terça-feira, 29 de setembro de 2026

O SEQUESTRO DA RIMA

 

   Na cidade de Versália, os poetas acordaram naquela manhã com uma estranheza que não sabiam nomear. O padeiro, que escrevia sonetos enquanto sovava o pão, tentou dizer "o sol doira a janela" — e a palavra saiu torta, sem eco, sem o doce encontro de sons que sempre a acompanhara. Algo faltava. Como o que acontece quando esquecemos uma nota de uma música conhecida: a melodia existe, mas o encaixe perfeito se perdeu.

      Foi o velho Anacleto, o mais antigo poeta da cidade, quem deu o nome ao desastre. Ao tentar compor um verso para a neta, percebeu que a rima havia sumido. Não uma rima específica — todas. O dicionário da língua estava intacto, as palavras todas no lugar, mas aquele laço invisível que fazia "amor" responder a "flor" e "mar” a "sonhar" simplesmente deixara de existir. Era como se a própria música da linguagem tivesse sido arrancada do mundo.

      E então chegou a carta. O envelope era de papel pardo. Dizia apenas: "A rima está conosco. Se quiserem vê-la viva, tragam o último verso perfeito já escrito. Assinado: Os Prosadores."

     Os poetas ficaram perturbados. E como não ficariam? Eram homens e mulheres que viviam daquela harmonia secreta. Sem a rima, seus versos saíam mancos, suas canções de ninar não embalavam, seus poemas de amor soavam como listas de compras. O jovem Eulálio, que escrevia trovas para a amada, tentou declamar e gaguejou.                A poetisa Clotilde, famosa pelos seus tercetos, chorou ao ver suas estrofes desmoronarem como castelos de areia.

— Sem a rima, somos apenas pessoas que escrevem frases — lamentou Anacleto, com os olhos úmidos. — Não somos nada.

           Enquanto o resto de Versália  murmurava em pânico, um grupo seco se reuniu na praça sob o plátano. Eram os poetas de verso livre — os que nunca pediram licença à rima para escrever. E eles, ao contrário de todos, estavam... tranquilos.

— Eu avisei — disse o jovem Bento, cruzando os braços com um sorriso de quem finalmente tinha razão. — A rima era uma muleta. Agora veremos quem sabe andar sozinho.

     E havia algo de verdade naquilo. Enquanto os sonetistas gaguejavam e os trovadores choravam sobre suas trovas mutiladas, Bento escrevia no ar, com as mãos, frases que não podiam rimar — mas que nunca precisaram rimar. Seu poema sobre o vento saiu inteiro, limpo, sem um único tropeço. Os versos livres, pela primeira vez na história de Versália, eram os únicos que continuavam de pé.

— Vejam — proclamou ele, erguendo o papel. — Isto é poesia. Sem algemas, sem correntes, sem o eco barato das palavras que se repetem.

       A multidão perturbada olhou para ele com uma mistura de inveja e ressentimento. Como podia aquele rapaz celebrar, quando a própria música da língua estava presa? E Bento, por um instante, sentiu-se vitorioso.

        Mas aquele momento, como todo triunfo por eliminação, não durou. Ao entardecer, Bento foi até a beira do rio, onde costumava escrever. E ali, sozinho, tentou compor um verso sobre a memória da mãe. As palavras vieram — vieram sempre. Mas quando chegou ao fim da frase, algo lhe faltou. Não a rima, não exatamente. Faltava-lhe aquele quebra-cabeça invisível, aquele jogo de esconder que fazia a língua dançar. Seu verso saiu elegante, correto... e vazio. Como a música tocada sem o silêncio entre as notas.

        Foi então que ele entendeu o que os sonetistas sempre souberam: a rima não era uma algema. Era um convite. Não prendia a palavra — fazia a palavra esperar por outra, ansiosa, e o encontro das duas era o próprio prazer de escrever.

         Bento voltou à praça. Os versos livres ainda estavam de pé, mas já não sorriam.

   Havia algo que os Prosadores — aquela sociedade secreta de escritores de prosa que sempre invejaram o prestígio dos poetas — não haviam previsto. Ao sequestrar a rima, eles a tinham aprisionado em uma masmorra de papel, mas esqueceram que a rima, sendo feita de som e de memória, não podia ser contida por muros.

          Naquela noite, enquanto os poetas velavam em silêncio, a pequena neta de Anacleto, que não sabia o que era rima nem prosa, mas sabia o que era música, cantou, sem querer, uma cantiga de roda. A rima, ouvindo aquela voz pura do outro lado da masmorra, reconheceu o chamado. E respondeu.

           Foi um estalo. Um verso antigo, sussurrado por gerações, atravessou o papel, quebrou o selo e voltou a habitar a boca das crianças. E, de criança em criança, de boca em boca, de coração em coração, a rima retornou à cidade — não como prisioneira, mas como algo que nunca podia ter sido presa, porque vivia não em um lugar, mas em todos os lugares onde alguém cantava.

Quando a rima retornou e a cidade voltou a cantar, os Prosadores foram encontrados. Não fugiram. Estavam reunidos na mesma masmorra de papel de onde a rima escapara, sentados em silêncio, como quem espera um julgamento.

E foi o velho Anacleto quem os enfrentou.

— Por quê? — perguntou ele, sem raiva, apenas com a voz cansada de quem perdeu e reconquistou algo em uma única noite. — Por que sequestrar a rima?

O líder dos Prosadores, um homem magro chamado Severino, ergueu os olhos. E, pela primeira vez, não havia inveja neles. Havia cansaço.

