sexta-feira, 4 de abril de 2025
quarta-feira, 2 de abril de 2025
segunda-feira, 31 de março de 2025
COMENTANDO MINHAS LEITURAS: "QUARTEIRÃO DA FOME" DE RAIMUNDO NONATO
"Quarteirão da Fome", livro da autoria de Raimundo Nonato,
lançado pela Editora Pongetti - Rio de Janeiro, na categoria de romance. O livro não tem colofão, mas segundo Manoel Onofre Jr, saiu do prelo em 1949, sendo este o livro de estreia do escritor Raimundo Nonato.
A história tem como palco principal a fictícia cidade de “Bela Vista”, no Oeste Potiguar. Confesso que tive a felicidade de começar a ler Raimundo Nonato por outras obras, nos gêneros de memórias, histórias e etnografias e, posso assegurar, que prefiro a pena do escritor nesses campos, que a serviço do romance.
Esperava bem mais do romance. O autor não teve a arte de costurar o enredo, para não dizer que nem este existe. São capítulos distanciados da comunhão entre as personagens. Josué Montello nos ensina que “um personagem, para quem o cria, não é uma figura de papel, é um ser humano”.
Em “Quarteirão da Fome” há vários
personagens: Fábio, Dubas, Padre Anastácio, Lulu, Sônia, Adrião, Joca Pires, Carlos
Pontes, Miluca, etc. Todos carentes de narrativas e de elos no romance. Não há
no livro um projeto de história a ser seguido. Que pretende passar o autor? Qual história e de quem ele desejaria contar? Diria que Raimundo Nonato se
perdeu na elaboração do livro.
Os capítulos do livro são pequenos, sem sintonia literária e às vezes o narrador dedica-se mais no estilo de um ensaio, do que propriamente o gênero de romance. Prosseguindo na leitura de outros títulos, deparo-me com textos que são muitos similares, como em "Memórias de um retirante" (1957) e um capítulo de inteiro teor, em "Histórias de Lobishomem"(1951).
Volto a afirmar: Raimundo Nonato é um grande memorialista e historiador. Sua contribuição neste campo literário é rica, principalmente sobre a região Oeste Potiguar, mas não teve o dom de ser romancista.
Por ocasião da celebração do centenário de nascimento do autor, a editora Sarau das Letras fez a segunda edição de "Quarteirão da Fome", em 2007.
FRANCISCO MARTINS
2025 ANO DO CENTENÁRIO DA DIPLOMAÇÃO DE RAIMUNDO NONATO COMO PROFESSOR
sexta-feira, 28 de março de 2025
quinta-feira, 27 de março de 2025
90 ANOS DE UMA BRIGA DE SANTO EM PAPARI
Foi no último livro que encontro uma história que teve como palco a cidade de Papari, atual Nísia Floresta. Isso se deu 90 anos passados. É um relato do Dr.Ney Marinho, enviado ao escritor Raimundo Nonato, que está no capítulo "Outras brigas de Santos". Confira.
"Por volta do dia 6 de março de 1935, aproximadamente pelas 9 horas da manhã, depois de celebrar a missa em Papari, hoje Nísia Floresta, o então padre Paulo Herôncio retirou da Igreja local a imagem de Nosso Senhor dos Martírios, a fim de realizar a procissão em São José de Mipibu, nos atos da Semana Santa.
Para fazer o transporte do referido Santo, ali estavam postados um automóvel de aluguel e um marceneiro, encarregado de desatarrachá-lo do altar.
Ao ter conhecimento do propósito do pároco,a população em peso levantou-se caminhando para a frente da Igreja, numa demonstração de protesto.
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| Imagem ilustrativa |
__ "Quero, mando e posso!... Se o Santo não for comigo, eu levo com ajuda da Polícia". E dito isto, foi saindo em direção à residência do Sr. José Araújo, antigo político de influência em Nísia Floresta.
Nesta altura o povo foi tomado de exaltação, sendo que o primeiro grito partiu de Leonor Januário. Falaram até em rasgar a batina do Padre...
Mas, como só acontece em ocasiões tais, sempre surge a voz do bom senso.
E foi aí que o senhor João Argilio e D. Iaiá Paiva procuraram conciliar os ânimos, enquanto o vigário saía de automóvel para São José.
Dias depois a mesma senhora endereçou ao sacerdote uma carta circunstanciada, procurando justificar a atitude dos seus conterrâneos perante o reverendo, pela grande veneração que eles tinham ao seu santo e pedindo para o mesmo voltar a Nísia Floresta, pois todos desejavam a paz.
Ao que tudo indica, ele não mais voltou. E como acentua Ney Marinho, a exemplo dessa quadra que ele pegou da tradição oral,
__ Cafundó de Papari
não tem olho nem pestana,
foi o rato que roeu
pensando que era banana.
ficou uma espécie de rivalidade provinciana e fraternal , que o tempo não conseguiu apagar, nem a gente dos dois lugares quis esquecer."
terça-feira, 25 de março de 2025
BREJINHO TEM ACADEMIA DE LETRAS
A cidade de Brejinho, no interior do Rio Grande do Norte, completou 62 anos de emancipação política no dia 21 de março do corrente ano.
Na véspera, 20 de março a população ganhou um belo presente que vai fazer toda diferença na vida cultural da cidade. Foi instalada a Academia de Letras de Brejinho - ALB.
Sabemos que a instituição não tem poderes como o Executivo, Legislativo e o Judiciário, mas pode e muito, influenciar a vida das crianças, dos jovens e despertar os adultos à importância da leitura e a cultura em seus vários seguimentos.
Lembro um pensamento do escritor Josué Montello: "A Academia é um acontecimento na vida literária, não na literatura. A literatura só depende do escritor."
A árvore foi plantada e emergiu do solo de Brejinho, trazendo a força do tubérculo que dá à cidade a fama dos seus produtos. Cabe aos imortais, os oito empossados, fazerem da ALB um instrumento de cidadania e libertação.
Pesquisem, escrevam, publiquem, deem à população de Brejinho, do estado e do Brasil, o melhor que vocês podem fazer. Busquem parceiros, a arte literária diz bem mais quando se incorpora e dá as mãos.
Parabenizo a primeira Diretoria da ALB, na pessoa de Maria Iranete dos Prazeres Viegas e a todos os demais escritores e escritoras desta Arcádia. Vida longa a ALB!
Francisco Martins
segunda-feira, 24 de março de 2025
domingo, 23 de março de 2025
CORAÇÃO DE MECENAS
Existem aqueles que desejam, mas nada fazem para ver a realização . Há os que sonham e isso lhes bastam. E tem aqueles que fazem a coisa acontecer. Esses são os que trazem a luz.
Conheço um homem que é assim. Um dínamo, um potencial no exercício de sonhar e fazer. Às vezes eu indago se a composição material de tais homens é feita de outros elementos. Teriam eles um DNA não contaminado pelo erro de Adão? Não sei!
O conjunto desses homens é raro. No Rio Grande do Norte tem um, para alegria nossa, um apenas, que com suas atitudes eleva pessoas e instituições. É preciso dizer que o seu modus operandi é totalmente diferente. Traz nos olhos a claridade que alumia a verdade, tem na voz a serenidade da canção que acalenta a alma e em suas mãos, sinais de que é doutor em separar joio do trigo.
