sexta-feira, 21 de agosto de 2026

THIAGO GONZAGA ENTREVISTOU O ESCRITOR TONY DE SOUZA



Entrevista com o escritor Tony de Souza
Entrevistador: Thiago Gonzaga

1. Tony, fale um pouco da sua infância no interior do Rio Grande do Norte. Que lembranças daquele período você guarda?

Nasci em Governador Dix-Sept Rosado (antiga Vila São Sebastião, RN). Meu pai, conhecido como Antônio Padeiro, contrariando minha mãe, vendeu a padaria e comprou um caminhão. Com isso, passou a viver na estrada.
Minha mãe, com seus três primeiros filhos, foi morar no sítio de seu pai, meu avô Vicente Carlos. Minha mãe vivia triste, mas, para mim, aquele lugar era um paraíso. Tomava leite tirado da vaca na hora, tinha mel das colmeias do sítio, e meu avô era uma pessoa muito carinhosa. Ele nos tratava muito bem e eu me sentia um reizinho.
Era uma pessoa especial e muito ativa. Além de cuidar do sítio, era marceneiro e dava aulas de alfabetização para quem quisesse estudar.

2. Como surgiu o seu interesse pela literatura?

Meu pai era analfabeto, mas adorava romances de cordel. Pedia para quem soubesse ler que recitasse os cordéis de que gostava, como O Pavão Misterioso e as histórias do personagem Pedrinho. Ele decorava os versos e os recitava enquanto trabalhava na padaria, fazendo o pão. E também me ensinava a fazer o pão.
Minha mãe era professora e tentou muitas vezes alfabetizar meu pai, mas não conseguiu. Porém, não permitiu, com muita veemência, que seus filhos deixassem de estudar por qualquer intercorrência da vida.
Ela era uma excelente contadora de histórias. Inclusive, tenho um livro publicado com as histórias de Trancoso que ela nos contava, principalmente em um período em que tínhamos poucos livros em casa.




3. Você se lembra dos primeiros livros ou autores que despertaram sua paixão pela leitura?

Comecei a ler textos da literatura brasileira na época do exame de admissão ao ginásio e comecei a decorar esses textos, assim como fazia com a literatura de cordel.
Ainda não tinha acesso a livros, mas às histórias em quadrinhos, que eram muito populares e acessíveis na minha época.
O primeiro livro que chegou às minhas mãos foi Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo, e depois Jubiabá, de Jorge Amado. Este último foi meu irmão Assis quem me deu, às vésperas de eu viajar para São Paulo, em busca dos meus sonhos.

4. Em que momento o cinema entrou na sua vida? Houve algum acontecimento, filme ou livro que fez você entrar nesse universo?

Como espectador, meus primeiros filmes foram assistidos em Natal e Mossoró. Eram principalmente faroestes, como Django! e Ringo!, além de filmes mitológicos, como Hércules, Maciste e outros.
Em São Paulo, comecei a frequentar cineclubes e conheci o que era o cinema de arte, além de outros filmes e diretores nacionais que me encantaram, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, e A Margem, de Ozualdo Candeias, entre outros.
Inclusive, a adaptação do conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, para o cinema foi objeto de estudo da minha dissertação de mestrado na PUC-SP, que posteriormente se tornou meu primeiro livro teórico publicado.
Nos primeiros anos vivendo em São Paulo, fui ator de teatro. Uma das colegas de uma peça teatral me falou que havia conhecido um diretor de cinema que estava selecionando atores para um filme. Pedi para que ela me levasse junto.
Na época, já frequentava o Museu Lasar Segall, conhecido como um espaço dedicado às artes em geral, inclusive ao cinema. Foi ali que comecei a ler a teoria dos diretores de cinema russos, o que me apresentou ao cinema de arte. Passei a ser um frequentador assíduo e um leitor voraz.
No dia combinado, fomos ao teste de atores do filme. Ao nos encontrarmos com o diretor, ele nos disse que o elenco já estava completo.
Esse diretor era muito simpático. Ficamos conversando sobre cinema, e ele gostou do conteúdo da conversa. Ao final, disse que iria propor meu nome para ser incluído na equipe de filmagem, mas eu teria que sair da peça teatral que estava em cartaz.
Foi dessa forma que entrei no universo do cinema paulista, cuja história conto nos livros A Boca do Cinema Paulista e Perseguidor de Fantasma.

5. Quais foram suas primeiras influências literárias? Existem autores que o acompanharam desde o início da sua formação?

No decorrer da minha trajetória no teatro e no cinema, a base do meu desenvolvimento foi a leitura, ora teórica, ora de ficção. Foi uma pesquisa constante.
Hoje posso perceber que aquele menino carente de livros me fez ir atrás de tudo isso. Atualmente, a leitura é nosso maior entretenimento, e escrever um romance é uma forma de nos sentirmos vivos e de proporcionar prazer e conhecimento para outras pessoas.
Minhas afinidades literárias são muitas, mas registro aqui os escritores Antonio Torres, que é meu patrono na Academia Contemporânea de Letras de São Paulo, e Ignácio de Loyola Brandão.

6. Como nasceu a ideia do seu primeiro livro? Foi um projeto planejado ou os textos foram se reunindo naturalmente ao longo do tempo?

Após concluir os estudos de graduação, mestrado e doutorado, saturado da escrita acadêmica e de escrever roteiros de cinema, resolvi arriscar escrever meu primeiro romance.
O tema girou em torno da minha história de vida no Rio Grande do Norte e da minha vinda para São Paulo. Transformar o papo de roda de amigos em romance foi uma dica da minha esposa.
Ao dar meus primeiros passos como autor, inspirei-me nas obras de J. D. Salinger, principalmente em O Apanhador no Campo de Centeio, e na obra de John Fante. Eles foram meus ídolos na época.

7. O que mudou em sua escrita desde os primeiros livros até os textos mais recentes?

No meu primeiro livro lançado, um amigo afirmou: “Antonio, esse é o seu primeiro livro de uma obra, não é?”
O que veio a significar essa afirmação para mim?
Eu tinha ideia do que era construir uma obra na área cinematográfica, de acordo com os estudos que tinha feito sobre cinema. A literatura, porém, era um campo novo para mim. Optei pelo romance, tendo em vista minha experiência como roteirista.
Também o fato de ler não apenas os clássicos, mas novos autores, como Javier Marías, Enrique Vila-Matas e John Berger, entre outros, levou-me a arriscar a construção de novas formas de narrar um romance, que não seguem uma estrutura dramática clássica.
Apresento ao público um romance em que ele poderá se deparar com um roteiro, um diário, uma correspondência; ora o alter ego pode estar em destaque, ora outro personagem; ora em primeira pessoa, ora não.

8. Quais são seus projetos literários para o futuro e o que os leitores podem esperar dos seus próximos livros?

Tenho duas ideias a desenvolver: uma sobre minha experiência com a espiritualidade e a busca por uma vida mais sustentável, e outra sobre obras biográficas.

9. Fale-nos sobre seu novo livro, que você vai lançar aqui em Natal, na Livraria Manimbu.

Minha intenção foi escrever algo bem-humorado sobre um personagem, “o cavador de filmes”, uma figura já ultrapassada no tempo e que, nos dias atuais, acabou se envolvendo em manobras obscuras de lavagem de dinheiro.
Ele procura os amigos de antigamente para ajudá-lo a sair dessa enrascada.

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