segunda-feira, 31 de agosto de 2026

RASTEJADORES DE ABELHAS

   

A rarefação crescente da fauna veio tornar desvantajosa as atividades daqueles que viviam no mato. Assim, os que nele se embrenham para caçar bichos ou abelhas o fazem agora como atividade ocasional. E no caso das abelhas, mais das vezes para acudir uma encomenda de gente da rua, usar o mel como meizinha de alguma tosse-braba ou tirar a abelha achada quando estavam noutro serviço qualquer.
    Encontrada a morada da abelha, tratam de cortar o pau em que está situada - mesmo em se tratando de uma essência de maior valor ou que, de futuro, venha a dar obra. Lá um ou outro mais previdente é que se limita a fazer um corte por onde extrair o mel para depois tapá-lo com barro, cortar as duas extremidades da tora e, à noitinha, levá-la para as proximidades da casa e pendurá-la no beiral das telhas. Porque o comum é abrir o ninho, fartaram-se do mel e abandoná-lo à voracidade dos seus inimigos naturais (formigas, pássaros, lagartixas etc.). Daí, é de se imaginar, um dos maiores fatores de decréscimo da fauna apícola regional.
    Quando se trata de uma abelha mais agressiva - como a tubiba - ou de um vespídeo, costumam defumá-la, antes, com estrume de gado.
    Vale anotar, como curiosidade, o fato de que fomos testemunhas, mais de uma vez, quando em suas atividades agrícolas, esbarravam com uma "casa" de boca-torta. Mesmo sem se protegerem, algumas vezes até nus da cintura para cima, limitavam-se a passar as mãos nos sovacos suados e, devagarinho aproximá-las das "casas", até esmagá-las, esfregando uma na outra, sem sofrer uma única ferroada...
    Poucas abusões conhecemos ligadas aos caçadores de abelhas. Uma mais estranha e que parece comum a todo o sertão nordestino, é a de que o mel da abelha limão, tirado no mato, tem de ser comido em silêncio. Se um dos tiradores, acabada a refeição diz para outro: - "Vam'imbora", fica completamente bêbado, lançando, lançando areado. De alguns sertanejos ouvimos essa afirmativa como verdadeira, embora nunca tivéssemos oportunidade de testemunhá-la. A literatura regional registra o fato nos sertões cearenses:
    "Na serra da Barriga, também em Sobral, o mel de certa abelha, colhido em certa época do ano, produz a embriagues, principalmente nos tempos de seca.
    Uma coisa singular: o embriagado, por esse mel, no delírio da embriagues, dá para berrar como bode, como querendo dizer que foi o mel que o embriagou" (SOBREIRA, J. G. DIAS - "Curiosidades e fatos notáveis do Ceará").
Os "beiradeiros" do Sergipe e das Alagoas também, por lá, dizem o mesmo:
    "...a abelha limão é também conhecida por "come e não vamo". Se se comer e convidar a pessoa para ir embora, ela fica bêbada, por isso, coma e saia quieto, não fale nada, adiantou-nos Anísio Jacaré" (ARAÚJO, Alceu Maynard - Populações ribeirinhas do baixo São Francisco).
    Alguns sertanejos mais sagazes, de tanto caçarem abelhas para atender as encomendas de suas freguesias, e face à crescente rarefação delas, aprenderam a rastejá-las. Raros os que são capazes desse feito, de vez que para isso carece de muita paciência e astúcia...
    Assim, nos meses de seca, procuram as perdidas bebidas existentes - cacimbas, barreiros etc, - e lá se acocoram atocaiando as abelhas que ali vão beber. Algumas podem vir em maior quantidade e frequência. Espiam. Escolhem as que tomam mais altura no vôo de volta e dizem que elas assim fazem porque têm morada mais perto. Quando o cortiço está mais longe - justificam - as abelhas vão ganhando altura mais devagar, vencendo pouco a pouco o vento e a distância.
    Faz de conta que seja uma jandaíra... Espiam uma a uma as que bebem e o rumo que tomam de volta. Sentem a direção do vento. Atentam para a altura do vôo. Andam mais algumas braças naquele mesmo rumo e, de novo, botam sentido na passagem delas. Vêem passar a primeira, a segunda, a terceira... está está confirmada a direção. Adiantam-se outras tantas braças e recomeçam o balizamento... E de lance em lance, vão bater no pau em que está situada a jandaíra. Nele botam o ouvido, auscultando-o com pequenas batidas e chegam a "diagnosticar" se é de morada velha, se está gorda ou magra. As pobres de mel são chamadas magras, tanto assim que o enxu, em certa época do ano que tem pouco mel e abundante ninhada de larvas, serve de comparação aos indivíduos de família numerosa: "Fulano tem fio que só enxu magro"...
    A diligência é naturalmente facilitada ou dificultada pela maior ou menor identificação do homem com o seu mundo - a flora melífera, sua distribuição nas redondezas, épocas de floração, pontos de bebidas, hábitos das diferentes espécies etc.
    Os mais curiosos conhecem tim-tim por tim-tim o mundo que os cerca. Sabem de cor as madeiras que se apresentam mais frequentemente ocadas - a imburana, a catingueira e o cumaru - morada das nossas abelhas silvestres. E a literatura oral comprova essa preferência:

                           Xiquexique é pau de espinha,
                           Imburana é pau de abelha;
                           Gravata de boi é canga,
                           Paletó de negro é peia"...

    Nada distingue a indumentária do caçador de abelhas do sertanejo comum. Apenas, em trabalho, nunca se aparta do seu instrumento de corte e destruição - a foice - e da clássica cabaça-de-colo (ou de pescoço) alçada em embiras, em que recolhe o mel de sua rapina.

Oswaldo Lamartine

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