segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

COMENTANDO MINHAS LEITURAS DE CORDEL: CHICO CATATAU



CHICO CATATAU - UM CANGACEIRO DIFERENTE

O cordel narra a história de Francisco Marival, o Chico Catatau, personagem fictício, criado pelo poeta Izaías Gomes, que está distribuída em 108 páginas, através de dez capítulos e 480 estrofes em sextilha.  A narrativa do texto se dá na terceira pessoa, com o narrador presente no espaço das cenas, mas sempre um pouco distante,  o suficiente para tudo ver e narrar: “O recém falava fino/ Um pouquinho atrapalhado/ Eu que era bem menino/ Me lembro do apurado/ Vendo o povo feito ruma/Correndo desembestado” ( estrofe 16, p. 8. Grifo nosso).  Esta presença é também sentida pelo Chico Catatau a ponto dele manter o desejo de se comunicar com o narrador:
                           
                                 Catatau inda clamou:
                               -Me acuda Ave Maria!
                               Me ajude nessa hora
                               Ou o autor da poesia
                               Se ele não mudar o verso
                               Morrerei nessa agonia
                               (ASSIS, 2014, p. 73)

Para criar o enredo dessa história, que é preciso afirmar ser muito bem montado, o autor Izaías Gomes deu vida a mais de vinte personagens. Chico Catatau – um cangaceiro diferente está como obra literária poética, dentro do contexto do cordel no Rio Grande do Norte, como uma das principais obras de gracejo/valentia,, assim como “As Pelejas de Ojuara” de Nei Leandro de Castro, está para a prosa potiguar.

Izaias Gomes
A história tem como berço o povoado do Ingá, no município de Montanhas-RN. E é nesse torrão potiguar que as cenas acontecem e continuam até Catatau partir para a dimensão espiritual, quando passa a transitar pelo Céu, Inferno e Purgatório. Todo autor deixa sempre um pouco do DNA dos seus conhecimentos nos textos que ele escreve, isso é normal, pois tudo quanto escrevemos, seja em prosa ou poesia, há nas entrelinhas aquilo que pensamos e lemos.  Com o poeta Izaías Gomes não foi diferente, é bem forte a existência do seu pensar, no tocante a religião.
A história de Catatau contém várias estrofes, nas quais o sentimento religioso do protagonista é conflitante com o sentimento do narrador. A própria cena inicial tem como palco o espaço sagrado de uma capela, onde a criança nascerá.  Ao longo da narrativa não serão poucas as vezes em que Catatau estará demonstrando seu sincretismo religioso, mesclando a fé católica com práticas do culto afro-brasileiro.  Se por um lado é notório este comportamento, que nada mais representa do que a realidade popular na qual está inserido Catatau e sua família, como elementos que retratam a fé ora vivida dentro do mundo católico, ora através do ritual afro-brasileiro. Vejamos a resposta que Zacarias, pai de Catatau dá ao Padre  Téo no tocante a consulta do xangozeiro:
                               -Padre, sei que somos falhos,
                               Nós todos perante Deus;
                               Pois eu tenho alguns pecados,
                               Seu vigário tem os seus,
                               Então fique com os vossos
                               Que fico aqui com os meus
                               (ASSIS, 2014, p. 27)

E é exatamente nessa estrofe, onde o poeta narrador, através do eu lírico, arremete suas setas, deixando claro seu posicionamento no tocante à fé, é  o conflito que citei acima. Nasce ali uma sequência de mensagens subliminares, presentes ao longo do poema, onde somente um leitor mais experiente irá perceber ou então se perguntar quando na última página ler a declaração que faz o autor.   Finalmente, podemos assegurar que o cordel, ora resenhado nos ensina que nada é perdido para sempre. Há uma esperança e o bem vence o mal, aliás, uma constante em outros poemas de cordel.
Um texto poético precisa apresentar três características: subjetividade, emoção e lirismo.  Junte-se a isso, que se tratando de um poema em cordel, é indispensável que haja também rima, métrica e oração.  No tocante às três primeiras características é bem fácil detectar a subjetividade e a emoção. Mas e o lirismo? É possível encontra-lo em Chico Catatau? Leia o livro e tente descobrir.
 Conclui o poeta Izaias Gomes prometendo que a história termina aqui, por enquanto, mas que ele irá escrever outra vez sobre Chico.
Gostaria de trazer a essa resenha, algumas considerações que acho importantes e ao meu ver enquanto leitor, terminam afetando a estética do texto poético. São elas:

1)      O uso da palavra orgia (p. 7), embora ele esteja  empregada de forma correta, que neste caso significa desordem, anarquia, tumulto.

2)      Na 13ª estrofe, p. 8, o poeta usa a expressão: “ já tando raiando a luz”. Creio que se ele  tivesse usado o verbo sem ser na forma contraída o verso ficaria melhor:  Estando raiando a luz. Como se vê sem quebra da métrica.

3)      Expressões coloquiais:  O uso do verbo estar, em sua forma contraída, na expressão coloquial é uma constante ao longo do texto. Encontramos várias vezes:  tando” ( p. 8, );  “tava” (p. 8, 17, 24, 34, 44, 46, 60, 65, 71, 76, 88 ...); “tô” (p. 41),  em outras estrofes (p. 66, 106)) e as vezes dentro da mesma (p. 34 )  encontramos as formas culta e a coloquial. Isso se aplica também ao  advérbio de negação, não, que  é  usado nas duas formas. Exemplos:

              não era para voar” (estrofe 214, p. 52)
“ele aprontou outras coisas,/que não pude enumerar” (estrofe 217, p.53)
num acertava em ninguém” (estrofe 219, p. 53)
O portão tinha selado/ Pra meu Chicão num entrar” (estrofe 374, p.88)
Quem sabe eu num revelo” (estrofe 478, p. 108)

Essa oscilação entre as linguagens coloquial e a culta não  considero errada, mas penso que o autor poderia ter optado apenas por uma.

4)      O verbo vir foi um gargalo no texto, o autor usou  “vim” quando deveria usar “vir”. “Dizendo:-Pode vim todos ...” (estrofe 54, p. 17) , “-Quem for macho pode vim” ( estrofe 413, p.96), “-Como é que pude vim” ( estrofe 458, p. 104). Teria sido um erro de digitação?

5)  O cordel tem ao todo  2.880 versos, nos quais 1.440 versos estão rimando  da seguinte forma: o segundo, o quarto e o sexto,  é o que chamamos rima xaxaxa.  O poeta Izaias Gomes foi brilhante nas rimas, deixando  a desejar apenas a estrofe 13, p 8, onde ele rimou luz/cruz/cruz .

Era de madrugadinha
Já tando raiando a luz
o menino atravessado
Saía como uma cruz
quando o padre viu o peste
Fez logo o sinal da cruz
Os  cordelistas sabem que não fica bem ter rimas repetidas numa mesma estrofe.

Há outras frases que trazem erros gramaticais, o que infelizmente vai tirando o brilho da beleza estética do poema.


Mané Beradeiro

Referência:
ASSIS, Izaias Gomes de. Chico Catatau - um cangaceiro diferente.  1ª ed. Parnamirim: Isvá Editora, 2014.

Imagen de Izaias - disponível em < https://www.google.com.br/search?q=chico+catatau+um+cangaceiro+diferente&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwib8fDO5bTYAhWEDJAKHT4VBgMQ_AUICigB&biw=1366&bih=635#imgrc=bJ_JRx2RkfAouM:> Visualizada em 31 dez 2017.