segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

COMENTANDO MINHAS LEITURAS EM CORDEL: A CONFISSÃO DE UM DROGADO

Resenhar é tarefa semelhante ao arqueólogo que está no campo. É necessário uma atenção redobrada com as ferramentas, qualquer pequena peça encontrada pode levar a uma grande descoberta ou a um complemento de um conjunto.

Quem se propõe a escrever resenhas deve ter a consciência que nem sempre vai ser bem compreendido pelo autor do texto resenhado. Aconselho também que leia e releia o objeto da resenha várias vezes, no mínimo cinco. Tenha a sensibilidade bem aguçada, a ponto de sentir o pulsar das palavras, o respirar dos verbos, o calor dos substantivos, a verdade dita e não dita nos adjetivos.
Quem resenha também realiza o ofício de crítico literário e colabora com a semeadura da leitura, plantando em solos diferentes a mesma semente, que muitas vezes, adubada pela curiosidade, floresce em outros leitores. Resenha é a materialidade do leitor e o texto, seja esse em poesia ou prosa.
Barreiras-BA
Hoje eu quero apresentar aos meus leitores o poeta cordelista Zeca Pereira, natural da Ilha do Vitor, município de São Desidério-BA, mas que desde pequeninho vive em Barreiros-BA. Lá realizou por um tempo o Programa de Incentivo à Leitura-PIL . Escreve cordéis  desde os 14 anos, mas somente em 2002 estreou com o seu folheto "Os lamentos de um ancião no asilo".

Zeca Pereira
Zeca Pereira é um  batalhador, tem um comportamento quixotesco na pugna para manter o cordel sempre em alta. Ele não apenas edita, através da sua Editora Nordestina, como vende e distribui para todo o Brasil, tanto os seus títulos como de outros poetas, que passam pelo crivo editorial. Vive exclusivamente da venda de folhetos de cordel. Agora que vocês já conhecem um pouco do poeta, vamos entrar propriamente na resenha da obra que eu escolhi, que é "A confissão de um drogado". A capa é um desenho de  Klévisson Viana, que desperta a curiosidade do leitor para conhecer o texto.

 Como o próprio nome anuncia, o cordel trata de uma confissão feita pelo jovem  Belarmino Azevedo, personagem fictício, que convida o poeta para ouvir a sua história.  A narração vai acontecer ao longo de 68 estrofes, todas em sétimas, obedecendo ao esquema de rimas xaxabba. A propósito, aqui eu chamo atenção da editora que ao fazer a ficha técnica cometeu um erro ao dizer que o cordel tem  67 estrofes, quando na verdade são 68 , e ainda por cima de seis versos em setilha (grifo meu). 
 Que lições pode trazer à juventude o cordel "A Confissão de um drogado"? Muitas e diria que de forma contundente. A palavra tem que ser essa mesma, pois quando se trata de perder uma vida, destruir uma família, romper laços, não podemos abafar com panos molhados.  Quando lia o cordel e criava na minha mente a imagem do Belarmino Azevedo conversando com o poeta narrador, não pude deixar de trazer à memória  a lembrança de um outro Azevedo, este real, que sentia a morte dele se aproximar, e tanto desejava viver.

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
(Alvares de Azevedo)

Diferente, tão imensamente diferente é a estória  do Belarmino Azevedo, que  está tão presente em nossas ruas, nas grandes e pequenas  cidades.  O poeta soube montar e estruturar  com cadência ritmica, um diálogo que nada mais é do que uma triste vida perdida para as drogas. Belarmino tem, enquanto jovem drogado, todas as características que são próprias àqueles que vivem nesse mundo.
Ele  é falso,
Gosta de mentir,
Está cercado de péssimos amigos,
Desobediente,
Ladrão!
E todo esse conjunto  vai levá-lo a ser assassino, pois quem mata a si próprio, não tem nenhuma preocupação com a vida do outro.
A jornada de Belarmino Azevedo  se dá desde a sua adolescência, enquanto estudante até a fase adulta.  Não faltou a ele o apoio da família para se libertar das drogas e a mão estendida que não soube valorizar.

--O meu papai foi um homem
que procurou me educar,
Porém aqueles conselhos
jamais eu quis escutar
E segui o mau caminho
Onde só havia espinho
E dores pra lamentar 
(PEREIRA, 2008, p. 4)
As estrofes que se abraçam na construção desse poema formam um quadro impressionista, atual e que nos remete a uma sensibilidade poética  libertadora,  onde  significante e significado pincelam uma imagem como que criada por Éduard Manet. Mas, não foi um francês o autor  deste texto. Ele é um baiano, um negro, um poeta, é brasileiro, é cordelista, é Zeca Pereira.

"A Confissão de um drogado"  completa 10 anos.  É a prova tangível de que os bons textos permanecem. É um clássico do autor. São folhetos iguais a esse que enobrecem o cordel brasileiro. Mostram a importância didática e social que o poeta cordelista pode prestar à comunidade. Leva aos leitores a realidade cruel e avassaladora que vitima milhares de adolescentes, jovens e adultos.

Más companhias e drogas
Só nos levam à perdição
E eu, inexperiente,
Entrei neste turbilhão
E quando ele se desfez
Eu caí de uma vez
Aqui dentro da prisão.
(PEREIRA, 2008, p.17) 

Recomendo que o mesmo seja apresentado aos adolescentes em estabelecimentos de ensino, seja parte do acervo das cordeltecas e bibliotecas deste Brasil.  Que possamos evitar o máximo possível ouvir da boca dos nossos jovens...

Durante a minha vida
Eu não amei a ninguém,
Pois somente com as drogas
É que me sentia bem
E hoje sofro demais
Sem carinho dos meus pais
E o amor de mais alguém
(PEREIRA, 2008, p.19)

Considerações  importantes para próxima edição:

1)  Reveja o uso  dos pronomes pessoais, 6ª estrofe, página 4.
2)  Na 25ª estrofe, página 9, a conjugação dos verbos (sair/ aprontar/viver/pensar)
3)  O uso do verbo roubar nas estrofes 33 e 34, página 11.

Dito tudo isso, a melhor forma de concluir a resenha é usando a expressão que é bordão do próprio poeta Zeca Pereira:
DEIXEM  "A CONFISSÃO DE UM DROGADO" EM PAZ!

Mané Beradeiro.

Referência