sexta-feira, 23 de outubro de 2026

EM QUILLING, FRANCISCO MARTINS, TRADUZ EM PAPEL OS SÍMBOLOS DO LEGADO DE ANTONIO GENTIL

 



Um pássaro branco de asas abertas no alto, um livro aberto na base, cifras musicais que sobem das páginas e, ao lado, uma árvore carregada de frutos. A obra em quilling assinada por Francisco Martins — datada de 22 de outubro de 2026— toma como referência a principal realização do empresário Antônio Gentil, fundador do Instituto Gentil, e a reconstrói inteiramente com tiras de papel enroladas, moldadas e coladas à mão.

O interesse da peça não está na técnica, e sim no modo como ela organiza significados. Cada elemento da composição corresponde a um conceito declarado pelo artista, e o conjunto só se completa quando os quatro são lidos em relação. As cifras representam a música. O livro representa o conhecimento que liberta. A árvore representa a solidez e os frutos da caminhada. O pássaro personifica a fé em Deus.

A hierarquia visual reforça essa leitura. O pássaro ocupa o topo, em branco, contra o fundo azul que simula céu — posição de quem sustenta e orienta o restante da cena. O livro ocupa a base e funciona como ponto de origem: das suas páginas partem as linhas curvas que conduzem às cifras musicais, de modo que o som nasce do conhecimento e não o contrário. A árvore se ergue lateralmente, com copa densa e flores em forma de estrela, sugerindo enraizamento e continuidade. A leitura, portanto, se faz de baixo para cima: do livro ao som, do som ao alto, com a árvore acompanhando o percurso como quem frutifica.

A técnica empregada é o quilling, também chamado de filigrana de papel, que consiste em enrolar tiras estreitas em espirais, gotas, “olhos” e formas livres, depois organizadas para construir volumes e contornos. Não há tinta nem pincel: a cor vem do próprio papel e a forma resulta do gesto de enrolar. Na peça, o recurso aparece nas asas da pomba, nas espirais das notas, nas páginas do livro e nas flores da copa. A paleta vibrante — azul, vermelho, laranja, roxo e branco — se distribui sobre um fundo que sugere céu e colinas, criando um cenário ao mesmo tempo lúdico e solene.

Os símbolos escolhidos não são aleatórios em relação à trajetória que homenageiam. Fundado em 1996 em Campo Grande, no Médio Oeste potiguar, o Instituto Gentil nasceu como Espaço Cultural e teve como primeira iniciativa a organização de uma pequena biblioteca formada por livros doados. Ao longo de três décadas, ampliou a atuação para a música, a informática, o empreendedorismo, o teatro, o balé e o incentivo à leitura, e celebrou os 30 anos em julho de 2026. A biblioteca inicial aparece no livro; os cursos de música, nas cifras; a permanência do trabalho, na árvore e em seus frutos; o sentido último da construção, no pássaro.

A obra ganha força justamente na tensão entre material e mensagem. Feita de papel — matéria frágil, quase efêmera —, ela trata de permanência: uma instituição que atravessou três décadas, um conhecimento que se pretende libertador e uma fé apresentada como sustentáculo. A delicadeza do suporte não contradiz a solidez invocada pela árvore; ao contrário, torna-a visível, ao revelar que o que parece leve é resultado de muitas horas de trabalho manual e de decisões compositivas precisas. Montada em moldura de madeira clara, a peça se apresenta como objeto de leitura lenta, em que o observador é convidado a percorrer a cena elemento por elemento antes de apreendê-la como conjunto.

Ficha técnica

Filigranista: Francisco Martins

Obra: Sabedoria que liberta

Técnica: Quilling (filigranas em papel)

Dimensões: 26 x 34 cm

Moldura: madeira, sem pintura

Ano 2026

Propriedade: Antonio Gentil

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