guaxinim e Lampião.
Se Deus me deu dois,  um é seu, meu coração!

A mulher acreditou na farsa que foi montada,
Pois o vaqueiro esperto, todo dia de madrugada,
Antes de ir pro curral, assim ele se tratava:
Jogava cinzas na trouxa,  lavava  com  infusão
De cajueiro bravo e raspas de limão
Prometia ficar bom  pra próxima  vadiação.

E  agulha do tempo cozia o grande evento
Usava linha tão fina, de fibra resistente,
Feita do algodão mocó, que tem o suor da gente.
A mulher pressentia  que açude também seria
Fazendo jorrar a vida em momentos de agonia
Dando a luz à criança, motivo de alegria.
Parteira foi avisada e ficou de prontidão,
De apetrechos lavados esperava  a ocasião
Daquelas mãos tão benditas  colherem
Com mansidão mais uma alma pro sertão.

Naqueles dias finais do ciclo da gestação
Precavido o vaqueiro   foi  buscar  no Alazão
Sua mãe  tão bondosa que  cuidaria da nora
Nas dores de contração.
Ela seria então, ajudante da parteira,
Cozinheira e lavadeira no resguardo  que viria.
Família que é unida é igualzim mercearia
De tudo nela se tem, pra na hora da precisão
Tá ao alcance da mão, servindo de coração.

A criança resolveu que ao mundo viria
Naquele mês de dezembro, ninguém a empataria.
A  aparadeira  chegou,  foi precisa e pontual
Pediu ajuda aos santos e se deu o ritual:
Água fervia na panela de barro
Vaqueiro suava lá fora
A mulher sentia dores, reclamava toda hora
Prometeu pegar Vaqueiro, sementeiro  do amor.
Disse ser aquilo errado, no plano do Criador,
O cabra joga  semente e ela quem sente a dor?

Parteira trocava os panos naquela arrumação.
Mulher empurrava a cama e gritava: amolem o facão,
Pois se eu dessa eu escapar, Vaqueiro será capão!
Respirava agoniada, sentia as contrações.
Quebrou dois caibros do quarto, tamanha sua aflição.
Todo seu corpo era dor,  açude em transbordamento,
No meio das suas pernas  já havia sangramento.

Parteira deu-lhe garrafa  e disse: pode assoprar
Isso não é besteira, a dor vai aliviar.
Mulher agüenta dor,  é costela modelada
Pelas mãos do Maioral, é miolo de aroeira,
Tronco de carnaubeira, natureza sem igual.
Duas horas se passaram naquele clima infernal
Deitada em cama de couro, chorava  e esperneava.
No terreiro,  o Vaqueiro, também já se desmanchava
Pedindo  em sua fé, providência  imediata.
Caningou tudo que é santo pra dor dela então passar.

Parteira viu que deitada a criança não viria
Trouxe o tronco  de Ipê para mulher se sentar
Somente daquela forma  o parto ia acabar.
Mãe de imbigu orientou: - Neste tronco sua dor logo irá passar
 Sente-se  com o mucubu, nada de bunda ajeitar
Garanto que rapidinho a criança vai chegar.
Alfazema foi queimada, para o quarto incensar.
A catinga da placenta ela iria ocultar
Coroou para a vida a criança afinal.
E foi assim que nasceu,   a menina do Vaqueiro,
Beleza  regional,  moreninha,  bem gordinha
E o parto foi normal.

Mané Beradeiro
Parnamirim – RN , 15 de novembro 2016