O leitor — chamemos-lhe apenas leitor, pois o nome não importa agora — estava folheando um livro, quando sua mão encontra um envelope de carta, internacional. Isso lhe chamou a atenção, afinal, em 2026, tempo de whatsApp, e-mails, redes sociais, não há mais espaço para cartas.
O envelope trazia as cores branca, vermelha e azul. O selo dizia o país de origem: República Francesa, e o carimbo dos Correios — nítido, perfeito, como se o tempo tivesse respeitado aquele 30 de setembro de 1972.
Pegou o envelope com cuidado, quase com reverência. O papel era fino como as asas de uma libélula. O remetente: Jean-Luc Moreau, 14, bis Rue de la Buffa, 06, Nice, França. O destinatário: D. Isabel de Holanda Cavalcanti, Rua General Câmara, 67, Natal-RN, Brasil.Percebeu que estava aberto, dentro, a carta, escrita numa caligrafia inclinada à direita, firme como quem não hesita, e ao mesmo tempo trêmula nos contornos, como quem escreve sob o peso de algo que aperta o peito.
O leitor pensou se deveria ler a correspondência que não lhe pertencia, endereçada a uma mulher que, muito provavelmente, já não estava entre os vivos. Cinquenta e quatro anos se passaram. Mas a curiosidade foi maior e ele puxou aquela folha única.
A tinta era escura, um
azul-petróleo, e as letras pareciam ter sido feitas com uma caneta-tinteiro que
ora soltava mais tinta, ora menos — como o fôlego de alguém que corre e para,
corre e para.
O leitor sentou-se no banco de
madeira do sebo e começou a ler.
Nice, 28 de setembro de
1972
Cara Senhora Isabel,
Há três semanas tenho
sonhado com a senhora. Não sei quem é, nunca a vi, nunca ouvi seu nome antes.
Mas nos meus sonhos a senhora está sentada numa sala de paredes altas, cheia de
livros, com uma janela que dá para um jardim — e lá fora uma jaqueira imensa. A
senhora veste um vestido escuro e lê em voz alta, mas não consigo ouvir o que
diz.
No sonho, sempre olho
para suas mãos. A senhora segura um objeto pequeno e prateado — um prendedor de
cabelos, talvez, ou um broche. E há algo errado com a luz. A luz da sala vai
ficando alaranjada, depois vermelha, e o ar fica pesado. A senhora não percebe,
mas eu percebo. E grito, mas a senhora não me ouve.
Acordo com o coração
disparado e a sensação de que preciso impedir algo que já está em movimento.
Ontem à noite, o sonho
mudou. Vi números — 29, 30, 1. Vi um jornal, a data de outubro. E vi a senhora
caída, a cabeça tocando o assoalho, a mão ainda segurando o broche. Havia
fumaça.
Não sei se sou louco. Não
sei se isso que escrevo é loucura. Mas passei a manhã na prefeitura de Nice,
conferindo listas de passageiros, endereços, consulados. Descobri que a senhora
existe — uma professora de literatura brasileira, que esteve em Aix-en-Provence
em julho passado, num congresso. Deram-me seu endereço em Natal.
Pensei em não escrever.
Pensei em rasgar esta carta. Mas a imagem da senhora caída naquela sala não me
sai da cabeça.
Não sei o que vai
acontecer. Só sei que acontece em outubro. Nos primeiros dias. E tem a ver com
fogo. A senhora tem uma jaqueira no quintal?
Com todo o respeito e
toda a estranheza que esta carta lhe causa,
Jean-Luc Moreau
O leitor levantou os olhos do papel. àquela hora da tarde, com a luz dourada entrando pela porta de vidro fosco. Respirou fundo.
Guardou a carta dentro do livro. Nos
dias seguintes, a carta não lhe saía do pensamento. Quem era Isabel de Holanda
Cavalcanti? O que teria acontecido naqueles primeiros dias de outubro de 1972?
E, acima de tudo — ela teria recebido a carta a tempo?
Começou a pesquisa por onde qualquer
um começaria: a internet. Isabel de Holanda Cavalcanti, professora
universitária, Natal. Não foi difícil. Encontrou um verbete no site da Academia
Norte-Riograndense de Letras: Isabel de Holanda Cavalcanti (1921-1972).
A data de falecimento o fez parar. 3 de outubro de 1972. Três dias depois do
carimbo no envelope.
O coração do leitor bateu mais forte.
Leu o resto do verbete com os olhos queimando: Faleceu em decorrência de um
incêndio em sua residência, na Rua General Câmara, 67. Professora de Literatura
de Língua Portuguesa da UFRN, deixou vasta obra crítica...
Incêndio.
A palavra ficou pulsando na tela. O leitor fechou o navegador, abriu a gaveta onde guardara o envelope azul. Tirou a carta com cuidado. Leu-a de novo, devagar. A luz da sala — alaranjada, depois vermelha. A fumaça. A jaqueira no quintal — será que existia?
A carta saíra de Nice no dia 30. Voara da Riviera Francesa até o Rio
Grande do Norte. Se tivesse chegado no dia 2 ou 3 de outubro, teria sido tarde
demais? Ou teria chegado antes, e Isabel a lera — e não dera importância?
O leitor passou o polegar sobre a assinatura de Jean-Luc. Um homem jovem, francês, que tivera visões. Que tentara avisar uma mulher que não conhecia. Que escrevera uma carta do outro lado do Atlântico para impedir uma tragédia.
E que, muito provavelmente, nunca soube se ela chegou a ler.
13 de maio de 2026


Nenhum comentário:
Postar um comentário