terça-feira, 20 de outubro de 2026

A PRAGA DA TUNÍSIA


Daniel trabalhava numa central de atendimento em Natal, num daqueles galpões onde o teto é baixo e as metas são altas. De fone de ouvido e roteiro na tela, falava com clientes de meio mundo: Portugal, Estados Unidos, Angola, Emirados. O serviço girava o planeta inteiro enquanto ele girava na mesma cadeira, em escalas de doze horas, com quinze minutos de almoço.

Era um serviço que desgasta a alma devagar. Os clientes nem sempre compreendiam — e nunca aceitavam o "não" como resposta definitiva. Queriam desconto que ele não podia dar, estorno que o sistema não liberava, milagre que não constava no roteiro. E quando a resposta era não, vinham os palavrões. Xingamento em inglês, praga em árabe, ofensa em crioulo. Daniel aprendeu a engolir sapo em três idiomas. À noite, não dormia. De dia, atendia com o coração na garganta. O coordenador, um homem que media a vida em segundos de ligação, só repetia: "Produtividade, menino. Sentimento é problema seu, resolve depois do expediente."

Foi numa dessas noites de turno invertido que a ligação veio do outro lado do mundo.

— Meu nome é Daniel, em que posso ajudá-lo? — disse ele, no inglês decorado de tanto repetir.

Do outro lado, um homem da Tunísia. Já era a sétima ligação dele — a cobrança indevida continuava no cartão, e o sistema, fiel ao sistema, continuava negando o estorno. O tunisiano falava rápido, nervoso, e Daniel repetia as frases de empatia que a empresa mandava repetir: "Eu entendo perfeitamente sua frustração, senhor." Só que ele não entendia. Não dá para entender quarenta minutos de raiva de dentro de um roteiro.

Quando o tunisiano percebeu que seu problema não teria solução — nem naquela noite, nem em nenhuma outra —, a voz dele mudou. Ficou baixa, pausada, de quem não está mais brigando: está sentenciando. E proferiu as palavras, devagar, sílaba por sílaba, como quem crava uma faca:

— Bi-soltán el-Djinn u bicôu-uét-hom, mas-rék bēsh iár-dja uách.

E desligou.

Daniel não conhecia o dialeto Derja. Até ali, a conversa tinha sido em inglês. Mas aquela pronúncia, vinda da África, atravessando o Mediterrâneo e o Atlântico para chegar ao fone de ouvido de um rapaz do Nordeste do Brasil, balançou as estruturas espirituais daquele jovem — se é que ele tinha alguma. Somente depois, Daniel viria a saber o que aquelas palavras determinavam: que um ser espiritual, um djinn, tinha ordem de caçá-lo e transformá-lo em fera. Mas naquela noite ele só sentiu o frio, e o fone queimando de um calor que não era de eletricidade.

Nos dias seguintes, o corpo começou a mudar.

Os pelos foram os primeiros: nasceram descontrolados, nas costas, no peito, nos braços. Daniel raspava de manhã e à tarde já estava coberto de novo. As unhas passaram a crescer num ritmo que não era de gente — precisava cortar todo santo dia, e mesmo assim rangiam no teclado. E o gosto pela comida mudou: o pão com ovo enjoou, o feijão virou pedra na garganta. O que o estômago pedia era carne crua. Vermelha, sangrenta, pulsando.

No espelho do banheiro da empresa, entre uma ligação e outra, ele jurou ver os caninos mais compridos. E nos corredores, começou a ouvir o latido dos cachorros da rua como se latissem dentro da sua cabeça.

O coordenador, claro, só viu o que interessava:

— Daniel, essa aparência não pode. Cliente não confia em gente desalinhada.

A empresa que o tratava como bicho estava reclamando do pelo.

Foi aí que Daniel lembrou da avó, lá do interior. Dona Zulmira, rezadeira, que benzia quebranto com café coado e fé de sessenta anos. Ele pegou o primeiro ônibus e foi.

A velha olhou para o neto, passou a mão no braço dele — no pelo que nascia — e não se assustou. Já tinha visto coisa feia na vida, mas nunca coisa tão triste.

— Isso aqui não é doença de corpo, meu filho. Isso é palavra com dente. Alguém te mordeu com a boca fechada.

Rezou. Benzeu com terço e com sal. Mas no meio da reza parou, olhou nos olhos do neto e disse a verdade que nenhuma reza diz em voz alta:

— Mas eu vou te falar uma coisa, Daniel. Essa praga só pegou porque você já estava sendo mordido todo dia. Fera não se faz com palavra de árabe não. Fera se faz com fome, com cansaço, com gente tratando gente como bicho e chamando isso de produção. Aquele homem só apontou o que já estava dentro de você, criando raiva no escuro.

Daniel pediu demissão na segunda-feira. O coordenador nem perguntou o porquê — só ficou contente de não pagar os dias que faltavam.

A cura veio devagar, como vem a doença. De volta à terra, dormindo noite inteira pela primeira vez em anos, comendo o bode guisado da avó — bem passado, com molho —, os pelos foram caindo, as unhas voltaram ao tamanho de mão de gente, e a carne crua deu lugar de novo ao café com açúcar da manhã. Em seis meses, o espelho mostrou de novo um homem. Um homem que acordava sem alarme e vivia sem fone de ouvido.

Dizem que em noites de lua cheia ainda se ouve um uivo na zona Norte de Natal. Mas quem conhece Daniel sabe que é lenda. Ele vive tranquilo, vendendo na feira, e só guardou um hábito estranho: nunca mais atende número desconhecido.

Porque fera, ele aprendeu, não é quem amanhece com pelo nas costas. Fera é quem faz do outro um bicho — e ainda cobra produtividade.

Francisco Martins

Imagem criada por IA.

Nenhum comentário: