quinta-feira, 29 de outubro de 2026
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
SEXTA PRÓXIMA TEM CONTO DE TERROR
SEXTA É DIA DE LER HISTÓRIA DE TERROR. VENHA CONHECER O CONTO " O CORREDOR "H" DA BIBLIOTECA ASSOMBRADA".
terça-feira, 27 de outubro de 2026
POEMA EM 10 SALMOS - PARTE VI - SALMOS 51 A 60
Há uma diferença entre rezar e conversar. O que Francisco Martins faz nesta sexta parte do seu Poema em 10 salmos é conversar — direto, sem rodeio, como quem senta na varanda e fala com Deus sobre o que dói. Os salmos 51 a 60 aparecem aqui reduzidos à sua medula: perdão, medo, amizade traída, angústia, confiança.
O poema abre pelo caminho mais difícil e mais honesto: o reconhecimento do erro. "Senhor, percebo o quanto errei / Busco teu perdão / E suplico: Dai-me um novo coração". É o Salmo 51 — o salmo do coração novo — como pedido, não como teoria. Não há autoexplicação, não há justificativa: há um pedido.
Nos versos seguintes, a prece vira precaução: "Que o poder que vier a ter / Não me faça um homem mau." É uma das passagens mais lúcidas do poema. Quem já teve um pouco de poder sabe o que ele pode fazer com as pessoas. Aqui, a fé aparece como freio — e o medo da insensatez coletiva, como consciência de que ninguém se salva sozinho.
Às vezes, quem atenta contra mim é quem comigo anda, meu amigo
O poema não foge da dor real. Fala do mundo mau, "repleto de insolentes e violentos", e da ferida específica de quem é traído por perto. E é justamente aí que aparece a virada: "Quando eu tiver medo, em Ti confiarei." O medo não é negado — é atravessado.
Na estrofe do meio da angústia, o poema atinge o ponto mais alto: cercado de perigos, o eu-lírico decide "ficar firme e acordar / minh'alma para cantar louvores". É a escolha de cantar antes de a tempestade passar. E fecha como começou — com confiança: "Tu és minha força, meu alto refúgio" e "Contigo faremos proezas".
Poema em 10 salmos – Parte VI não é leitura de missa. É leitura de bolso, daquelas que cabem no intervalo do dia e servem para reorganizar o peito. Francisco Martins escreve com a simplicidade de quem já entendeu que fé não precisa de palavra difícil para ser profunda. Fica o convite do último verso: proezas se fazem com Deus, mas se fazem juntos.
CENTELHA DE CORDEL
Saudando quem sai de casa
Levando no seu alforje
Força, esperança e graça
Batalhando pela vida
Enquanto a mesma passa.
Mané Beradeiro
27 outubro 2026
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
EM QUILLING, FRANCISCO MARTINS, TRADUZ EM PAPEL OS SÍMBOLOS DO LEGADO DE ANTONIO GENTIL
Um pássaro branco de asas abertas no alto,
um livro aberto na base, cifras musicais que sobem das páginas e, ao lado, uma
árvore carregada de frutos. A obra em quilling assinada por Francisco Martins —
datada de 22 de outubro de 2026— toma como referência a principal realização
do empresário Antônio Gentil, fundador do Instituto Gentil, e a reconstrói
inteiramente com tiras de papel enroladas, moldadas e coladas à mão.
O interesse da peça não está na técnica, e
sim no modo como ela organiza significados. Cada elemento da composição
corresponde a um conceito declarado pelo artista, e o conjunto só se completa
quando os quatro são lidos em relação. As cifras representam a música. O livro
representa o conhecimento que liberta. A árvore representa a solidez e os
frutos da caminhada. O pássaro personifica a fé em Deus.
A hierarquia visual reforça essa leitura. O
pássaro ocupa o topo, em branco, contra o fundo azul que simula céu — posição
de quem sustenta e orienta o restante da cena. O livro ocupa a base e funciona
como ponto de origem: das suas páginas partem as linhas curvas que conduzem às
cifras musicais, de modo que o som nasce do conhecimento e não o contrário. A
árvore se ergue lateralmente, com copa densa e flores em forma de estrela,
sugerindo enraizamento e continuidade. A leitura, portanto, se faz de baixo para
cima: do livro ao som, do som ao alto, com a árvore acompanhando o percurso
como quem frutifica.
