quinta-feira, 30 de julho de 2020

COMENTANDO MINHAS LEITURAS: REVISTA DA ANRL - Nº 63 - ABRIL A JUNHO 2020

Manoel  Onofre Jr e Thiago Gonzaga entregam à comunidade leitora e literária, mais uma edição da Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, a de número 63, que corresponde aos meses de abril a junho do corrente ano.

Sabemos que eles sozinhos não fazem a revista, mas é graças ao labor tão dedicado que a dupla consegue garimpar material para compor a revista. Tenho acompanhado esta pugna  e sei o quanto eles são fiéis ao princípio do projeto editorial.

Convido os leitores a tomarem nas mãos a edição 63 da referida revista e sentirem o quanto a mesma está boa. Logo no primeiro artigo, o Presidente Diogenes da Cunha Lima vai salvar a estada de Clarice Lispector, em Natal, no ano de 1944. Iaperi Araújo e  Alfredo Neves escrevem sobre Abraham Palatnik, falecido esse ano. Vicente Serejo, o homem que ama livros, nos conta sobre a sua visita  a José Mindlin, ciceroneada por Genibaldo Barros. Um primor de texto.
Abraham  Palatnik

O  escritor e crítico literário Nelson Patriota traz a tona  acertos e feitos de Veríssimo de Melo. Sobre este folclorista eu escrevi um ensaio da importância dele na literatura de cordel. O poeta Paulo de Tarso Correia de Melo compartilha com os leitores,  nuances da sua amizade com outro grande poeta: João Cabral de Melo Neto. Murilo Melo Filho, que também partiu para a dimensão incomensurável,  é homenageado por Cláudio Emerenciano. Segue-se logo após, um artigo do Diretor da Revista, Manoel Onofre Jr, sobre João Wilson Mendes Melo, que viveu 99 anos e foi ocupante da cadeira 25 por 37 anos.
João Wilson Mendes Melo

Francisco Ivan é tema de assunto no artigo de Armando Prazeres, onde este trata sobre um banquete barroco, preparado por aquele. A poeta Diulinda Garcia escreve sobre outra mulher, também poeta, Myriam Coeli, dando-nos um breve perfil daquela que foi escritora e jornalista. O editor Thiago Gonzaga nos transporta à  arte literária de Dácio Galvão, um homem administrador da cultura, com relevantes serviços prestados à sociedade. O Acadêmico Jurandyr Navarro lembra Oswaldo de Souza, o músico e o  curador de arte.

Tome fôlego, pois ainda temos muito para apreciar.  Flávio Gameleira escreveu sobre Henry Koster e sua jornada pelo nordeste brasileiro; o cineasta e jornalista Valério Andrade não  errou um milímetro em seu depoimento sobre o amigo Valério Mesquita, corroborando com a citação bíblica "há amigos que são mais chegados do que um irmão". O médico  Daladier Pessoa Cunha Lima mostra que também conhece a anatomia das artes plásticas e em seu artigo trata  sobre "A Ultima Ceia", de Leonardo da Vinci. Encostadinho a ele, Francisco  de Assis Câmara  corre a pena escrevendo sobre  "A Beleza".

Veja bem! Até aqui a revista já pagou a edição, mas, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras sabe que este periódico é instrumento de luz, e assim sendo, o lume vai ficando cada vez mais brilhante com a participação do Padre João Medeiros Filho, que escreveu sobre Dom Adelino Dantas.  Eider Furtado teve seu necrológio (ou sessão saudade) feito por Carlos Gomes, seu amigo de longas datas.  Confesso que já passei da metade da revista e isso me causa uma ansiedade ao saber que só terei mais algumas paginas pela frente. O texto de Edilson Segundo tem a canocidade de um biógrafo. Ele da ao leitor o retrato de um menino, nascido no interior de Pau dos Ferros, que recebeu de Deus a grande missão de ser um semeador de projetos voltados ao povo, este menino cresceu, ultrapassou seus 90 anos e se chama Padre Sátiro.
Padre Sátiro

Denise Coutinho e Cássia de Fátima escrevem juntas sobre "A representatividade feminina em a "Parede" de Edna Duarte". Edna Duarte brevemente vai completar 81 anos. O artigo acima faz referência ao conto que a escritora  publicou no primeiro livro "Sete Degraus do Absurdo", em 1977.
Na sequência temos Francisco Fernandes Marinho, um pesquisador e escritor bastante conhecido no Brasil,  que nos lembra os 120 anos da plaquete : " Impugnação dos embargos do Ceará pelo Rio Grande do Norte", de Rui Barbosa.
Padre Cícero

Nas páginas 124 a 130 vamos nos encontrar com a figura  emblemática do Padre Cícero Romão Batista, num texto maravilhosamente escrito por Benedito Vasconcelos Mendes, homem que respira o sertão nordestino. Paulo Negreiros nos conta a saga da sua família, dando realce a  Cocota e principalmente a Manoel Fernandes Negreiro. A revista traz também uma entrevista que Lívio de Oliveira fez com Murilo Melo Filho, em julho de 2008.  No campo da ficção, temos os contos de  Humberto Hermenegildo, com "O Cortejo",  Clauder Arcanjo com "Sentença". Lívio Oliveira retorna com páginas de um diário, as quais têm sabor de crônica em tempo de pandemia e Arrmando Negreiros  escreve sobre o tema da COVID-19 e os números da peste atual.
Já no finalzinho da revista, Valério Mesquita, um célebre contador de causos populares, traz as letras do riso e as frases da alegria conduzindo o leitor a um relaxamento literário.
E como não podemos viver sem a poesia, a edição 63 é fechada com trabalhos de Jarbas Martins e Oreny Júnior.

Francisco Martins
30 de julho 2020



76 ANOS DO ENCANTAMENTO DE EXUPÉRY


Annecy
31 de julho de 1944, por volta das 13h30m, o piloto Saint-Exupéry, em sua nona missão como piloto de guerra tem a sua aeronave abatida sobre a região de Annecy, quando sobrevoava ao largo da Córsega. Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry nasceu em Lyon, França, no dia 29 de junho de 1900. Como escritor teve as seguintes obras publicadas:
Exupéry

Vôo Noturno - 1931
Terra dos Homens - 1939
Piloto de Guerra
Carta a um Refém
O Pequeno Príncipe - 1943
Cidadela - 1948 - obra póstuma.

O mais famoso dos seus livros, O Pequeno Príncipe, foi  traduzido para a língua portuguesa por Dom Marcos Barbosa.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

NORDESTINIDADE EM DECADÊNCIA

 
Luiz Carlos Freire
 
 
Há 27  anos, quando coloquei pela primeira vez os meus pés no Rio Grande do Norte, encontrei praticamente “outro país”. Da mesma forma seria o potiguar fazendo viagem contrária, pois somos países dentro de um país. Como não poderia ser diferente, as diferenças culturais variam na linguagem, alimentação, música, danças, formas de relações humanas, tradições, hábitos etc etc etc. Essa é a maior riqueza do Brasil: suas peculiaridades.

Câmara Cascudo escreveu em 1934 que haveria um dia que o homem do interior estaria falando igualzinho ao homem da capital, atribuindo esse processo ao fenômeno do rádio. As ondas sonoras acessíveis a todo o estado, levavam o modo de falar do natalense a todos os rincões norte-rio-grandenses. Desse modo espalhava-se as gírias, os vícios de linguagem, os neologismos, e as sintaxes tortas ou não, enfim a “modernidade” natalense chegava ao homem do campo, o qual, muitas vezes nem sabia onde ficava a sua capital, mas agia como se ali morasse.

Analisando essa reflexão, emprego o mesmo raciocínio na questão de uma espécie de decadência da nordestinidade em terras potiguares. Poderia ser apenas influência externa sem grandes impactos, mas observo que de fato é decadência mesmo, pois já é possível enxergar muitos grupos modificados culturalmente. Às vezes observo pessoas que nasceram e cresceram aqui no estado e tenho dúvidas se elas de fato são mesmo potiguares. Não entendam que defendo o engessamento da cultura, ou que, saudosista, quero o passado de volta. Não é isso, afinal nem tive esse passado, pois não nasci aqui. Minha observação diz respeito a minuciosa observação sobre mudanças impactantes na cultura norte-rio-grandense, fruto da influência das coisas vindas do eixo Sul/Sudeste e de outros países. É fenômeno impressionante.