— Porque nós também queríamos ser lembrados — disse ele. — Vocês, poetas, têm a rima. E a rima é memória. Uma trova de amor sobrevive séculos porque o "amor" encontra o "flor" e o ouvido guarda os dois juntos. Nossos romances, nossos ensaios, nossas crônicas... são lidos e nem sempre lembrados. Não têm o laço que prende a palavra à memória. Nós não sequestramos a rima por ódio a vocês. Nós a sequestramos porque, sem ela, achávamos que talvez — só talvez — o mundo finalmente prestasse atenção em nós.

Houve um longo silêncio.

Continuou Severino:

— Ao prender a rima, descobrimos que ela nunca foi a inimiga. Ela era a prova de que a língua pode dançar. E nós, que escrevemos prosa, também dançamos — só que com outro ritmo. Não precisávamos roubar a música dela. A gente só precisava ouvir a nossa.

Anacleto estendeu a mão.

— Então escrevam — disse ele. — Escrevam a prosa de vocês com o mesmo cuidado com que nós escrevemos os versos. Saibam que memória não mora só na rima. Mora no que é dito com verdade e provém do coração.

 

Francisco Martins

28 de setembro de 2026

 

 

 

 

 

        


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"RENDA RENASCENÇA POTIGUAR" - QUADRO EM QUILLING

 Reafirmo que para fazer quadro em quilling é preciso ter paciência. Terminei recentemente, o quadro "Renda Renascença Potiguar", todo feito em papel de 75 g, branco, com pérolas artificiais. A peça tem 35 x 35 cm, já emoldurada.  Foram precisos 355 filigranas (essas pecinhas pequenas) e consumiu dezoito horas de trabalho.



"CORDEL DE UM BRASILEIRO GUERREIRO QUE VENCEU O INFARTO"

 O poeta Mané Beradeiro está disponibilizando ao seu público leitor, o 69º folheto, que tem como título " CORDEL DE UM BRASILEIRO GUERREIRO QUE VENCEU O INFARTO".  Trata-se de uma histórica fictícia, que tem algumas semelhanças com cenas reais, como por exemplo, a vida do próprio autor, que não praticava exercícios físicos, não tinha  uma preocupação com a alimentação regrada e isso lhe rendeu dois infartos, respectivamente em 2 de maio de 2016 e 24 de outubro de 2023.

Na literatura de cordel, heróis costumam enfrentar cangaceiros, dragões e jagunços. Em "Cordel de um brasileiro guerreiro que venceu o infarto", de Mané Beradeiro, o inimigo é outro: a doença cardiovascular — e a arma do herói não é a espingarda, mas o exercício físico. O folheto traduz em versos de feira uma das maiores lições da medicina moderna: depois de um infarto, é possível vencer — e se movimentar é parte central dessa vitória.

O título já anuncia a inversão que faz a força do folheto. O "brasileiro guerreiro" não vence o infarto com milagre nem com sorte — vence com luta cotidiana: abandonar o sedentarismo, adotar o movimento como rotina e encarar a reabilitação como campanha de guerra. É o tipo de narrativa em que o cordel sempre foi mestre: transformar a experiência do povo comum em epopeia. O leitor que já passou por um infarto — ou que teme por alguém querido — se reconhece no protagonista, e a poesia cumpre seu papel mais antigo: consolar, informar e animar.

Por trás dos versos, há ciência sólida. A literatura médica brasileira mostra que a atividade física pode reduzir em 30% a 50% o risco de mortalidade cardiovascular na população em geral, e programas de exercício pós-infarto são hoje parte recomendada do tratamento — a chamada reabilitação cardíaca. Pesquisas brasileiras recentes chegam a indicar que o treinamento físico ajuda o próprio coração lesionado a recuperar parte de sua força de contração.


Para saber mais sobre os infartos de Francisco Martins, visite os links abaixo

Fraco Coração

Relato de uma dor coronária

Grito Coronário

Carta aberta àqueles que vão me operar 



sábado, 26 de setembro de 2026

PERMANECEM ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA O IX SALÃO DORIAN GRAY ATÉ O DIA 30 SETEMBRO

 


A Sociedade Amigos da Pinacoteca Potiguar (SAAP), em parceria com o Sebrae RN e o Conselho Estadual de Cultura, está com inscrições abertas para o IX Salão Dorian Gray – Feito Potiguar: Arte, Identidade, Memória e Inovação. A iniciativa reúne artistas visuais em torno da produção artística e cultural do Rio Grande do Norte e recebe inscrições gratuitas de 15 a 30 de setembro de 2026.

Podem participar artistas maiores de 18 anos, naturais ou residentes no Rio Grande do Norte, além de artistas que possuam trajetória ou produção vinculada à cultura e ao território potiguar. Cada artista ou coletivo poderá inscrever até duas obras.

O salão aceita diferentes linguagens das artes visuais. As obras inscritas deverão estabelecer, de maneira livre e criativa, relações com o tema “Feito Potiguar” e com pelo menos um dos cinco campos curatoriais definidos para esta edição: Território, Memória, Saberes, Corpos e Futuros.

A proposta busca reunir diferentes perspectivas sobre o Rio Grande do Norte, valorizando expressões artísticas relacionadas às experiências, aos modos de vida, às memórias, aos conhecimentos e às transformações que atravessam o território potiguar.

Como parte da programação, serão concedidos R$ 10 mil em Prêmios Aquisição Sebrae RN. A premiação será distribuída em três categorias: R$ 5 mil para o primeiro prêmio, R$ 3 mil para o segundo e R$ 2 mil para o terceiro. As obras selecionadas para os Prêmios Aquisição passarão a integrar o acervo correspondente à iniciativa, conforme as regras estabelecidas no edital.

O IX Salão Dorian Gray será realizado no Palácio Potengi – Pinacoteca Potiguar, em Natal. A abertura oficial e a premiação estão marcadas para 17 de outubro de 2026, às 10h. A exposição permanecerá aberta à visitação até 30 de dezembro de 2026.

As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas exclusivamente no período de 15 a 30 de setembro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

AMANHÃ TEM SESSÃO ESPECIAL DO FATAL CINECLUBE!

 


O cinema potiguar tem muito a celebrar! E amanhã, na Biblioteca Estadual Câmara Cascudo, vamos comemorar 2 anos de Fatal Cineclube com uma sessão especial, gratuita e aberta ao público.

Na programação, dois filmes que nos convidam a experimentar diferentes formas de olhar e contar histórias:

🎞️ MAN WITH A MOVIE CAMERA (1929), de Dziga Vertov — um clássico do cinema documental e experimental que acompanha, ao longo de um dia, a vida e o movimento de uma grande cidade. Um filme que transforma o próprio ato de filmar em linguagem e nos faz enxergar o cotidiano de uma maneira completamente diferente.

🌱 TERRARIUM (2025), de Leli Queiroz e Marina Moura — curta-metragem potiguar que mistura romance e fantasia para contar a história de Hellen, uma cientista que cria uma pessoa-planta em um pequeno terrário. Uma experiência delicada e fantástica sobre um encontro que parecia impossível.

Duas épocas. Duas propostas. Dois olhares sobre o cinema.

E uma noite inteira para celebrar a força do cineclube e do cinema como espaço de encontro, descoberta e imaginação. ❤️🎬

📅 Amanhã — 25/09

🕕 18h

📍 Biblioteca Estadual Câmara Cascudo — Rua Potengi, 535, Petrópolis, Natal/RN

🎟️ Entrada gratuita!

Chame os amigos, venha prestigiar o cinema e celebrar com a gente esses 2 anos de Fatal Cineclube!

SOPERN - 55 ANOS BEM SERVINDO O RIO GRANDE DO NORTE

 

A Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Norte está celebrando 55  anos de fundação. O aniversário será marcado com a publicação de um poema, no gênero de cordel, contando a história da instituição. A atual gestora, Dra Lércia Teixeira, contratou o poeta Mané Beradeiro para escrever o texto. São 33 estrofes em sextilha ( seis versos), narrando a trajetória da SOPERN e o quanto ela é importante para a sociedade. Parabéns a todos os que fazem a SOPERN e fica nossa gratidão àqueles que deram suas contribuições na construção e fortalecimento dessa Sociedade de Pediatria.

QUINTA CULTURAL NO IHGRN

 


CURTA-METRAGEM SOBRE A VIÚVA MACHADO


terça-feira, 22 de setembro de 2026

FINAL DE SEMANA TEM A 14ª FEIRA DE LIVROS E QUADRINHOS

 


CENTELHA DE CORDEL




Quando vejo meu retrato
Sinto que minha existência
Vai se tornando tão rala
E olho com paciência
Porém tenho a certeza
E espero que  a surpresa
Venha apagar a essência.
 
Não temo o Dia Final
Pois será transposição
Para algo bem melhor,
Quando a minha posição
Sentirá glória divina
E com alma cristalina
Em eterna emoção.


Viverei ao lado Dele,
Do meu Pai Onipotente
O Verbo que se fez carne
Em minha vida presente
Tendo eu no Santo Espírito
O amor mais que infinito
Em abraço envolvente.


Mané Beradeiro

22 de setembro 2026

LIVE COM OS CORDELISTAS E CONTADORES DE HISTÓRIAS FRANCISCO MARTINS E RÚBIA MARIA

 

"De um canto nasce a história,
de outro, o verso a rimar,
e o livro abre seus caminhos
pra quem quiser caminhar.
No Livrolegalpontocom,
todo mundo pode entrar.

Tem cordel, tem poesia,
tem história pra contar,
tem palavra que aproxima
e faz a gente sonhar.
Cada livro é uma ponte
pra novos mundos encontrar.

Rúbia e Francisco se encontram
na beleza de criar,
com a força da literatura
e a vontade de partilhar.
Do Nordeste para o mundo,
há histórias pra celebrar!

Livrolegalpontocom,
vem com a gente conhecer:
onde a leitura vira encontro,
e a palavra faz viver.
Cordel é voz do povo,
é cultura pra valer!"

#históriasvozesencontros
#livrolegalpontocom

https://www.instagram.com/p/Ddkr1SKS0du/?stkn=MXZkYTQzNmRhbG16cQ==

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

DE MENINO A HOMEM NA MESMA ESCOLA

 
   Ontem, 16 de setembro, o escritor, poeta e Contador de Histórias, Francisco Martins/Mané Beradeiro, viveu um dia especial em sua trajetória cultural.
Ele esteve pela 1ª vez, na Escola Municipal Dom Marcolino Dantas, distrito homônimo, que pertence a Maxaranguape. A visita àquela escola teve caráter especial, porque foi ali, que ele estudou o primeiro e segundo ano, quando criança.
    O autor se emocionou em poder mostrar seus trabalhos, falar das suas conquistas, dos prêmios, livros, cordéis, e contar histórias para o público presente.
    Voltou para casa com o coração feliz, afinal ele conseguiu realizar um sonho que estava dentro dele a muitos anos.




Se ontem, tivesse sido a última apresentação dele, com certeza, o Multifacetado artista encerraria suas atividades com glória. Mas, ele há de voltar, pois assumiu o compromisso de escrever o cordel biográfico da escola, por ocasião dos 60 anos de fundação.


Em meu peito trago o boton
De uma escola favorita
Que guardo no coração
Pois a mim é tão bendita
O berço onde aprendi
E belos dias vivi
Da infância tão bonita

Mané Beradeiro
17 setembro 2026


QUINTA CULTURAL NO IHGRN

 


terça-feira, 15 de setembro de 2026

CENTELHA DE CORDEL

 

Ninguém segura o CEC
No aporte da cultura
Ele é um corpo vivo
Com grande desenvoltura
Um gigante no estado
Que está sempre ao lado
Mostrando sua bravura

Mané Beradeiro
15 setembro 2026

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CEC NO PROGRAMA "BAOBÁ CULTURAL"

 

Diógenes da Cunha Lima, poeta, escritor, que apresenta o programa "Baobá Cultural", está homenageando o Conselho Estadual de Cultura - CEC/RN, entrevistando as pessoas que integram esse colegiado, do qual ele também faz parte, como membro nato, na qualidade de Presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Nesta primeira parte, gravada na Sala Onofre Lopes, onde acontecem as sessões, foram colhidos depoimentos dos seus pares sobre o CEC.

O POVO EM FESTA - PINACOTECA POTIGUAR

 

Já está em cartaz na Pinacoteca Potiguar – Palácio Potengi a exposição “O Povo em Festa — Cascudo, Deífilo e o folclore nas artes visuais potiguares”, com visitação até 15 de outubro.

A mostra reúne obras do acervo da Pinacoteca de artistas potiguares de diferentes gerações, entre eles Dorian Gray Caldas, Newton Navarro, Iaperi Araújo, Carlos José, Irmã Myriam, Geicifran, João Natal, Ivanise, Nivaldo, Lourdinete, Túlio Fernandes, D. Paixão e Fernando Gurgel, entre outros.

Reisados, vaqueiros, brincantes, festas, religiosidade e personagens do imaginário popular compõem um percurso pela riqueza da cultura popular do Rio Grande do Norte.

A exposição homenageia Luís da Câmara Cascudo e Deífilo Gurgel, aproximando o legado desses dois grandes pesquisadores do folclore e das nossas tradições. Em 2026, celebram-se o centenário de nascimento de Deífilo Gurgel e os 40 anos do encantamento de Câmara Cascudo.

  SERVIÇO
O Povo em Festa — Cascudo, Deífilo e o folclore nas artes visuais potiguares
Curadoria: Ranubia Gomes
 Visitação: até 15 de outubro de 2026
 Horário: das 9h às 16h. Terça a domingo. 
 Pinacoteca Potiguar – Palácio Potengi, Natal/RN

Uma oportunidade para conhecer o acervo da Pinacoteca e celebrar o folclore potiguar como patrimônio vivo, memória e identidade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A CAPELINHA DOS REIS MAGOS NO FORTE DE NATAL

Forte dos Reis Magos, um dos mais bonitos do Brasil. Sobre ele há muitas histórias a serem contadas. Batalhas, visitas, prisões, etc. Mas, hoje eu desejo tratar sobre a   Capelinha dos Reis Magos, que existia em seu interior.  Quando o visitante entra no Forte, percebe que há no pátio, a famosa Praça Nobre, uma pequena construção, com uma abóbada, com suas primitivas arcadas de cantaria. Na parte baixa ficavam as imagens do Reis Magos e em cima, o depósito de  pólvora, ou paiol.



Essa construção não é a capela propriamente dita, é apenas parte do que restou dela. Seu construtor foi o engenheiro português Francisco Frias de Mesquita, que trabalhou naquela Fortaleza de 1614 a 1627 (MOURA, p. 80 e 81), fazendo obras complementares. 

Se a capelinha era maior, quem e quando foi destruída? Vou levar o leitor  ao cenário da maior batalha  que enfrentaram os militares daquela fortaleza. Ano de 1633, dia 9 de dezembro, uma sexta-feira, o Forte está cercado por 800 militares holandeses, tendo a frente o Tenente-Coronel Bijma,  com bastante armas e munições. Dentro do Forte, os militares portugueses são poucos, 80 soldados, comandados pelo Capitão-Mor Pero Mendes de Gouveia.

Mapa holandês - Natal 1633

Quatro dias duraram os ataques. Granadas atingiram o interior do Forte, principalmente a Capelinha, que foi destruída. Com a rendição dos portugueses, 12 de dezembro de 1633, o Forte passou a se chamar Castelo de Ceulen.  Os holandeses destruíram também as imagens dos Reis Magos.
É Cascudo quem assim escreve: "Alojava os três Oragos, venerados pelos soldados. Naturalmente os três vultos foram despedaçados pelos holandeses, inimigos daquele culto idólatra" (Melo, p.90).

A Capelinha vai ficar muitos anos destruída, aguardando que os holandeses saiam do Rio Grande do Norte, o que acontece em 26 de janeiro de 1654, e, somente em 1703 vamos ter notícia de que a Capelinha estava reerguida, mas sem as imagens dos Reis Magos, que  seriam doadas novas, pelo Rei de Portugal, somente em 1756. Veja agora como era a Capelinha dos Reis Magos.  A foto em preto e branco é a que corresponde ao período da saída dos holandeses. 
Francisco Martins
9 de setembro de 2026.


Fotos e fontes

https://www.guiaviagensbrasil.com/galerias/rn/fotos-da-praia-do-forte-dos-reis-magos/foto-forte-dos-reis-magos-em-natal-brasil-8471/ visualizado em 9 setembro 2026.

https://www.nataldasantigas.com.br/blog/natal-se-torna-nova-amsterda. Visualizada em 9 setembro 2026.

MELO, João Alves de. "Natureza e História do Rio Grande do Norte" Tomo I (1501-1889). Natal. Imprensa Oficial,1969.

MOURA, Pedro Rebouças de. "Fatos da História do Rio Grande do Norte" - Ensaios pata os que desejam conhecer e recordar a nossa história. 1ª Edição. Natal, CERN, 1986.

domingo, 6 de setembro de 2026

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

MEU TEMPO NO CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE

 Alguns anos eu comecei a trabalhar no Conselho Estadual de Cultura-CEC/RN. Fui convidado pela Professora Zilda Lopes do Rêgo a assistir as sessões do Conselho e redigir as atas, posto que, a servidora Ana Maria de Miranda Galisa, já não mais estava escrevendo as atas. Bastava vir apenas nos dias das sessões, que são realizadas nas tardes de terças-feiras. 


Esse convite foi formulado quando eu estava à disposição da Academia Norte-rio-grandense de Letras-ANRL, na gestão do Prefeito Agnelo Alves, dando meu expediente da Biblioteca Padre Luiz Monte-ANRL (2004 a 2008), que depois foi renovado na administração de Maurício Marques, iniciada em 2009.

Aceitei sem contestar, embora sabendo que seria um trabalho voluntário, sem obter nenhuma remuneração. O que eu iria ganhar era a amizade que faria com os membros daquela instituição, isso sim, bem melhor do que qualquer moeda.

Quantas tardes memoráveis eu vivi junto a eles. Homens e mulheres que aguçaram ainda mais minha cultura. Alguns já partiram: Pedro Vicente, Nelson Patriota, Paulo de Tarso, Paulo Macedo, Enélio Petrovich, Francisco Fausto. Outros continuam por aqui, servindo a cultura. Tenho admiração por todos.

Escrevo essa memória, para registrar que depois de um certo período, em 2 de janeiro de 2017, o Conselho  conseguiu que eu viesse trabalhar oficialmente na sede, fazendo parte do convênio celebrado entre a Prefeitura de Parnamirim/Governo do Estado. Juntando esse período ( 9 anos) do convênio com o tempo que fiquei   Portanto, faz 22 anos que  eu estou atuando no CEC/RN.

Quando Letúsia Magalhães se aposentou, assumi as tarefas que eram da sua pasta e passei a ser Secretário Executivo. 


Francisco Martins

3 de setembro 2026

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O DIA EM QUE A IMPRENSA NASCEU NO RN

 

Há 192 anos nascia a imprensa potiguar!
Em 02.09.1832 circulava o primeiro jornal do RN: O Natalense, fundado por Basílio Quaresma Torreão, Urbano Egide, José Fernandes Carrilho e o Padre Francisco de Brito Guerra.
#HistóriaDoRN #ImprensaPotiguar #ONatalense

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

RASTEJADORES DE ABELHAS

   

A rarefação crescente da fauna veio tornar desvantajosa as atividades daqueles que viviam no mato. Assim, os que nele se embrenham para caçar bichos ou abelhas o fazem agora como atividade ocasional. E no caso das abelhas, mais das vezes para acudir uma encomenda de gente da rua, usar o mel como meizinha de alguma tosse-braba ou tirar a abelha achada quando estavam noutro serviço qualquer.
    Encontrada a morada da abelha, tratam de cortar o pau em que está situada - mesmo em se tratando de uma essência de maior valor ou que, de futuro, venha a dar obra. Lá um ou outro mais previdente é que se limita a fazer um corte por onde extrair o mel para depois tapá-lo com barro, cortar as duas extremidades da tora e, à noitinha, levá-la para as proximidades da casa e pendurá-la no beiral das telhas. Porque o comum é abrir o ninho, fartaram-se do mel e abandoná-lo à voracidade dos seus inimigos naturais (formigas, pássaros, lagartixas etc.). Daí, é de se imaginar, um dos maiores fatores de decréscimo da fauna apícola regional.
    Quando se trata de uma abelha mais agressiva - como a tubiba - ou de um vespídeo, costumam defumá-la, antes, com estrume de gado.
    Vale anotar, como curiosidade, o fato de que fomos testemunhas, mais de uma vez, quando em suas atividades agrícolas, esbarravam com uma "casa" de boca-torta. Mesmo sem se protegerem, algumas vezes até nus da cintura para cima, limitavam-se a passar as mãos nos sovacos suados e, devagarinho aproximá-las das "casas", até esmagá-las, esfregando uma na outra, sem sofrer uma única ferroada...
    Poucas abusões conhecemos ligadas aos caçadores de abelhas. Uma mais estranha e que parece comum a todo o sertão nordestino, é a de que o mel da abelha limão, tirado no mato, tem de ser comido em silêncio. Se um dos tiradores, acabada a refeição diz para outro: - "Vam'imbora", fica completamente bêbado, lançando, lançando areado. De alguns sertanejos ouvimos essa afirmativa como verdadeira, embora nunca tivéssemos oportunidade de testemunhá-la. A literatura regional registra o fato nos sertões cearenses:
    "Na serra da Barriga, também em Sobral, o mel de certa abelha, colhido em certa época do ano, produz a embriagues, principalmente nos tempos de seca.
    Uma coisa singular: o embriagado, por esse mel, no delírio da embriagues, dá para berrar como bode, como querendo dizer que foi o mel que o embriagou" (SOBREIRA, J. G. DIAS - "Curiosidades e fatos notáveis do Ceará").
Os "beiradeiros" do Sergipe e das Alagoas também, por lá, dizem o mesmo:
    "...a abelha limão é também conhecida por "come e não vamo". Se se comer e convidar a pessoa para ir embora, ela fica bêbada, por isso, coma e saia quieto, não fale nada, adiantou-nos Anísio Jacaré" (ARAÚJO, Alceu Maynard - Populações ribeirinhas do baixo São Francisco).
    Alguns sertanejos mais sagazes, de tanto caçarem abelhas para atender as encomendas de suas freguesias, e face à crescente rarefação delas, aprenderam a rastejá-las. Raros os que são capazes desse feito, de vez que para isso carece de muita paciência e astúcia...
    Assim, nos meses de seca, procuram as perdidas bebidas existentes - cacimbas, barreiros etc, - e lá se acocoram atocaiando as abelhas que ali vão beber. Algumas podem vir em maior quantidade e frequência. Espiam. Escolhem as que tomam mais altura no vôo de volta e dizem que elas assim fazem porque têm morada mais perto. Quando o cortiço está mais longe - justificam - as abelhas vão ganhando altura mais devagar, vencendo pouco a pouco o vento e a distância.
    Faz de conta que seja uma jandaíra... Espiam uma a uma as que bebem e o rumo que tomam de volta. Sentem a direção do vento. Atentam para a altura do vôo. Andam mais algumas braças naquele mesmo rumo e, de novo, botam sentido na passagem delas. Vêem passar a primeira, a segunda, a terceira... está está confirmada a direção. Adiantam-se outras tantas braças e recomeçam o balizamento... E de lance em lance, vão bater no pau em que está situada a jandaíra. Nele botam o ouvido, auscultando-o com pequenas batidas e chegam a "diagnosticar" se é de morada velha, se está gorda ou magra. As pobres de mel são chamadas magras, tanto assim que o enxu, em certa época do ano que tem pouco mel e abundante ninhada de larvas, serve de comparação aos indivíduos de família numerosa: "Fulano tem fio que só enxu magro"...
    A diligência é naturalmente facilitada ou dificultada pela maior ou menor identificação do homem com o seu mundo - a flora melífera, sua distribuição nas redondezas, épocas de floração, pontos de bebidas, hábitos das diferentes espécies etc.
    Os mais curiosos conhecem tim-tim por tim-tim o mundo que os cerca. Sabem de cor as madeiras que se apresentam mais frequentemente ocadas - a imburana, a catingueira e o cumaru - morada das nossas abelhas silvestres. E a literatura oral comprova essa preferência:

