segunda-feira, 4 de maio de 2026

DIMENSÕES DA CONDIÇÃO FEMININA NA POESIA DE MYRIAM COELI

 



                                                               
 Paulo de Tarso Correia de Melo


A literatura escrita por mulheres tem tradição no Rio Grande do Norte. Na “História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins, Nísia Floresta é localizada como a primeira romancista nacional. Segue-se a ela, no início deste século, Auta de Souza, também editada em Paris, prefaciada por Olavo Bilac e Alceu Amoroso Lima. Apontada por Jackson de Figueiredo como “a maior poeta mística do país”, conta, ainda em nossos dias, com uma invejável forma de consagração popular, quando aparece pretensamente psicografada pelo Brasil afora, em recantos distantes do seu Rio Grande do Norte.

Pelos meados deste século, a tradição continua, e começo eu a ser testemunha ocular desta história. Tive a adolescência iluminada pelo incomparável azul dos olhos de Madalena Pereira. Nos limites dos bairros de Petrópolis e Tirol, morava Palmyra Wanderley, premiada pela Academia Brasileira de Letras. Nas proximidades, também morava eu e a encontrava em seus passeios matinais, quando as acácias floriam. Antes disso, Zila Mamede, amiga de minha mãe e, consequentemente, minha amiga pelo resto de sua vida, ajudara a bordar minhas roupas de recém-nascido. Paguei-lhe trinta anos depois, escrevendo a introdução às suas obras completas. Na juventude, Myriam Coeli e Celso Silveira, foram alguns dos irmãos mais velhos que não tive. Diva Cunha, colega de faculdade, casou com meu amigo mais fraterno. Hoje, ao lado de Nivaldete Xavier, Marise Castro e Iracema Macedo, conta-se entre amigas e companheiras de ofício. Conheço, portanto, bem de perto, uma boa parte da melhor literatura escrita por mulheres no Estado e hoje é de Myriam Coeli, tão oportuna e merecidamente homenageada pela AJEB, que devo e quero falar.

Myriam Coeli de Araújo Dantas da Silveira nasceu, por acaso, em Manaus, Amazonas. Aos dois meses de idade, por morte de seu pai, José Silvino de Araújo, a família retorna a São José de Mipibu, na região do agreste norte rio-grandense. Apesar disso, sempre que leio as suas odes, pergunto-me se a amplidão do pensamento poético e a largueza do verso não têm algo a ver com a impressão de ter nascido rodeada pela floresta amazônica.

No Grupo Escolar Barão do Mipibu, Myriam faz o curso primário. Em seguida, vem para Natal, para o colégio de belo nome, o Atheneu, primeiro ginásio do Brasil, fundado em 1825, onde faz ginasial e clássico. Ao terminá-los, Natal ainda não contava com universidade. Transfere-se para Recife, onde, na Faculdade de Filosofia São José, das Dorotéias, gradua-se em Letras Neo-Latinas. Em 1954, bolsista do Instituto de Cultura Hispânica, diploma-se pela Escola Oficial de Jornalismo de Madrid, tornando-se a primeira mulher no Estado a ter curso de Jornalismo, o que faz indispensável a homenagem que lhe presta, nesta semana, a Associação das Escritoras e Jornalistas do Brasil.

De volta ao Estado, casa-se com Celso Dantas da Silveira, com quem tem dois filhos: Christiana Coeli e Eli Celso. Além da poesia, dedicou sua vida às duas atividades para as quais havia se preparado, o magistério e o jornalismo. Volta ao Atheneu para ensinar Língua Latina e Literatura Portuguesa; Língua Francesa no Colégio Municipal João XXIII, Língua e Literatura Portuguesa na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, História da Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia e História da Imprensa na Faculdade de Jornalismo. Invejo todos e cada um dos alunos que se encontram com a sua sabedoria mansa, com a sua paciente ternura.

  Myriam Coeli trabalhou em todos os jornais da época - Tribuna do Norte, Diário de Natal e A República - e foi a primeira jornalista profissional do Estado a dar plantão em jornal. Conheci-a com pouco tempo de casada. Não morava ainda na casa bonita da Alexandrino, mas na Rua São Tomé, exatamente por trás do jornal A República. Fantasio o retorno do plantão. Myriam saindo do prédio d’A República, subindo um quarteirão, sem mudar de calçada, pela Juvino Barreto, na calma noite da Ribeira da época, dobrando a esquina da São Tomé e avistando Celso esperando na frente de casa, Christiana e Eli já adormecidos. Eu sempre tive a impressão que, como Swedenborg, vez por outra ela se atrasava, conversando com os anjos entre as duas esquinas do pequeno percurso enluarado.

Para falar da poesia de Myriam Coeli, em uma conversa de poucos minutos, começo dizendo que foi e continua sendo a mais universal das nossas poetas. Já se registra em  Imagem Virtual, seu primeiro livro, lançado em parceria com Celso, em 1961: “A Europa empresta ao seu trabalho poético uma forma e sentido mais amplos.” Exemplo disso é o último poema do livro, Carta a Gagarin, onde Myriam mistura magistralmente a “frágeis esperanças do cotidiano”, o fato universal.

   Camarada,

   a emocionada mão que te saúda

   deste pedaço da América

é pura e suave;

as palavras que escrevo

para exaltar a tua aventura pelo espaço

quero-as simples e antigas

como as canções com que adormeço minhas crianças;

e dizer com elas - as palavras purificadas -

que trouxeste profunda alegria

por sabermos - poetas que somos - transitórios em terra azul e imatura:

por sabermos - artesãos que somos - do futuro de nossos filhos

nesta contrastante terra azul que teus humanos olhos viram.

Nós, teus irmãos de origem, te agradecemos

o que nos revelaste: do céu escuro, do sol brilhante e estrelas

e agradecemos as paisagens que viste e a mensagem azul que delas irradiaste

para as nossas frágeis esperanças do cotidiano

e nos orgulhamos de ti, profundamente;

-todos de nossa casa, de nossa cidade, dos quatro cantos do mundo,

todos que lutamos, que sofremos, que temos parcas alegrias e carregamos     esperanças

todos nós que temos no peito canções e braços de berço

e nos alimentamos de azul;

todos em qualquer situação ou latitude,

nos apontamos a mão e te brindamos o nosso abraço, um largo e caloroso abraço.

E mais te oferto: a úmida ternura

que pressinto brilhar nos olhos de meus filhos Christiana Coeli e Eli Celso

quando eu canto para adormecê-los.


O trabalho poético extremamente cuidadoso de Myriam, faz com que, embora publicando constantemente em jornais e revistas literárias, antes da publicação do primeiro livro e entre o primeiro e segundo, se estabeleça um intervalo de vinte anos entre Imagem Virtual e Vivência sobre Vivência. Neste segundo livro, dividido em Livro de Odes e Cantos de Oferta e Servidão, a poesia de Myriam se agiganta, “ganha aquela altura da poesia em que nada existe a acrescentar”, como disse no prefácio Luís Carlos Guimarães. Exemplo disso é o poema Arquitetura.


No seu covil

de barro e vidro

com artefatos

mecanizados,

se agita o homem

o branco enigma

de deus amalgama.

E tem a vida 

árvore amarga

frutificada

no corpo e fala.

Se chama acende

de espera e sonho

há insone grito

em suas cavas.

A vida o prende

em suas malhas

de frágeis lãs

-obreira sábia

que a teia tece

com murchas mãos

tácito enleio

de céu no lodo

no instante breve

dentro do nada.


Lembro uma reunião em casa de Diógenes da Cunha Lima, imediatamente após o lançamento de Vivência sobre Vivência, engenhoso desde o título. Sentei-me ao lado de Myriam e falei com entusiasmo da depuração de sua poesia, parecendo que o sofrimento físico a fazia melhor, desde que já a consumia nesta época o câncer que a levou e que ela enfrentava corajosamente. No meio da conversa, com a modéstia que sempre lhe marcou, Myriam escapou aos elogios com uma nota bem-humorada:

-Pare, Paulinho, ou daqui a pouco você vai me desejar que piore de saúde para escrever mais bonito.

Eu não desejei, não poderia nunca, mas aconteceu.

Cantigas de Amigo, o terceiro livro de Myriam, mereceu o Prêmio Municipal de Poesia Otoniel Menezes e tem como prefácio dois belíssimos poemas-autógafos de Stella Leonardos. Neste livro, Myriam demonstra todo seu conhecimento das raízes da poesia de língua portuguesa, numa reconstrução da tradição somente comparável às alturas de Cecília Meireles e da própria Stella.


Neste engano que é o tempo

Eu caminho. Eu me colho.

Meu trovar, travo, recolho.

Ferida viva eu me aguento.


Neste desdouro eu me encontro

E teço minha parábola

Em tear de silêncio e sôbola

Que, tecendo em nu, confronto


Com que sem ser, poderia.

Assim caminho, assim canto.

Amor, pena que descanto

Que amante só ousaria.


Agradeço a oportunidade que a AJEB me oferece, motivando-me a escrever um pouco sobre Myriam Coeli, coisa que ainda lhe devo, um estudo aprofundado de toda obra, à semelhança dos que fiz para Zila Mamede, Sanderson Negreiros, Luís Carlos Guimarães e Deífilo Gurgel. Em relação à poeta, não me satisfazem a introdução que fiz para sua póstuma fortuna crítica Ave Myriam e umas quadras tortas que escrevi para uma coletânea lançada na ocasião em que completaria 70 anos. Ainda não é desta vez que faço o estudo pretendido, mas quis aproveitar o momento para dar uma amostragem dirigida da poesia de Myriam. O Carta a Gagarin é poema de poeta mãe cidadã do mundo. Arquitetura é poema de mulher poeta metafísica do mais alto nível. O poema XXIII de Cantigas de Amigo é de mulher poeta amante, como o é o livro em sua totalidade. Quero encerrar com Variações para Rondó, dedicado a sua avó Maria Carolina, peça de seu precioso Inventário, Prêmio Estadual de Poesia - 1981 - da Fundação José Augusto, publicado postumamente. O poema é uma arqueologia da condição tradicional da mulher na sociedade brasileira. Terno, doce e bem-humorado, como era Myriam.