Essa desnordestinização está presente na música, na literatura, na linguagem falada, na cultura popular, na dança e numa sucessão de tradições e hábito conforme veremos. Quando cheguei ao Rio Grande do Norte, em 1991, recordo-me que trouxe muitas fitas cassetes com músicas predominantemente da minha região. Eventualmente eu pegava o aparelho de som e deixava a música rolar, principalmente aos sábados. Lembro-me que vários vizinhos me perguntavam que músicas eram aquelas. Uns detonavam. Outros achavam interessantes. Não entendiam como alguém podia ouvir Tonico e Tinoco, Almir Sater, Tetê Espíndola, Hermano Irmãos, Chico Rey e Paraná, Dino Rocha, Zé Correia, Tião Carreiro e Pardinho, Elinho, Irmãs Galvão, As Marcianas, Lourenço e Lourival, Milionário e José Rico e outros. Sempre gostei do sertanejo de raiz, o chamamé (que é uma influència paraguaia desde que o MS surgiu na geografia do Brasil), assim como as guarânias.

Nascido na terra de Almir Sater, eu não poderia trazer em minhas memórias o gosto musical por bandas como Forrozão Chacal, Banda Grafite, Ferro na Boneca, Forró do Muído, Impacto Cinco, Terríveis, Cavaleiros do Forró, Colo de Menina, Banda Líbanos, Desejo de Menina, Mala Sem Alça e uma infinidade de outras bandas e grupos musicais que embalavam o Rio Grande do Norte desses últimos tempos. É óbvio que não há brasileiro que não conheça Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Fagner, Zé Ramalho e uma infinidade de clássicos da música nordestina, mas estou me referindo às bandas locais que tocavam dia e noite nas emissoras de rádio no período entre 1991 a 2000 mais ou menos.

Certa vez uma professora perguntou quase se benzendo: “como você consegue ouvir esse tipo de música”? Uma amiga às vezes zombava de mim, dizendo que eu adorava “choradeira e cantor miando”. Tinha aversão aos ritmos sertanejos (estou falando do sertanejo dos anos 90 para trás: música de verdade). Na realidade, gosto de todos os estilos musicais: clássico, sertanejo tradicional, rock, orquestras, enfim todo tipo de música predominantemente dos anos 90 para trás, pois depois disso surgiu um sertanejo esquisito, tão esquisito que denominaram "sertanejo universitário". Hoje aparece uma pérola no sertanejo! Na realidade, nunca mais vi nem pérolas.

Pois bem, nos anos 90 quase nenhum potiguar apreciava a música sertaneja de raiz. Confesso que naquele tempo conheci apenas uma pessoa que gostava (um pouquinho) porque tinha passado um tempo no interior de São Paulo. Atualmente parece haver uma globalização dos estilos musicais com prejuízo para o Nordeste, salvas as devidas exceções. Não estou generalizando. Digo “com prejuízo” porque se um potiguar for ao Rio de Janeiro, a São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná Rio Grande do Sul não verá a influência do forró por ali, tampouco sua supremacia. Mas isso ocorre por aqui – ao contrário - ou seja, os potiguares deram uma esquecida do forró de raiz para abraçar o estilo musical sertanejizado. Digo assim porque o que vemos, hoje, é uma coisa nova e esquisita denominada “sertanejo”, mas não é. O cantor Wesley Safadão é um protótipo em transição do forró com um misto sertanejo universitário e outros estilos.

O próprio Luan Santana, que iniciou carreira com excelente influência do sertanejo tradicional no Mato Grosso do Sul, tornou-se uma espécie de Wesley Safadão do Sertanejo. Sua música não reflete mais os ares sertanejos do seu estado de origem.

Outra figura curiosa é Michel Telló, um artista completo, mas mutante. Para quem não sabe, ele iniciou a carreira no Mato Grosso do Sul, no início da década de 90, numa banda chamada “Tradição”, coisa esquisitíssima. Era um pedaço do Rio Grande do Sul no Mato Grosso do Sul. Havia o predomínio do “Vaneirão”, ritmo gaúcho. Inclusive estudiosos de Cultura  sul-mato-grossense  o criticam muito  pelo fato de ele ter contribuído com a diluição do sertanejo sul-mato-grossense, imputando ritmos gaúchos. Depois que Michel Telló se projetou nacionalmente o sul-mato-grossense até achou bom, pois não o viu tão presente por ali, descaracterizando a música local. Um exemplo de artista com forte respeito às suas raízes é o genial Almir Sater.

Mas, retornando ao Rio Grande do Norte, observa-se uma influência maciça da música sertaneja, abrangendo de norte a sul do estado, muito embora se trate de um sertanejo descaracterizado. São poucos cantores potiguares atuais que se inspiram em Luiz Gonzaga (que é uma verdadeira enciclopédia do Nordeste). Suas músicas são poemas belíssimos, que encantam. Conhecer Luiz Gonzaga é conhecer o Nordeste. Distanciar-se de Luiz Gonzaga é distanciar-se do Nordeste. É perder a identidade e assumir identidade alheia. Suas músicas revelam a nordestinidade na sua forma mais pura. Trata-se de uma fonte inesgotável de saberes e tradições do povo nordestino, sem contar suas melodias, seu modo impressionante de se apresentar ao público etc. Poucos potiguares se inspiram em Fagner, Zé Ramalho, Belchior, Clemilda, Marinês, Dominguinhos, Elino Julião, Alceu Valença, Canários do Reino, Genival Lacerda, Rita de Cássia, Sivuca, Trio Nordestino, João do Vale, Sirano e Sirino, Flávio José e outros. Quais artistas atuais se inspiram ou estudam os forrozeiros potiguares Marcos Lopes, Forrozão Cabra da Peste, As Nordestinas, Forró Meirão? Em outros estilos, quem se inspira nos artistas potiguares Ismael Dumangue, Donizete Lima, Ademilde Fonseca, Dusouto, Núbia Lafaytete etc etc?

Não se trata de doutrinação do forró, até porque as pessoas são livres para os seus gostos musicais. Os estilos musicais são múltiplos e estão em todo o Brasil. E devem ser assim mesmo. Minha reflexão se prende a questão de o forró, que nasceu no Nordeste, sofrer considerável descaracterização - Pasmem! provocada pelos próprios potiguares. Quando alguns mecenas do forró aparecem para salvar o forró verdadeiro e a sua nordestinidade, soa soa como algo folclórico e até mesmo pitoresco, como se o forró fosse uma coisa que desonrasse. E esse comportamento se justifica com a releitura das palavras de Cascudo, mas numa dimensão incomparavelmente maior e mais impactante, graças às redes sociais, canais fechados de TV, Youtube, enfim uma infinidade de mecanismo que tornam o rádio de Cascudo fichinha. O povo potiguar está se permitindo influenciar muito mais pelas coisas que vem de fora de que as coisas de sua própria identidade. O forró, que deveria estar presente nos 365 dias do ano, parece mais restrito ao período junino, como se fosse meramente um elemento folclórico. Isso se parece com a  Rede Globo, a qual se lembra do Nordeste apenas durante o São João.

Dia desses houve uma overdose de sertanejo universitário no Arena das Dunas. No segundo dia de venda de ingressos, esgotou tudo. O estádio superlotou. Contam que se formaram “pipocas do sertanejo” do lado de fora do estádio, numa quantidade quase igual aos que estavam dentro do show. No palco estava Maiara e Maraísa, Marília Mendonça, Jorge e Mateus e muitos outros. Isso não seria questionável se até hoje, na história do Rio Grande do Norte, nenhum show com artistas nordestinos gerasse tanto público.

Questionável!

Vá ao Rio Grande do Sul e veja se eles dão esse trato à cultura deles. São quase bairristas. Primeiro a cultura deles. Depois as influências externas, desde que não sobrepuje os gauchismos.  O que é de fora é enxergado como efêmero de cara.Vá ao Pernambuco e verifique se o “Axé” assumiu os sons de seu Carnaval. Nunca. Primeiro o  deles! Com predomínio para o frevo Agora olhe o Carnatal local. É a Bahia no Rio Grande do Norte! Não há uma identidade local. Já nasceu sem a cara potiguar, mesmo  havendo músicos e sambistas potiguares respeitáveis. Quando criaram o Carnatal, deveriam ter colocado como critério principal elevar a cultura musical potiguar, mesmo que trouxessem material de fora. Mas que a "pitiguarânia" predominasse.

