sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O CORREDOR "H" DA BIBLIOTECA ASSOMBRADA

 

A Biblioteca Estadual fechava à
s seis da tarde e só voltava a ter gente às sete da manhã. No meio, entre uma coisa e outra, ficavam os guardas.

Edvaldo, chefe da segurança noturna há dezenove anos, dizia que o prédio tinha três turnos: o dos leitores, o dos funcionários e o outro. O outro começava depois da meia-noite.

As vozes vinham sempre do corredor H. Terceiro piso, estante doze à dezenove — romances policiais, capa dura, lombadas escuras, a maioria sem leitor desde 2008. Começavam baixinho, como sala de espera de delegacia: um burburinho de gente discutindo sem levantar a voz. Havia homens. Havia mulheres. Havia uma que ria no meio de uma frase e parava de repente, como se tivesse sido advertida. Havia um que falava por último, sempre por último, e a voz dele era grave e arrastada, de quem explica uma coisa pela terceira vez.

Ninguém entendia nada. Não era sotaque, não era idioma. Os guardas já tinham tentado gravar. O arquivo saía limpo, com um chiado de fundo, e quem ouvia jurava que era o som de uma estante de metal recebendo pancadas leves. Mas ali, no corredor, com o gravador desligado, os quatro guardas da noite ouviam uma assembleia.

Edmilson, que saiu em 2021, foi o primeiro a falar em vampiros. Diz que viu dois, encostados na estante quatorze, um de perfil e outro de costas, ambos de terno preto e muito pálidos, e que o de perfil tinha a gola da camisa manchada de vermelho seco. O relatório dele tem uma linha só: “Não se aproximaram. Pareciam esperar alguém.”

Outros dois guardas, em noites diferentes, juraram pela carruagem. Uma carruagem de verdade, de rodas de madeira, suspensa em molas, parada no meio do corredor, atravessada entre as estantes como se o corredor fosse uma rua. Diziam que a poeira subia das rodas. E que dela saltou uma moça de roupas romanas — túnica branca, faixa vermelha, sandálias de tiras até o meio da canela — muito séria, muito moça, com uma espada na mão direita. A espada estava suja. Não de ferrugem.

Edvaldo, nunca registrou a carruagem por escrito. Registrou o cheiro. “Forte odor de estrume e couro molhado no corredor H, sem origem identificada”, está no livro de ocorrências, na letra de quem não queria que aquilo parecesse importante.

João tinha um ritual, e o ritual era este: pegava a lanterna na portaria, conferia a carga no painel, assinava o livro, subia pelo elevador de serviço até o segundo piso e fazia o terceiro a pé, pela escada, porque a escada tem corrimão de ferro e o corrimão de ferro não mente. Depois do segundo piso a gente fica sabendo se o prédio está normal. É no corrimão que a mão sente.

Naquela terça, a mão sentiu normal.

O corredor H começava depois da porta corta-fogo. Trinta e dois metros, doze estantes, o lampião de emergência que nunca acende, e no fim o vão para o setor de restauro. João contava os ladrilhos porque contar ocupava a boca, e boca ocupada não chama.

Ele ia no onze.

Foi quando o facho da lanterna encurtou.

Não apagou. A lanterna era boa — era a do almoxarifado, corpo de alumínio, quatro pilhas, alcance de vinte metros segundo a etiqueta. Só que, entre o dez e o doze, o facho deixou de chegar ao fim do corredor. Os vinte metros viraram oito, depois seis. A luz batia numa parede de escuro e parava. E o escuro era de um jeito que não devia ser: não era ausência de luz, era como olhar dentro de água barrenta.

João parou.

O rádio não pegava ali. Isso todo mundo do turno sabia. O concreto do terceiro piso é de 1978 e é uma laje de vinte e dois centímetros de espessura; o rádio morre no meio do corredor H e volta quando a gente chega ao vão. Ele levou a mão ao rádio mesmo assim, e o rádio estava mudo, e ele não apertou o botão porque apertar sem sinal faz um estalo, e o estalo sai alto.

Então ele sentiu o cheiro.

Não era podre. Tinha cheiro de  mato molhado, limo, água rasa parada em cima de pedra, e por baixo um traço de ferro — ferro de sangue, mais ou menos, mais ferro que sangue. Lembrou do mangue atrás da casa da avó, em Pititinga, quando a maré desce e as raízes ficam de fora.

E depois ele ouviu o arrasto.

Peso puxado no chão. Um som de saco de areia, só que ritmado, dois tempos, e vindo de baixo — rente ao ladrilho. Não era passo. Nada que tem perna faz aquele som. O som era de coisa que se puxa.

João deu um passo para trás e o arrasto parou no mesmo instante. Isso foi a pior parte, ele diria depois, e não conseguiria explicar por quê. Ficou tudo tão quieto que ele escutou o próprio pulso dentro do ouvido. E o escuro, sem se mexer, ficou mais perto.

Ele não correu. Isso ele conta com vergonha até hoje, e a vergonha é o que prova que ele conta a verdade: ele não correu, porque a cabeça dele não mandou correr. A cabeça dele mandou ficar quieto. Ficar bem quieto, não respirar, não olhar. Uma coisa antiga que a gente tem dentro e que não é de gente.

Deu mais um passo.

O bicho veio.

Não veio rápido. Foi o que acabou com ele. Veio devagar, sem pressa, como quem já sabe onde o outro vai estar. A luz pegou o braço primeiro: comprido demais, grosso demais, coberto de escamas duras, rachadas, e o musgo nos cotovelos era de verdade, ele viu o musgo, verde-escuro, molhado, brilhando. As unhas raspavam o ladrilho e produziam as duas batidas.

A mão fechou no tornozelo dele.

Era fria. Era da temperatura do fundo de um poço, e a pele do tornozelo dele respondeu antes do cérebro: subiu um arrepio que virou cãibra, e o pé parou de obedecer. As escamas da palma cortaram como grosa. João sentiu o sangue quente descendo por dentro da meia e o tecido grudando.

Ele gritou uma vez. O grito não foi longe. Bateu na parede de escuro e voltou.

Aí o bicho puxou.

João tentou a estante dezessete e pegou o pé de metal e o pé de metal não soltou, mas o corpo dele é que soltou: ele sentiu o ombro estalar e a mão abrir sozinha, e os livros desceram em cima dele, capa dura, lombada escura, vinte volumes batendo na cabeça e nas costas. Foi arrastado de costas pelo corredor. Os cotovelos abriram no ladrilho, um, dois, três metros, e o metal da fivela raspando alto. Ele olhava o teto passando. O teto passava rápido. Ele pensou numa coisa completamente idiota, que era que ia perder o sapato.

Quinze metros, mais ou menos. Ele mediu depois, pela mancha de pele.

O bicho parou e virou ele com um empurrão, do jeito que a gente vira um saco de cimento pelo canto. João ficou de barriga para cima. A lanterna caiu de lado e ficou apontada para a estante quinze, e por isso ele não viu a coisa inteira. Viu o pescoço — comprido, curvo, escamoso, cheio de dobras moles. Viu a cabeça de touro de perfil, sem chifre, a orelha grande e caída. Viu o peito subindo e descendo. Não viu o resto. Ele agradece até hoje por não ter visto o resto.

O bicho baixou a mão no peito dele.

O peso. Setenta, oitenta quilos numa mão. João sentiu as costelas não quebrarem, e teria preferido que quebrassem — sentiu elas cederem, uma de cada vez, dobrando para dentro, e o ar saindo dele sem ele conseguir pegar outro. O osso trabalhou. Ele ouviu o osso trabalhar. Trinta segundos, quarenta, um minuto, e a mão não saía, e ele começou a ver pontinhos brancos na borda da visão e pensou: agora. Agora é.

E a boca do bicho chegou perto do ouvido dele.