Vi, recentemente, em ação. Vive aquela máxima de Saramago: "não tenhamos pressa, mas não percamos tempo". A filantropia é o que nutre seu viver e suas ações não se propagam em publicidades que massageiam o ego, pelo contrário, age em silêncio como as fontes que dão origem aos grandes rios. Esse homem é Antonio Gentil.
quinta-feira, 20 de março de 2025
"ABRIL VERDE" - O NOVO CORDEL DE MANÉ BERADEIRO JÁ DISPONÍVEL PARA VENDA
terça-feira, 18 de março de 2025
segunda-feira, 17 de março de 2025
NOTA PÚBLICA DO IHGRN
COMENTANDO MINHAS LEITURAS: O CORDEL DE ADÉLIA
quarta-feira, 12 de março de 2025
MANOEL ONOFRE TEM NOVO LIVRO
Manoel Onofre Júnior (MOJ), 81 anos, 60 deles de intensa produção cultural. Incansável na prática da leitura, e, com consequência um excelente semeador de literatura de qualidade.
Tenho em minhas mãos o seu mais recente livro publicado: "ALÉM DO JORNAL". É um conjunto de textos que foram publicados no "Jornal de Fato" e no blog "Papo Cultural", onde o leitor vai "conversar" com MOJ.
Eu, sinceramente, sempre tenho essa impressão de que ele está no meu lado ( quando abro um livro da sua autoria) com a sua voz de timbre de trovão. Sim! MOJ não tem apenas o cognome de "Cruviana" que lhe foi dada por Câmara Cascudo.
Para mim ele é o "Trovão Literário", embora nunca tenha dito isso a ninguém, nem mesmo a Thiago Gonzaga, seu fiel escudeiro. Sempre que vou ler um livro de MOJ eu penso: "O que vou aprender aqui com o Trovão Literário?"
Quando eu digo que MOJ é "Trovão Literário" eu reforço a ideia de que seus livros chegam como chuvas em terras secas, sempre necessárias e abençoadas.
Agora ele e outros vão ficar sabendo. Voz e produção de MOJ se assemelham ao trovão, e quando abrimos os livros, o relâmpago aparece e ilumina o espírito. Confesso que é assim!
Peço licença a vocês pois vou ler "Além do Jornal".
Francisco Martins - 12/03/25
ESCRITOR É HOMENAGEADO NA GALERIA DE NOTÁVEIS DO CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA
Na tarde de ontem, 11 de março, o Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte fez uma sessão solene, inaugurando as novas instalações da Sala Onofre Lopes, local onde acontecem as sessões ordinárias. O espaço foi totalmente reformado graças a visão do mecenas Antonio Gentil, que não mediu esforços para deixá-lo bonito, confortável e moderno.
As paredes receberam quadros e entre estes, 18 são dedicados à instituições e pessoas físicas que colaboraram e atuam na área cultural. Na Sala Onofre Lopes estão fixados os quadros dos Governadores Aluízio Alves, Monsenhor Walfredo Gurgel, o poeta, escritor e pintor Newton Navarro, Dorian Gray, que além de artista plástico também foi Conselheiro, Câmara Cascudo (fundador desse Conselho), as duas grandes mulheres da literatura local: Auta de Souza e Nísia Floresta, Onofre Lopes (que presidiu esse Conselho) . As instituições Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o Instituto Gentil e a Academia de Letras de Campo Grande ( terra natal de Antonio Gentil), além do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e o Instituto Ludovicus fazem parte dessa galeria.
Na sala anterior,denominada Veríssimo de Melo, a galeria é composta por seis quadros, ali são homenageados Zilda Lopes do Rego, primeira mulher a ser Secretária de Educação do Estado e durante muitos anos se dedicou ao Conselho Estadual de Cultura, sendo secretária administrativa e Conselheira, o poeta Renato Caldas, assuense, o folclorista, poeta e escritor Deífilo Gurgel, que também foi Conselheiro, Sanderson Negreiros, poeta, escritor e Conselheiro e o gigante da cultura no Rio Grande do Norte, Jerônimo Vint-Un Rosado Maia, que publicou inúmeros livros.
