sábado, 4 de março de 2017

SAPOTERATURA - CASAL UNIDO


Foi em Ceará-Mirim/RN, cidade do interiorana, década de setenta, num dia de feira, com muita gente vindo à cidade comprar e vender mantimentos, que esta história aconteceu. Perto da Mercearia de Dudu ficavam estacionados vários caminhões, que traziam e levavam as pessoas da zona rural. A mercearia ficava cheia. Gente querendo comprar cigarros, alimentos, bebidas, etc. Neste movimento todo havia sempre aquelas pessoas que chamavam pelos balconistas só para pedir água. Queriam matar a sede, beber água gelada, coisa dificílima de encontrar na zona rural, pois nem todos possuíam geladeira.
A priori não houve muita contestação sobre esse serviço, mas depois, percebeu-se que os atendentes não só perdiam tempo, como também tinham que lavar bastantes copos e encher garrafas. A solução encontrada foi comprar um pote de barro, deixá-lo ao alcance de todos e amarrar um caneco de alumínio numa corrente para que as pessoas mesmo se servissem. Desta forma todas beberiam a vontade e não estariam ocupando um balconista.
A ideia funcionou de forma plausível por mais de mês, até que um dia, um rapaz peralta, teve a iniciativa de jogar dentro do pote duas pequenas rãs. Ninguém desconfiou de nada. Nem mesmo o dono da mercearia. É preciso dizer ao leitor, que este mesmo rapaz ficou trabalhando na mercearia e sempre tinha a responsabilidade de abastecer o pote.  
Vez por outra, quando as pessoas terminavam de beber água, ele se aproximava delas e falava:
-Você viu que casal unido?
-Quem?
-Adelaide e Aderaldo
-Nem os conheço. Respondia quem bebeu da água.
-Pois vou apresentá-los.
O rapaz levantava a tampa do pote e dizia:
-Olhe que lindo casal de rã. Elas vivem sempre agarradinhas, uma em cima da outra. Se não fossem Adelaide e Aderaldo a água do pote já estaria cheia de lodo.
Quem disto sabia evitava beber daquela água.  E algumas ainda tavam uns tapas naquele rapaz, completando a hostilidade com palavrões que maculavam a mãe do jovem.
Como tudo tem princípio e fim, numa manhã, um velho homem foi se servir daquela água e quando abriu a tampa, eis que uma das rãs salta em sua direção. O susto foi grande. O velho meteu a mão no pote, que espatifou-se pelo chão. Houve água espalhada por toda mercearia e como se diz na infância do nunca mais: passou perna de parto, passou perna de pinto, seu Rei disse que contasse vinte e cinco.

Francisco Martins