Augusto Severo
Aos 23 anos, Augusto Severo escreveu a carta abaixo. Uma linda peça literária, Digna de ser conhecida por todos. Trago-a, hoje, dentro da série "ANRL-90 ANOS", homenageando na pessoa de Maria Amélia, todas as mulheres. Augusto Severo é patrono da cadeira 18, na ANRL.
" Guarapes, 9 de dezembro de 1887.
Exma. Sra. Inês Perpétua Teixeira de Araújo
Minha Senhora:
Peço-lhe vênia para ir a sua presença tratar do que hoje mais profundamente me interessa, eu que não posso apresentar títulos que me recomendem perante a Sra., nem mesmo os de um ligeiro conhecimento pessoal. Vi-a, é verdade, tive o prazer de lhe ser apresentado em abril de 1885, em casa do meu cunhado Jovino, mas então nem sonhava que tivesse de pedir-lhe, de implorar-lhe o que ora peço e imploro.
Como recomendação única, levo o mais nobre, o mais santo de todos os sentimentos – flôr do céu a que Deus permitiu a vida na terra – o Amor. Inspirou-mo grande e casto, sua boa filha D.ª Maria Amélia; tão grande, tão puro que já não poderei viver sem êle.
Peço-lhe pois, a mão d’ela para a minha felicidade, porque cifra-se em sua doce posse a realização do mais risonho do único risonho de todos os meus sonhos, o alento para as boas inspirações, inspirações de minh’alma sem a qual, sinto que morrem.
Peço-lhe, de joelhos minh’alma como implorando o céu, que dê o seu consentimento partido do coração, que me aceite a mim por filho, a mim que quase desconhece mas que lhe juro com a consciência branca, não se envergonhará de ter-me por tal. De meu pai que a Sra. conhece e de minha santa mãe tenho a plena aprovação; d’êles que de havê-la por filha hão de orgulhar-se, com o orgulho que não macula, que é antes um bom sentimento quando não leva o egoísmo, porque lhe reconhecem tôdas as virtudes – flôres d’alma que na terra só é dado possuir a mulher perfeita.
Pela precipitação da viagem de meu pai, não o incumbi de por mim pedir a Sra. o que agora pedi; não me arrependi porém, porque não me podia fazer conhecer mais do que sou e eu, só eu devia pedir a minha felicidade.
Eu devia apresentar-me pessoalmente para êste fim do qual está pendente tôda a minha felicidade, o meu futuro inteiro, mas sou empregado em uma casa comercial onde me prendem obrigações tão mais fortes porque estamos agora em meio de safra principalmente não tendo como não tenho por ora, um imediato que me substitua por alguns dias.
Poderia ir em abril quando pretendo, mas não teria fôrça bastante para conservar até lá, calcado no coração o sentimento que precisa do seu consentimento para não explodir.
Por Deus minha Senhora, espero que me dará posse da felicidade. Se não fôsse impelido pela grande fôrça que rege o movimento dos corações, não me afoitaria a tanto!
Junto uma carta para cuja entrega peço-lhe permissão. Suplico-lhe que me responda na primeira mala, que pela resposta fica ansioso meu coração.
Como meu único advogado, o Amor – o sempre grande o Amor – o sempre casto.
Creia minha Senhora (autorize-me a chamar-lhe mãe; como então eu serei feliz!).
No profundo respeito que lhe consagra e na lealdade de quem só pode ser feliz com a dôce posse de sua querida filha D.ª Maria Amélia”.
FONTE: Revista da ANRL, nº 7, p. 9 a 11.
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