No meio deles também foi lembrado Francisco Martins, que tem feito um trabalho voltado à cultura em vários campos, publicando livros, folhetos de cordel, contando histórias, fazendo palestras sobre livros e autores, dando oficinas sobre a produção de livros cartoneros, etc.
segunda-feira, 10 de março de 2025
ABRIL VERDE É O MAIS NOVO CORDEL DE MANÉ BERADEIRO
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
FRANCISCO MARTINS VAI RECEBER O PRÊMIO BAOBÁ
A nona edição do Prêmio Baobá vai acontecer no mês de julho de 2025, na cidade de Belém-PA. Ele agracia personalidades da cultura. " É um troféu concedido a contadores de histórias, escritores, editoras, instituições de ensino e organizações que fomentam e fortalecem a arte narrativa, a literatura e a leitura no Brasil". Nomes como: Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Ana Maria Machado e outros mais já foram agraciados com o prêmio, que a imprensa de São Paulo batizou como "O Oscar dos Contadores de Histórias".
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| Francisco Martins |
"Em outubro desse ano estarei completando 17 anos de presença cultural, nas escolas e outras instituições civis e religiosas, levando alegria e ensinando que os bons livros e as histórias narradas nos proporcionam alimento à alma, pois ambos edificam e nos conduzem a construir uma espécie de disciplina curativa e civilizadora - como bem disse Marcel Proust. Estou muito feliz em poder receber esse prêmio. Ele é fruto de muita atividade, Deus seja louvado por isso - "pois Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele seja a glória para sempre! Amém (Romanos 11:36)" Assim se expressou Francisco Martins.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
A NOITE LIBERAL DE INDALÉTO
Não havia coração que se não sentisse afogado na reprêsa dos animos incontidos. Pairava um debrum de constrangimento nas proprias hostes do reacionarismo.
Entre aqueles que combatem as revoluções da intimidade do pôvo, repete-se sempre este capitulo de fatalismo politico: os mais exaltados não podem calar a voz da maioria, que se torna tão poderosa, a ponto de arrastal-os em massa, dando-lhes a iluzão de que tambem avançam como legitimos revolucionarios.
Façamos uma interrogação: a gente de Natal tinha mesmo idéas e sentimentos liberais?
Não ha duvida. Natal era uma "rotonde" de girondinos queimados que acampavam nos cafés, nas reuniões operarias, em sindicatos de estivas, no ámago dos municipios vizinhos, no proprio palacio do govêrno!
Não foi tendenciósa a nota de um diario parahibano que dois graduados da policia estadual enviavam munições, ás ocultas, para João Pessôa...
Que sentido teria movido a nossa população a ouvir a palavra de Mauricio quando por aqui andou numa caravana democratica?
Não eram conspiradôres revolucionarios aqueles soldados afoitos que afrontaram o luar da Areia Prêta, afim de confabularem certa noite com o velhinho Assis Brasil?
Não cabe no encaixe desta cronica esquissar a luta tenaz do padre João da Matha em prol da Revolução. Indice incontestado do clero, nenhum homem dos seus arraiaes era mais impetuoso nos grandes dias da propaganda. Abrazado naquela candencia republicana que agitou as batinas da Independencia, ele foi aqui no Estado o nosso padre João Manuel da Segunda Republica. Embastilhado num reduto de dogmas, do mirante de suas tendencias extremistas de politico seguia-se o inquieto fuzilador das "entourrages" palacianas, o vanguardeiro sincero que avançava dia a dia, ligando aqui e acolá os fogáxos da queimada. Padre Matha, prefigurado a um angulo de rua, debruçado á meza do jornal, esbanjando para todos aquela sua alegria estonteante, era de fáto um corretôr de convicções.
Ele abraçou, propagou, construio para a revolução, chegou mesmo a mostrar que as batinas não se haviam ofuscado em defesa da terra comum...
Dessa linhagem, dessa escóla em vigôr, eram portanto as centurias de gente que foram receber, aclamar, a Caravana Liberal, á noite historica de 7 de Fevereiro.
