sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

COMENTANDO MINHAS LEITURAS DE CORDEL: O CORDEL DE BANDEIRA VERDE



"A literatura de cordel tem muitos caminhos. Muitas estradas que possibilitam o seu conhecimento e estudo por parte de escritores das mais diferentes áreas da cultura"
Veríssimo de Melo


A preocupação com o planeta  Terra não é apenas restrita  aos cientistas, ambientalistas, biólogos e outras pessoas . Há  uma classe  composta de homens e mulheres que também tem dado sua contribuição para esse propósito, sem gritar, sem ir às ruas, sem  fechar rodovias e aeroportos.  Esse grupo usa a arte da poesia para com ela fazer sua tribuna. Alguns dos seus componentes são conhecidos por cordelistas,  e é sobre  quem quero escrever neste momento, mais especificamente os que têm feito do cordel, uma voz a favor desta causa que é a conservação da vida em sua forma mais ampla.

A CANÇÃO DO TIO DITO


O primeiro de quem quero escrever é Marco Haurélio, baiano, graduado em Letras Vernáculas ( Universidade do Estado da Bahia), um poeta já bastante conhecido , autor de vários livros. Dele,  pego o livro-cordel A CANÇÃO DO TIO DITO, Paulos 2015, todo  escrito em  72 estrofes  de quatro versos. A quadra já foi usada no cordel mas com o passar dos anos, a sextilha ficou sendo a forma de estrofe mais utilizada pelos poetas.

Nesse livro-cordel Marco Haurélio  nos mostra a historia de Benedito (Dito)  e seu diálogo com o menino Perseu, no tocante a sua experiência com a seca e pela ótica do  Dito,  a revolta da natureza como resposta às suas atitudes com a fauna.  De maneira  bem atenuante, o poeta Marco Haurélio retrata a saga do nordestino em busca da cidade grande e a mudança que o  Dito vai sofrer sendo agora o prisioneiro dentro de casa:

Passou o tempo, e a vida
Mudou nas grandes cidades:
As nossas casas agora
Eram fechadas com grades
(HAURÉLIO, 2015)

Um dia porém, na vida de Dito, algo extraordinário acontece e ele passa a dar um novo sentido à sua existência.

Como, de fato, mudei
A minha vida, Perseu.
Naquele dia tão triste
Um homem novo nasceu.
(HAURÉLIO, 2015)

Deste momento em diante a narrativa do cordel vai ganhando mais beleza poética no desenrolar do enredo,  levando o leitor às cenas que considero  as mais lindas do texto. A lição deixada por Dito é  indelével,  marcante.  Mostra-nos que não há idade, nem tempo para ajudar o mundo a ser melhor.  A Canção do Tio Dito é um livro-cordel que tem como público alvo as crianças. Contudo, nada impede que seja lido por adultos, afinal crescemos, mas não abandonamos a criança que existe em nós. 

Por fim, não posso terminar esta parte da resenha sem fazer referência ao trabalho encantador  de Nireuda Longobardi, potiguar que reside em São Paulo. A ilustradora usou a xilogravura e através dela conseguiu juntar a beleza do desenho  com a alma do texto. A propósito, quero até afirmar que foi a beleza das ilustrações que me chamou a atenção e me fez trazer o livro.



O POETA COM NOMES DE SANTOS


Antonio Francisco, natural de Mossoró, terra que ama e venera, é outro poeta que dispensa apresentação. Traz como nome de batismo o peso de dois santos que amaram a natureza: Antonio e Francisco, santos que abalaram o mundo.  O poeta tem também cumprido sua missão de bardo, dando enfoque em seus textos em narrativas que nos chamam à reflexão da nossa responsabilidade com o planeta no qual vivemos.
A boa literatura sempre fica e assim como acontece com o vinho, quanto mais tempo decorrer melhor será sua degustação. Nesse pensar, o poeta Antonio Francisco tem plantado suas sementes de imortalidade em textos que caminham sem sombra de dúvidas para o  canon dos folhetos clássicos.

Vejamos algumas mensagens escritas por Antonio Francisco, que estão vestidas com a cor verde da esperança num mundo que pede transformação.  "Um caroço de manga" um folheto (com 12 sextilhas agalopadas)  que embora pequeno nos ensina grande lição, a saber: a vida  da natureza depende exclusivamente da ação do homem.

