Na cidade de Versália, os poetas acordaram naquela manhã com uma estranheza que não sabiam nomear. O padeiro, que escrevia sonetos enquanto sovava o pão, tentou dizer "o sol doira a janela" — e a palavra saiu torta, sem eco, sem o doce encontro de sons que sempre a acompanhara. Algo faltava. Como o que acontece quando esquecemos uma nota de uma música conhecida: a melodia existe, mas o encaixe perfeito se perdeu.
Foi o velho Anacleto, o mais antigo poeta
da cidade, quem deu o nome ao desastre. Ao tentar compor um verso para a neta,
percebeu que a rima havia sumido. Não uma rima específica — todas. O dicionário
da língua estava intacto, as palavras todas no lugar, mas aquele laço invisível
que fazia "amor" responder a "flor" e "mar” a
"sonhar" simplesmente deixara de existir. Era como se a própria
música da linguagem tivesse sido arrancada do mundo.
E então chegou a carta. O envelope era de
papel pardo. Dizia apenas: "A rima está conosco. Se quiserem vê-la viva,
tragam o último verso perfeito já escrito. Assinado: Os Prosadores."
Os poetas ficaram perturbados. E como não
ficariam? Eram homens e mulheres que viviam daquela harmonia secreta. Sem a
rima, seus versos saíam mancos, suas canções de ninar não embalavam, seus poemas
de amor soavam como listas de compras. O jovem Eulálio, que escrevia trovas
para a amada, tentou declamar e gaguejou. A poetisa Clotilde, famosa pelos
seus tercetos, chorou ao ver suas estrofes desmoronarem como castelos de areia.
— Sem a rima, somos apenas
pessoas que escrevem frases — lamentou Anacleto, com os olhos úmidos. — Não
somos nada.
Enquanto o resto de Versália murmurava em pânico, um grupo seco se reuniu
na praça sob o plátano. Eram os poetas de verso livre — os que nunca pediram
licença à rima para escrever. E eles, ao contrário de todos, estavam...
tranquilos.
— Eu avisei — disse o jovem
Bento, cruzando os braços com um sorriso de quem finalmente tinha razão. — A
rima era uma muleta. Agora veremos quem sabe andar sozinho.
E havia algo de verdade naquilo. Enquanto
os sonetistas gaguejavam e os trovadores choravam sobre suas trovas mutiladas,
Bento escrevia no ar, com as mãos, frases que não podiam rimar — mas que nunca
precisaram rimar. Seu poema sobre o vento saiu inteiro, limpo, sem um único
tropeço. Os versos livres, pela primeira vez na história de Versália, eram os
únicos que continuavam de pé.
— Vejam — proclamou ele, erguendo
o papel. — Isto é poesia. Sem algemas, sem correntes, sem o eco barato das palavras
que se repetem.
A multidão perturbada olhou para ele com
uma mistura de inveja e ressentimento. Como podia aquele rapaz celebrar, quando
a própria música da língua estava presa? E Bento, por um instante, sentiu-se
vitorioso.
Mas aquele momento, como todo triunfo
por eliminação, não durou. Ao entardecer, Bento foi até a beira do rio, onde
costumava escrever. E ali, sozinho, tentou compor um verso sobre a memória da
mãe. As palavras vieram — vieram sempre. Mas quando chegou ao fim da frase,
algo lhe faltou. Não a rima, não exatamente. Faltava-lhe aquele quebra-cabeça
invisível, aquele jogo de esconder que fazia a língua dançar. Seu verso saiu
elegante, correto... e vazio. Como a música tocada sem o silêncio entre as
notas.
Foi então que ele entendeu o que os
sonetistas sempre souberam: a rima não era uma algema. Era um convite. Não
prendia a palavra — fazia a palavra esperar por outra, ansiosa, e o encontro
das duas era o próprio prazer de escrever.
Bento voltou à praça. Os versos livres
ainda estavam de pé, mas já não sorriam.
Naquela noite, enquanto os poetas
velavam em silêncio, a pequena neta de Anacleto, que não sabia o que era rima
nem prosa, mas sabia o que era música, cantou, sem querer, uma cantiga de roda.
A rima, ouvindo aquela voz pura do outro lado da masmorra, reconheceu o
chamado. E respondeu.
Foi um estalo. Um verso antigo,
sussurrado por gerações, atravessou o papel, quebrou o selo e voltou a habitar
a boca das crianças. E, de criança em criança, de boca em boca, de coração em
coração, a rima retornou à cidade — não como prisioneira, mas como algo que
nunca podia ter sido presa, porque vivia não em um lugar, mas em todos os
lugares onde alguém cantava.
Quando a rima retornou e a cidade
voltou a cantar, os Prosadores foram encontrados. Não fugiram. Estavam reunidos
na mesma masmorra de papel de onde a rima escapara, sentados em silêncio, como
quem espera um julgamento.
E foi o velho Anacleto quem os
enfrentou.
— Por quê? — perguntou ele, sem
raiva, apenas com a voz cansada de quem perdeu e reconquistou algo em uma única
noite. — Por que sequestrar a rima?
O líder dos Prosadores, um homem
magro chamado Severino, ergueu os olhos. E, pela primeira vez, não havia inveja
neles. Havia cansaço.
— Porque nós também queríamos ser
lembrados — disse ele. — Vocês, poetas, têm a rima. E a rima é memória. Uma
trova de amor sobrevive séculos porque o "amor" encontra o
"flor" e o ouvido guarda os dois juntos. Nossos romances, nossos
ensaios, nossas crônicas... são lidos e nem sempre lembrados. Não têm o laço
que prende a palavra à memória. Nós não sequestramos a rima por ódio a vocês.
Nós a sequestramos porque, sem ela, achávamos que talvez — só talvez — o mundo
finalmente prestasse atenção em nós.
Houve um longo silêncio.
Continuou Severino:
— Ao prender a rima, descobrimos
que ela nunca foi a inimiga. Ela era a prova de que a língua pode dançar. E
nós, que escrevemos prosa, também dançamos — só que com outro ritmo. Não
precisávamos roubar a música dela. A gente só precisava ouvir a nossa.
Anacleto estendeu a mão.
— Então escrevam — disse ele. —
Escrevam a prosa de vocês com o mesmo cuidado com que nós escrevemos os versos.
Saibam que memória não mora só na rima. Mora no que é dito com verdade e provém
do coração.
Francisco Martins
28 de setembro de 2026

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