A técnica empregada é o quilling, também
chamado de filigrana de papel, que consiste em enrolar tiras estreitas em
espirais, gotas, “olhos” e formas livres, depois organizadas para construir
volumes e contornos. Não há tinta nem pincel: a cor vem do próprio papel e a
forma resulta do gesto de enrolar. Na peça, o recurso aparece nas asas da
pomba, nas espirais das notas, nas páginas do livro e nas flores da copa. A
paleta vibrante — azul, vermelho, laranja, roxo e branco — se distribui sobre
um fundo que sugere céu e colinas, criando um cenário ao mesmo tempo lúdico e
solene.
Os símbolos escolhidos não são aleatórios
em relação à trajetória que homenageiam. Fundado em 1996 em Campo Grande, no
Médio Oeste potiguar, o Instituto Gentil nasceu como Espaço Cultural e teve como primeira iniciativa a organização de uma pequena biblioteca
formada por livros doados. Ao longo de três décadas, ampliou a atuação para a
música, a informática, o empreendedorismo, o teatro, o balé e o incentivo à
leitura, e celebrou os 30 anos em julho de 2026. A biblioteca inicial aparece
no livro; os cursos de música, nas cifras; a permanência do trabalho, na árvore
e em seus frutos; o sentido último da construção, no pássaro.
A obra ganha força justamente na tensão
entre material e mensagem. Feita de papel — matéria frágil, quase efêmera —,
ela trata de permanência: uma instituição que atravessou três décadas, um
conhecimento que se pretende libertador e uma fé apresentada como sustentáculo.
A delicadeza do suporte não contradiz a solidez invocada pela árvore; ao
contrário, torna-a visível, ao revelar que o que parece leve é resultado de
muitas horas de trabalho manual e de decisões compositivas precisas. Montada em
moldura de madeira clara, a peça se apresenta como objeto de leitura lenta, em
que o observador é convidado a percorrer a cena elemento por elemento antes de
apreendê-la como conjunto.
Ficha técnica
Filigranista: Francisco Martins
Obra: Sabedoria que liberta
Técnica: Quilling (filigranas em papel)
Dimensões: 26 x 34 cm
Moldura: madeira, sem pintura
Ano 2026
Propriedade: Antonio Gentil
Veja outros quadros, clicando nos links abaixo
O LOBISOMEM DA PRAIA - UM CAUSO DO LITORAL DE PITITINGA, ZUMBI E MARACAJAÚ
Quem nasce nessas bandas cresce ouvindo a mesma advertência, dita baixinho, quase um rezo: não atravesse a estrada de Zumbi em noite de lua cheia. A estrada carroçável corta a mata como um risco de faca — estreita, cheia de buracos de boi, ladeada de Pau Brasil, Aroeira e Ipê que se fecham por cima da cabeça da gente até esconder o céu. De dia ainda é um lugar bonito, o sol varando as copas e pintando o chão de claridade. Mas de noite a mata muda de alma. O ar fica grosso, os troncos viram vultos, e o vento, quando passa pela folhagem, não parece vento: parece uma respiração que caminha junto com você.
Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro a
ver o buraco. Uns dizem que é uma cacimba antiga, cavada por escravos fugidos;
outros, que a terra abriu sozinha no dia em que um padre amaldiçoou a região.
Só sei que ele existe, escondido no coração da mata, e que em noite de lua
cheia a escuridão dele escurece ainda mais, como se engolisse a claridade que
vem do céu. Dizem que é de lá que ele sai.
Eu, Seu Zé Ariacó, pescador de jangada há
quarenta anos, nunca precisei ver para acreditar. Minha vez de chegar perto
veio numa sexta-feira de março, quando o mar estava melhor que nos últimos seis
meses. A pescaria tinha sido farta — saí de Maracajaú com a jangada cheia, o
sol já se pondo por trás dos coqueiros. Os rapazes me chamaram para esperar a
lua subir e voltar juntos, em grupo, como sempre se fez. Mas eu tinha pressa:
minha mulher estava adoentada em casa, em Zumbi, e eu queria lhe levar o peixe
fresco e um pouco de dinheiro para a farmácia.
