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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

FAROL DA CULTURA - UM GRANDE PROJETO INTERINSTITUCIONAL


Participe! 

A Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) promoverá no dia 3 de setembro o evento “Farol da Cultura: Caminhos para a Gestão Integrada e a Proteção do Patrimônio Cultural”.  

 O objetivo é promover o alinhamento técnico, jurídico e conceitual entre os membros do Sistema de Justiça, gestores públicos e a sociedade civil acerca das modernas diretrizes de gestão integrada e proteção do patrimônio histórico e cultural. 

 Palestra Magna: 
"Estratégias de Proteção ao Patrimônio Cultural"
Ana Maria Moreira Marchesan (Procuradora de Justiça do MPRS e Coordenadora da Obra de Patrimônio Cultural do CNMP)

Na oportunidade, será realizado o lançamento oficial do Projeto “Farol da Cultura” para fomentar o engajamento interinstitucional para a requalificação dos equipamentos culturais no RN. 

A iniciativa é capitaneada pelo Caop-MA e Caop-Cidadania, pelas 49ª e 71ª Promotorias de Justiça de Natal e pela 13ª Procuradoria de Justiça.

As inscrições podem ser feitas via formulário virtual (https://tinyurl.com/Faroldacultura) até às 14h do dia 02 de setembro.

sábado, 4 de julho de 2026

CAMINHOS DO TEMPO

 Há um silêncio que chega com os anos, e ele não é feito apenas da ausência de ruídos, mas da transição suave entre o que éramos e o que nos tornamos. Aos 60, você começa a sentir a sutileza do distanciamento. A sala que antes pulsava com suas ideias agora parece cheia de vozes que não pedem mais sua opinião. Não é uma rejeição, é o ritmo da vida. É quando aprendemos que nossa contribuição não está no presente imediato, mas nos rastros que deixamos nos corações e mentes ao longo do caminho. 

Aos 65, você percebe que o mundo corporativo, outrora tão vital, é um fluxo incessante. Ele segue, indiferente ao que você fez ou deixou de fazer. Não é uma derrota, é a libertação. Esse é o momento de olhar para si mesmo, despir-se do ego e vestir a serenidade. Não se trata mais de provar, mas de ensinar, de compartilhar, de ser mentor. A verdadeira realização não é a que se exibe, mas a que inspira.

Aos 70, a sociedade parece lhe esquecer, mas será mesmo? Talvez seja apenas um convite para reavaliar o que realmente importa. Os jovens não o reconhecerão pelo que você foi, e isso é uma bênção disfarçada: você pode agora ser apenas quem você é. Sem máscaras, sem títulos, apenas a essência. Os velhos amigos, aqueles que não perguntam “quem você era”, mas “como você está”, tornam-se joias preciosas, diamantes que brilham no crepúsculo da vida.

E então, aos 80 ou 90, é a família que, na sua correria, se afasta um pouco mais. Mas é aí que a sabedoria nos abraça com força. Entendemos que amor não é posse; é liberdade. Seus filhos, seus netos, seguem suas vidas, como você seguiu a sua. A distância física não diminui o afeto, mas ensina que o amor verdadeiro é generoso, não exigente.

Quando a Terra finalmente chamar por você, não há motivo para medo. É a última dança de um ciclo natural, o encerramento de um capítulo escrito com suor, lágrimas, risos e memórias. Mas o que fica, o que realmente nunca será eliminado, são as marcas que deixamos nas almas que tocamos.

Portanto, enquanto há fôlego, energia, enquanto o coração bate firme, viva intensamente. Abrace os encontros, ria alto, desfrute os prazeres simples e complexos da vida. Cultive suas amizades como quem cuida de um jardim. Porque, no final, o que resta não são as conquistas, nem os títulos, nem os aplausos. O que resta são os laços, os momentos partilhados, a luz que espalhamos.

Seja luz, seja presença, e você será eterno.

Dedico a todos que entendem que o tempo não apaga, mas apenas transforma.