E todos tratamos daquela plantinha
Com arte, magia, respeito e cuidado.
A planta cresceu robusta e bonita,
Jogando seus galhos por todo cercado,
Ficando na frente dos raios do sol,
Deixando o terraço da casa arejada .
(FRANCISCO, SETEMBRO 2015)

E quando o homem se responsabiliza por essa missão, a natureza  se expande:

E da noite pro dia a mangueira floriu
Jogando seu cheiro pelo matagal,
Atraindo rebanhos de ´pássaros selvagens,
Formando na copa da árvore um coral,
Cantando as canções mais lindas da mata
No palco de terra do nosso quintal.
 (FRANCISCO,  SETEMBRO 2015)

A vertente poética de Antonio Francisco está apenas começando. Vivendo numa terra árida, pisando num solo duro como ferro e quente como fogo, o poeta pensa e cria seu mundo, que passa a ser também o nosso, tão desejado, desde quando perdemos o Paraíso  e passamos a querer destruir o berço que nos foi dado, em sua flora e fauna.

Um certo dia eu estava
Ao redor da minha aldeia
Atirando nas rolinhas,
Caçando rastros na areia,
Atrás de me divertir
Brincando com a vida alheia.
(FRANCISCO, MAIO 2015)

Se somos livres para escolher, nos tornamos escravos do que escolhemos, alguém já disse isso. E a consequência desta "brincadeira" é a própria resposta que a natureza nos dá, um mundo carregado de fome e outras injustiças decorrentes da falta que faz "Aquela dose de amor" ( 32 estrofes, 31 sextilhas e 1 setilha).

Ainda bem que temos os poetas, e entre eles Antonio Francisco para nos dizer verdades que tocam a alma, a ponto de refletirmos:

E eu fiquei ali em pé
Coçando o queixo com a mão
Pensando se era verdade
As frases do ancião
Ou se tudo era fruto
Da minha imaginação.
(FRANCISCO, MAIO 2015)

Quando o poeta Antonio Francisco  faz a caneta  chorar as sequelas da maldade humana, ele não apenas toca no problema do  meio ambiente e sustentabilidade, mas nos mostra a ferida mais vergonhosa  que temos em nosso corpo coletivo, a fome. Um quadro  que toca nosso sentimento e é preciso  ter nervos de aço para não ser atingido com tamanho realismo, encontramos no folheto "Deus e sol, farinha e sal" (12 sextilhas agalopadas)

E alheio aos gritos da pobre mulher
No mato um carão  começa a cantar.
Maria escuta  e grita:-José!
Carrega a espingarda  vá Devagar
Atire José, atire pensando
Que atira na fome que quer nos matar!
(FRANCISCO, NOVEMBRO 2014)

Confesso que poucas vezes encontrei na literatura uma cena que fosse tão impactante. Recordo-me apenas de "Vidas Secas" do grande Graciliano Ramos, quando retrata o olhar da cachorra Baleia. Não direi mais nada sobre os poemas, pois é meu intuito que o leitor também sinta a sede de beber nesta fonte.


E quando pensamos que o poeta nada mais tem a nos presentear, eis que aparece "Meu Sonho" (37 estrofes, 36 sextilhas e 1 setilha), no qual Antonio Francisco sistematiza  o mundo ideal. A harmonia perfeita, dentro do qual o homem respeita a natureza. Extasiado diante de tanta  beleza,   assim se expressa  o poeta, dando voz ao eu lírico:

O meu planeta, senhor,
Do seu é bem diferente.
No meu, o pai vai ao shopping,
Leva seu filho inocente,
Compra armas de brinquedo,
E dá a ele de presente.

....

Eu disse: -Sou de um planeta
Que só vive em pé de guerra,
Onde fabricam doenças,
Onde a Justiça mais erra...
Uma gaiola de loucos
Com o nome 'Planeta Terra'
(FRANCISCO,  SETEMBRO 2015)


E, finalmente, fechando essa resenha sobre o Cordel Verde. Não poderia terminar sem aludir "Os Animais têm Razão" ou "Os Sete Constituintes" ( 35 estrofes, 34 sextilhas e 1 setilha) , talvez o mais conhecido poema de Antonio Francisco, no qual sob a copa de um Juazeiro sete animais se reúnem para discutir sobre a ação do animal homem na destruição do planeta.

Porco, cachorro, cobra, burro, rato, morcego e vaca todos argumentam  que se o homem não mudar suas atitudes, seu pensamento em relação ao meio ambiente, estamos fadados ao desaparecimento. Esse cordel é um cântico que vai ecoar por muitos anos. Daqui a 200 anos ainda se falará dele, e certamente o poema será lembrado como grito que foi dado por um poeta cordelista.

É chegada a hora de entendermos  a mensagem do morcego:

 "...
E disse:-Eu sou o único  
Que não posse dizer nada
Porque o homem pra nós
Tem sido até camarada

Constrói castelos enormes
Com torre, sino e altar,
Põe cerâmica e azulejos
E dão pra gente morar
E deixam milhares deles
Na ruas, sem ter um lar"


CONCLUSÃO

Seja Marco Haurélio, Antonio Francisco  ou qualquer outro poeta que escreva versos em prol da defesa do nosso planeta, e se eles vêm na forma do gênero poético de cordel, isso só corrobora com o que escreveu Veríssimo de Melo e transcrevi no início da resenha. Escrevam poetas, escrevam cordéis que já nasçam destinados à imortalidade.  Não fiquem apenas nos temas circunstanciais, pode se criticar a vida usando a imaginação, deixando mensagens que edificam. Lembre-se do que disse Delarme Monteiro da Silva: Os folhetos de época passam. O romance fica (PROENÇA,1976, p.43)


Mané Beradeiro

 
Nota:  As resenhas foram feitas com base nos cordéis  que eu tenho em minha biblioteca e foram lidos por mim. Com certeza devem existir outros textos poéticos, até mesmo de Marco Haurélio e Antonio Francisco, bem como de outros,  que eu desconheço e tratam deste mesmo assunto.

Referências

Francisco, Antonio. Um caroço de manga. Mossoró-RN, Editora Cordel, Setembro 2015.
_______________. Aquela dose de amor. Mossoró-RN, Editora Cordel, Maio 2015.
_______________. Deus e sol, farinha e sal. Mossoró-RN, Editora Cordel, Novembro 2014.
_______________.Meu sonho. Mossoró-RN, Editora Cordel, Setembro 2015.
_______________. Os Animais tem Razão. Mossoró-RN, Editora Queima-Bucha.
HAURÉLIO, Marco. A Canção do Tio Dito. São Paulo, Editora Paulus, 2015.
PROENÇA, Ivan Cavalcanti. A Ideologia do Cordel. Rio de Janeiro, Imago Editora, 1976.

TORPEDO DE MANÉ BERADEIRO 035/2018




 João Leso*  bem lembrou: "Quem se agarra sem ter unhas está no risco de cair", e para garantir  esse dito popular venha cá e fique lá, mas não esqueça da Palavra que vive a exortar: O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O SENHOR é a fortaleza (Salmo 27, versículo 1)


* Personagem do cordel "Como João Leso vendeu o bispo" de Leandro Gomes de Barros

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

SOBRE O CAFÉ MAGESTIC






Mas a casa de diversões mais importante deste bairro foi o “Café Magestic” que teve vida quase centenário. Primeiro, com o nome de “Potiguarania”, nele se reuniam os poetas, prosadores e intelectuais do fim do século passado para começo do atual. Este Café já foi descrito pelos nossos historiadores. Depois surgiu o Magestic no mesmo local do outro e ficava na esquina da rua Vigário Bartolomeu, nº 549 com a rua Ulisses Caldas, nº 101. O prédio ainda é o mesmo, tendo sofrido apenas modificações internas. Imóvel, baixo e feio, mas ao gosto da época de sua construção. A única coisa interessante na sua arquitetura é a coluna curva na esquina do prédio.

O “Magestic” tem muitas estórias, nas diversas épocas de muitas gerações. Mas o período mais vibrante, mais cheio de vida, onde a boêmia e o bom humor dominavam o tradicional Café, foi, mais ou menos, entre os anos de 1919 a 1935. Os fatos, as anedotas e as peças verificadas e planejadas ali dariam para grosso volume, sendo que algumas não poderiam ser escritas tal a irreverência do ocorrido, mesmo porque alguns autores já foram para o outro mundo.

Na época acima citada, encantava o Magestic o respeitável grupo de poetas, escritores, intelectuais e de bons bebedores e comedores: Jorge Fernandes, Francisco Madureira, Baroncio Guerra, Valdomiro Dias, Pedro Lagreca, José Laurindo, Teodorico Guilherme, João Carvalho Cruz, Américo Pinto, Eurico Seabra, Francisco Pignataro, Lustosa Pita, Damasceno Bezerra, Luis Maranhão e muitos outros. Todos amigos e “irmãos da opa”. Ninguém tinha o direito de ficar aborrecido, por mais pesadas que fossem as brincadeiras.

Assim é que o Francisco Madureira foi vítima de uma peça que quase o levou ao cemitério. Madureira era baiano e, como tal, gabava-se de ser grande comedor de pimenta. Foi-lhe armada uma cruel cilada. Adquiriram no Mercado, que ficava próximo, um pacote de pimenta malagueta e mandaram preparar porco assado, camarão, etc. À noite, quando Madureira chegou, formaram uma grande roda e a cerveja jorrou sem parcimônia. Quando Madureira já estava com umas “200 libras”, veio então a questão da Bahia e pimenta. Um da roda disse que Madureira era um falso baiano, porque não comia pimenta como um baiano autêntico costuma fazê-lo e era assim um baiano desmoralizado, o que foi aprovado por todos os outros. Madureira protestou aos gritos e disse que iria provar como ele era baiano legítimo. O homem, coitado, caiu na esparrela. Pediu pimenta e veio um prato cheio. Começou então a devorar camarões e mastigando pimenta. Quando então folgava um pouco, os amigos da onça diziam: “Só isso! Fulano de Tal, que não é baiano, come muito mais”. E o infeliz Madureira comia mais pimenta e quando parava um pouco vinha a mesma alegação. Pimenta, pimenta e pimenta. Com pouco tempo, o homem, como se diz a gíria: “botou pra morrer”, sufocado, agoniado e com os olhos querendo sair das órbitas. Foi então levado para sua casa e passou vários dias muito doente. A turma teve, no Magestic, vibração por muitos dias.

De outra feita, o imortal Jorge Fernandes estava tomando umas e outras quando apareceu um homem vendendo, em uma gaiola, um galo-de-campina cantador. Jorge chama o homem e pergunta quanto custava o concriz. O homem responde que o pássaro não é concriz e sim um galo-de-campina. Jorge Fernandes retruca que o bicho é um concriz e o vendedor reafirma que é um galo-de-campina. Ora, Jorge, velho conhecedor de pássaros, sabia que o animal era realmente um galo-de-campina, e então, convida o homem para sua mesa, e dá logo a ele uma grande “talagada”. A conversa animou-se ainda mais quando Jorge recita aqueles versos maravilhosos, inclusive o “Banho da Cabocla”. Quando o vendedor já estava “com meio lastro” levantou-se para ir embora e então Jorge Fernandes disse: “Vá amigo vender seu galo-de-campina”. Aí então o vendedor que havia recebido tantas atenções e mais ainda encantado com a palestra de Jorge Fernandes, disse: “Não, doutor. Agora é que reparo bem: o passarinho é mesmo um concriz”.

Outra ocasião, também no Magestic, estava uma vasta roda de “comes e bebes”, quando chega um homem, amigo da turma, que era dono de um barracão na antiga feira externa do velho Mercado da Cidade Alta. O homem lamentava-se então do fiado, que estava acabando com seu negócio. O poeta Jaime Wanderley, que nesta época gostava de cerveja e já “meio triscado” disse: “O amigo precisa de colocar um aviso em seu barracão para acabar com o fiado. Quer um aviso?”. O comerciante então disse que aceitava com muito gosto. Jaime, então, tomou de um pedaço de papelão e escreveu:

Pra que não haja transtorno

Aqui no meu barracão,

Só vendo fiado a côrno,

Fela da puta e ladrão.

O homem colocou o aviso e o fiado acabou-se.

O Café Magestic ficava em um ponto muito movimentado porque estava bem em frente ao “Royal Cinema” e à noite o movimento era grande. Bem na esquina do Magestic fazia ponto com sua carrocinha, o sorveteiro português “Seu Silva”, que ali trabalhou por muitos e muitos anos, até a data do seu falecimento.

Nunca Natal tomou um sorvete tão bom e exclusivamente de frutas, sem qualquer complicação dos sorvetes hoje usados.

O Magestic era também o “quartel general” da brigada de choque comandada pelo jovem Renato Wanderley, hoje próspero homem de negócios residente na Guanabara.

Naquela época, como se sabe, o transporte era quase que exclusivamente marítimo, e como sempre havia navio no Pôrto, os passageiros saíam para conhecer a terra. Também naquela época os passageiros, principalmente, os rapazes eram mal-educados e quando chegavam em uma cidade pequena como a nossa era para esculhambar. Hoje se diz: “bagunçar o coreto”. Natal, então, cidade pequena e pobre, era vítima daqueles canalhas e até as moças sofriam pilhérias quase sempre grosseiras. Chafurdavam toda a cidade. Bondes, cafés, jardins e cinemas. Renato que era rapaz vivo, valente e, sobretudo, muito querente de Natal, resolveu tomar uma providência, já que o policiamento era muito benevolente. Escolheu uma dúzia de rapazes dispostos, deu instruções e esperou os acontecimentos. Assim, quando havia vapor no Cais, principalmente à noite, Renato ficava na espera e destacava uma pessoa para acompanhar de longe os viajantes, isto é, saber se estavam ou não bem comportados. Quando, então, os mal-educados começavam a esculhambação, o vigia corria para o Magestic e dava o alarme. Renato então descia com a brigada de choque e o braço comia. Depois da refrega eram levados para o Cais Tavares de Lira e obrigados a embarcar. Às vezes a luta era grossa porque do outro lado também havia gente valente. Aí então a polícia aparecia e dava uma mãozinha ao Renato. O fato é que, em pouco tempo, a notícia correu mundo e os canalhas desapareceram. Renato prestou assim inestimáveis serviços a Natal e à família natalense. Entretanto, Renato não recebeu nenhuma condecoração. E há por aí tanta gente com medalha ao mérito sem nenhuma ação prestada com o risco de suas ventas.


Observação: Crônica copiada do livro Natal que eu vi, de Lauro Pinto. Imprensa Universitária - Outubro  1971.




segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

COMENTANDO MINHAS LEITURAS DE CORDEL: CHICO CATATAU



CHICO CATATAU - UM CANGACEIRO DIFERENTE

O cordel narra a história de Francisco Marival, o Chico Catatau, personagem fictício, criado pelo poeta Izaías Gomes, que está distribuída em 108 páginas, através de dez capítulos e 480 estrofes em sextilha.  A narrativa do texto se dá na terceira pessoa, com o narrador presente no espaço das cenas, mas sempre um pouco distante,  o suficiente para tudo ver e narrar: “O recém falava fino/ Um pouquinho atrapalhado/ Eu que era bem menino/ Me lembro do apurado/ Vendo o povo feito ruma/Correndo desembestado” ( estrofe 16, p. 8. Grifo nosso).  Esta presença é também sentida pelo Chico Catatau a ponto dele manter o desejo de se comunicar com o narrador:
                           
                                 Catatau inda clamou:
                               -Me acuda Ave Maria!
                               Me ajude nessa hora
                               Ou o autor da poesia
                               Se ele não mudar o verso
                               Morrerei nessa agonia
                               (ASSIS, 2014, p. 73)

Para criar o enredo dessa história, que é preciso afirmar ser muito bem montado, o autor Izaías Gomes deu vida a mais de vinte personagens. Chico Catatau – um cangaceiro diferente está como obra literária poética, dentro do contexto do cordel no Rio Grande do Norte, como uma das principais obras de gracejo/valentia,, assim como “As Pelejas de Ojuara” de Nei Leandro de Castro, está para a prosa potiguar.

Izaias Gomes
A história tem como berço o povoado do Ingá, no município de Montanhas-RN. E é nesse torrão potiguar que as cenas acontecem e continuam até Catatau partir para a dimensão espiritual, quando passa a transitar pelo Céu, Inferno e Purgatório. Todo autor deixa sempre um pouco do DNA dos seus conhecimentos nos textos que ele escreve, isso é normal, pois tudo quanto escrevemos, seja em prosa ou poesia, há nas entrelinhas aquilo que pensamos e lemos.  Com o poeta Izaías Gomes não foi diferente, é bem forte a existência do seu pensar, no tocante a religião.
A história de Catatau contém várias estrofes, nas quais o sentimento religioso do protagonista é conflitante com o sentimento do narrador. A própria cena inicial tem como palco o espaço sagrado de uma capela, onde a criança nascerá.  Ao longo da narrativa não serão poucas as vezes em que Catatau estará demonstrando seu sincretismo religioso, mesclando a fé católica com práticas do culto afro-brasileiro.  Se por um lado é notório este comportamento, que nada mais representa do que a realidade popular na qual está inserido Catatau e sua família, como elementos que retratam a fé ora vivida dentro do mundo católico, ora através do ritual afro-brasileiro. Vejamos a resposta que Zacarias, pai de Catatau dá ao Padre  Téo no tocante a consulta do xangozeiro:
                               -Padre, sei que somos falhos,
                               Nós todos perante Deus;
                               Pois eu tenho alguns pecados,
                               Seu vigário tem os seus,
                               Então fique com os vossos
                               Que fico aqui com os meus
                               (ASSIS, 2014, p. 27)

E é exatamente nessa estrofe, onde o poeta narrador, através do eu lírico, arremete suas setas, deixando claro seu posicionamento no tocante à fé, é  o conflito que citei acima. Nasce ali uma sequência de mensagens subliminares, presentes ao longo do poema, onde somente um leitor mais experiente irá perceber ou então se perguntar quando na última página ler a declaração que faz o autor.   Finalmente, podemos assegurar que o cordel, ora resenhado nos ensina que nada é perdido para sempre. Há uma esperança e o bem vence o mal, aliás, uma constante em outros poemas de cordel.
Um texto poético precisa apresentar três características: subjetividade, emoção e lirismo.  Junte-se a isso, que se tratando de um poema em cordel, é indispensável que haja também rima, métrica e oração.  No tocante às três primeiras características é bem fácil detectar a subjetividade e a emoção. Mas e o lirismo? É possível encontra-lo em Chico Catatau? Leia o livro e tente descobrir.
 Conclui o poeta Izaias Gomes prometendo que a história termina aqui, por enquanto, mas que ele irá escrever outra vez sobre Chico.
Gostaria de trazer a essa resenha, algumas considerações que acho importantes e ao meu ver enquanto leitor, terminam afetando a estética do texto poético. São elas:

1)      O uso da palavra orgia (p. 7), embora ele esteja  empregada de forma correta, que neste caso significa desordem, anarquia, tumulto.

2)      Na 13ª estrofe, p. 8, o poeta usa a expressão: “ já tando raiando a luz”. Creio que se ele  tivesse usado o verbo sem ser na forma contraída o verso ficaria melhor:  Estando raiando a luz. Como se vê sem quebra da métrica.

3)      Expressões coloquiais:  O uso do verbo estar, em sua forma contraída, na expressão coloquial é uma constante ao longo do texto. Encontramos várias vezes:  tando” ( p. 8, );  “tava” (p. 8, 17, 24, 34, 44, 46, 60, 65, 71, 76, 88 ...); “tô” (p. 41),  em outras estrofes (p. 66, 106)) e as vezes dentro da mesma (p. 34 )  encontramos as formas culta e a coloquial. Isso se aplica também ao  advérbio de negação, não, que  é  usado nas duas formas. Exemplos:

              não era para voar” (estrofe 214, p. 52)
“ele aprontou outras coisas,/que não pude enumerar” (estrofe 217, p.53)
num acertava em ninguém” (estrofe 219, p. 53)
O portão tinha selado/ Pra meu Chicão num entrar” (estrofe 374, p.88)
Quem sabe eu num revelo” (estrofe 478, p. 108)

Essa oscilação entre as linguagens coloquial e a culta não  considero errada, mas penso que o autor poderia ter optado apenas por uma.

4)      O verbo vir foi um gargalo no texto, o autor usou  “vim” quando deveria usar “vir”. “Dizendo:-Pode vim todos ...” (estrofe 54, p. 17) , “-Quem for macho pode vim” ( estrofe 413, p.96), “-Como é que pude vim” ( estrofe 458, p. 104). Teria sido um erro de digitação?

5)  O cordel tem ao todo  2.880 versos, nos quais 1.440 versos estão rimando  da seguinte forma: o segundo, o quarto e o sexto,  é o que chamamos rima xaxaxa.  O poeta Izaias Gomes foi brilhante nas rimas, deixando  a desejar apenas a estrofe 13, p 8, onde ele rimou luz/cruz/cruz .

Era de madrugadinha
Já tando raiando a luz
o menino atravessado
Saía como uma cruz
quando o padre viu o peste
Fez logo o sinal da cruz
Os  cordelistas sabem que não fica bem ter rimas repetidas numa mesma estrofe.

Há outras frases que trazem erros gramaticais, o que infelizmente vai tirando o brilho da beleza estética do poema.


Mané Beradeiro

Referência:
ASSIS, Izaias Gomes de. Chico Catatau - um cangaceiro diferente.  1ª ed. Parnamirim: Isvá Editora, 2014.

Imagen de Izaias - disponível em < https://www.google.com.br/search?q=chico+catatau+um+cangaceiro+diferente&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwib8fDO5bTYAhWEDJAKHT4VBgMQ_AUICigB&biw=1366&bih=635#imgrc=bJ_JRx2RkfAouM:> Visualizada em 31 dez 2017.


QUERO DOM MARCOLINO DANTAS NO MAPA DO RN

Dom Marcolino Dantas é um pequeno povoado que faz parte do município de Maxaranguape-RN, distante da capital aproximadamente 50 km, no sentido do litoral norte, chega-se lá partindo de Natal, através da BR 406 até a cidade de Ceará Mirim e depois segue na RN 064, onde logo depois da travessia  do Rio Maxaranguape, no primeiro  posto de gasolina à esquerda, é a entrada que dá aceso a Dom Marcolino Dantas. O local tem esse nome em homenagem àquele que foi o primeiro Arcebispo do Rio Grande do Norte, Dom Marcolino Dantas, baiano.

Dom Marcolino - o Arcebispo
Um povoado sem expressão cultural, sem importância econômica, sem riquezas minerais, mas um lugar cheio de encantamento e de pessoas maravilhosas. Estive lá no dia 27 de dezembro último, quando fui visitar minha irmã. Revi as ruas de Dom Marcolino, largas, ainda com aquele ar interiorano, cheias de árvores.  Caminhei à noite, sem muita preocupação, embora saiba que ali também já chegou a violência desenfreada que galopa pelo Rio Grande do Norte.
Voltei no dia seguinte, já com vontade de retornar o mais breve possível e poder aproveitar mais daquele lugar. Prometi a mim que em 2018 irei mais vezes ali. Tentarei escrever um ensaio histórico daquela comunidade, inclusive visitando algumas pessoas que ainda estão lá e foram colunas da fundação do povoado.  A toponímia  é algo muito importante para a identidade de um povo, uma cidade.  E é aqui onde quero fazer meu registro  e pedir aos vereadores de Maxaranguape que tomem providência junto ao DNIT - Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes - mais especificamente  no Rio Grande do Norte  para que solicitem que o nome do povoado DOM MARCOLINO DANTAS apareça no mapa do Rio Grande do Norte com o nome real, e não da forma que lá aparece, conforme consta no site do DNIT, endereço eletrônico abaixo, com a nomeclatura de  Dom Eugênio. Veja a foto:

Com base em quais documentos ou informações o DNIT chegou a esse nome?  Pelo que eu sei, Dom Eugênio Sales foi o primeiro nome  dado a Punaú, que também foi outro povoamento, fruto de um programa de reforma agrária, realizado pelo INCRA, nome que sempre foi renegado pelo povo, que preferiu continuar chamando Punaú, e assim ficou. Sabemos que Dom Marcolino é pequeno, mas mudar o nome é uma atitude no mínimo zombeteira com os seus habitantes.


http://www.dnit.gov.br/download/mapas-multimodais/mapas-multimodais/rn.pdf. Visualizado em 1 de janeiro de 2018