Estava escrito que o Pavilhão Nacional seria o leit-motiv de uma chacina, resultante da propria instabilidade ambiente, em que fôrças e paixões imperativamente advérsas lavraram, flutuantes...
Evitemos que a posteridade não nos acompanhe de futuro no ajuizar leviano desta pagina, deste monumento de sangue: façamos um recuo áquela época e não consintamos em ampliar uma lezão historica.
A cidade em pêzo, tinindo de vibração, louca de curiosidade, queria escutar a voz do pampa, instrumento violento de reivindicações, com que o Luzardo fustigava um paiz inteiro na hora crepuscular do regime.
Diziam que ia falar um lider liberal se bem que fôssem aclamar um tropeiro da Revolução!
De repente, um grito, um tiro, um clamôr, uma vaia de anagãs, rompiam de chôfre a fuzilaria que surprehendeu a todos, de cócoras, esperando pelas falas.
Foi um pavôr! As noticias mais incriveis frinchavam pelas casas e em todos os recantos e desvãos da cidade as espôsas de Deus faziam promessas, desesperavam-se, rezavam baixinho.
Estávamos virgens de um clarão de epopéa assim. E naquela noite mesma os natalenses ficaram noivos da revolução.
Dentre os mortos, um houve que a imaginação popular, cavalgata de devaneios, transfigurou logo em mártir.
Foi o menór Indaléto de Freitas, pobremente vestido, com um balaço no ventre, a se estorcer de mórte em plena Avenida.
Fragmento da multidão, ele revelou nos seus ultimos lampêjos uma certa impressão de que entrou tambem pra aquilo com o seu fanatismozinho. Não foi um simples curiôso, um ninguem na luta, não. Uma isca de fôgo sagrado polarizava-lhe o instinto de garôto, assanhava-lhe a sensibilidade reúna, em conquista do ideal que lhe reservou a corôa de mártir ainda infante.
Filho do pôvo, glorioso poilu de uma caza de taipa, o seu nome é um beijo de sól que ainda hôje alumia a paizágem longinqua daquela noite liberal.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
PARA SABER MAIS SOBRE SEBASTIÃO FERNANDES, O POETA
Sebastião Fernandes além de ter sido Professor, Promotor Público, Procurador-Geral do Estado, Juiz, Diretor de Estado, Secretário Geral do Estado, Desembargador do Supremo Tribunal de Justiça, foi também poeta, tendo lançado o livro “Alma Deserta”, aos 26 anos.
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito de Recife, turma de 1902, Sebastião Fernandes estava de malas prontas para fazer carreira jurídica em São Paulo, onde contava com o apoio dos primos Gaspar e Tobias Monteiro, quando resolve atender o convite de Pedro Velho, Governador, e vai morar em Mossoró, exercendo a função de Promotor Público de Mossoró, assumindo o cargo em 1903, aos 23 anos de idade.
Em Mossoró permaneceu até o ano de 1907 onde colaborou bastante com a cultura local, conforme testemunham Câmara Cascudo e Raimundo Nonato, respectivamente em “Notas e Documentos para a História de Mossoró” e “Desembargador Sebastião Fernandes de Oliveira – o último fidalgo do Rio Grande do Norte”. Escrevi ese artigo como objetivo de apresentar ao leitor, um pouco da produção poética de Sebastião Fernandes, homem que viveu 61 anos.
Paulo Afonso Linhares, autor da plaqueta “Sebastião Fernandes: uma pluralidade inquieta” afirma que o poeta “faleceu placidamente no dia 29 de maio de 1941, em Natal. No seu último instante pediu a companhia da sua amada companheira de quase quatro décadas, D. Alice, a quem brindou com um derradeiro sorriso. Na morte, como na vida, Sebastião Fernandes manteve acesa a chama da paixão. Da paixão daqueles que, humanos, em nada estranham as coisas da humanidade, seguindo o pensamento vivo de Terencius, o grande poeta latino”.