O bicho não rosnou. Ele soltou o ar, devagar, pela boca, e o ar era quente e cheirava a mato molhado e ferro, e dentro do ar havia palavras.

João entendeu.

Não é que ele reconheceu a língua. Foi pior. Ele entendeu do jeito que a gente entende o próprio nome: sem traduzir, sem pensar, direto. Eram quatro palavras, ditas com paciência, do jeito que se fala com alguém que vai demorar. E o que as quatro palavras diziam era uma bobagem administrativa, uma coisa de escritório, uma coisa que ele mesmo já tinha dito no balcão da portaria: pode entrar, está reservado.

A mão saiu do peito dele.

O arrasto recomeçou, dois tempos, e foi ficando mais fundo, e depois mais longe, e depois o corredor H era só um corredor com doze estantes e um lampião que não acende.

Acharam ele às cinco e cinquenta, sentado no chão, encostado na estante quinze, com o sapato no pé. Não tinha machucado que explicasse nada: os cotovelos ralados, o tornozelo cortado em tiras finas, as costelas inteiras segundo o raio-x do dia seguinte. Estava calmo. Disse que estava tudo bem. Levantou sozinho, guardou a lanterna no lugar, e assinou o livro de ocorrências na letra dele — “Ronda no setor H concluída. Sem alterações.”

Edvaldo chegou às seis e vinte e viu o estado dele e perguntou o que tinha acontecido.

João abriu a boca e respondeu.

E o que saiu não era português.

Ele parou. Tentou de novo, mais devagar, escolhendo as palavras com cuidado, e o que saiu foi a mesma coisa, outra vez, aquela língua de consoante dura e terminação mole, e ele ouviu a própria voz dizendo aquilo e o rosto dele mudou — não de medo do bicho, não de medo do escuro, de medo de si.

Tentou uma terceira vez. Chorando já.

Aí ele entendeu que não tinha ficado nada, que o bicho não tinha levado o corpo, tinha levado a chave, e que dali em diante ele ia entender tudo e não ia conseguir dizer nada, e que ia passar o resto da vida nesse corredor, com todo mundo achando que ele era o doido que fala uma língua que não existe.

Edvaldo conta que foi nessa hora que ele começou a gritar. E que o grito era de uma pessoa sendo arrastada.

Ninguém mais quis fazer a ronda das três da manhã no terceiro piso. Passaram a fazer em dupla, e depois em dupla com o rádio aberto, e depois passaram a fazer de longe, do batente, com a lanterna apontada para dentro, sem entrar. A gerência trocou a fiação e colocou uma lâmpada nova, dessas de LED, branca, que não pisca. Não resolveu. Havia algo desagradável ali, todas as noites, sempre depois da meia-noite, e não era fantasma nem bicho: era uma sensação de estar sendo esperado.

Antonildo era  um dos mais antigos e nunca tinha descrito nada. Dizia que não olhava. Entrava de férias na segunda-feira.

Na quinta, apareceu o substituto. Chamava-se Ernani Bento, tinha uns sessenta, veio de uma empresa terceirizada, e chegou carregando uma bolsa de lona, uma lanterna pequena de mão e uma garrafa térmica. Pediu o livro de ocorrências. Leu quarenta e dois minutos, página por página, sem pular nada. Quando fechou, perguntou se podia ver o corredor H com o prédio vazio.

          Edvaldo levou. Subiram os três lances de escada sem falar. No terceiro piso, Ernani andou devagar até a estante quinze, encostou a mão na madeira, olhou o vão entre as estantes, olhou o teto, olhou o rodapé. Voltou para o corredor e ficou parado mais um tempo.

— Seu Edvaldo — disse. — Se o senhor permitir, gostaria de ficar na biblioteca.

Os guardas estavam todos ali. Um deles riu, achando que era piada. Ernani não riu.

— Ficar como? — perguntou  Edvaldo.

— A noite toda. Com a porta fechada.

— O senhor sabe o que tem aqui.