— Pelo amor de Deus, Ariacó — disse o mais
velho, segurando meu braço. — Olha que céu. Olha que lua. O lobisomem está
esperando por você.
Eu ri. Ri da cara deles, ri da lenda, ri de
mim mesmo, que era homem de mar e não tinha medo de mata. Joguei o saco de
peixes nas costas e pus o pé na estrada carroçável.
A noite caiu como quem fecha uma porta. A
lua cheia subiu enorme, branca e iluminava as copas dos Ipês. Eu caminhava no
meio da estrada, sob as árvores, e cada passo meu levantava poeira que brilhava
feito cinza. Foi quando comecei a escutar.
Um uivo. Longe, mas atravessando a mata
inteira, como se a voz viesse de dentro da terra. Parei. Segurei o saco de
peixes contra o peito. O uivo veio de novo, mais perto, e nesse instante as
cigarras se calaram. Os grilos se calaram. Até o vento parou, e a mata inteira
ficou muda, esperando.
Então a terra tremeu.
Não foi terremoto — foi como se a estrada
respirasse fundo, um arrepio correndo do buraco até as minhas botas. Eu sabia o
que ia acontecer antes de ver. O cheiro chegou primeiro: um fedor de mato
podre, pelo queimado, sangue velho. E aí ele saiu do buraco, desfazendo a terra
com as quatro patas, e a lua acendeu o pelo dele como se fosse prata escura.
Eu corri. Corri como nunca corri na minha
vida, os peixes espalhados pelo chão, o coração batendo na garganta. A mata
fechada não me ajudava — cada tronco de Pau Brasil era uma parede, cada Aroeira
uma prisão, e a estrada ia me levando para a praia, porque o caminho de casa
passava por lá. E foi isso que ele quis. Ele sabia disso.
Pisquei os olhos e a areia estava sob meus
pés. A praia de Pititinga se abria, imensa e prateada, com as jangadas
descansando na areia como bichos dormindo. Lá estavam os rapazes, os mesmos que
me advertiram, amarrando suas redes, rindo à toa da minha coragem. Atrás de
mim, o uivo veio de novo — e desta vez ele não estava mais na mata. Estava na
areia.
A cena que se seguiu ficou gravada em mim
para sempre. O lobisomem correu para eles como um raio, e eu vi a mão dele se
fechar em garras, agudas como anzóis, abrindo o peito do primeiro pescador
antes que ele tivesse tempo de soltar o pito. A pele do bicho é grossa, feita
de couro e cicatriz, e o corpo todo é cabeludo, tão cabeludo que a lua brilhava
em cada fio. Quando ataca, não há escapatória: ele derruba, ele morde, ele
rasga, e o mar só ouve o som do que acontece na areia.
Tirei a faca da bainha. O bicho parou. E neste — o único gesto que a lenda nunca explica — ele deu um passo para trás. Baixou o focinho. E virou-se, e correu de volta à mata, desaparecendo no buraco.
Faz vinte anos. Os pescadores de Pititinga,
Zumbi e Maracajaú ainda não saem do mar quando o céu está redondo. Dizem que
ele continua lá, dormindo no buraco da mata, comendo terra e raiz, esperando. E
eu ainda caminho a estrada carroçável toda semana. Mas vocês vão me perdoar — o
saco de peixes agora eu carrego numa mão, e na outra, embainhada e pronta, a
faca de prata do meu pai.
Francisco Martins
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
terça-feira, 20 de outubro de 2026
A PRAGA DA TUNÍSIA
Era um serviço que desgasta a alma devagar.
Os clientes nem sempre compreendiam — e nunca aceitavam o "não" como
resposta definitiva. Queriam desconto que ele não podia dar, estorno que o
sistema não liberava, milagre que não constava no roteiro. E quando a resposta
era não, vinham os palavrões. Xingamento em inglês, praga em árabe, ofensa em
crioulo. Daniel aprendeu a engolir sapo em três idiomas. À noite, não dormia.
De dia, atendia com o coração na garganta. O coordenador, um homem que media a
vida em segundos de ligação, só repetia: "Produtividade, menino.
Sentimento é problema seu, resolve depois do expediente."
Foi numa dessas noites de turno invertido
que a ligação veio do outro lado do mundo.
— Meu nome é Daniel, em que posso ajudá-lo?
— disse ele, no inglês decorado de tanto repetir.
Do outro lado, um homem da Tunísia. Já era
a sétima ligação dele — a cobrança indevida continuava no cartão, e o sistema,
fiel ao sistema, continuava negando o estorno. O tunisiano falava rápido,
nervoso, e Daniel repetia as frases de empatia que a empresa mandava repetir:
"Eu entendo perfeitamente sua frustração, senhor." Só que ele não
entendia. Não dá para entender quarenta minutos de raiva de dentro de um
roteiro.
Quando o tunisiano percebeu que seu
problema não teria solução — nem naquela noite, nem em nenhuma outra —, a voz
dele mudou. Ficou baixa, pausada, de quem não está mais brigando: está
sentenciando. E proferiu as palavras, devagar, sílaba por sílaba, como quem
crava uma faca:
— Bi-soltán el-Djinn u bicôu-uét-hom,
mas-rék bēsh iár-dja uách.
E desligou.
Daniel não conhecia o dialeto Derja. Até
ali, a conversa tinha sido em inglês. Mas aquela pronúncia, vinda da África,
atravessando o Mediterrâneo e o Atlântico para chegar ao fone de ouvido de um
rapaz do Nordeste do Brasil, balançou as estruturas espirituais daquele jovem —
se é que ele tinha alguma. Somente depois, Daniel viria a saber o que
aquelas palavras determinavam: que um ser espiritual, um djinn, tinha ordem de
caçá-lo e transformá-lo em fera. Mas naquela noite ele só sentiu o frio, e o fone
queimando de um calor que não era de eletricidade.
Nos dias seguintes, o corpo começou a
mudar.
Os pelos foram os primeiros: nasceram
descontrolados, nas costas, no peito, nos braços. Daniel raspava de manhã e à
tarde já estava coberto de novo. As unhas passaram a crescer num ritmo que não
era de gente — precisava cortar todo santo dia, e mesmo assim rangiam no
teclado. E o gosto pela comida mudou: o pão com ovo enjoou, o feijão virou
pedra na garganta. O que o estômago pedia era carne crua. Vermelha, sangrenta,
pulsando.
No espelho do banheiro da empresa, entre
uma ligação e outra, ele jurou ver os caninos mais compridos. E nos corredores,
começou a ouvir o latido dos cachorros da rua como se latissem dentro da sua
cabeça.
O coordenador, claro, só viu o que
interessava:
— Daniel, essa aparência não pode. Cliente
não confia em gente desalinhada.
A empresa que o tratava como bicho estava
reclamando do pelo.
Foi aí que Daniel lembrou da avó, lá do
interior. Dona Zulmira, rezadeira, que benzia quebranto com café coado e fé de
sessenta anos. Ele pegou o primeiro ônibus e foi.
A velha olhou para o neto, passou a mão no
braço dele — no pelo que nascia — e não se assustou. Já tinha visto coisa feia
na vida, mas nunca coisa tão triste.
— Isso aqui não é doença de corpo, meu
filho. Isso é palavra com dente. Alguém te mordeu com a boca fechada.
Rezou. Benzeu com terço e com sal. Mas no
meio da reza parou, olhou nos olhos do neto e disse a verdade que nenhuma reza
diz em voz alta:
— Mas eu vou te falar uma coisa, Daniel.
Essa praga só pegou porque você já estava sendo mordido todo dia. Fera não se faz
com palavra de árabe não. Fera se faz com fome, com cansaço, com gente tratando
gente como bicho e chamando isso de produção. Aquele homem só apontou o que já estava dentro de você, criando raiva no escuro.
Daniel pediu demissão na segunda-feira. O
coordenador nem perguntou o porquê — só ficou contente de não pagar os dias que
faltavam.
A cura veio devagar, como vem a doença. De
volta à terra, dormindo noite inteira pela primeira vez em anos, comendo o bode
guisado da avó — bem passado, com molho —, os pelos foram caindo, as unhas
voltaram ao tamanho de mão de gente, e a carne crua deu lugar de novo ao café
com açúcar da manhã. Em seis meses, o espelho mostrou de novo um homem. Um
homem que acordava sem alarme e vivia sem fone de ouvido.
Dizem que em noites de lua cheia ainda se
ouve um uivo na zona Norte de Natal. Mas quem conhece Daniel sabe que é lenda.
Ele vive tranquilo, vendendo na feira, e só guardou um hábito estranho: nunca
mais atende número desconhecido.
Porque fera, ele aprendeu, não é quem
amanhece com pelo nas costas. Fera é quem faz do outro um bicho — e ainda cobra
produtividade.
Francisco Martins
Imagem criada por IA.
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
NÃO DEIXE DE LER ESTE CONTO DE TERROR: O LOBISOMEM DA PRAIA
O escritor Francisco Martins vai publicar, nesse blog, o conto " O Lobisomem da Praia", no dia 23 de outubro.
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
CENTELHA DE CORDEL
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
BRASÃO DO IHGRN EM QUILLING
O brasão central reproduz os elementos da heráldica institucional: o barco à vela sobre ondas estilizadas, as duas palmeiras laterais, a estrela de cinco pontas no topo e a ornamentação de flores e folhagens na base. Cada elemento é construído com precisão: bobinas fechadas para as flores, a estrela e os detalhes do barco; bobinas soltas e moldadas em dois tons de azul para dar volume às ondas; e tiras franjadas para criar a textura orgânica das copas das palmeiras.
A paleta — azul do mar, verde das folhagens, marrom dos troncos e do barco, amarelo das flores — assenta sobre um fundo de papel marmorizado em tons de bege, que confere sobriedade ao conjunto. A moldura de madeira crua, de acabamento fosco, estabelece um contraste deliberado entre o rústico e o delicado, valorizando a fragilidade do material e o rigor do traço.
Assinada e datada pelo artista no canto inferior esquerdo, a peça une memória institucional e arte manual: o emblema centenário do Instituto ganha nova materialidade, em que o papel assume o lugar da tinta e do metal.
COMENTANDO MINHAS LEITURAS: 'EM NOME DO SERENÍSSIMO REI'
O livro foi escrito por Jean Fonseca Leite Nesi, lançado em 2026, tem 266 páginas e durante três dias esteve em minhas mãos, sendo instrumento de boa leitura. Jean Fonseca parte de uma fato histórico e com base nele, desenvolve a construção do seu romance. O protagonista tem dezoito anos e recebe dos seus pais a forte frase: "Então vai e vive o que nasceste para viver" (p.19).
O jovem vai atravessar o oceano Atlântico, é o início do século XVI, ele se chama Antonio, mas seu nome vai ser mudado e passará a ter outro significado. É uma história que envolve o leitor, rica em cultura. Tem paginas recheadas de medo, insegurança, pavor, guerra, amor, família, culinária, canibalismo, etc. Vale a pena colocar esse título na sua lista de leitura.
O que aconteceu com Antonio?
Qual foi a grande mudança na vida dele?
Ele voltou a rever seus pais?
Essas e outras perguntas terão suas respostas na história "Em nome do Sereníssimo Rei", livro que veio para ficar entre os melhores romances históricos da literatura potiguar. Parabéns à escritora.
Francisco Martins
14 de outubro de 2026.
terça-feira, 13 de outubro de 2026
ENCONTRO DAS ACADEMIAS
Discurso
de Solenidade da Comenda Genibaldo Barros, lido por sua esposa Eulália Duarte Barros
“Prometo que, ao exercer a arte de curar,
mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos de honestidade, de caridade e da
ciência”.
Esse juramento de HIPÓCRATES, é uma declaração solene do
compromisso médico na festa da sua formatura.
HIPÓCRATES estabelece as bases de conduta moral na medicina,
na entrada oficial do estudante na área da saúde, e afirma: a responsabilidade
e o respeito à vida humana.