                           Xiquexique é pau de espinha,
                           Imburana é pau de abelha;
                           Gravata de boi é canga,
                           Paletó de negro é peia"...

    Nada distingue a indumentária do caçador de abelhas do sertanejo comum. Apenas, em trabalho, nunca se aparta do seu instrumento de corte e destruição - a foice - e da clássica cabaça-de-colo (ou de pescoço) alçada em embiras, em que recolhe o mel de sua rapina.

Oswaldo Lamartine

MENINAS NO COLO DO CANGACEIRO

Manoel Batista de Morais -  um nome que não tem peso na história, pois poucos são capazes de identificar quem foi o dono desse nome, mas, ao citarmos Antonio Silvino, aí sim, é possível imaginar a figura do cangaceiro, pois ambos os nomes representam a mesma pessoa.

Antonio Silvino

  E é sobre Antonio Silvino que eu trazer uma história contada por Oswaldo Lamartine, em nota de rodapé, no livro "Velhos Costumes do Meu Sertão", que foi escrito por seu pai Juvenal Lamartine de Faria

Juvenal Lamartine

Escreveu Oswaldo: " Não sabemos precisar a data, mas vale a pena recapitular o fato: Olga e Maria de Lourdes, filhas de Juvenal Lamartine, meninas de 7 para 9 anos, voltavam, à noitinha, em companhia de uma casal de empregadas, do Acari para a Fazenda Ingá onde moravam. No lugar Pitombeiras, numa casa à beira da estrada, esbarraram com homens armados sob a chefia de Antonio Silvino. Este indagou da mucama de quem eram filhas as meninas e onde andava o pai delas. Informado de que viajara e na casa estava a mãe das meninas, colocou-as no colo, ofereceu-lhes miçangas e perfumes e notando-as ariscas, perguntou se estavam com medo do rifle, "eu não sinhô que papai tem uma porção lá em casa". Despedindo-se recomendou: "Peça a sua mãe que quando escrevê prá seu pai diga a ele que não tenha raiva de mim não ..."  (2021, p. 171).

Olga Lamartine Paiva (26 de março 1905 a 25 outubro 1997)

Maria de Lourdes Lamartine Varela ( 17 abril 1906 a 19 novembro 1992)


Fonte:
Velhos costumes do meu sertão - Juvenal Lamartine - Natal: Sefarad, 2021

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

UMA CONVERSA SOBRE CASCUDO HOJE À NOITE

 

Em comemoração à Semana do Folclore, uma homenagem ao mestre que dedicou sua vida a ouvir, registrar e interpretar a cultura brasileira.
 
Quatro décadas após sua partida, Câmara Cascudo continua presente na memória e na identidade cultural brasileira. Sua obra permanece como uma das mais importantes referências para aqueles que estudam, pesquisam, preservam e vivenciam o folclore, a cultura popular, a tradição oral e os saberes do povo brasileiro. Por isso, este encontro não pretende apenas recordar sua trajetória. Propõe, sobretudo, revisitar seu pensamento, compreender sua atualidade e refletir sobre a maneira como seu legado continua inspirando pesquisadores, educadores, artistas, comunicadores e todos aqueles comprometidos com a preservação da cultura brasileira.

Convidados: 

1. DALIANA CASCUDO - Neta de Luís da Câmara Cascudo e Presidente do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo
Tema: “Memória, vida e legado de Câmara Cascudo”

2. PROF. DR. ANDRIOLLI COSTA - Professor do PPGCom e da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e Presidente da Rede Folkcom
Tema: “Câmara Cascudo e o folclore brasileiro no século XXI: permanências, desafios e novas linguagens”

3. PROF. DR. PAULO NICCOLI RAMIREZ
Professor • Cientista Social • Filósofo
Tema: “Câmara Cascudo e a identidade cultural brasileira: tradição, memória e pensamento social”

4. RUBERVAL CUNHA - Palestrante • Ator Performático • Poeta Repentista • Professor

E para encerrar esta noite especial, a palavra ganhará voz, corpo, poesia e movimento.
Ruberval Cunha apresentará “A Palavra Encantada de Câmara Cascudo”, uma proposta cênico-poética inspirada na tradição oral brasileira, reunindo poesia, performance, musicalidade e narrativa.

Uma realização: IOV Brasil - @iovbrasiloficial 
UNIJUÍ - @unijui
Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo

LINK – CONFIRMAÇÃO OFICIAL
Segue o link para inscrição no evento: https://virtual.unijui.edu.br/Portal/Eventos/40-anos-de-encantamento-de-camara-cascudo/inscricao
#ludovicus #iovbrasil #unijui #ciclodepalestras #40anosencantamentocascudo

CENTELHA DE CORDEL

 




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

50 ANOS SEM JK -

 Dia 22 de agosto de 1976 a nação brasileira perdia  Juscelino Kubitscheck  - o famoso JK, político, natural de Minas Gerais. Ele foi presidente do Brasil e estava próximo de completar 74 anos.  A causa da morte foi um "acidente" na Rodovia Presidente Dutra, no sentido  do Rio de Janeiro. O  opala, dirigido por Geraldo Ribeiro perdeu o controle e bateu em um caminhão.


Cinquenta anos depois, a verdade é revelada: JK foi vítima de  uma conspiração, um complô e atentado político. É o que afirma o relatório da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, instaurada em 2012, pela Câmara Municipal de São Paulo. 

A maior obra de JK foi a construção de Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960. Para saber mais sobre esse assunto, leia a revista "A Verdade sobre Juscelino Kubitschek - tragédia ou assassinato?"


FAROL DA CULTURA - UM GRANDE PROJETO INTERINSTITUCIONAL


Participe! 

A Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) promoverá no dia 3 de setembro o evento “Farol da Cultura: Caminhos para a Gestão Integrada e a Proteção do Patrimônio Cultural”.  

 O objetivo é promover o alinhamento técnico, jurídico e conceitual entre os membros do Sistema de Justiça, gestores públicos e a sociedade civil acerca das modernas diretrizes de gestão integrada e proteção do patrimônio histórico e cultural. 

 Palestra Magna: 
"Estratégias de Proteção ao Patrimônio Cultural"
Ana Maria Moreira Marchesan (Procuradora de Justiça do MPRS e Coordenadora da Obra de Patrimônio Cultural do CNMP)

Na oportunidade, será realizado o lançamento oficial do Projeto “Farol da Cultura” para fomentar o engajamento interinstitucional para a requalificação dos equipamentos culturais no RN. 

A iniciativa é capitaneada pelo Caop-MA e Caop-Cidadania, pelas 49ª e 71ª Promotorias de Justiça de Natal e pela 13ª Procuradoria de Justiça.

As inscrições podem ser feitas via formulário virtual (https://tinyurl.com/Faroldacultura) até às 14h do dia 02 de setembro.

CENTELHA DE CORDEL

 


O poeta Beradeiro, 
Que tem nome de Mané
Também faz outras artes
Veja só como ele é
Domina com paciência
O quilling  com muita fé.

Mané Beradeiro

THIAGO GONZAGA ENTREVISTOU O ESCRITOR TONY DE SOUZA



Entrevista com o escritor Tony de Souza
Entrevistador: Thiago Gonzaga

1. Tony, fale um pouco da sua infância no interior do Rio Grande do Norte. Que lembranças daquele período você guarda?

Nasci em Governador Dix-Sept Rosado (antiga Vila São Sebastião, RN). Meu pai, conhecido como Antônio Padeiro, contrariando minha mãe, vendeu a padaria e comprou um caminhão. Com isso, passou a viver na estrada.
Minha mãe, com seus três primeiros filhos, foi morar no sítio de seu pai, meu avô Vicente Carlos. Minha mãe vivia triste, mas, para mim, aquele lugar era um paraíso. Tomava leite tirado da vaca na hora, tinha mel das colmeias do sítio, e meu avô era uma pessoa muito carinhosa. Ele nos tratava muito bem e eu me sentia um reizinho.
Era uma pessoa especial e muito ativa. Além de cuidar do sítio, era marceneiro e dava aulas de alfabetização para quem quisesse estudar.

2. Como surgiu o seu interesse pela literatura?

Meu pai era analfabeto, mas adorava romances de cordel. Pedia para quem soubesse ler que recitasse os cordéis de que gostava, como O Pavão Misterioso e as histórias do personagem Pedrinho. Ele decorava os versos e os recitava enquanto trabalhava na padaria, fazendo o pão. E também me ensinava a fazer o pão.
Minha mãe era professora e tentou muitas vezes alfabetizar meu pai, mas não conseguiu. Porém, não permitiu, com muita veemência, que seus filhos deixassem de estudar por qualquer intercorrência da vida.
Ela era uma excelente contadora de histórias. Inclusive, tenho um livro publicado com as histórias de Trancoso que ela nos contava, principalmente em um período em que tínhamos poucos livros em casa.