Outra curiosidade sobre o dia da morte de Sebastião Fernandes, é contada pelo pesquisador e historiador Cláudio Augusto Pinto Galvão. Ei-la: “Algumas vezes disse que, se fosse homem de posses, contrataria uma grande orquestra para que, no momento de sua morte, tocasse a Ave-Maria de Gounod.
Na tarde daquele 29 de Maio a saúde de Sebastião Fernandes aos poucos se esvaía e às 18 horas precisamente, sua vida chegava ao final. Naquele momento, quando o sol se punha do outro lado do Potengi, tingindo de luzes o céu de crepúsculo, o rádio de seu vizinho à Rua São Tomé, sem saber o que se passava na casa ao lado, realizava a sua vontade, tocando a Ave-Maria de Gounod” (Galvão, 1994; p. 18).
Há quem diga, que no campo literário, Sebastião Fernandes teve maior projeção na arte poética, que no drama. A produção poética de Sebastião Fernandes começou aos 15 anos e o exercício o acompanhou ao longo da vida.
“As letras foram sempre o meu maior prazer”, escreve Sebastião Fernandes, aos seus filhos. Poeta Romântico e Parnasiano que não se contentava apenas com a inspiração, mas também com a palavra, argamassa do poema, que por sua vez não podia fugir à forma. De que tratou a pena poética de Sebastião Fernandes?
Ele escreveu sobre variados temas, abordando o civismo, o amor, cidades, morte, sofrimento, mulher, estações, amigos, etc. Há uma escalada de maturidade poética em seus poemas, como é de praxe a todos que começam cedo a escrever. “Fiz versos simples diletantes, como quase todo moço, no Brasil, o faz” (Galvão, 1994, p. 26), mas não ficou na planície da simplicidade. Gosto quando Sebastião Fernandes em seus poemas, faz o eu-lírico filosofar.
“Às vezes fico só, dentro da noite imensa:
Que silêncio imortal! – Homens que somos nós?!”
E neste mesmo poema, sem título, ele perguntava à solidão, como se a mesma não fosse um substantivo abstrato.
“Dá-me, se podes tu, essa resposta aziaga:
– Para aonde vai a luz, quando a chama se extingue?
– A alma para aonde é que vai, quando a vida se apaga” (Galvão, 1994, p.96)
Em um outro poema “Varredor de Rua”, o poeta observa, em plena noite de lua, o trabalho do varredor, silencioso, solitário e faz o eu-lírico externar:
“Ah, se eu pudesse, com essa mesma calma,
Varrer, oh! Varredor, o lixo e a lama
Dentre os castelos que erigi nesta alma”
Mesmo tendo a predominância do lírico em sua poesia, o poeta, em alguns casos, deixou transparecer o seu lado religioso, como em “Ato de Contrição”, escrito em 1936.
“Senhor, quanto me dói o mal que, porventura
possa eu fazer a alguém, possa eu fazer sofrer!
Não somos nós irmãos de toda criatura?
Uns aos outros, perdoar não é nosso dever?
…
Conceda-me, Senhor, em toda a minha vida,
o dom de perdoar toda ofensa sofrida
E essa graça eternal de ser justo e ser bom”.
Neste mesmo diapasão, o poeta escreveu a trova:
“Quando a morte (oh! desconsolo! Dos meus),
ceifar-me também,
Levo comigo um consolo:
Nunca fiz mal a ninguém”.
Embora saibamos que Sebastião Fernandes publicou em 1906, o seu livro “Alma Deserta” e também tenha publicado seus poemas em jornais da sua época, o que realmente podemos dispor sobre sua produção, e que está ao alcance da mão do leitor, é a pesquisa que foi feita, organizada e publicada por Cláudio Galvão, com o título: “Poesia Inédita:
O livro se tornou realidade em 1994, e foi lançado pela Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, evolução da Escola de Aprendizes Artífices, na qual Sebastião Fernandes foi Diretor.