“Curar quando possível
aliviar quando necessário
e consolar sempre”
Esse juramento, foi feito por então formando Genibaldo Barros,
na Faculdade de Medicina da Bahia, no dia 13 de julho de 1952.
Um menino do Seridó, sertão que o ensinou a ouvir o mundo no
compasso dos ventos nas serras azuis, a enxergar a vida, onde a seca queimava o
verde e secava a água, e escutar o silêncio como quem reza.
No sertão do Seridó, a força, a fé e a dignidade fizeram crescer
mulheres fortes e homens como Genibaldo Barros.
Com o seu diploma na mão, órfão de pai e mãe, teve que dar o
seu primeiro passo na estrada de sua vida de médico. Teve a benção e a ajuda do
Dr. Mariano Coelho (amigo fraternal do seu pai Dr. Tristão de Barros, a quem eu
rendo uma homenagem). Depois do estágio no Rio de Janeiro e mestrado com o Dr
Raul Vacareza em Buenos Aires, veio para Currais Novo. Em Natal, assumiu a
direção do Sanatório Getúlio Vargas, Hospital para Tuberculose.
Convidado pelo então governador José Cortez Pereira, assumiu a
Secretaria de Saúde, fazendo com sucesso uma campanha de vacinação em todo o
RN.
O gov. Tarcísio Maia o
convidou para ser o seu vice-governador, ele que não militava na política.
E aí sem juramento, mas
com os seus princípios de ética, firmeza e honradez, contribuiu para a paz
pública.
Depois Reitor, outra etapa em sua vida, onde aplica os
princípios do equilíbrio e sensatez.
O menino órfão de Currais Novos, havia se tornado médico,
gestor de instituições, sem jamais abandonar os princípios morais que lhe tinha
norteado a sua vida médica.
E
plagiando Hipócrates:
“Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado
gozar felizmente da vida de minha profissão, honrada para sempre entre os
homens, e se dela me afastar ou infringir, o contrário me aconteça”
Acho, ou afirmo que Genibaldo cumpriu.
Hoje, nessa Solenidade é uma honra maior e um motivo de
orgulho para Genibaldo.
Somos gratos (a nossa família) por este gesto.
Não sei se seriam essas palavras, que Genibaldo daria nesta
nesta noite memorável.
Certamente diria do seu orgulho e honra de estar em uma
Comenda que o honra e emociona e diria:
Muito obrigado por me homenagearem em VIDA. Esta é a
verdadeira homenagem a um amigo, a um colega, a um portador de CRM 56.
E aquela frase de Genibaldo:
- Meus colegas de ontem e de hoje, meus amigos “Seguem a
juventude”.
O CHAPÉU DE BENVINDA
Em Riacho dos Ventos — cidade do sertão onde o sol chega antes das pessoas e vai embora depois delas —, todo mundo sabia quem era Dona Benvinda. Não pelo sobrenome, Alves da Rocha, que nem ela lembrava de onde tinha vindo. Sabiam pelo chapéu de palha, herdado da mãe, e pelo que ela fazia debaixo dele.
Foi Benvinda que ergueu a Panela Cheia, a
cozinha comunitária que alimentava oitenta crianças e uma trintena de velhos
todos os dias, com o que doava quem pudesse e o que plantava quem tinha um
palmo de terra. Foi ela que, no ano da seca grande, armou a cadeira na frente
da prefeitura e não saiu de lá enquanto não destravaram a água dos carros-pipa.
Foi ela que ensinou gente de sessenta anos a assinar o próprio nome, à noite,
na sala emprestada da igreja. Foi ela que segurou na mão de dona Cotinha na porta
do INSS, do seu Raimundo na farmácia, da menina Ilza no hospital. Em Riacho dos
Ventos, quase todo mundo já tinha sido "segurado na mão" por Benvinda
um dia.
— Você devia estar lá dentro — o povo
dizia. — Lá dentro, onde se decide.
Ela ria e puxava o chapéu sobre os olhos.
— Lá dentro a gente apodrece mais depressa,
meu filho. Aqui fora é que a gente rega.