Como disse acima desnordestinidade é um fenômeno que acomete muitos pontos da cultura potiguar, e diz respeito a literatura também. Atualmente observo os leitores potiguares mais interessados por literaturas estrangeiras de que pela literatura regional. Digo isso porque observo muito. Onde vejo gente lendo, observo o que ela está lendo. Principalmente o público infanto-juvenil. Quase todos leem os principais autores ingleses, americanos, franceses, italianos, dinamarqueses, alemães etc. Mas... e os autores do Rio Grande do Norte? Quem conhece Ana Cláudia Trigueiro, Zila Mamede, Ferreira Itajubá, Françoise Silvestre, Nei Leandro de Castro, Tarcísio Gurgel, Madalena Antunes, Clotilde Tavares, Nivaldete Ferreira, Thiago Gonzaga, Manoel Onofre Júnior, Salizete Freire, Otacílio Alecrim, Antonio Francisco, José de Castro, Francisco Martins,  etc etc etc. E os grandes autores do Nordeste, como Graciliano Ramos, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector etc etc etc?

Não entendam nenhuma dessas reflexões como bairrismo da minha parte, até porque aprecio autores do mundo inteiro – em todas as áreas da Arte – mesmo conhecendo os grandes nomes da minha terra natal. Refiro-me aos potiguares que produzem quase-cópia do que vem de fora, negando a própria cultura. Esses, fazem jus ao “santo de casa não faz milagre”, pois os artistas locais não lhes inspiram.

Mas no caudal dessa reflexão, também observo escritores nordestinos – embora poucos - certamente atentos a essa  espécie de decadência da nordestinidade - contribuindo a  desnordestinidade. Eles assumem uma postura que é espécie de tentativa de cópia de alguém - mas alguém estrangeiro. Quase como se quisesse ser aquele/la  autor(a) famoso(a). Isso também não é bom, pois o leitor percebe o joquete! Não é legal se espojar nessa perda de identidade em busca meramente de lucro. Todo autor tem influências. Mas não vem ao caso dessa análise. O bom é seguir uma linha...uma característica. É por isso que de repente explode inclusive no exterior.

Creio que faltam escritores que usem a palavra como arte. Como alguém já disse “que usem a palavra para dizer”. Faltam Gracilianos Ramos, Flaubert, Rimbaud, Baudelaire, Adélia Prado, Padre Vieira, Fátima Abrantes. Nossa literatura é nova. Tem menos de 500 anos. Precisamos aprender também alguma coisa lá fora. Mas no Brasil há alguns monumentos inspiradores. Ao invés de estarem estudando grandes autores e construindo o seu próprio caminho, se diluem e se distanciam de suas raízes.
 
Escrevi sobre música, de literatura, mas a desnordestinidade é visível em muitos espaços. É fácil perceber o fenômeno. Em termos de linguagem, na década de 90, quando cheguei ao RN, todos diziam “visse!”. Tinha o efeito de “certo!” (adjetivo). O “visse” desapareceu da boca do potiguar. Naquele tempo a emissora de televisão “Rede TV” tinha um programa que usava muito a expressão “tá me tirando?” (tá zombando de mim?). Em pouco tempo os potiguares colocaram debaixo do tapete “tá mangando”, substituindo-o por “tá me tirando”. Escrevi um longo trabalho sobre linguagem. O planeta da descaracterização da linguagem regional potiguar - substituída por linguagem típica do eixo Rio/São Paulo é gigantesco. Não vou me estender no assunto agora. É muito abrangente. Em outro momento escrevo a minha opinião sobre outros pontos dentro dessa desnordestinização. E viva o Nordeste.

domingo, 26 de julho de 2020

ACALANTO



Parnamirim
Conheço teus cantos
Teus telhados cobrem encantos.
Quando pedalo em tuas ruas
Meu ser recebe acalantos.

Francisco Martins

sábado, 25 de julho de 2020

ASSIM DISSERAM ELES...



"Todo livro, clássico ou não, por simples afeição ou grande encantamento, encontra sempre um jeito amável de morar em algum lugar da memória, quando não na própria alma"

Vicente Serejo
Revista da ANRL, nº 63, abril/junho 2020, p.20

sexta-feira, 24 de julho de 2020

VERÍSSIMO DE MELO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA A LITERATURA DE CORDEL


     Veríssimo de Melo foi um intelectual  que serviu à literatura brasileira sob diversos prismas. Atuou como jornalista, cronista, pesquisador, músico, poeta, folclorista. Foi Professor Universitário e um antropólogo que se tornou conhecido não apenas no Brasil, mas também no exterior. Nasceu em Natal no dia 9 de junho de 1921. Era carinhosamente chamado pelos familiares e amigos pela alcunha de "Vivi". No dia 18 de agosto de 1996 ele parte definitivamente deixando um vazio nos corações daqueles que o amavam.

    Trabalhando numa lavoura cultural tão diversificada, Veríssimo de Melo se dedicou a estudar também o cordel. Publicou vários trabalhos sobre o tema e escreveu alguns ensaios (vide a relação abaixo). Quando despertou Veríssimo de Melo o seu olhar para a literatura de cordel? Talvez em 1949, mas ainda não posso afirmar com precisão. De todas as suas 25 participações na Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, no período de 1959 a 1996, não há nenhuma palavra sobre este tema. Mas ele escreveu em outros periódicos. Quando o "Capitão-Mor do Folclore" se debruçou sobre o cordel brasileiro, as produções que ele encontrava eram sempre da autoria de poetas populares, homens simples, a maioria com apenas o ensino básico. Os assuntos giravam em torno do cangaço, dos reinos encantados, das pelejas, da religiosidade católica e da política.

    O Professor Veríssimo de Melo escreveu o ensaio "Literatura de Cordel - Problemas e Sugestões" (1980). Nele, lembra que em 1976, quando participava de um ciclo de estudos sobre Literatura de Cordel, em Fortaleza/CE, o Professor Raymond Cantel assim definiu o que é a Literatura de Cordel: " poesia narrativa, popular, impressa". Nessa definição a palavra "popular" tem para Cantel e seus seguidores, um peso e também estabelece uma fronteira. Só é cordel se for popular, isto é, se o autor foi ou é um poeta sem escolaridade. Em 1977, em São Paulo, participando de outro encontro também sobre o mesmo assunto, Veríssimo de Melo levanta a questão de que o cordel brasileiro começa a ser produzido por poetas eruditos, homens intelectuais, graduados em diversas áreas; seriam estes textos literatura de cordel? Escreve o antropólogo Veríssimo de Melo ao Professor Raymond Cantel, da Universidade de Sorbone - França e a resposta vem através de carta:

"O problema que levanta a sua carta de 25 de maio de 1977 é importante. Não tenho nenhuma autoridade para resolvê-lo, mas posso dar a minha opinião. As produções que têm autores não populares, evidentemente não são literatura de cordel" (MELO, 1980. P.233)

    Estávamos vivendo uma transformação no cordel brasileiro, num campo onde trabalhavam apenas homens autodidatas, chegavam Dimas Batista, Paulo Nunes Batista, Rogaciano Leite e outros mais. Na verdade, a grande preocupação de Raymond Cantel, Veríssimo de Melo e Manuel Diégues Júnior era que, uma vez graduados, os poetas cordelistas iriam se nivelar aos poetas eruditos e deixariam de espelhar a ideologia do homem do povo nordestino, perdendo a força, a espontaneidade e a verdade. Veríssimo de Melo resolve saber o que pensa Câmara Cascudo sobre o assunto e este se manifesta dizendo que os poetas graduados "têm a autencidade inspirativa, mas não têm a legitimidade expressional. Não é do homem do povo, do poeta popular" (MELO, 1980. P.235).

