Era um serviço que desgasta a alma devagar.
Os clientes nem sempre compreendiam — e nunca aceitavam o "não" como
resposta definitiva. Queriam desconto que ele não podia dar, estorno que o
sistema não liberava, milagre que não constava no roteiro. E quando a resposta
era não, vinham os palavrões. Xingamento em inglês, praga em árabe, ofensa em
crioulo. Daniel aprendeu a engolir sapo em três idiomas. À noite, não dormia.
De dia, atendia com o coração na garganta. O coordenador, um homem que media a
vida em segundos de ligação, só repetia: "Produtividade, menino.
Sentimento é problema seu, resolve depois do expediente."
Foi numa dessas noites de turno invertido
que a ligação veio do outro lado do mundo.
— Meu nome é Daniel, em que posso ajudá-lo?
— disse ele, no inglês decorado de tanto repetir.
Do outro lado, um homem da Tunísia. Já era
a sétima ligação dele — a cobrança indevida continuava no cartão, e o sistema,
fiel ao sistema, continuava negando o estorno. O tunisiano falava rápido,
nervoso, e Daniel repetia as frases de empatia que a empresa mandava repetir:
"Eu entendo perfeitamente sua frustração, senhor." Só que ele não
entendia. Não dá para entender quarenta minutos de raiva de dentro de um
roteiro.
Quando o tunisiano percebeu que seu
problema não teria solução — nem naquela noite, nem em nenhuma outra —, a voz
dele mudou. Ficou baixa, pausada, de quem não está mais brigando: está
sentenciando. E proferiu as palavras, devagar, sílaba por sílaba, como quem
crava uma faca:
— Bi-soltán el-Djinn u bicôu-uét-hom,
mas-rék bēsh iár-dja uách.
E desligou.
Daniel não conhecia o dialeto Derja. Até
ali, a conversa tinha sido em inglês. Mas aquela pronúncia, vinda da África,
atravessando o Mediterrâneo e o Atlântico para chegar ao fone de ouvido de um
rapaz do Nordeste do Brasil, balançou as estruturas espirituais daquele jovem —
se é que ele tinha alguma. Somente depois, Daniel viria a saber o que
aquelas palavras determinavam: que um ser espiritual, um djinn, tinha ordem de
caçá-lo e transformá-lo em fera. Mas naquela noite ele só sentiu o frio, e o fone
queimando de um calor que não era de eletricidade.
Nos dias seguintes, o corpo começou a
mudar.
Os pelos foram os primeiros: nasceram
descontrolados, nas costas, no peito, nos braços. Daniel raspava de manhã e à
tarde já estava coberto de novo. As unhas passaram a crescer num ritmo que não
era de gente — precisava cortar todo santo dia, e mesmo assim rangiam no
teclado. E o gosto pela comida mudou: o pão com ovo enjoou, o feijão virou
pedra na garganta. O que o estômago pedia era carne crua. Vermelha, sangrenta,
pulsando.
No espelho do banheiro da empresa, entre
uma ligação e outra, ele jurou ver os caninos mais compridos. E nos corredores,
começou a ouvir o latido dos cachorros da rua como se latissem dentro da sua
cabeça.
O coordenador, claro, só viu o que
interessava:
— Daniel, essa aparência não pode. Cliente
não confia em gente desalinhada.
A empresa que o tratava como bicho estava
reclamando do pelo.
Foi aí que Daniel lembrou da avó, lá do
interior. Dona Zulmira, rezadeira, que benzia quebranto com café coado e fé de
sessenta anos. Ele pegou o primeiro ônibus e foi.
A velha olhou para o neto, passou a mão no
braço dele — no pelo que nascia — e não se assustou. Já tinha visto coisa feia
na vida, mas nunca coisa tão triste.
— Isso aqui não é doença de corpo, meu
filho. Isso é palavra com dente. Alguém te mordeu com a boca fechada.
Rezou. Benzeu com terço e com sal. Mas no
meio da reza parou, olhou nos olhos do neto e disse a verdade que nenhuma reza
diz em voz alta:
— Mas eu vou te falar uma coisa, Daniel.
Essa praga só pegou porque você já estava sendo mordido todo dia. Fera não se faz
com palavra de árabe não. Fera se faz com fome, com cansaço, com gente tratando
gente como bicho e chamando isso de produção. Aquele homem só apontou o que já estava dentro de você, criando raiva no escuro.
Daniel pediu demissão na segunda-feira. O
coordenador nem perguntou o porquê — só ficou contente de não pagar os dias que
faltavam.
A cura veio devagar, como vem a doença. De
volta à terra, dormindo noite inteira pela primeira vez em anos, comendo o bode
guisado da avó — bem passado, com molho —, os pelos foram caindo, as unhas
voltaram ao tamanho de mão de gente, e a carne crua deu lugar de novo ao café
com açúcar da manhã. Em seis meses, o espelho mostrou de novo um homem. Um
homem que acordava sem alarme e vivia sem fone de ouvido.
Dizem que em noites de lua cheia ainda se
ouve um uivo na zona Norte de Natal. Mas quem conhece Daniel sabe que é lenda.
Ele vive tranquilo, vendendo na feira, e só guardou um hábito estranho: nunca
mais atende número desconhecido.
Porque fera, ele aprendeu, não é quem
amanhece com pelo nas costas. Fera é quem faz do outro um bicho — e ainda cobra
produtividade.
Francisco Martins
Imagem criada por IA.

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