De compostura conventual,

a avó que foi sinhá

e as avós da avó

sentam-se em longas mesas

cobertas de linho branco de delicados bordados.


Tão meninas e tão barrocas,

metidas em tantas roupas

sobrando nos sofás.


De velhas estórias que se guardam, ficaram as avós

como a lenda na lembrança,

deixando-se servir por negras de África,

em porcelanas de Inglaterra e França.

Porque de sins serviam a seus senhores.


Tão meninas e tão barrocas

metidas em tantas roupas

viviam essas sinhás.

Para os folguedos não esquecidos

da quadra infantil,

nas grandes salas, valsas de piano ressoavam,

o riso, o choro de crianças

e os embalos das mucamas.


Essas meninas barrocas

lembraram suas bonecas

esquecidas nos sofás.


Tinham os gestos breves das polcas e minuetos

deslizantes em salões de pinho de Riga - pés gracis;

e os falares intrigantes, embora de amor constante.

Nas cabeças inquietas, sonho que desatina.

O sorriso se escondia por trás de leques da China.


Tão meninas e tão barrocas,

de graça muita, alegria pouca,

suspiravam essas sinhás.


Tão românticas passaram em varandas patriarcais

de apuradas formas de ânforas, rosetas e flor-de-lis

e em lembranças se arrumaram

assim em retratos, de golas altas e cabelos em bandós,

ornatos de colares de ouro, e pedrarias;

tão infantas, Deus meu, mas tão matriarcais,

tão sós e tão serenas em suas entampas retocadas,


tão meninas e tão barrocas,

enfatuadas com tantas roupas,

rendado nos sofás,


que hoje para esta avó de avoengas sinhás

o meu beijo dirijo, assaz respeitoso,

neste século XX desgracioso,

sem dengues, sem leques,

sem doçuras de sinhás.


Ah! quem nos dera assim meninas tão barrocas,

vestidas naquelas mesmas roupas

arrumadas nos sofás!



                                                                                    Natal, 19/11/97.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

segunda-feira, 27 de abril de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A IMPORTÂNCIA DA LEITURA - RAIMUNDO NONATO FOI PROVA DISSO


 A Escola Municipal Ivanira de Vasconcelos Paisinho, em Parnamirim-RN, fez o convite para eu gravar uma mensagem destinada aos alunos, onde falo sobre a importância da leitura. Atendi o pedido e gravei o vídeo acima. 

EM MAIO VAI TER FECOP NA CIDADE DE MOSSORÓ

 

É com grande satisfação que realizaremos mais uma edição da FECOP!
Com o apoio e a colaboração de todos vocês, estaremos juntos fortalecendo e propagando a nossa cultura, valorizando nossas raízes por meio do cordel. 

terça-feira, 21 de abril de 2026

CENTENÁRIO DO PRIMEIRO LIVRO DE AURÉLIO PINHEIRO

 "O Desterro de Humberto Saraiva", editado pela Livraria Clássica de Manaus é o livro de estreia de Aurélio Pinheiro, considerado o maior romancista do Rio Grande do Norte, por aquele que descortinou a sua existência no estado, o escritor e crítico literário Américo de Oliveira Costa.

A obra de estreia faz seu primeiro centenário (1926-2026). Aurélio Pinheiro,  foi médico formado na Universidade da Bahia, era natural de São José de Mipibu (RN). Atuou como cronista no jornal O Mossoroense (sob pseudônimos como Estanislau Pamplona) e viveu em Macau, Areia Branca e Parintins (AM), onde foi inspetor sanitário. Sua obra integra a literatura moderna potiguar, refletindo experiências regionais e pessoais.

Os temas principais do romance são: 1)O exílio e deslocamento, 2) Tradição versus modernidade, 3)  A identidade regional e o cotidiano nordestino-amazônico, 4) A crítica social e psicológica. É possível ter acesso ao livro digitalizado clicando aqui O Desterro de Humberto Saraiva

Aurélio Pinheiro é patrono da cadeira 27, na Academia Norte-rio-grandense de Letras, tendo sido escolhido pelo fundador da cadeira, o escritor Américo de Oliveira Costa. Atualmente, a cadeira tem a guarda literária de Vicente Serejo.

Na Academia Macauense de Letras e Artes - AMLA, ele é patrono da cadeira 5, ocupada por Michelle Paulista.  Aurélio Pinheiro fez parte da Academia Amazonense de Letras, sendo o fundador da cadeira 3.


Leia também a  tese da Professora Maria Rego (2023):


domingo, 19 de abril de 2026

COMENTANDO MINHAS LEITURAS - "FUZUÊ EM ENTREPELADO"

No dia 14 de junho de 2023, o escritor Antônio Melo lançou o livro "Fuzuê em Entrepelado". Publicado pela Z Editora, o livro é daqueles que o leitor agarra e não quer mais soltar, dada a beleza literária dos contos.

Antônio Melo 
 Antônio Melo transporta em seus textos a realidade da vida, o humor que ela contém em suas mais variadas formas, mas também registra cenas de vidas marginalizadas. Suas personagens estão nas páginas e nas ruas; nós as encontramos em nosso cotidiano. E é esse olhar de Antônio Melo que faz dele muito mais do que um escritor: um Contador de Histórias. "Fuzuê em Entrepelado" é um título excelente para ser lido com nossos jovens, nas escolas de Ensino Médio, oferecendo-lhes elementos para a reflexão sobre a sociedade em que vivemos.

Aconselho a leitura dos contos e convido a se deleitar com as palavras que, em cada página, nos dão a sensação de estarmos ouvindo um podcast.


Francisco Martins


Foto do autor: Jornal Tribuna do Norte, edição do dia 23 de fevereiro de 2020, coluna Roda Viva, de Cassiano Arruda.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

REVISTA ANRL - EDIÇÃO Nº 86 ESTÁ SENDO ENTREGUE AOS LEITORES

Circula no meio literário a aguardada edição nº 86 (janeiro a março de 2026) da Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras. A capa é ilustrada por uma obra de Newton Navarro, a quem esta edição presta uma homenagem especial com diversos textos dedicados à sua vida e obra. Outro escritor destacado na Revista é Paulo de Tarso Correia de Melo, que, tendo feito parte da instituição até o ano passado, nos deixou recentemente.

É notável a expressiva participação dos acadêmicos nesta edição, algo que não se via há tempos. Que bom! Afinal, a revista lhes pertence, e os imortais devem sempre contribuir para este periódico. Neste número, dos 33 textos, 13 são assinados pelos próprios acadêmicos.

Como costumo afirmar, a Revista possui uma excelente qualidade literária. Vale muito a pena mergulhar em seus artigos e aprofundar-se no conhecimento de nossa cultura.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

II MOVIMENTO PRÓ-MEMÓRIA NÍSIA FLORESTA


 

ESCOLA MARIA SALETE DE LIMA - BODAS DE OURO NA EDUCAÇÃO - RECEBEU FRANCISCO MARTINS

 Conforme foi anunciado aqui no blog, na segunda-feira passada, o escritor e contador de histórias Francisco Martins esteve pela primeira vez, na Escola Municipal Maria Salete de Lima, no distrito de Japecanga, em São José de Mipibu-RN.

O evento foi maravilhoso, a comunidade escolar participou com esmero. A plateia vidrada nas palavras e gestos do escritor, que com sua experiência levou a ludicidade, através das suas histórias para o público infantil e  adulto.

Francisco Martins agradece a direção da escola pelo convite formulado e a acolhida que recebeu. O carinhos dos alunos e professores. A Escola Maria Salete celebra esse ano, meio século da sua fundação. Bodas de Ouro na educação. 







AGENDA DE FRANCISCO MARTINS ATENDE TRÊS ESCOLAS EM PARNAMIRIM



 Esta semana  as escolas públicas municipais de Parnamirim, celebram mais do que nunca a literatura. Acontece nas escolas visitas de escritores, eventos que promovem a leitura e o livro, uma verdadeira celebração. Não podia ser diferente, posto que, há na cidade o lindo e premiado projeto "Rio de Leitura".

O escritor Francisco Martins vai estar com os alunos, na tarde de hoje, na Escola Professora Jacira Medeiros , amanhã, dia 16, nos turnos matutino e vespertino, na Escola Municipal Manoel Machado e na sexta-feira, dia 17, com os alunos do turno vespertino da Escola Municipal Professora Maria Luzanira.

Francisco Martins leva consigo a mensagem da importância de ler, fala sobre sua produção literária, dos livros e folhetos e cordel,  conta histórias, apresenta seus bonecos articulados e dessa forma, faz da sua apresentação um momento lúdico.

terça-feira, 14 de abril de 2026

MEMORIAL TITINA MEDEIROS - TERRITÓRIO DE ENCANTAMENTOS

 

Na próxima sexta-feira, 17/04, será inaugurada, em Acari, a exposição permanente dedicada à memória de uma das mais marcantes artistas do Rio Grande do Norte: Titina Medeiros.
O memorial ocupará uma sala exclusiva na Casa de Cultura Popular de Acari Palácio Titina Medeiros, localizada na Rua da Matriz, 210.
Com expografia assinada por João Marcelino e curadoria de Arlindo Bezerra, César Ferrario e do próprio Marcelino, a exposição vai além de apresentar uma biografia; o memorial propõe uma experiência sensorial reunindo objetos, figurinos, fotografias, vestígios e imaginários de uma trajetória que atravessou o teatro, a televisão, o cinema e a vida com intensidade rara.
PROGRAMAÇÃO DE INAUGURAÇÃO:
19h: Lançamento oficial do Memorial e abertura para visitação
19h30: Show de abertura com Julhim de Tia Lica
20h30: Show Constância das Las Tchicas com Ângela Castro, Giovanna Araújo, Michelle Ferret, Tiquinha Rodrigues, Valéria Oliveira e convidadas(os)
GOVERNO DO RIO GRANDE DO NORTE, SECULT RN E FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO apresentam
MEMORIAL TITINA MEDEIROS - TERRITÓRIOS DE ENCANTAMENTOS.
Realização: Casa de Cultura Popular, Dei Editorial A República, Gráfica Manimbu, Fundação José Augusto, SECULT RN, Governo do Rio Grande do Norte
Apoio Institucional: Fundação Hélio Galvão
Produção: Bobox Produções e Casa de Zoé.
Siga a conta do Memorial Titina Medeiros, no Instagram: @memorialtitinamedeiros




segunda-feira, 13 de abril de 2026

ESCOLA EM JAPECANGA RECEBE O ESCRITOR FRANCISCO MARTINS

 

A Escola Municipal Maria Salete de Lima, localizada no distrito de Japecanga, em São José de Mipibu, está celebrando este ano, 50 anos da sua fundação. 

Hoje, o escritor e contador de histórias, Francisco Martins , fará duas apresentações para os alunos e professores, oportunidade em que também falará sobre suas produções literárias. 

quinta-feira, 26 de março de 2026

CENTELHA DE CORDEL


Não me canso  de cantar
Que cuscuz  é sentimento
Semelhante ao Amor
Verdadeiro sacramento
Com carneiro torrado
Prato fica mais ornado
Um grande deslumbramento

Mané Beradeiro
26 março 2026

terça-feira, 24 de março de 2026

sexta-feira, 20 de março de 2026

2ª EDIÇÃO DO "DOUTOR BUTI" ESGOTOU HOJE

 


 O livro infantil, "Doutor Buti", esgotou hoje a sua segunda edição. Por coincidência, os últimos exemplares foram vendidos na Escola Municipal Professora Luzanira,em Parnamirim, onde estudava Miguel Lucas, a criança que provocou o autor a escrever o livro. Francisco Martins  vai  providenciar a terceira edição.

KEILA OLIVEIRA - CONTANDO HISTÓRIA


 20 de março é o Dia do Contador de Histórias.  Keila Oliveira nos presenteia com esta história, repleta de valores, como deve ter as boas histórias. Parabenizamos  Keila Oliveira, e com ela, os demais profissionais que fazem da arte narrativa um instrumento de semear a paz e amor , tornando o mundo melhor para quem nele vive. Para saber mais sobre ela visite https://www.instagram.com/keila.oliveira_historias?utm_source=qr&igsh=OGJ3djBteDM5enpi


quarta-feira, 18 de março de 2026

CINE SÃO JOSÉ - 35 MATINÊS

 

O legado mágico de um cinema de bairro.

No periodo de 1969 a 1975, entre seus 10 e 16 anos, o jornalista e escritor Alex Medeiros viveu no bairro das Quintas e experimentou intensamente as emoções da sétima arte no pequeno cinema São José, situado na Rua Pedro Novôa quase na esquina da Rua São Geraldo. Ali ele compartilhou com amigos a magia dos muitos estilos do cinema,  do faroeste à comédia, do musical à ficção científica, da aventura de super-heróis aos épicos de piratas e guerreiros medievais.

Na calçada do velho "purguinha" (apelido que se dava na época às pequenas salas de projeção nordestinas) Alex também curtiu uma das suas grandes paixões até hoje: as revistas de histórias em quadrinhos e os álbuns de figurinhas. 

Entre a fachada do São José e a lateral do Mercado Público, tudo virava um bazar a céu aberto, com meninos, rapazes e até adultos vendendo, comprando, trocando revistas e figurinhas. E tudo num tempo calculado até que o autofalante do cinema desse o sinal da abertura da bilheteria.

O Cine São José, que foi fundado no começo dos anos 1950 por José Avelino, funcionou até início dos anos 1980, sendo administrado na época de Alex pelo herdeiro Erivam Avelino e sua esposa Adália Moura.

Por muitos anos o jornalista alimentou o desejo de contar um pouco da história do cinema que lhe abriu as portas de um mundo mágico que ele habita até hoje. Várias vezes ele fez menções, em sua coluna de jornal que publica há quase 40 anos, às sessões que assistiu naquele pequeno espaço de entretenimento. Até que em 2024, seu amigo contemporâneo Maurício Designer, um artista de raro talento, mostrou-lhe uma maquete que havia acabado de fazer. Era o saudoso São José renascido em detalhes de  massa, madeira e papel. Uma imagem espetacular como se enviada do passado em quatro dimensões.

No ano seguinte, 2025, Maurício surpreendeu de novo o amigo lhe presenteando com outra maquete, de menor dimensão mas com a mesma grandeza de saudade. Depois deu uma notícia que logo despertou o antigo sonho de contar sua aventura no São José: Dona Adália, a dona do cinema, morava perto dele e estava emocionada com as duas maquetes (obviamente houve uma terceira réplica para ela).

Então, Alex combinou umas tardes de conversas movidas a café e entrevistou Adália, colhendo tudo que precisava para registrar a existência do cinema que foi para ele a versão das Quintas de Cine Paradiso (o cinema consagrado no clássico filme do italiano Giuseppe Tornatore).

O livro Cine São José - 35 Matinês tem edição de Adriano de Sousa, projeto gráfico de Gustavo Lamartine e capa e fotos de Giovanni Sérgio a partir da maquete de Mauricio Designer.

Será lançado dia 9 de abril, quinta-feira, às 17h, na Academia Norte-Riograndense de Letras e Conselho Estadual de Cultura, na Rua Mipibu, 443, Petrópolis.

QUINTA CULTURAL NO IHGRN

 


quinta-feira, 12 de março de 2026

O CORDEL NA CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS

 

No próximo sábado, dia 14 de março, o poeta cordelista e contador de histórias, Mané Beradeiro, vai ter uma prosa no canal do YouTube, da Academia Brasileira de Contadores de Histórias, onde ele mostrará que o cordel brasileiro é uma grande mina para garimpar histórias.

quarta-feira, 11 de março de 2026

QUINTA CULTURAL NO IHGRN

 


OS MÍSSEIS INVISIVEIS DO BRASIL

 


Enquanto o mundo se debruça sobre arsenais nucleares e poderios bélicos, medindo o alcance de foguetes intercontinentais e a força destrutiva de ogivas, o Brasil silencia em sua possessão de um armamento incomparavelmente mais poderoso e insidioso. Não se enganem com a aparente inocência de nossa diplomacia ou a ausência de ogivas estratégicas em nosso território. Nossos mísseis, testados e comprovados diariamente em solo nacional, superam em mortandade e alcance qualquer projétil fabricado pelos Estados Unidos, China, Irã, Israel ou Coreia do Norte.

Estes artefatos não explodem em cogumelos atômicos nem riscam os céus com sua velocidade supersônica. Eles operam em um plano muito mais sutil e devastador. Sua mira não se volta para bases militares inimigas ou cidades distantes, mas para o cerne da vida de cada brasileiro. Com precisão cruel e eficiência macabra, um desses mísseis pode aniquilar a educação de gerações inteiras, corroer a saúde de milhões, desmantelar a segurança social e pulverizar a vida social, deixando um rastro de desespero e miséria que nenhuma bomba convencional poderia replicar.

O mais trágico e surreal é que esses mísseis não são acionados por inimigos externos. Eles são disparados pelos próprios Poderes que deveriam ser os guardiões, os protetores, aqueles que juraram defender a nação e seu povo. São os mesmos braços que deveriam salvar que, tragicamente, matam. Não há aviões a lançá-los, nem silos subterrâneos a contê-los. Muito pelo contrário, são armas forjadas há longos anos, com aprimoramentos constantes e uma familiaridade ímpar com os corredores e gabinetes do Planalto Central, de onde emanam suas instruções mais eficazes. Eles minam a vida dos brasileiros de dentro para fora, gota a gota, ano após ano, através do combustível mais tóxico que existe: os desvios de verbas. As cifras envolvidas nesses lançamentos são assombrosas, totalizando bilhões e reveladas em sucessivas ondas de escândalos políticos que marcam a história recente do país, tornando a corrupção uma cicatriz aberta e pulsante.

Cada milhão desviado de um hospital é um míssil que acerta uma vida, uma família, um futuro. Cada centavo roubado da educação é um projétil que destrói a esperança de crianças e adolescentes. Cada verba desviada do INSS é uma ogiva que explode na dignidade de idosos e trabalhadores.
Estes são os mísseis que o Brasil lança contra si mesmo, uma guerra silenciosa que ceifa mais vidas, destrói mais sonhos e deixa cicatrizes mais profundas do que qualquer conflito armado. E o mais aterrorizante é que seu poder, ao invés de diminuir, parece se fortalecer com o tempo, atestando uma eficácia letal que envergonha e entristece a nação.

Em tempos de guerra, a primeira e mais urgente tarefa é detectar o inimigo interno, o adversário camuflado que se infiltra e corrói as fundações. Somente após desativar esses armamentos invisíveis, se porventura sobrevivermos e ainda houver uma infantaria de cidadãos dispostos e capazes, poderemos então reforçar as fronteiras para evitar que os perigos de fora entrem e aprofundem as feridas já abertas por nossa própria autodestruição.

Francisco Martins - 11 de março 2026

terça-feira, 10 de março de 2026

VESTIDO DE MULHER

 

Nesta foto eu vejo o tempo
Vestido de mulher
Dois horizontes distintos
Vestidos de mulher
A maternidade numa
Vestida de geração
A juventude, em outra
Vestida de gratidão
Eu vejo café preparado
Na cozinha do coração
Adoçado com sorrisos
Vestidos de emoção.

Francisco Martins
10 março 2026

O CONCLAVE DOS NARIZES

 



Que rufem os tambores – ou melhor, que se agucem as narinas! Era o dia da "Reunião Anual dos Narizes de Especialidade", um evento tão peculiar que nem a Sociedade Internacional de Otorrinolaringologia tinha coragem de endossar. Na mesa redonda (na verdade, uma mesa de bilhar adaptada), os mais distintos órgãos olfativos do país se reuniam para discutir suas proezas e, claro, cheirar uns aos outros.

O primeiro a se pronunciar, com uma delicadeza quase etérea, foi o Nariz do Ginecologista. "Caros colegas," começou ele, ajustando seus óculos invisíveis, "minha especialidade exige uma sensibilidade ímpar. Sou perito em desvendar mistérios ocultos, em decifrar mensagens sutis onde outros apenas sentiriam... bem, digamos, a complexidade da vida. Meu trabalho é como ser um detetive de aromas íntimos, sempre em busca da harmonia, ou da sua ausência." Ele fez uma pausa dramática. "E sempre, sempre com o máximo de discrição."

Em seguida, irrompendo com uma alegria terrosa, veio o Nariz do Jardineiro. "Ah, discrição é para os fracos!" exclamou, com um leve rastro de adubo. "Eu sou o poeta da podridão, o maestro da matéria orgânica! Conheço o cheiro da terra úmida antes da chuva, o aroma da flor desabrochando e o lamento do fungo que se apossa do roseiral. Meu nariz é uma enciclopédia viva de cheiros verdes, flores e, sim, do cocô de galinha que faz a vida brotar! Sem mim, o mundo seria um canteiro sem graça!"

O Nariz do Padeiro, ainda com uma pontinha de farinha no septo, soltou um suspiro de êxtase. "Verdes? Flores? Desculpem a franqueza, mas nada se compara ao néctar divino do fermento ativando! Eu sou o guardião do pão nosso de cada dia! Meu olfato distingue o trigo sarraceno do integral, o ponto exato da massa que cresce e o cheirinho de queimado que indica que o cliente vai reclamar. Sou um alquimista de fragrâncias douradas, do doce do croissant ao rústico do pão de centeio. Minha vida é uma sinfonia de forno e delícia!"

Um nariz pequeno e encurvado, com uma leve coloração de tinta de jornal, pigarreou. Era o Nariz do Leitor. "Eu sou o portal para mundos infinitos", disse ele, com uma voz um tanto empoeirada. "Consigo sentir o aroma de uma biblioteca antiga, com suas histórias adormecidas em pergaminhos, ou o cheiro fresco de um livro recém-impresso, prometendo novas aventuras. Percebo o café derramado na página 73, o cheiro de maresia de um romance de piratas e até o resquício de lágrimas em um drama romântico. Meu nariz lê as entrelinhas invisíveis de cada narrativa!"

Um silêncio constrangido pairou no ar. Então, um nariz gordo, com um brilho suspeito e um leve aroma de uísque barato e charuto, inclinou-se à frente. Era o Nariz do Político Corrupto. Ele limpou a garganta, um som que parecia raspar notas de dinheiro. "Amigos e... bem, colegas," começou ele, com um sorriso afetado, "todos vocês têm talentos louváveis. Mas o meu nariz? Ah, o meu nariz é o mais pragmático de todos. Ele fareja o dinheiro a quilômetros de distância, detecta o cheiro de um contrato superfaturado antes mesmo de ser assinado, sente a oportunidade em cada crise. Ele distingue o aroma do suborno disfarçado de 'doação de campanha' e o cheiro do medo nos olhos do eleitor. E o melhor de tudo? Ele é totalmente imune ao cheiro de ética ou moralidade. Não perco tempo com isso, sabe? Meu foco é no aroma inconfundível do lucro fácil."

Os outros narizes se encolheram, alguns com nojo, outros com uma pontinha de inveja secreta. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o Nariz do Jardineiro sentiu o cheiro de algo podre, mas não era de adubo. Era o cheiro da pura e inabalável... corrupção.

Mas, antes que a reunião pudesse terminar em total desânimo, um pequeno e curioso nariz, que até então estava observando com olhos arregalados, levantou-se com entusiasmo. Era o Nariz da Criança. Sua voz, fina e clara, cortou o ar viciado. "Eu... eu gosto de cheirar o cheiro de bolo de vó, sabe? E o cheiro do meu cachorrinho depois do banho! E o cheiro de terra molhada quando a gente faz castelo de areia!" Seus olhos brilhavam. "Mas o que eu mais quero é sentir o cheiro de um mundo que não tem cheiro de coisa feia, nem de briga. Um mundo que cheire a flor, a pão quentinho e a abraço de mamãe. Um mundo só de cheiro bom!"

Os narizes mais velhos se entreolharam, alguns com um pingo de vergonha, outros com um raro vislumbre de esperança. O cheiro de um mundo só de cheiro bom... Aquele pequeno nariz, com sua inocência e anseio, de repente fez todos os outros narizes, por um breve instante, questionarem o que realmente valia a pena farejar.

E assim terminou a reunião, com cada nariz voltando para suas respectivas rotinas, cada um com sua peculiar habilidade olfativa. Mas, ao passarem pela porta de saída, todos foram surpreendidos por um aroma diferente, que os envolveu como um abraço invisível. Ali, discreto, estava um Nariz que Cheirava Amor e Perdão. Não falava, não se gabava, apenas exalava uma fragrância suave de aceitação e de renovação. E, enquanto cada nariz seguia seu caminho, aquele aroma os acompanhava, ensinando-lhes, silenciosamente, que a arte mais nobre de todas era a de sentir e espalhar os cheiros que curam a alma.

 

Francisco Martins

9 de março 2026


segunda-feira, 9 de março de 2026

domingo, 8 de março de 2026

ANRL - 90- ANOS - CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA LITERARIA - EDIÇÃO 005 - A CARTA DE AUGUSTO SEVERO


Augusto Severo

Aos 23 anos, Augusto Severo  escreveu a carta abaixo.  Uma linda peça literária, Digna de ser conhecida por todos. Trago-a, hoje, dentro da série "ANRL-90 ANOS", homenageando na pessoa de Maria Amélia, todas as mulheres. Augusto Severo é patrono da cadeira 18, na ANRL.

Maria Amélia (1861-1896)


    " Guarapes, 9 de dezembro de 1887.

Exma. Sra. Inês Perpétua Teixeira de Araújo

Minha Senhora:

Peço-lhe vênia para ir a sua presença tratar do que hoje mais profundamente me interessa, eu que não posso apresentar títulos que me recomendem perante a Sra., nem mesmo os de um ligeiro conhecimento pessoal. Vi-a, é verdade, tive o prazer de lhe ser apresentado em abril de 1885, em casa do meu cunhado Jovino, mas então nem sonhava que tivesse de pedir-lhe, de implorar-lhe o que ora peço e imploro.

Como recomendação única, levo o mais nobre, o mais santo de todos os sentimentos – flôr do céu a que Deus permitiu a vida na terra – o Amor. Inspirou-mo grande e casto, sua boa filha D.ª Maria Amélia; tão grande, tão puro que já não poderei viver sem êle.

Peço-lhe pois, a mão d’ela para a minha felicidade, porque cifra-se em sua doce posse a realização do mais risonho do único risonho de todos os meus sonhos, o alento para as boas inspirações, inspirações de minh’alma sem a qual, sinto que morrem.

Peço-lhe, de joelhos minh’alma como implorando o céu, que dê o seu consentimento partido do coração, que me aceite a mim por filho, a mim que quase desconhece mas que lhe juro com a consciência branca, não se envergonhará de ter-me por tal. De meu pai que a Sra. conhece e de minha santa mãe tenho a plena aprovação; d’êles que de havê-la por filha hão de orgulhar-se, com o orgulho que não macula, que é antes um bom sentimento quando não leva o egoísmo, porque lhe reconhecem tôdas as virtudes – flôres d’alma que na terra só é dado possuir a mulher perfeita.

Pela precipitação da viagem de meu pai, não o incumbi de por mim pedir a Sra. o que agora pedi; não me arrependi porém, porque não me podia fazer conhecer mais do que sou e eu, só eu devia pedir a minha felicidade.

Eu devia apresentar-me pessoalmente para êste fim do qual está pendente tôda a minha felicidade, o meu futuro inteiro, mas sou empregado em uma casa comercial onde me prendem obrigações tão mais fortes porque estamos agora em meio de safra principalmente não tendo como não tenho por ora, um imediato que me substitua por alguns dias.


Poderia ir em abril quando pretendo, mas não teria fôrça bastante para conservar até lá, calcado no coração o sentimento que precisa do seu consentimento para não explodir.

Por Deus minha Senhora, espero que me dará posse da felicidade. Se não fôsse impelido pela grande fôrça que rege o movimento dos corações, não me afoitaria a tanto!

Junto uma carta para cuja entrega peço-lhe permissão. Suplico-lhe que me responda na primeira mala, que pela resposta fica ansioso meu coração.

Como meu único advogado, o Amor – o sempre grande o Amor – o sempre casto.

Creia minha Senhora (autorize-me a chamar-lhe mãe; como então eu serei feliz!).

No profundo respeito que lhe consagra e na lealdade de quem só pode ser feliz com a dôce posse de sua querida filha D.ª Maria Amélia”.


FONTE: Revista da ANRL, nº 7, p. 9 a 11.