    Passados 44 anos desta indagação eis que à porta do centenário de nascimento de Veríssimo de Melo, o lume volta a aquecer e ouso perguntar: realmente Cascudo tinha razão quando afirmou a Veríssimo que os cordéis de autores eruditos estavam formando uma nova família dentro da literatura do cordel, como filhos particular e naturais, não legítimos? Somos um grupo de poetas que fazemos cordéis e talvez tenhamos perdido a identidade ideológica desta literatura?

    É assunto para outro ensaio. Neste artigo quero apresentar algo àqueles que ainda não conhecem um pouco dos trabalhos de Veríssimo de Melo sobre o cordel. E já principio com este acima. Breve, ainda este ano, estaremos publicando a bibliografia de Veríssimo de Melo, uma pesquisa que está demandando horas de trabalho. Conheçam outros ensaios sobre o tema:


O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ ATRAVÉS DO ROMANCEIRO POPULAR (1953)

    Este trabalho é fruto de uma palestra que foi feita no Rotary Club de Natal. É também a primeira vez que o pesquisador vai reunir material da literatura de cordel para tratar de escrever sobre o assunto. Além de textos, Veríssimo de Melo teve também a preocupação de ilustrar com fotos. Nele são citados Zabelê, José Aluízio Vilela, Mariano Ranchinho, João Martins de Athayde, José Cordeiro, Pereira Lima. No ensaio, Veríssimo de Melo vai comparando as veracidades dos poemas estudados com o registro da história feita por outros meios, tais como: jornais da época, entrevistas, depoimentos.

ORIGENS DA LITERATURA DE CORDEL (1976)

    Importante ensaio de indispensável leitura àqueles que estudam o cordel e suas origens. Em 1976 ele foi publicado pela primeira vez na Revista Tempo Universitário e no mesmo ano teve repercussão na Alemanha, através da Revista Humboldt, nº 34, em Munique. Foi apresentado num simpósio em São Paulo e no Congresso Internacional de Folclore Ibero-americano, na Argentina. A grande contribuição desta pesquisa foi a afirmação de que o cordel já existia no século XV, na Alemanha, em folhetos impressos. Este ensaio foi publicado numa revista alemã. Na plaquete publicada em 1991 o autor acrescentou as falas de Sidney Carlos Aznar e Renato Costa Pacheco, debatedores do Simpósio Pesquisa de Folclore.

VISITA DO PAPA AO BRASIL ATRAVÉS DA LITERATURA DE CORDEL (1982)

    Publicado pela primeira vez em 1982, através da UFRN, a plaquete foi amplamente divulgada e chegou até o Vaticano, através do envio da Anunciatura Apostólica do Brasil. Faz parte também da Antologia de Folclore Brasileiro, organizada por Américo Pellegrini Filho (São Paulo: EDART, 1982) e é fortuna crítica no livro "A Igreja e o povo na literatura de Cordel", do Padre Manoel Matusalém Souza (São Paulo: Paulinas, 1984). A 3ª edição foi em 1991, por ocasião da segunda visita do Papa João Paulo II ao Brasil, mais especificamente em Natal onde aconteceu o XII Congresso Eucarístico Nacional.

    Este ensaio registra trabalhos de 41 poetas cordelistas, do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Bahia, Piauí, Rio de Janeiro, Mato Grosso, São Paulo, Pará, Rio Grande do Norte e Brasília.

ASPECTOS DA RELIGIOSIDADE NORDESTINA NO CORDEL (1984)

    Veríssimo de Melo apresenta o nordestino como um animista, trata do sobrenatural na sociedade do campesino e a influência por ele vivida através do movimento sebastianita, de Antonio  Conselheiro, Padre Cícero, Frei Damião, Padre João Maria, etc. Cita os poetas Abraão Batista, João Lucas Evangelista, João Francisco de Souza, José Bernardo da Silva, José Camilo da Silva, José Costa Leite, José Luiz (Rouxinol do Norte, Pedro Bandeira, Raimundo Bezerra de Moura e Rodolfo Coelho Cavalcante.

TANCREDO NEVES NA LITERATURA DE CORDEL (1986)

    Neste ensaio Veríssimo de Melo traz os poemas dos poetas que acompanhavam a campanha das diretas, a vitória de Tancredo Neves, sua doença, martírio e morte através do estudo de mais de 100 folhetos, de vários estados. O ensaio apresenta Tancredo nas diretas, traços biográficos de Tancredo, doença e morte e Tancredo na posteridade.Trabalhos dessa natureza têm uma importância relevante, o próprio autor escreve: "O que o homem da rua viu e ouviu dizer a respeito, na época, perdeu-se. O que o poeta de cordel escreveu ficará. É testemunho da história que poderá vencer os séculos" (MELO, 1986, p. 14).

    Ah! Veríssimo de Melo (1921-1996), Cantel (1914-1986) e Manuel Diégues Júnior (1912-1991) vocês não viveram o suficiente para verem isto: hoje, passados 43 anos daquela preocupação, o cordel brasileiro continua vivo, e o melhor: a grande massa produtora de poemas é exatamente composta por homens e mulheres graduados, mestres e doutores.

    Além da Academia Brasileira de Literatura do Cordel - ABLC, no Rio de Janeiro, existem outras academias em vários estados. Dissertações para Mestrados e Teses de Doutorados são inúmeras com o tema de cordel. Em Natal temos a Casa do Cordel, a Academia Norte-Rio-Grandense de Literatura do Cordel e Estação do Cordel. Tudo isso comprova que o cordel continua vivo, sendo um instrumento de alfabetização e incentivo à leitura, um púlpito que grita contra a escravidão moderna, uma ferramenta de propagação das mais variadas ideologias e pensamentos.

    Lembrando Veríssimo de Melo neste pequeno ensaio, queremos dar sinal aos que fazem a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o Instituto e Geográfico do Rio Grande do Norte , o Conselho Estadual de Cultura e a própria Universidade Federal do Rio Grande do Norte para que não esqueçam do seu centenário de nascimento em 2021. A largada está dada com  um ano de antecedência através da Revista da ANRL.


Referências:

MELO, Protásio Pinheiro de. VIVI: o homem que sabia viver.
Natal/RN: IFRN, 2018

MELO, Veríssimo de. O Ataque de Lampeão a Mossoró através do romanceiro popular. Natal/RN: DEI, 1953.

___________. Origens da Literatura de Cordel. In Tempo Universitário - Revista de Cultura da UFRN - Volume 1, nº 1, Natal/RN: UFRN, 1976, p.49 a 56.

___________. Literatura de Cordel - Problemas e Sugestões. In Tempo Universitário - Revista de Cultura da UFRN - Volume 6, nº 1. Natal/RN: UFRN, 1980, p. 223 a 239.

___________. Aspectos da Religiosidade Nordestina no Cordel. Mossoró/RN: Coleção Mossoroense, Série B, nº 417, 1984. 42 p.

___________. Tancredo Neves na Literatura de Cordel. Belo Horizonte/MG: Itatiaia, 1986.

___________. Visita do Papa ao Brasil, através da Literatura de Cordel. 3ª edição. Natal: s/n.1991,17 p.



FRANCISCO MARTINS, que também usa o pseudônimo de MANÉ BERADEIRO é poeta cordelista, crítico do cordel e autor de vários trabalhos. Membro da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes e de outras instituições culturais.











domingo, 19 de julho de 2020

HISTÓRIA DO BAIRRO DO ALECRIM



No século 17 a região era conhecida como Rifóles, referência ao pirata francês Jacques Riffault, que frequentava o ‘cais do sertão’ em busca de pau brasil.

Não conta ainda cem anos de existência. Em abril de 1856, quando o Cemitério foi inaugurado, o Presidente Antonio Bernardo de Passos informava ter adquirido um carro fúnebre em razão da “grande distância entre o Cemitério e esta Cidade”.

O Alecrim ficava no fim do Mundo…



A Praça Pedro II teve o privilégio das primeiras filas de casas. Conta-se que ali morava uma senhora (Ana Alecrim) que costumava enfeitar com ramos de alecrim os caixões dos “anjinhos” enterrados no cemitério, daí a origem do topônimo. Outra versão fala da abundância de alecrim-do-campo nesta área.