Viva a VIDA .

Autor: Dr. Jahir Navarro, 98 anos 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

ESPERANÇA NA HUMANIDADE DE EDGAR MORIN: SABEDORIA NA COMPLEXIDADE DA VIDA



 Por Gláucio Tavares Costa*

O amigo e pensador Ítalo de Melo Ramalho iniciou o seu ensaio Teatro das Cortes afirmando que a vida é como um teatro. Por caminho diverso, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer também chegou ao entendimento de que a vida pode ser comparada a um teatro porque, assim como os atores, somos marionetes de uma força cega e insaciável: a "Vontade." O inesquecível compositor Gonzaguinha musicou a indagação: a vida é a batida de um coração ou seria uma doce ilusão? Responder às indagações de Gonzaguinha sobre a vida não é uma tarefa trivial. Sabemos. 

Entreato, entre átomos, sugere-se que a vida pode ser uma organização de matérias e energias – que são expressões da mesma substância – imbuídas de animus. Calha dizer nesta reflexão que a substância dessa organização é a linguagem, regente desde aquela expressa disposição de aminoácidos – cada um em seu devido lugar como as letras deste texto – a formar os ácidos nucleicos, que servem de transcrição para a edificação de proteínas a estruturar dada vida de espécie vegetal, ou daquele animal ou de micróbios. 

O grau de complexidade alcança as estrelas quando se fala na organização da coletividade humana. Ora, o homem tem natureza biológica, psicológica e social; ou seja, o homem é ao mesmo tempo totalmente biológico e totalmente cultural, e o cérebro, da biologia, e a mente (da Psicologia), são faces diferentes de uma mesma moeda, como apontado por CALUZI e ROSELLA (2024). Essa coligação de elementos proporciona a existência da vontade, do desejo, das emoções, do deslumbramento com o belo, da estranheza, da percepção do universo… Além disso, a vida é muito mais. 

Diante dessas constatações, não se deve recusar a ideia de que a vida é uma expressão da complexidade e para tentar desnudar as complexidões é essencial desenvolver a visão crítica. Nesse desiderato, mostra-se como excelente companhia o epistemólogo da complexidade Edgar Morin.

De antemão, nas lições de Morin, questiona-se o paradigma da razão e a ciência como único modo de interpretar a realidade. Isto significa asseverar que outros métodos de conhecimentos são válidos, de modo que não são pode julgar heterodoxo a religação dos conhecimentos dispersos e a integração da cultura científica e da cultura humanística. Em outras palavras, na complexidade “tudo se liga a tudo”. Como o próprio autor afirma no livro Ciência com consciência: “A ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar” (IZABEL, 2022).

Com efeito, a Teoria da Complexidade de Edgar Morin é uma abordagem crítica sobre a fragmentação do conhecimento e propõe a religação dos saberes dispersos ou seja: “contextualizar e globalizar saberes até então fragmentados e compartimentados...” (MORIN, 2000a, p. 06). Faz-se assim a união entre áreas como ciências humanas e exatas, cultura e filosofia para compreender a realidade de forma mais integrada e não linear. Para Morin, complexidade não significa "complicado", mas sim algo que é "tecido em conjunto" e que abrange a incerteza, a ambiguidade e a interconexão entre os fenômenos (PEREIRA, 2002). Superando a ideia simplificadora, a complexidade propõe o princípio da relação entre o objeto e o sujeito pesquisador-conceituador, que tanto o percebe quanto o concebe.