3. Você se lembra dos primeiros livros ou autores que despertaram sua paixão pela leitura?

Comecei a ler textos da literatura brasileira na época do exame de admissão ao ginásio e comecei a decorar esses textos, assim como fazia com a literatura de cordel.
Ainda não tinha acesso a livros, mas às histórias em quadrinhos, que eram muito populares e acessíveis na minha época.
O primeiro livro que chegou às minhas mãos foi Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo, e depois Jubiabá, de Jorge Amado. Este último foi meu irmão Assis quem me deu, às vésperas de eu viajar para São Paulo, em busca dos meus sonhos.

4. Em que momento o cinema entrou na sua vida? Houve algum acontecimento, filme ou livro que fez você entrar nesse universo?

Como espectador, meus primeiros filmes foram assistidos em Natal e Mossoró. Eram principalmente faroestes, como Django! e Ringo!, além de filmes mitológicos, como Hércules, Maciste e outros.
Em São Paulo, comecei a frequentar cineclubes e conheci o que era o cinema de arte, além de outros filmes e diretores nacionais que me encantaram, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, e A Margem, de Ozualdo Candeias, entre outros.
Inclusive, a adaptação do conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, para o cinema foi objeto de estudo da minha dissertação de mestrado na PUC-SP, que posteriormente se tornou meu primeiro livro teórico publicado.
Nos primeiros anos vivendo em São Paulo, fui ator de teatro. Uma das colegas de uma peça teatral me falou que havia conhecido um diretor de cinema que estava selecionando atores para um filme. Pedi para que ela me levasse junto.
Na época, já frequentava o Museu Lasar Segall, conhecido como um espaço dedicado às artes em geral, inclusive ao cinema. Foi ali que comecei a ler a teoria dos diretores de cinema russos, o que me apresentou ao cinema de arte. Passei a ser um frequentador assíduo e um leitor voraz.
No dia combinado, fomos ao teste de atores do filme. Ao nos encontrarmos com o diretor, ele nos disse que o elenco já estava completo.
Esse diretor era muito simpático. Ficamos conversando sobre cinema, e ele gostou do conteúdo da conversa. Ao final, disse que iria propor meu nome para ser incluído na equipe de filmagem, mas eu teria que sair da peça teatral que estava em cartaz.
Foi dessa forma que entrei no universo do cinema paulista, cuja história conto nos livros A Boca do Cinema Paulista e Perseguidor de Fantasma.

5. Quais foram suas primeiras influências literárias? Existem autores que o acompanharam desde o início da sua formação?

No decorrer da minha trajetória no teatro e no cinema, a base do meu desenvolvimento foi a leitura, ora teórica, ora de ficção. Foi uma pesquisa constante.
Hoje posso perceber que aquele menino carente de livros me fez ir atrás de tudo isso. Atualmente, a leitura é nosso maior entretenimento, e escrever um romance é uma forma de nos sentirmos vivos e de proporcionar prazer e conhecimento para outras pessoas.
Minhas afinidades literárias são muitas, mas registro aqui os escritores Antonio Torres, que é meu patrono na Academia Contemporânea de Letras de São Paulo, e Ignácio de Loyola Brandão.

6. Como nasceu a ideia do seu primeiro livro? Foi um projeto planejado ou os textos foram se reunindo naturalmente ao longo do tempo?

Após concluir os estudos de graduação, mestrado e doutorado, saturado da escrita acadêmica e de escrever roteiros de cinema, resolvi arriscar escrever meu primeiro romance.
O tema girou em torno da minha história de vida no Rio Grande do Norte e da minha vinda para São Paulo. Transformar o papo de roda de amigos em romance foi uma dica da minha esposa.
Ao dar meus primeiros passos como autor, inspirei-me nas obras de J. D. Salinger, principalmente em O Apanhador no Campo de Centeio, e na obra de John Fante. Eles foram meus ídolos na época.

7. O que mudou em sua escrita desde os primeiros livros até os textos mais recentes?

No meu primeiro livro lançado, um amigo afirmou: “Antonio, esse é o seu primeiro livro de uma obra, não é?”
O que veio a significar essa afirmação para mim?
Eu tinha ideia do que era construir uma obra na área cinematográfica, de acordo com os estudos que tinha feito sobre cinema. A literatura, porém, era um campo novo para mim. Optei pelo romance, tendo em vista minha experiência como roteirista.
Também o fato de ler não apenas os clássicos, mas novos autores, como Javier Marías, Enrique Vila-Matas e John Berger, entre outros, levou-me a arriscar a construção de novas formas de narrar um romance, que não seguem uma estrutura dramática clássica.
Apresento ao público um romance em que ele poderá se deparar com um roteiro, um diário, uma correspondência; ora o alter ego pode estar em destaque, ora outro personagem; ora em primeira pessoa, ora não.

8. Quais são seus projetos literários para o futuro e o que os leitores podem esperar dos seus próximos livros?

Tenho duas ideias a desenvolver: uma sobre minha experiência com a espiritualidade e a busca por uma vida mais sustentável, e outra sobre obras biográficas.

9. Fale-nos sobre seu novo livro, que você vai lançar aqui em Natal, na Livraria Manimbu.

Minha intenção foi escrever algo bem-humorado sobre um personagem, “o cavador de filmes”, uma figura já ultrapassada no tempo e que, nos dias atuais, acabou se envolvendo em manobras obscuras de lavagem de dinheiro.
Ele procura os amigos de antigamente para ajudá-lo a sair dessa enrascada.