quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

SOBRE O CAFÉ MAGESTIC






Mas a casa de diversões mais importante deste bairro foi o “Café Magestic” que teve vida quase centenário. Primeiro, com o nome de “Potiguarania”, nele se reuniam os poetas, prosadores e intelectuais do fim do século passado para começo do atual. Este Café já foi descrito pelos nossos historiadores. Depois surgiu o Magestic no mesmo local do outro e ficava na esquina da rua Vigário Bartolomeu, nº 549 com a rua Ulisses Caldas, nº 101. O prédio ainda é o mesmo, tendo sofrido apenas modificações internas. Imóvel, baixo e feio, mas ao gosto da época de sua construção. A única coisa interessante na sua arquitetura é a coluna curva na esquina do prédio.

O “Magestic” tem muitas estórias, nas diversas épocas de muitas gerações. Mas o período mais vibrante, mais cheio de vida, onde a boêmia e o bom humor dominavam o tradicional Café, foi, mais ou menos, entre os anos de 1919 a 1935. Os fatos, as anedotas e as peças verificadas e planejadas ali dariam para grosso volume, sendo que algumas não poderiam ser escritas tal a irreverência do ocorrido, mesmo porque alguns autores já foram para o outro mundo.

Na época acima citada, encantava o Magestic o respeitável grupo de poetas, escritores, intelectuais e de bons bebedores e comedores: Jorge Fernandes, Francisco Madureira, Baroncio Guerra, Valdomiro Dias, Pedro Lagreca, José Laurindo, Teodorico Guilherme, João Carvalho Cruz, Américo Pinto, Eurico Seabra, Francisco Pignataro, Lustosa Pita, Damasceno Bezerra, Luis Maranhão e muitos outros. Todos amigos e “irmãos da opa”. Ninguém tinha o direito de ficar aborrecido, por mais pesadas que fossem as brincadeiras.

Assim é que o Francisco Madureira foi vítima de uma peça que quase o levou ao cemitério. Madureira era baiano e, como tal, gabava-se de ser grande comedor de pimenta. Foi-lhe armada uma cruel cilada. Adquiriram no Mercado, que ficava próximo, um pacote de pimenta malagueta e mandaram preparar porco assado, camarão, etc. À noite, quando Madureira chegou, formaram uma grande roda e a cerveja jorrou sem parcimônia. Quando Madureira já estava com umas “200 libras”, veio então a questão da Bahia e pimenta. Um da roda disse que Madureira era um falso baiano, porque não comia pimenta como um baiano autêntico costuma fazê-lo e era assim um baiano desmoralizado, o que foi aprovado por todos os outros. Madureira protestou aos gritos e disse que iria provar como ele era baiano legítimo. O homem, coitado, caiu na esparrela. Pediu pimenta e veio um prato cheio. Começou então a devorar camarões e mastigando pimenta. Quando então folgava um pouco, os amigos da onça diziam: “Só isso! Fulano de Tal, que não é baiano, come muito mais”. E o infeliz Madureira comia mais pimenta e quando parava um pouco vinha a mesma alegação. Pimenta, pimenta e pimenta. Com pouco tempo, o homem, como se diz a gíria: “botou pra morrer”, sufocado, agoniado e com os olhos querendo sair das órbitas. Foi então levado para sua casa e passou vários dias muito doente. A turma teve, no Magestic, vibração por muitos dias.

De outra feita, o imortal Jorge Fernandes estava tomando umas e outras quando apareceu um homem vendendo, em uma gaiola, um galo-de-campina cantador. Jorge chama o homem e pergunta quanto custava o concriz. O homem responde que o pássaro não é concriz e sim um galo-de-campina. Jorge Fernandes retruca que o bicho é um concriz e o vendedor reafirma que é um galo-de-campina. Ora, Jorge, velho conhecedor de pássaros, sabia que o animal era realmente um galo-de-campina, e então, convida o homem para sua mesa, e dá logo a ele uma grande “talagada”. A conversa animou-se ainda mais quando Jorge recita aqueles versos maravilhosos, inclusive o “Banho da Cabocla”. Quando o vendedor já estava “com meio lastro” levantou-se para ir embora e então Jorge Fernandes disse: “Vá amigo vender seu galo-de-campina”. Aí então o vendedor que havia recebido tantas atenções e mais ainda encantado com a palestra de Jorge Fernandes, disse: “Não, doutor. Agora é que reparo bem: o passarinho é mesmo um concriz”.

Outra ocasião, também no Magestic, estava uma vasta roda de “comes e bebes”, quando chega um homem, amigo da turma, que era dono de um barracão na antiga feira externa do velho Mercado da Cidade Alta. O homem lamentava-se então do fiado, que estava acabando com seu negócio. O poeta Jaime Wanderley, que nesta época gostava de cerveja e já “meio triscado” disse: “O amigo precisa de colocar um aviso em seu barracão para acabar com o fiado. Quer um aviso?”. O comerciante então disse que aceitava com muito gosto. Jaime, então, tomou de um pedaço de papelão e escreveu:

Pra que não haja transtorno

Aqui no meu barracão,

Só vendo fiado a côrno,

Fela da puta e ladrão.

O homem colocou o aviso e o fiado acabou-se.

O Café Magestic ficava em um ponto muito movimentado porque estava bem em frente ao “Royal Cinema” e à noite o movimento era grande. Bem na esquina do Magestic fazia ponto com sua carrocinha, o sorveteiro português “Seu Silva”, que ali trabalhou por muitos e muitos anos, até a data do seu falecimento.

Nunca Natal tomou um sorvete tão bom e exclusivamente de frutas, sem qualquer complicação dos sorvetes hoje usados.

O Magestic era também o “quartel general” da brigada de choque comandada pelo jovem Renato Wanderley, hoje próspero homem de negócios residente na Guanabara.

Naquela época, como se sabe, o transporte era quase que exclusivamente marítimo, e como sempre havia navio no Pôrto, os passageiros saíam para conhecer a terra. Também naquela época os passageiros, principalmente, os rapazes eram mal-educados e quando chegavam em uma cidade pequena como a nossa era para esculhambar. Hoje se diz: “bagunçar o coreto”. Natal, então, cidade pequena e pobre, era vítima daqueles canalhas e até as moças sofriam pilhérias quase sempre grosseiras. Chafurdavam toda a cidade. Bondes, cafés, jardins e cinemas. Renato que era rapaz vivo, valente e, sobretudo, muito querente de Natal, resolveu tomar uma providência, já que o policiamento era muito benevolente. Escolheu uma dúzia de rapazes dispostos, deu instruções e esperou os acontecimentos. Assim, quando havia vapor no Cais, principalmente à noite, Renato ficava na espera e destacava uma pessoa para acompanhar de longe os viajantes, isto é, saber se estavam ou não bem comportados. Quando, então, os mal-educados começavam a esculhambação, o vigia corria para o Magestic e dava o alarme. Renato então descia com a brigada de choque e o braço comia. Depois da refrega eram levados para o Cais Tavares de Lira e obrigados a embarcar. Às vezes a luta era grossa porque do outro lado também havia gente valente. Aí então a polícia aparecia e dava uma mãozinha ao Renato. O fato é que, em pouco tempo, a notícia correu mundo e os canalhas desapareceram. Renato prestou assim inestimáveis serviços a Natal e à família natalense. Entretanto, Renato não recebeu nenhuma condecoração. E há por aí tanta gente com medalha ao mérito sem nenhuma ação prestada com o risco de suas ventas.


Observação: Crônica copiada do livro Natal que eu vi, de Lauro Pinto. Imprensa Universitária - Outubro  1971.