sexta-feira, 11 de maio de 2012

O LOBO E O CORDEIRO

Considerado subversivo pelos vitoriosos do movimento armado de março de 1964, a aplicação do Método Paulo Freire de combate ao analfabetismo levou alguns professores à prisão, incluindo o seu autor.
Achando que, como mãe, teria melhores condições de evitar que Marcos Guerra, um desses professores, fosse transferido do 16º RI, em Natal, para um dos presídios do Recife, onde já estivera, D. Selda não hesita, e vai à procura do Major Darcy Villoco, na capital pernambucana. Depois de muito indagar, descobre a residência do oficial. Através das grades de ferro do portão avista o militar que, naquele instante, assomava à varanda. Sem responder ao bom-dia, indaga aborrecido:
-O que é que a senhora quer?
-Falar sobre meu filho.
-A senhora sabe com quem está falando?
-Sei.
-Conhece a minha fama?
-Conheço.
-Sabe que dizem por aí que eu faço parte do esquadrão da morte?
-Não senhor, não sabia.
-Pois é...é isso o que dizem. Sabem o que dizem o que eu fiz com o Sargento Gregório Bezerra? (Depois de barbaramente espancado, o Sargento foi arrastado pela Praça de Casa-Forte).

Professor Marcos Guerra

-Sei.
-E a senhora, sabendo de tudo isso, ainda tem a coragem de vir falar comigo?
-Pelos filhos, Major, uma mãe tem coragem para tudo. ( grifo meu)
Pensando que falava com uma advogada, pelo desembaraço e o revide imediato a qualquer indagação sua, o militar declara:
-É, mas eu tenho muita raiva de advogado.
-Mas eu não sou advogada. Sou apenas, há trinta anos, mulher de advogado.
E nesse tom, depois de um diálogo pouco amistoso, o Major Villoco, já menos intransigente, afinal lhe dá uma esperança:
-Bem , mas eu não posso fazer nada sem antes ouvir o Conselho de Justiça.
No dia seguinte, sob um forte temporal, D.Selda chega a um velho casarão na Avenida Conde da Boa Vista, onde estavam reunidos os juízes militares. Ainda na sala de espera, enquanto fechava a sobrinha e se livrava das galochas molhadas, é reconhecido pelo Major, que a viu de longe, e vem em sua direção trazendo a resposta ansiosamente aguardada:
-Falei com cada um dos cinco juízes e todos concordaram com a permanência do seu filho em Natal.
E, assim, Marcos ficou no 16º RI até lhe ser concedido um habeas´corpus, por unanimidade, pelo Superior Tribunal Militar que trancou o processo, não o julgando subversivo. No entanto, antes da concessão, o Conselho Militar, com sede em Recife, transformou em domiciliar a prisão de vários indiciados.
De posse, então, de telegrama recebido, o Dr. Otto Guerra procura o Coronel Ednardo D'Ávila.... foi possível a Marcos, ainda na tarde desse mesmo dia, retornar à residência de seus pais.

(Extraído do livro HIstórias que não estão na História, de  José de Anchieta Ferreira, 2ª Edição,  RN Gráfica Editora, 1989, páginas 137 e 138)