O bairro começava no Baldo, um reservatório das águas que desciam do Barro Vermelho, pela mata da Passagem. Daí, prosseguiam para o Oitizeiro, por dentro da Usina Elétrica, dirigida pelo mecânico alemão Johann Bragard, situada defronte da Santa Cruz da Bica. Poucas ruas e casas. Mais adiante, largas avenidas numeradas, repletas de mata-pasto e se prolongando, quase desabitadas, em direção ao Tirol.

Em outubro de 1871, o Presidente Delfino informava que a única desvantagem da Fonte Pública (Bica), no Baldo, “era ficar no último ponto do bairro alto da Cidade”.

Em dezembro de 1878, o Vice-Presidente Manuel Januário Bezerra Montenegro aludia ao Cemitério, “situado à grande distância da Cidade”.

Raríssimas pessoas residiam naquele descampado. Era terra de roçados de mandioca e milho, zona de caçada para os Morros. Umas quatro casinhas, de taipa, cobertas de palha, sem reboco, denominadas “capuabas”, estavam dispersas num âmbito de légua quadrada.

Segundo o historiador Luís da Câmara Cascudo, o antigo bairro do Alecrim era um local descampado, terra de roçados de mandioca e milho. Existiam umas quatro casinhas de taipa, cobertas de palha e sem reboco, denominadas capuabas, estavam distantes cerca de uma légua quadrada.

O Alecrim já foi chamado de Refoles, Alto da Santa Cruz e Cais do Sertão. Um dos marcos da ocupação das terras que originaram o bairro Alecrim foi a inauguração do Cemitério Público, em 1856, pelo Presidente da Província, Antônio Bernardo de Passos por causa de uma epidemia da cólera que aumentou a mortalidade geral da cidade.

Quando, a 7 de setembro de 1882, o Presidente Francisco de Gouveia Cunha Barreto pôs a primeira pedra para o “Lazareto da Piedade” (Asilo dos Alienados), o Alecrim era uma capoeira, entrecortada de tufos verdes de vegetação. Dizia-se que por ali passava a “estrada velha de Guararapes”. Nada mais.


Nos primeiros anos da República, o negro Manuel Lourenço possuiu o sítio mais distanciado, “Mangueira”, hoje Praça Gentil Ferreira.

Seguia-se o “Alto da Bandeira”, tendo essa denominação porque o industrial Amaro Barreto, abrindo a estrada de Macaíba para Natal, ali fincou uma alta e grande bandeira para orientar os trabalhadores. Ficou o topônimo: – “Alto da Bandeira” no cruzamento da Rua Fonseca e Silva com a Av. Presidente Quaresma, num comoro.

Aí se levantava, assombrando os tardios transeuntes, a “Cruz do Amaro”, recordando o assassinato de Amaro Xavier do Nascimento, em 1894.

Outro ponto de concentração demográfica era a “Baixa da Égua”, que o Vigário João Maria mudou para “Baixa da Beleza” e onde se construiu a capela de S. Sebastião.

Em 1905, na epidemia de varíola, o Alecrim estava densamente povoado, campo da inesgotável caridade do Padre João Maria. Ao redor da Praça Pedro II, as casinhas se aprumavam.

Mesmo assim, de Natal até o Baldo (Praça Carlos Gomes), havia caminho limpo. Para cima era uma trilha serpeando no meio do mato.

Apesar desse progresso, ainda em 1910 caçavam veados e cotias na Av. Alexandrino de Alencar.


Oficialmente o bairro foi fundado em somente em 23 de outubro de 1911, mas registros apontam atividades urbanas anteriores. Com dois padroeiros, São Pedro (o oficial) e São Sebastião, o Alecrim também se caracteriza por sua religiosidade, onde várias religiões convivem lado a lado – católicos, evangélicos, espíritas e suas vertentes.

Em 1912 a Escola de Aprendizes Marinheiros ficou no Refoles, articulando-se com os centros do Alecrim pela Rua Silvio Pelico. Em 1914, o Governador Ferreira Chaves fala na “grande distância para Natal”. A 15 de agosto de 1919, Alecrim é freguesia com sede na Igreja de S. Pedro.

Com o tempo, foram chegando aos prédios a luz elétrica e a água encanada. A linha de bondes demorou um pouco. Candeeiros e lamparinas iluminavam as casas. Quem não tinha poço ou cacimba no quintal tratava de obter água em chafarizes públicos, junto aos poucos cata-ventos. Lá para o quilômetro seis dos trilhos da Great Western funcionavam, em prédios adaptados, o Isolamento de São João de Deus, para tuberculosos e o Isolamento de São Roque, para variolosos. A pequena igreja de São Pedro, na praça Pedro Américo (hoje Pedro II), foi alargada e elevada após a criação da Freguesia, em 1919. O padre alemão Fernando Noite, da Ordem da Sagrada Família, vigário local, promoveu até mutirão, nas tardes de domingo, quando, para as obras, muitas pessoas, inclusive meninos, iam buscar tijolos e telhas junto à linha férrea e subiam pela rua Sílvio Pélico.

O perfil do bairro começou a ser delineado a partir da administração do Prefeito Omar O’Grady, que, em 1929, convidou o arquiteto italiano Giacomo Palumbo, para traçar o Plano de Sistematização para expansão urbana da cidade. Conta-se que Palumbo, sob a influência da cultura americana, desenhou um traçado com avenidas e ruas largas, as quais registravam com números. Da Avenida 1 até a Avenida 12, houve a associação da numeração com o nome de personagens históricos, intercalados com nomes de tribos.


A tradicional feira do Alecrim foi criada informalmente por José Francisco, natural da Paraíba e morador de São José do Mipibu ainda na década de 20. No início, a feira funcionava aos domingos embaixo de uma mangueira na atual avenida Amaro Barreto. No dia 23 de março de 1957 Câmara Cascudo apresentou José Francisco como o idealizador da feira, mas só no ano seguinte a Câmara Municipal de Natal aprovou a Lei para o funcionamento da feira e uma placa de bronze foi fixada na rua Nove.


Em 1941, durante a II Guerra Mundial, com a instalação da Base Naval, o bairro teve acelerado o seu processo de urbanização, quando se registra um aumento da população com a vinda de pessoas do sertão, e de outras regiões, para negócios na capital.

“O bairro do Alecrim, com todos os elementos sociais que caracterizam uma Cidade, já se espalha e derrama sua população em quilômetros e quilômetros, num avanço tentacular e dominador.

Há quem viva seis meses sem vir a Natal porque o Alecrim é bastante para a ressonância de interesses comerciais e domésticos”.

Cita Luís da Câmara Cascudo em artigo publicado originalmente – A República, Sábado, 10 de outubro de 1942.

Oficializado como bairro pela Lei Nº. 251, de 30 de setembro de 1947, na administração do Prefeito Sylvio Piza Pedroza, teve seus limites redefinidos pela Lei nº. 4.330, de 05 de abril de 1993, oficializada quando da sua publicação no Diário Oficial do Estado em 07 de setembro de 1994.

A vida cultural do Alecrim registra a existência de cinemas, até a década de 80, que, gradativamente, foram fechados: o São Luiz, o São Pedro, o São Sebastião, o Paroquial e o Olde. Nos carnavais, a cidade se voltava para ver os desfiles dos corsos (carros alegóricos dos carnavais do passado) que se realizavam nas ruas Sílvio Pélico, Amaro Barreto e adjacências.

O bairro teve, em sua história, como um dos principais pontos de encontro o bar Quitandinha na Praça Gentil Ferreira, local de “bate papo”, onde boêmios varavam as madrugadas, desde a época da II Guerra Mundial.



Em 1966, o Rotary Club do Alecrim deu de presente a praça  um relógio. O Rotary tinha como objetivo prestar um serviço a população, que na época não tinha condições de comprar um relógio. O relógio do Alecrim é referência para 92% das pessoas que passam pelo local.Em 2011, após 45 anos de uso, o Rotary Club do Alecrim trocou o relógio antigo por um novo, em comemoração ao centenário o bairro do Alecrim.

O bairro ainda tem como marca registrada o comércio de produtos populares, com sapatarias, lojas de tecidos, produtos agrícolas e as barbearias, que resistem ao tempo. Há bares e esquinas com jogo do bicho, uma tradição do lugar. Na década de 80, a construção do camelódromo (tentativa de resolver o problema gerado pelo conflito entre ambulantes e comerciantes estabelecidos) marcou a vida do lugar. Erguido em trecho da Rua Presidente Bandeira, aglutina vendedores ambulantes que comercializam produtos diversificados.