Diante disso, os pontos cardeais da Teoria da Complexidade de Edgar Morin podem ser considerados: crítica à fragmentação do saber: Morin critica a divisão rígida dos saberes em disciplinas isoladas, o que impede a obtenção de uma visão holística da realidade; religação dos saberes: a teoria defende a necessidade de unir conhecimentos de diferentes áreas para uma compreensão mais completa, como o ensino que integra história, sociologia, psicologia e economia; complexidade como "tecido em conjunto": o termo vem do latim complexus e refere-se à interconexão de elementos que formam um todo, incluindo o que parece simples e os limites do próprio conhecimento; aceitação da incerteza: a teoria reconhece que a realidade é não linear, caótica e em constante mudança, exigindo a aceitação da incerteza, da ambiguidade e da incompletude; transdisciplinaridade: propõe um trabalho integrado entre os saberes, indo além da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, e buscando uma união mais profunda entre os conhecimentos; aplicação na educação: no contexto educacional, a teoria sugere que os professores colaborem para criar aulas mais significativas, conectando os conteúdos com a realidade dos alunos, que são expostos a um mundo cada vez mais complexo; princípio do "pensamento complexo": trata-se da arte de reunir o máximo de certezas para lidar com o incerto, integrando informações e formulando esquemas de ação.

Comporta assinalar que Morin reflete na sua obra “Os sete saberes necessários à educação do futuro” sobre as necessidades da educação no século XXI, tratando de alguns problemas específicos, chamados de buracos negros, existentes tanto do ensino fundamental, médio e superior, e que são ignorados nos programas educativos, mas em sua opinião deveriam estar no centro das atenções dos que se preocupam com a formação de jovens e futuros cidadãos. Um dos problemas ou “buracos negros” abordados, refere-se ao conhecimento, fornecido pelo ensino, que fornece saberes, mas, não revela o que é de fato o conhecimento; e - nesse caso - incorre em dois outros problemas: o erro e a ilusão (CALUZI e ROSELLA, 2024). A referida obra oferece um catálogo dos sete saberes: (i) as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; (ii) os princípios do conhecimento pertinente; (iii) ensinar a condição humana; (iv) ensinar a identidade terrena; (v) enfrentar as incertezas; (vi) ensinar a compreensão; (vii) a ética do gênero humano.

Edgar Morin nos advertiu, em suma, que enfrentamos persistentes ameaças à dignidade humana, como as armas de destruição em massa, a degradação ambiental, a total informatização dos dados relativos à vida pessoal, mas que há no nosso caminhar oportunidades de construção de um sistema mais rico e complexo, com grandes promessas para a humanidade. É essencial termos esperança!


REFERÊNCIAS


ALVES, Roger F. Pacheco (2020). Invenção de mundos como Dispositivo Complexo de Aprendizagem: cartografia de uma (trans)formação docente. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Pampa. Disponível em: <https://sites.unipampa.edu.br/sacci/files/2023/09/dissertacao-dispositivos-complexos-de-aprendizagem.pdf>. Acesso em: 24 nov. 2025.


BLAY, Ênio Alterman (2024). Edgar Morin e o que chamamos de “pensamento complexo”. Revista de Ensino Superior. Disponível em: <https://jornal.usp.br/articulistas/enio-alterman-blay/edgar-morin-e-o-que-chamamos-de-pensamento-complexo-parte-1/>. Acesso em: 02 nov. 2025.


CALUZI, João e ROSELLA, Marcelo L. Aroeira (2024). Edgar Morin: A Complexidade subsidiando o ensino de Ciências. Disponível em: <https://fep.if.usp.br/~profis/arquivo/encontros/enpec/ivenpec/Arquivos/Orais/ORAL064.pdf#:~:text=Desta%20forma%20%C3%A9%20necess%C3%A1rio%20submeter%20%C3%A0%20reflex%C3%A3o,latino%20(complexus%20%E2%80%9Co%20que%20est%C3%A1%20tecido%20junto%E2%80%9D).>. Acesso em: 24 nov. 2025.


FONSECA, E. R. da. Schopenhauer e o teatro: ilusão, resignação e sabedoria de vida. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, [S. l.], v. 9, n. 2, p. 67–83, 2018. DOI: 10.5902/2179378636053. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/voluntas/article/view/36053. Acesso em: 24 nov. 2025.


IZABEL, Petraglia (2022). Edgar Morin e o pensamento complexo. