quarta-feira, 29 de julho de 2009

FOI AUTA DE SOUZA UMA POETISA MÍSTICA?

Durante muitos anos se pensou que Auta de Souza foi uma poetisa mística. Isto se deve ao fato das suas poesias sempre terem como tema a ligação Homem/Deus. O poeta Francisco Palma a chamou de "Cotovia Mística das Rimas"; o próprio Olavo Bilac assim se refere a Auta: "mas a nota mais encantadora do livro é a do misticismo, que dá a algumas das suas poesias." Nem mesmo o irmão Henrique Castriciano ficou fora deste conceito quando assim escreveu: "mas, sem a dor que lhe requintou a fé, Auta certamente não teria encontrado a forma com que dá cor e relevo às visões do seu misticismo." Outros também afirmaram isto, como Tristão de Ataíde, Jackson de Figueiredo, Perilo Gomes e Palmira Wanderley.
Mas é com Câmara Cascudo que esta cortina há de cair, pois assim se expressa o mestre: "A minha geração em Natal, aqueles que começaram a escrever ao redor de 1928, receberam Auta de Souza como a Poetisa Mística do Brasil. Nenhum de nós sabia o que vinha a ser misticismo. O título era sonoro e orgulhador para o nosso provincianismo sedento de notoriedade. OLavo Bilac e Nestor Vitor diziam-na "mística". Podiam resolver. Tinham autoridade. Estávamos todos enganados. Eles e nós".
Desta forma, é certo afirmar que Auta de Souza não é poetisa mística. O místico tortura a carne para edificar o espírito. Ela jamais se enclaustrou, nunca teve êxtases ou visões, não vivia de forma contemplativa. E para fechar esta afirmação com segurança, veja o que diz a Doutora Maria de Lourdes Belchior, da Universidade de Lisboa: "Não há escritores místicos na Literatura Portuguesa, nem na Literatura Brasileira. Existem, tão só, autores espirituais."
Inegável é que "a religiosidade de Auta de Souza era profunda, sincera, modular, mas não ascética, mortificante, mística" (Câmara Cascudo).
Então, pelas razões expostas acima, Auta de Souza não é poetisa mística. Seria ela uma simbolista? Esta pergunta respondo brevemente.