Há uma diferença entre rezar e conversar. O que Francisco Martins faz nesta sexta parte do seu Poema em 10 salmos é conversar — direto, sem rodeio, como quem senta na varanda e fala com Deus sobre o que dói. Os salmos 51 a 60 aparecem aqui reduzidos à sua medula: perdão, medo, amizade traída, angústia, confiança.
O poema abre pelo caminho mais difícil e mais honesto: o reconhecimento do erro. "Senhor, percebo o quanto errei / Busco teu perdão / E suplico: Dai-me um novo coração". É o Salmo 51 — o salmo do coração novo — como pedido, não como teoria. Não há autoexplicação, não há justificativa: há um pedido.
Nos versos seguintes, a prece vira precaução: "Que o poder que vier a ter / Não me faça um homem mau." É uma das passagens mais lúcidas do poema. Quem já teve um pouco de poder sabe o que ele pode fazer com as pessoas. Aqui, a fé aparece como freio — e o medo da insensatez coletiva, como consciência de que ninguém se salva sozinho.
Às vezes, quem atenta contra mim é quem comigo anda, meu amigo
O poema não foge da dor real. Fala do mundo mau, "repleto de insolentes e violentos", e da ferida específica de quem é traído por perto. E é justamente aí que aparece a virada: "Quando eu tiver medo, em Ti confiarei." O medo não é negado — é atravessado.
Na estrofe do meio da angústia, o poema atinge o ponto mais alto: cercado de perigos, o eu-lírico decide "ficar firme e acordar / minh'alma para cantar louvores". É a escolha de cantar antes de a tempestade passar. E fecha como começou — com confiança: "Tu és minha força, meu alto refúgio" e "Contigo faremos proezas".
Poema em 10 salmos – Parte VI não é leitura de missa. É leitura de bolso, daquelas que cabem no intervalo do dia e servem para reorganizar o peito. Francisco Martins escreve com a simplicidade de quem já entendeu que fé não precisa de palavra difícil para ser profunda. Fica o convite do último verso: proezas se fazem com Deus, mas se fazem juntos.

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