— Li.

— Leu e ainda quer ficar.

Ernani pensou um pouco antes de responder, e a resposta ficou na cabeça de todo mundo por causa disso, porque não foi resposta de coragem:

— Pesei o medo, sim. Deu quase três quilos. Dá para carregar.

Ninguém entendeu. Ninguém perguntou.  Edvaldo deu a chave e pediu que ele assinasse um termo, o que era procedimento, e que era uma forma de dizer que a responsabilidade não era dele.

Naquela noite não houve voz nenhuma.

Foi a primeira noite silenciosa em anos, e os guardas ficaram piores do que em qualquer outra. O silêncio não era paz, era ausência — como quarto de hospital quando a máquina para. Às três e dez, Edvaldo subiu até o batente, encostou a orelha na porta e ouviu Ernani conversando. Não conversando sozinho. Conversando com pausas, com a espera de quem ouve a resposta antes de retomar. Voz baixa, calma, de quem lê em voz alta para alguém deitado.

Não entrou.

Às seis, em ponto, a porta abriu. Ernani apagou a lanterna, guardou a garrafa térmica vazia na bolsa e entregou a chave. Estava pálido, mas não parecia assustado. Parecia cansado do jeito que a gente cansa depois de uma viagem longa de ônibus.

— Algum problema? — perguntou Edvaldo.

— Nenhum. Obrigado pela confiança.

— E as vozes?

Ernani olhou para o corredor H, para a estante quinze, e disse uma coisa que não consta em relatório nenhum porque  Edvaldo não sabia como escrever:

— Elas não estavam conversando. Estavam fazendo inventário.

Desceu as escadas e não voltou na noite seguinte, nem na outra. Ligaram para a terceirizada. A terceirizada disse que não tinha Ernani Bento no cadastro. Mostraram a ficha, com a assinatura dele e o número do documento. A terceirizada abriu um protocolo interno e nunca mais falou nada.

Antonildo também não voltou. Terminou as férias, mandou mensagem no dia 3 dizendo que estava tudo bem, mandou no dia 10 dizendo que ia esticar, e no dia 20 mandou uma só frase: “Meu lugar aí já tem dono.” Não respondeu mais. A rescisão foi feita por telegrama, para o endereço que constava no RH.

Eu fui o que ficou com a chave do armário dele. Não por vontade: a gerência mandou esvaziar.

Dentro, havia o uniforme dobrado, o par de sandálias reserva, um pacote de biscoito vencido e um caderno de capa preta, desses de cem folhas, com a lombada aberta de tanto uso.

Abri achando que ia encontrar as anotações dele sobre as rondas.

As primeiras páginas estavam escritas numa letra fina, apertada, de gente que aprendeu a escrever em outro século. Depois havia outra caligrafia, larga, inclinada à direita. Depois outra, e outra, e outra — umas redondas, umas com inclinação militar, umas com o “s” fechado como um oito, uma delas de mulher, com laço no “g”. Página após página, caligrafias diferentes cobrindo a margem, subindo pelas bordas, ocupando o verso. Não consegui ler uma palavra sequer. Não era uma língua. Era a tentativa de alguém escrever uma língua que a mão não conhecia.

Na última página, com a caneta ainda marcando o papel, havia uma única linha que qualquer pessoa daquele prédio leria sem esforço. Em português correto, letra de professor:

“Faltava um.”

Naquela noite, quando eu subi para a ronda das três, as vozes estavam de volta no corredor H.

Muitas, como sempre. Homens e mulheres, discutindo sem levantar a voz, rindo e parando de rir. Só que agora havia uma a mais, e essa eu reconheci de imediato — grave, arrastada, de quem explica algo pela terceira vez, com a paciência de quem já morou dezenove anos ali em cima e finalmente entendeu o que estavam pedindo.

Parei no batente. Contei até dez. Entrei.

E ninguém, em toda a história daquela biblioteca, tinha pesado o medo com tanta precisão.


Francisco Martins

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