São mais de 70 poesias colhidas pelo pesquisador. Um trabalho louvável, pois sem ele, quase nada teríamos em conjunto. O livro “Alma Deserta” é raríssimo. Procurei a versão física do livro e não a encontrei. Perguntei à bibliotecária do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, do qual Sebastião Fernandes foi fundador, se existia algum exemplar no acervo. Não tem! Mas, conseguiu a versão digital e mandou para mim. E graças a boa vontade de Kate Coutinho de Jesus, pude finalmente ler “Alma Deserta”.
O prefácio foi escrito por Mathias Maciel Filho, em 11 de março de 1906. Apresenta o livro, não como crítico, mas como amigo do autor e não poupa elogios à obra. Os poemas foram escritos entre os anos de 1898 a 1906, ora em Natal, Recife e Mossoró.
O então jovem poeta, colocava sua pena a serviço da saudade, dos amigos, dos amores partidos, da fé e tantos outros temas. Nesse livro, Sebastião Fernandes escreveu três poemas que tratam sobre sua genitora. São eles: “Santa”, “A minha mãe”, “Carta à minha mãe”.
Deixo ao leitor a tarefa de ler “Alma Deserta”, vide link abaixo, e, assim como fez Mathias Maciel e tantos outros leitores daquele distante ano de 1906 e seguintes, possa você também degustar da cultura poética de Sebastião Fernandes.
Depois que li “Alma Deserta”, pus a mão no arado e comecei a capinar no vasto campo da internet e também consegui encontrar outros poemas, não citados por Claudio Galvão. São eles:
1) “Independência ou Morte” - 1897, Jornal “O Irís”
2) “Ave, Libertas” - LINHARES, 1988
3) “Artística”, Recife-PE, 1900 - publicada na Revista “A Tribuna do Congresso Literário” - Natal-RN, edição 31-8-1900
4) “Dia de Núpcias” - Idem, edição 31-1-1901
5) “Vem…” - Natal-1901 - Revista “A Tribuna do Congresso Literário”, ano 1901, edição não identificada
6) “Sonho Azul” - Idem, ano 1901, S. edição não identificada.
Importa dizer que a Revista “A Tribuna do Congresso Literário”, circulou no Rio Grande do Norte, quinzenalmente, tendo como colaboradores : Antonio Marinho, Ezequiel Wanderley, Francisco Palma, Henrique Castriciano, Manoel Dantas, Ovídio Fernandes, Pedro Soares, etc.
A Revista circulou pelo Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Ceará, Pará, Amazonas e pelas principais cidades do Rio Grande do Norte.
Assim foi o poeta Sebastião Fernandes, homem de pluralidade e amante da arte poética. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, da Academia Norte-rio-grandense de Letras e patrono de uma cadeira na Academia Mossoroense de Letras e patrono da Biblioteca do Campus Central do IFRN, em Natal.
Francisco Martins.
30 de janeiro de 2025
Clique aqui e leia "Alma Deserta" Alma Deserta
FONTES:
LINHARES. Paulo Afonso. “Sebastião Fernandes: uma pluralidade inquieta”. Academia Mossoroense de Letras. Coleção Mossoroense - Série B - nº 553- 1988.
GALVÃO. Claudio. “Poesia Inédita”. Natal -RN- 1994.
FERNANDES. Sebastião. “Alma Deserta”. Mossoró - RN - 1906.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
16 ANOS SEMEANDO HISTÓRIAS E IMAGENS
MENOS POSTAGENS, MAIS SABER
Esta medida se faz precisa, dada a razão de que estou com atividades laborais no Conselho Estadual de Cultura, de forma mais intensa.
Não deixarei de propagar minhas atividades culturais, farei sempre que achar necessária. Então, vamos à primeira postagem com este propósito.
Francisco Martins.









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