Um pássaro branco de asas abertas no alto,
um livro aberto na base, cifras musicais que sobem das páginas e, ao lado, uma
árvore carregada de frutos. A obra em quilling assinada por Francisco Martins —
datada de 22 de outubro de 2026— toma como referência a principal realização
do empresário Antônio Gentil, fundador do Instituto Gentil, e a reconstrói
inteiramente com tiras de papel enroladas, moldadas e coladas à mão.
O interesse da peça não está na técnica, e
sim no modo como ela organiza significados. Cada elemento da composição
corresponde a um conceito declarado pelo artista, e o conjunto só se completa
quando os quatro são lidos em relação. As cifras representam a música. O livro
representa o conhecimento que liberta. A árvore representa a solidez e os
frutos da caminhada. O pássaro personifica a fé em Deus.
A hierarquia visual reforça essa leitura. O
pássaro ocupa o topo, em branco, contra o fundo azul que simula céu — posição
de quem sustenta e orienta o restante da cena. O livro ocupa a base e funciona
como ponto de origem: das suas páginas partem as linhas curvas que conduzem às
cifras musicais, de modo que o som nasce do conhecimento e não o contrário. A
árvore se ergue lateralmente, com copa densa e flores em forma de estrela,
sugerindo enraizamento e continuidade. A leitura, portanto, se faz de baixo para
cima: do livro ao som, do som ao alto, com a árvore acompanhando o percurso
como quem frutifica.
A técnica empregada é o quilling, também
chamado de filigrana de papel, que consiste em enrolar tiras estreitas em
espirais, gotas, “olhos” e formas livres, depois organizadas para construir
volumes e contornos. Não há tinta nem pincel: a cor vem do próprio papel e a
forma resulta do gesto de enrolar. Na peça, o recurso aparece nas asas da
pomba, nas espirais das notas, nas páginas do livro e nas flores da copa. A
paleta vibrante — azul, vermelho, laranja, roxo e branco — se distribui sobre
um fundo que sugere céu e colinas, criando um cenário ao mesmo tempo lúdico e
solene.
Os símbolos escolhidos não são aleatórios
em relação à trajetória que homenageiam. Fundado em 1996 em Campo Grande, no
Médio Oeste potiguar, o Instituto Gentil nasceu como Espaço Cultural e teve como primeira iniciativa a organização de uma pequena biblioteca
formada por livros doados. Ao longo de três décadas, ampliou a atuação para a
música, a informática, o empreendedorismo, o teatro, o balé e o incentivo à
leitura, e celebrou os 30 anos em julho de 2026. A biblioteca inicial aparece
no livro; os cursos de música, nas cifras; a permanência do trabalho, na árvore
e em seus frutos; o sentido último da construção, no pássaro.
A obra ganha força justamente na tensão
entre material e mensagem. Feita de papel — matéria frágil, quase efêmera —,
ela trata de permanência: uma instituição que atravessou três décadas, um
conhecimento que se pretende libertador e uma fé apresentada como sustentáculo.
A delicadeza do suporte não contradiz a solidez invocada pela árvore; ao
contrário, torna-a visível, ao revelar que o que parece leve é resultado de
muitas horas de trabalho manual e de decisões compositivas precisas. Montada em
moldura de madeira clara, a peça se apresenta como objeto de leitura lenta, em
que o observador é convidado a percorrer a cena elemento por elemento antes de
apreendê-la como conjunto.
Ficha técnica
Filigranista: Francisco Martins
Obra: Sabedoria que liberta
Técnica: Quilling (filigranas em papel)
Dimensões: 26 x 34 cm
Moldura: madeira, sem pintura
Ano 2026
Propriedade: Antonio Gentil
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