Mas a cidade é que apodrecia, e disso ninguém ria. Trinta anos era o reinado do coronel Homero Bezerra, dono de terras, de caminhões e de silêncios. O prefeito era seu afilhado, os vereadores, seus empregados com salário de câmara e obediência de peão. Em Riacho dos Ventos, obra boa era a que tinha a letra H do Homero estampada na placa, e saúde pública era a ambulância que levava gente pro hospital particular dele, com nota fiscal.
Quando a eleição chegou, foi o povo que foi
atrás de Benvinda, e não o contrário. As mulheres da Panela Cheia primeiro.
Depois os professores da escola que dava aula sem giz. Depois um bando de gente
sem partido nenhum, que só tinha raiva e esperança na mesma medida.
O partido que ela escolheu era pequeno e de
esquerda — em Riacho dos Ventos, palavra dessas soava a língua estrangeira. Não
importava. Benvinda aceitou com uma condição, dita na porta da cozinha, pro
bando inteiro:
— Eu não vou pra dentro pra me servir. Vou
pra servir. Se um dia eu esquecer, o senhor me puxa da orelha e me lembra.
O slogan saiu sozinho, de tanto que era
verdade: Benvinda vereadora — a mão que já segurou a sua.
O recado chegou cedo, como chega sempre: primeiro por um intermediário sorridente, depois por um papel dobrado, depois por um convite para um café na fazenda.
O escritório do coronel tinha
ar-condicionado, couro de boi na parede e um Cristo de olhos baixos pregado
atrás da mesa. Homero Bezerra não ofereceu café. Ofereceu duzentos mil.
— Desiste, Benvinda. Ou entra na minha
chapa e vota comigo. Duzentos mil agora, a Panela Cheia bancada por mim pro
resto da sua vida, emprego pro seu menino na obra da prefeitura. Você continua
cuidando da sua gente, todo mundo sai ganhando. Aqui, minha filha, a gente não
elege gente. A gente adquire gente.
Benvinda olhou pro Cristo de olhos baixos,
que pareceu desculpar-se também. Olhou pro coronel. Ajustou o chapéu no colo.
— O senhor me desculpe, coronel, mas o
senhor tá oferecendo dinheiro pra mercadoria errada. O senhor compra boi,
compra voto, compra silêncio de vereador. Dignidade o senhor não tem dinheiro
pra pagar — e eu não tenho ela pra vender. Ela não é minha. É do povo que eu
seguro na mão.
Levantou-se, calçada de chinelo, mais alta
do que qualquer fazenda dele.
— E o senhor podia experimentar cuidar de
gente, um dia. Faz bem pro coração.
Homero sorriu devagar, com paciência de
quem já enterrou adversários melhores.
— A gente vai ver, então, quanto tempo dura
uma mulher teimosa sem gás e sem farinha.
O gás acabou primeiro. Depois as doações da prefeitura, que "o orçamento não permitia mais". Depois veio a vistoria da vigilância, que fechou a Panela Cheia por falta de um alvará que ela nunca precisara em quinze anos. O carro-pipa parou de passar na rua dela — "roteiro novo da secretaria". Seu Antônio, o filho pedreiro, foi dispensado da obra "por ordem de cima", sem carteira assinada nem explicação.
O rádio da cidade, que era do sobrinho do
coronel, descobriu uma Benvinda que ninguém conhecia: a mulher que "queria
negociar caro e não conseguiu o preço", que "guardava as doações pra
vender", que era "comunista de feira, querendo tomar a terra dos
pequenos pra dar pros de fora". Panfleto anônimo trazia a foto dela
recortada, com os olhos escurecidos a caneta. Numa terça-feira de mercado, um
recado apareceu pregado na porta da cozinha: cuidado com o que a senhora quer
pra sua família.
Foi aí que Benvinda fez a coisa mais
perigosa que uma mulher pode fazer na cidade de um coronel: continuou.
A Panela Cheia reabriu no quintal dela, no fogão de lenha que o marido falecido tinha feito de um tambor. As mulheres voltaram, cada uma com o que tinha: um quilo de feijão, uma abóbora, um punhado de sal. O almoço ficou pronto mais tarde e servido mais cedo, e nunca, em quinze anos, tinha estado tão cheio.