E os principais habitantes do bairro, na época?


No Barro Vermelho, constituído de sítios de muitas fruteiras, alguns com água corrente, pássaros cantando por toda parte, locais privilegiados para os melhores piqueniques e festas juninas, residiam o juiz federal Meira e Sá, o tenente João Bandeira de Melo, do Batalhão de Segurança; o comerciante Joaquim das – Virgens Pereira; o guarda-mor da Alfândega Carlos Policarpo de Melo, o escriturário do Tesouro Estadual João Fernandes de Campos Café, também pastor protestante; a família Melo, de Augusto Severo, e outros.

Na atual Praça Pedro II, do lado direito: Os comerciantes Alfredo Manso Maciel; José Antônio Fernandes e Isidro José da Rocha, os proprietários Elpídio Estelita Manso Maciel (Esteio Manso) e Pedro Joaquim Lins; os funcionários federais José Augusto da Fonseca e Silva e José Ildefonso de Oliveira Azevedo; o fiscal da Inspetoria Geral de Higiene (Secretaria de Saúde Pública) Antônio Cavalcanti de Albuquerque Maranhão (Cavalcanti Grande); do lado esquerdo: Os comerciantes Clínio e Teódulo Sena e Francisco Antônio Fernandes; o capitão Joaquim Andrade de Araújo, do Batalhão de Segurança; o pistonista José Alves de Melo, o sacristão Francisco Antônio do Nascimento, depois oficial comissionado do Exército (tenente Chico); o tenente João Alexandre de Vasconcelos (Joca de Xandu), que combateu em Canudos; o desembargador Hemetério Fernandes Raposo de Melo, cuja casa foi ocupada em seguida pelo fiscal de consumo José Ribeiro de Paiva.

Na rua Boa Vista, no centro da qual havia enorme barreiro: O tenente Inácio Gonçalves Vale, do Batalhão de Segurança e o comerciante João Andrade. Na rua General Fonseca e Silva: O oficial de justiça Abílio César Cavalcanti, depois delegado auxiliar da Capital e juiz de direito no interior, e o administrador do Hospício, Cândido Henrique de Medeiros, que fundou, em 19 de julho de 1914, a Conferência de São Pedro, dos vicentinos e a presidiu até quase o fim da vida. Cândido Medeiros (Seu Candinho), à frente dos confrades, prestou grandes serviços à pobreza do Alecrim e lecionou à noite, por algum tempo e sem remuneração, num dos salões do Grupo, tendo constituído, talvez, o primeiro curso, no Estado, de alfabetização de adultos. Em sua residência, seu filho Lauro, com alguns rapazes do bairro, fundou em 1917 e presidiu o Alecrim Futebol Clube. Os times treinavam e jogavam, inicialmente, num campo improvisado, em local para novo cemitério, nas proximidades da capelinha de São Sebastião, na Baixa da Beleza (rua Coronel Estêvão). O goleiro do quadro principal era o estudante João Café Filho, futuro Presidente da República.

Na rua América: João Antônio Moreira, carteiro dos Correios, que organizava e ensaiava, no quintal, anualmente, para o Carnaval, o Bloco Alecrinense, que todos chamavam A Maxixeira porque seus foliões desfilavam como verdureiras; Faustino de Vasconcelos Gama, administrador do Cemitério, que, nas festas natalinas, costumava mandar exibir, defronte da morada, para o público em geral, o Bumba-meu-Boi e os Congos, já que Pastoril ou Lapinha, Boi de Bonecas e João Redondo eram apresentados dentro de sítios ou salas.

Na rua Borborema: Os irmãos José e Francisco Martins Pinheiro, funcionários do Tesouro Estadual; os comerciantes Vicente Barbosa, João Luiz de França, Bento Manso Maciel, Luiz Rogério de Carvalho e Genuíno de Sousa Menino; o líder João José da Silva(João Ponche), da Liga Artístico-Operária, da Cidade Alta e o sargento-enfermeiro da Marinha Serôa da Mota, que realizava na residência sessões do Espiritismo.

Na rua Amaro Barreto: Os comerciantes Antônio Jeremias de Araújo e Manoel Firmino e o tabelião Miguel Leandro, que ensaiava em seu sítio o melhor Fandango natalense e o levava, nas festas de fim de ano, com a Nau Catarineta, a um grande tablado, na atual praça Gentil Ferreira. Cosme Ferreira Nobre, oficial de justiça do Tribunal, instalou nessa rua uma assembleia dos Pentecostistas. Havia por ali, pontos do chamado Jogo do Bicho, que em Natal não era tido como contravenção penal.

Na rua Coronel Estêvão, a mais extensa: O desembargador Antônio Soares de Araújo, então juiz de direito da Capital, que, à falta de médico no bairro, forneceu todas as manhãs, à sua custa e gratuitamente, durante anos. Doses de homeopatia aos doentes sem recursos, que o procuravam; o cônego Estêvão José Dantas, professor do Atheneu Norte-Rio-Grandense, que cooperava também nos atos religiosos da Paróquia; o guarda-livros Manoel Pinto Meireles, os poetas Damasceno Bezerra e Manoel dos Santos Filho; o capitão Felizardo Toscano de Brito (que voltaria a morar no Alecrim quando general da Reserva), Mário Eugênio Lira e José de Vasconcelos Chaves, secretário e tesoureiro da Prefeitura; a viúva Adelaide Fonseca (os quatro últimos na faixa conhecida como Alto da Bandeira); os comerciantes Manoel dos Santos Morais, Francisco Gorgônio da Nóbrega, Francisco das Chagas Dantas (Seu Chaguinhas) e Antônio Ferreira da Silva (Tota de Chicó), os três últimos os organizadores da Feira do Alecrim.

Na Avenida Alexandrino de Alencar: O coronel Manoel Lins Caldas, ex-comandante do Batalhão de Segurança (hoje Polícia Militar); o professor José Elídio Carneiro, da Marinha; o comerciante Sandoval Capistrano e o tesoureiro do Correio Geral, Pedro da Fonseca e Silva, o qual exercia também a função gratuita de delegado de polícia do bairro. Ali, ficava também o Posto Policial.

Na Rua Sílvio Pélico: O funcionário da Alfândega Antônio de Araújo Costa. Em casa próxima à Escola de Aprendizes Marinheiros, morava o comandante Antônio Afonso Monteiro Chaves, que matriculava os filhos no Grupo Escolar, o mesmo fazendo os que serviam naquele estabelecimento militar. Os pequenos cariocas, uns mais adiantados e esclarecidos, eram escutados com grande curiosidade pelos coleguinhas do bairro, sobre coisas do Rio de Janeiro. As noites eram tão tranquilas que, muitas vezes, se conseguia ouvir, das imediações do Grupo, o toque de silêncio, das vinte e duas horas, do clarim do Esquadrão de Cavalaria, no Tirol (avenida Hermes da Fonseca). Esse o Alecrim dos dez primeiros anos de sua criação, o bairro que o professor Luiz Soares, educando gerações, viu diariamente, durante mais de meio século, crescer e progredir.

Naquele tempo, o passeio-escolar mensal, para que os alunos aprendessem melhor a amar a Natureza, era vez por outra dirigido pela avenida Alexandrino rumo à Lagoa do Enforcado ou à Lagoa Seca. Um dia muito alegre para mestres e discípulos. O próprio diretor do Grupo organizava, com especial carinho, anualmente, duas comemorações — a Festa da Árvore e a Festa das Aves. Diversos alunos, na véspera, munidos de gaiolas e alçapões, percorriam sítios do Barro Vermelho e as matas do Réfoles, a fim de apanharem passarinhos, os quais eram soltos, alegremente, na manhã seguinte, quando as alunas, sob a regência de Carolina Wanderley, entoavam o Hino às Aves. A pobreza dominava os alunos. Não conheciam Papai Noel. Nem havia a merenda-escolar do governo. O pequeno horário de recreio, nas áreas internas, tinha a supervisão benéfica dos inspetores de alunos, Laurentino Ferreira de Morais (que faleceu como coronel da Polícia Militar) e Maria Elisa Pinto Meireles. Também não se adotava, em estabelecimento primário, a prática organizada de esportes. Muitos aprenderam a nadar fugindo de casa, à tarde, a fim de se banharem na maré, no Réfoles. Outros, se iniciaram no futebol na via pública, com bolas-de-meia, ou então adquirindo, em clubes, bolas de couro já imprestáveis, que enchiam com bexigas de boi obtidas na Matança (Matadouro Público), situado junto à grande curva da via férrea, no Oitizeiro. Aqui e ali, com muita dedicação, o diretor e as professoras conseguiam uma ou outra diversão gratuita para os discípulos.

