sábado, 6 de junho de 2009

Alvorada no Itapiru

Bom dia a todos,

É com alegria que estou começando a passar hoje para vocês a nova série das minhas crônicas.



Um Minuto e Nada Mais.
Por
Francisco Martins
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“Esquerda, direita, esquerda, direita, um, dois, esquerda, direita. Soldado, atenção! Marcar... passo! Alto. Descansar!” Foi esta a melodia que mais ouvi no ano de mil novecentos e oitenta e cinco, a música era cantada por cabos, sargentos, tenentes e capitão, todos pertencentes à fileira do Exército Brasileiro, mais especificamente ao 16º Batalhão Itapiru de Infantaria Motorizada – 16º BIMTZ, em Natal – RN.
Estava com meus 21 anos incompletos, e como refratário atendia o cumprimento do serviço militar, posto que, na idade pedida pela lei eu estudava no Seminário de São Pedro¹. Começo então a escrever as Crônicas Alvoradas no Itapiru, que tratarão do período da caserna. Farei esta série também em nove capítulos, assim como foram as anteriores². O que escreverei sobre o tempo no “Verde Oliva” não deverá ter algo inaudito, extraordinário. Quem tem filhos no quartel ou mesmo já prestou o serviço militar sabe do que acontece por lá. Mas, mesmo assim, creio que esta crônica trará momentos de distração e quiçá saudosismo a alguns leitores.
Em Janeiro eu ingressei nas fileiras do Exército, não tinha a menor ideia do que encontraria pela frente. Minhas experiências vitais não registravam em nenhum momento a loucura da caserna. Meu pai que fora soldado, pouco falava sobre este tempo. Cheguei ao pavilhão da 1ª Companhia de Fuzileiros, conhecida como Altaneira, pesando 84 quilos e em pouco mais de um mês eu já pesava 68 quilos. Foi o regime mais brutal que eu fiz em toda minha vida. Querem saber como consegui? É simples: fome e exercícios físicos.
Rasparam minha cabeça. Disseram-me que eu iria ser chamado doravante de Soldado 404 – Martins. E que eu nunca iria esquecer este número em minha vida. Eles não mentiram. Ensinaram-nos também que ao sermos chamados pelo nome deveríamos responder pronunciando o número e quando fosse ao contrário, diríamos então o nome.
__Soldado 404?
__Martins. Senhor!
__Soldado Martins?
__404. Senhor!
No rancho as primeiras refeições foram coisas de louco. Ficávamos no sol, aguardando que desocupasse lugares para os soldados da 1ª Companhia. Estávamos famintos e cansados, mesmo assim entoávamos canções militares. Quando entramos no rancho e sentamos para degustar daquela refeição na bandeja de inox, onde tinha feijão, arroz, macarrão, carne, um copo com leite e um doce. Dito assim parece até que era um banquete, mas junte a estes alimentos respectivamente as qualidades: duro, sem sabor, sem molha, mal passada e você logo notará que apenas o leite e o doce se salvaram.
Não posso esquecer que também tinha um Oficial de Dia que sentia prazer em apitar e ordenar que as bandejas fossem passadas da esquerda para direita. Então recebíamos o que sobrou do companheiro ao lado para dar continuidade ao almoço. Eu não perdi tempo mastigando aquele feijão duro na queda. Tomava logo o leite e comia o doce e quando recebia a bandeja seguinte, fazia novamente a mesma coisa. Finda a refeição tinha tomado mais de um litro de leite e comido pelos menos uns três tabletes de doces.
Cento e oito jovens, vindos dos mais diversos cantos do Estado, com variados comportamentos até então conhecendo regras de convívio diferentes estavam ali para serem moldados, literalmente adestrados, pelas mãos de outros homens, que tinham no sangue e na alma as cores daquela farda.
Querem saber qual foi minha primeira e grande agonia? Foi quando nos deram um minuto para tomar banho. Nem um segundo a mais. Um minuto, já contado o tempo de se desfazer dos coturnos e da roupa. E para deixar a situação ainda mais agravante, toda a companhia, cento e oito homens, disputando uns quinze chuveiros, isto representava sete soldados para cada crivo. Esta operação se repetiu pelos menos umas cinco vezes na primeira semana. Sentia-me um pouco prisioneiro numa espécie de campo de concentração melhorado.
O Soldado Martins estava apenas começando a compreender e a viver um ano que marcaria sua vida e mudaria seus planos. Grandes coisas aconteceriam em mil novecentos e oitenta e cinco. Grandes e indeléveis. Afinal eu fazia parte daquele seleto grupo que assim diz a Canção do Exército: “Nós somos da Pátria a guarda, fiéis soldados por ela amados. Nas cores de nossa farda rebrilha a glória, fulge a vitória”.
Descubra comigo o brilho, a glória e a vitória que havia naquele batalhão. Bem vindos as Alvoradas do Itapiru.
Parnamirim-RN, 27 de maio de 2009
Soldado 404, descansar!


¹ As Crônicas da Saudade falam deste período.
² Crônicas Sensoriais e Crônicas da Saudade.