sexta-feira, 4 de setembro de 2009

SAPOTERATURA IV - A DESCOBERTA DE ÁLVARO

( Mais um conto da minha obra inédita Sapoteratura).

Esta é uma história para crianças. Ela aconteceu há pouco tempo, logo após o Sol se por.
Numa noite calorenta resolveu o sapo sair para caçar alguns insetos. Ele vestiu uma bermuda, a camiseta regata, calçou os tênis, foi ao banheiro, molhou o rosto, beijou a esposa e disse:
__Vou até a casa 131. Disseram-me que lá tem muitos formigueiros. Ao ouvir isto, Dona Sapa aconselhou:
__Tome cuidado! Lá tem crianças, vê se não as assustam e toda precaução é pouca, cuide-se para não ser apedrejado. Você sabe, quando as crianças nos vêem ou se assustam ou nos apedrejam.
O sapo acatou os sábios conselhos da sua companheira e se foi. Cruzou a rua com passadas largas, com aquele seu jeito desconcertado de andar, pois temia ser atropelado. Ao chegar a frente da casa 131, subiu a calçada e caminhou em direção ao portão, percebeu que ele não estava totalmente fechado e por uma abertura pode entrar.
Lá de dentro, veio ao seu encontro uma cachorra. Latia muito dizendo:
__ Au, au, vá embora senhor sapo. Aqui não há lugar para você morar.
__Calma, senhora cachorra, disse o sapo, eu não vim para morar, quero apenas caçar algumas formigas e logo vou embora.
__Au, au, vê se não demora. Falou a cachorra e saiu com aquele andar orgulhoso, ao mesmo tempo em que pensava: “sapos, que bichos feios, talvez sejam por isto que os humanos não os querem”.
O sapo estava debaixo da goiabeira, comendo formigas e pondo outras numa bolsa para levar. De repente ouviu uns passos em sua direção, era uma criança com dois anos de idade.
O menino ao vê-lo parou e ficou surpreso com aquela criaturinha. Neste momento, ele pensou nas palavras ditas por sua companheira. Olhou para o rosto do menino e viu que ele não estava com medo, olhou para as mãos e percebeu que também não tinha pedras.
O batráquio sorriu, fez o melhor sorriso que sabia para aquele filhote de humanos, que indo ao seu encontro, acocorou-se e ficou vendo-o comer formigas. A criança passou um bom tempo contemplando aquele bichinho.
Eis que se ouviu alguém chamar:
__Alvinho, oh Alvinho, onde você está?
O sapo percebeu que era com aquele filhote. E isto foi confirmado quando a criança se levantou e disse:
__Cá, mamãe.
A mãe foi ao encontro do filho e quando notou o sapo, também não demonstrou medo. Alvinho apontou para o bichinho e mostrou a sua mamãe a descoberta. Ela pegando o filho nos braços disse:
__Este é um s a p o. S a-p o. Repetiu a mamãe varias vezes com voz pausada, ensinando a Alvinho o nome daquela criaturinha.
__Aapó, aapó, repetia Alvinho. A esta altura, o sapo já estava de pança e bolsa cheia. Era a hora de pegar o beco, voltar para casa. A mamãe tinha entrado com Alvinho, e de lá de dentro da casa se ouvia vozes de outras crianças. Eram os irmãos de Alvinho brincando, que foram interrompidos por ele, assim falando:
___Ur, Ur, Cocóise, Cocóise, Aapó, aapó.
A mamãe esclareceu:
__Ele está dizendo para vocês Arthur e Matheus que viu um sapo. As crianças riram e continuaram a brincar.
Matheus se pôs a cantar:
__Eu vi um sapo, na beira do rio, com camisa branca, morrendo de frio. Não era sapo, nem perereca, era Alvinho, só de cueca!