O grande ideal do professor Luiz Soares foi sempre ver o Escotismo difundido, com eficiência, por todo o território nacional, por lhe parecer a melhor escola de preparação moral e cívica infanto-juvenil. Foi também o que procurou demonstrar, no Catete, em 1922, quando recebido em audiência pelo Presidente Epitácio Pessoa.


De início, participou com Henrique Castriciano e Monteiro Chaves, em 1917, da fundação da Associação Brasileira de Escoteiros do Rio Grande do Norte. Levou para ela cerca de trinta alunos de seu Grupo Escolar. A entidade nem chegou a completar dois anos de funcionamento. Por isso, ele fundou, em 14 de julho de 1919, a Associação de Escoteiros do Alecrim, hoje incorporada à Regional de Escoteiros.

Havia um antigo chalé, coberto de zinco, na atual praça Pedro II, esquina da rua Soledade, utilizado para fábrica de redes e, em seguida, para cinema, no qual atuava, como pianista , o futuro maestro Waldemar de Almeida. Pois ali nasceu a Associação, naquela radiosa manhã de 1919. Setenta e cinco escoteiros, quase todos alunos do Grupo Escolar, desfilaram pelas ruas do bairro e participaram da missa campal, na Igreja de São Pedro, comemorativa da assinatura do Armistício, após a Primeira Guerra Mundial.

O professor Luiz Soares obteve do governo Ferreira Chaves a construção dos salões do Grupo que ficam do lado da rua Coronel Estêvão e o instrumental para uma banda de música de dezesseis figuras, regida por José Gabriel Gomes da Silva (pistonista), funcionário dos Correios e pelo sargento Manoel Florentino de Albuquerque (clarinetista), depois guarda-fiscal do Tesouro. As aulas teóricas de Música começaram em 2 de maio de 1918 e já em 15 de outubro essa banda escolar (a Charanga do Alecrim) estreava fazendo alvorada pelo natalício do Governador, na residência oficial deste, à praça Pedro Velho.


Do governo Antônio de Sousa, conseguiu a criação, em 1920, do Curso Complementar, noturno, inclusive para adultos, sendo designado, no começo, para a cadeira de Geografia e História do Brasil. As outras ficaram regidas pelos professores Israel Nazareno de Souza (Português), Francisco Ivo Cavalcanti (Aritmética) e Anísio Soares de Macedo (Francês). Funcionou também no Grupo, naquele governo, uma Escola Profissional. Obteve, igualmente, que, no Frei Miguelinho, a quinta-feira fosse considerada Dia do Escoteiro, terminando as aulas ao meio-dia. O pavilhão nacional era hasteado no início, com execução, pela Charanga, do Hino à Bandeira, cantado pelas alunas. As áreas e salões do Grupo eram ocupadas, à tarde, pelos exercícios dos escoteiros, os quais desfilavam, em seguida, pela via pública precedidos da banda de música e de banda marcial. Depois, a Bandeira era arriada ao som do Hino Nacional e Luiz Soares proferia palestra sobre tema de Moral e Civismo.

Mas, não foi somente o bairro do Alecrim que absorveu as atividades do grande educador. Em 1927, ele reorganizou, com outra denominação, a Liga de Desportos Terrestres do Rio Grande do Norte, tendo sido eleito presidente da nova entidade. Esse trabalho profícuo levou o Presidente Juvenal Lamartine, seu parente e amigo, a construir, em 1929, no Tirol, o Estádio que conserva o nome daquele chefe de governo. No mesmo ano, conferiu a Luiz Soares, no Dia do Professor, a medalha de Honra ao Mérito. Houve elementos frustrados na vida que chegaram a apontá-lo como “amigo de todos os governos”.

Mas, na verdade, Luiz Soares nada pedia para si, não era político, viveu e morreu pobre. Explicava apenas, naquele tempo, que nenhum empreendimento educacional, num meio pobre, poderia esperar completo êxito sem a decisiva cooperação dos governos. Esse desprendimento pessoal e a probidade do dedicado mestre mereceram, igualmente, reconhecimento e admiração dos revolucionários de 1930.

Vitorioso o movimento em todo o país, da Paraíba quiseram indicá-lo para o magistério federal, a fim de dirigir a Escola de Aprendizes Artífices de Natal (hoje Liceu Industrial). Não obstante as grandes vantagens pecuniárias, em relação aos parcos vencimentos do magistério estadual, recusou delicadamente a honrosa lembrança para pedir apenas que o deixassem prosseguir em sua obra no Alecrim.

Vinte anos depois, na esperança de obter maiores benefícios para a coletividade e a fim de atender a insistentes apelos de alguns ex-alunos, concordou em disputar eleição para Vereador. Seus pares, em expressiva homenagem, o elevaram à Presidência da Câmara Municipal. A experiência, porém, não o satisfez. Deixou de concorrer a cargo político.

Luiz Soares foi um dos fundadores da Associação dos Professores e pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, à Academia Potiguar de Letras e ao Conselho Estadual de Educação e Cultura. Cooperou no Instituto de Proteção e Assistência à Infância e em outras entidades educativas, sociais e esportivas. Partiu dele a criação das Faculdades de Odontologia, Farmácia e Direito, havendo participado das atividades destinadas à instalação e funcionamento dessas escolas superiores. Um cidadão verdadeiramente útil à coletividade natalense.

Em sua incansável operosidade, viajou em 1950 até Roma, a convite de seu filho Pedro Segundo, procurando localizar e movimentar, no Vaticano, o processo de beatificação do padre João Maria Cavalcanti de Brito, o apóstolo da Caridade, o inesquecível vigário da Catedral de Natal.

Cuidou da assistência médico-hospitalar à população, conseguindo construir a Policlínica do Alecrim, hoje Hospital Professor Luiz Soares. Recebeu também seu nome o velho Grupo, de que foi o único Diretor e que passou a funcionar dentro do Instituto Padre Miguelinho. Uma rua do Alecrim lembra igualmente, aos habitantes de Natal o nome do professor emérito. Não se poderia aqui enumerar tudo quanto ele, através de decênios, realizou no Grupo Escolar e no Escotismo. Basta se recordar, nestas linhas, que seus escoteiros se iniciaram precisando, por força das circunstâncias, prestar assistência a muitos desvalidos, durante situações calamitosas.

Primeiro, em 1918, na terrível epidemia conhecida por “ influenza espanhola” , num Posto de Emergência, no próprio estabelecimento de ensino, para distribuição de remédios e alimentos até a domicílio. Em seguida, no atendimento a flagelados da seca de 1919, os quais tiveram de ser abrigados, pelo governo, em galpões de palha, de más condições higiênicas, improvisados em terreno baldio no Barro Vermelho. Deus protegeu, porém, a saúde daqueles jovens.

Teve Luiz Soares, nos últimos tempos, a felicidade de receber a maior (e, por isso, muito rara) das condecorações a um Chefe-Escoteiro: A Comenda do Tapir de Prata, que o General Sir Robert Baden Powell — o criador do Escotismo — reservou àqueles que, em qualquer parte do mundo, houvessem prestado, durante longos anos, com abnegação e patriotismo, inestimáveis serviços à instituição. Nunca poderão ser esquecidos os que fizeram da educação da infância e da juventude verdadeiro apostolado.

Autor: Gutenberg Costa

Fontes: Tok de História, RN Blog Prog, Guia de Turismo Blog e IBGE.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

LÍVIA NUNES DUARTE ILUSTRA FOLHETO DE CORDEL DO POETA MANÉ BERADEIRO

Amizade: sentimento de grande simpatia, afeição  e apreço. Eis um dos significados da palavra.  Mais na prática ela vai muito mais além, uma verdadeira amizade está cheia de reciprocidade. Eu sou um homem que tenho algumas amigas e por elas nutro  um carinho especial. Entre elas posso citar duas que conheci através da internet: Bete e Nádia, respectivamente de Santa Cruz-RN e São Manuel-SP.
Pois bem, em abril deste ano eu mandei uns cordéis para Lívia, uma ex-aluna de Nádia. Lívia é uma criança que tem aptidão para desenhar e ser uma grande ilustradora. Senti isso desde quando vi um dos desenhos dela. Tive a ideia de pedir a Nádia que indagasse se Lívia poderia  ilustrar um folheto de cordel. Isso foi e 7 de maio último.
Para meu deleite, Lívia aceitou. Ela é aluna da Escola Municipal de Ensino Fundamental e Educação Infantil EMEFEI -  Professor Geraldo Pascon. Mandei o texto do cordel  e a artista principiou as ilustrações. Recebi os desenhos esta semana e agora darei entrada em mais uma edição de um folheto de cordel, sendo o primeiro a ser ilustrado por uma criança, seu nome: LÍVIA NUNES DUARTE, 10 anos. Uma ruivinha que adora ler e desenhar.
Lívia Nunes Duarte - São Manuel-SP
O cordel vai ser sobre uma das iguarias mais famosas  da cozinha brasileira: o cuscuz. 


Aguardem o lançamento.  Provavelmente já estarei com ele disponível para venda no  próximo mês.

Mané Beradeiro.
Parnamirim-RN - 16 de julho 2020




 

2020 O ANO DA MORTE

A ano de 2020 é insaciável, tem fome de vida e se nutre com a morte de pessoas, serve-se delas jogando sobre cada alma ceifada um pouco do creme COVID 19. A mesa é posta em todas as partes do mundo e tem sempre os mesmos comensais: o Ano e a Morte. Tenho orado e pedido a Deus que proteja meus filhos, quem já esteve em minha vida e está longe, quem eu amo e quero bem. Cito os nomes para Deus ouvir. Não quero perder nenhum de vocês que estão lendo este texto. Cuidem-se! Sejamos pastores uns dos outros. Meu rebanho é grande, mas eu fui ensinado pelo Bom Pastor.

C ada um de vocês
O lhe para o próximo
V eja se podemos ajudar
I gnoremos a sede do "eu"
D epositemos fé e oração!


Francisco Martins

segunda-feira, 13 de julho de 2020

NOTA DE PESAR

A Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes se solidariza com a família e amigos do multiartista Ivo Maia, que faleceu ontem, dia 12. 

A cultura de Ceará-Mirim e do Rio Grande do Norte perdeu um dos seus maiores expoentes, reconhecido no Brasil e no mundo por suas mandalas.

 André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes
 Presidente da ACLA 

Joventina Simões Oliveira
 Vice-presidente da ACLA

terça-feira, 7 de julho de 2020

LEITURA, A MELHOR PORTA PARA SAIR DA QUARENTENA



Você concorda que a Literatura pode amenizar o impacto dessa pausa obrigatória que vivemos?

Caso acreditem nessa assertiva, estejam conosco!

Quinta às 10h, no Facebook da Câmara Municipal de Parnamirim!

PAULO MACEDO, SINGULAR

    O jornalismo potiguar está de luto. Faleceu na tarde do domingo o mais emblemático profissional do colunismo social do estado, que fez história e estabeleceu parâmetro a partir dos anos 1950 na cobertura dos assuntos de sociedade, eventos sociais e culturais e de negócios. O jornalista e imortal da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Paulo Macedo, morreu domingo quando se recuperava de uma cirurgia após uma queda em que fraturou o fêmur.

   Paulo não era apenas um ícone do jornalismo, um decano do colunismo social, mas era também uma expressão da geografia cultural de Natal, uma dessas raras pessoas que compõem a galeria de gente e de coisas que representam em si mesmas o retrato de uma época. Ele soube construir com seu espaço jornalístico, no rádio e no jornal (nas últimas décadas se estendeu também à televisão), uma dimensão de glamour para um estado provinciano e expandir no plano nacional sua própria história pessoal. 

     Quando eu comecei a escrever em jornal, no Diário de Natal dos anos 80, onde ele e alguns da sua geração eram as grandes referências, Paulo Macedo já se destacava entre todos pela unanimidade de um bem querer espalhado pelos diversos setores sociais, culturais, políticos e econômicos do RN. 

    Ele tinha aquela essência da canção de Lulu Santos que diz “eu experimentei aquela sensação de estar em sua companhia”, porque todos reivindicavam sua presença; não havia cena festiva com algum glamour se ali ele não estivesse.

    Paulo estabeleceu uma marca difícil para qualquer jornalista. Não ter desafetos públicos. Porque se os tinha – e deve ter tido alguma vez – jamais deixou transparecer na sua coluna, onde não havia espaço para agressões, achaques ou recados maledicentes.

     Se alguém não gostasse dele, dava de troco o silêncio, e mesmo que tal pessoa ganhasse o prêmio Nobel ele não citaria, ignoraria. É certo que havia os casos em que cobria de elogios algum inimigo daquela figura, mas nem todo cristão aguenta dar a outra face, né mesmo? 

    Paulo Macedo fez um jornalismo elegante, voltado para o enaltecimento e elogio dos seus personagens, e foi um dos profissionais que mais fez em favor da vida em sociedade e da atividade cultural do estado e principalmente de Natal. 

    Sua passagem pela Secretaria Municipal de Turismo e pela Fundação José Augusto deixou marcas e legados, como o Memorial Câmara Cascudo. E no plano político muitas obras surgiram a partir das notas em que cobrava benefícios pra cidade. 

    Tive a honra de ter convivido com ele durante meus doze anos no Diário de Natal e também na TV Ponta Negra. Nos últimos anos, fomos de novo colegas de atividade nas sessões semanais do Conselho Estadual de Cultura, onde ele tinha assento há anos, sempre renovando o mandato por iniciativa de todos os governos que o respeitavam.

      Sua morte é uma perda indelével para Natal, que deixa uma lacuna no jornalismo, no Conselho de Cultura e na Academia de Letras. E, provavelmente, sepulta com ele os valores de uma época que jornalismo nenhum trará de volta.

                                                                           Alex Medeiros.



TERCEIRA RUA MAIS LINDA DO MUNDO



Rua do Bom Jesus, no Recife, é eleita a terceira mais linda do mundo pela renomada revista americana Architectural Digest. Ficou atrás apenas da Setenil de Las Bodegas, na Espanha, e da Washington Street, no Brooklyn, em Nova York.

domingo, 5 de julho de 2020

CORDEL DE MANÉ BERADEIRO É LIDO EM CURITIBA-PR




Na próxima terça-feira, 7 de julho, em live que acontecerá às 18 h, Nádia Opalinski vai declamar o cordel "Piabinha Solidária", do poeta Mané Beradeiro.



NOTA DE PESAR


quarta-feira, 1 de julho de 2020

38 ANOS DE UM ENSAIO SOBRE O CORDEL E A VISITA DO PAPA

Foi em julho de 1980 que o Papa João Paulo II visitou o Brasil pela primeira vez. Passou por Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Piauí, Fortaleza, Belém e Manaus.

O cordel brasileiro registrou este fato histórico de forma exuberante e o antropólogo Veríssimo de Melo (1921-1996) escreveu um ensaio sobre isso e registrou a documentação de 50 títulos de folhetos que falaram sobre o assunto.  "Visita do Papa ao Brasil, Através da Literatura de Cordel" (Natal/RN: UFRN, 1982), uma plaquete com 17 páginas.  40 anos após esta primeira visita lembramos a importância do cordel e olhar que tiveram os poetas para o Papa João Paulo II.


O trabalho realizado por Veríssimo de Melo foi recebido pelo Papa João Paulo II, tendo como mediador o Núncio Apostólico do Brasil; foi apresentado na Iª Jornada de Literatura de Cordel ( 3 a 9 de maio de 1982, em São Paulo; está presente na Antologia de Folclore Brasileiro, de Américo Pellegrini Filho (EDART, São Paulo, 1982).