A campanha dela não tinha dinheiro pra
carro de som, e foi isso que a salvou. Entrou nos quintais, nas varandas, nas
filas do posto. O neto da dona Cotinha criou um grupo no telefone que se
espalhou como fumaça. E um sábado, na caminhada, aconteceu o milagre sem nome:
quarenta pessoas saíram da praça com chapéu de palha na cabeça, imitando ela.
Na semana seguinte, eram duzentos. O chapéu, que o coronel chamava de
"palhaçada de coitada", virou bandeira — e bandeira nenhuma campanha
compra, porque bandeira a gente só ganha servindo.
As mentiras do rádio batiam na cidade e
escorriam, sem colar. Como ia a mulher que ensinou metade do comércio a assinar
nota fiscal roubar doação? Como ia quem segurou a mão de todo mundo na porta do
hospital vender remédio? O povo de Riacho dos Ventos não sabia ler bem os
panfletos, mas sabia ler Benvinda de trinta anos de vista.
— Quem cuida do povo — dizia ela, no fim de
cada reunião de quintal — não precisa comprar o povo.
Na noite da apuração, a Panela Cheia virou sala de espera. Ninguém jantou. Quando o número saiu — mil trezentos e doze votos, a última das nove cadeiras, por vinte e três votos de diferença — o quintal fez um barulho que assustou os passarinhos do feijoeiro: metade grito, metade choro, e o chapéu de Benvinda subindo no ar como um sol pequeno.
O coronel elegeu o prefeito. Mas pela
primeira vez em trinta anos, sentou na frente da câmara um voto que ele não
tinha comprado.
Na sessão de posse, o vereador mais velho,
homem do grupo, pediu que a eleita retirasse o chapéu, "em respeito ao
regimento". Benvinda se levantou, devagar, e respondeu pro microfone com a
voz de quem ensinou gente a assinar o nome:
— Esse regimento o senhor pode ler depois.
Esse chapéu aqui, o senhor não. Ele é de quem me elegeu, e quem me elegeu tá
todo aqui em cima, na galeria. E embaixo dele é que eu vou trabalhar.
O chapéu ficou em cima da mesa, entre o
regimento e o caneco de água, durante os quatro anos seguintes. E em cima dele,
todo ano, o projeto de lei da Panela Cheia: alimentação de verdade pra escola
pública de Riacho dos Ventos.
Dizem que o coronel, antes de morrer,
perguntou a alguém de confiança quanto custava, afinal, aquela mulher teimosa.
E dizem que a resposta, que ele levou pro túmulo sem acreditar, foi a mais
barata que ele já ouviu na vida:
— Custa nada, coronel. Só não se vende.
Francisco Martins
13 de outubro de 2026
CATEMBA DA MAROCA
Com fortes influências do forró, xaxado, xote, baião, maracatu e frevo, a Catemba da Maroca mergulha na riqueza das tradições afro-indígenas brasileiras, dialogando com expressões como o bambelô, o coco de roda, o boi de reis, o congo de guerra, os caboclinhos e as cirandas. Um universo de ritmos, saberes e encantamentos que encontra especial inspiração nas tradições culturais do Massapê Boca-da-Matense.
Com foco na criação autoral, o grupo entrelaça o lúdico teatral à música, construindo performances que celebram a diversidade, a memória, a ancestralidade e a força criativa da cultura popular.
Seu repertório reúne composições de artistas como Ivo Maia, Alexandre Lacerda, Yranh Barreto, Crésio Torres, Val Souto, Cadu Araújo, Helino Julião e Zé Luiz de Ponta do Mato, além de outros compositores potiguares e nordestinos, sem deixar de lado as cantorias e expressões musicais que habitam o imaginário popular.
No palco, a Catemba da Maroca transforma música e teatro em uma viagem pelo universo lúdico, instigante e inebriante do Nordeste Brasileiro — sua história, seus personagens, seus ritmos e suas narrativas encantadoras e bravias.

















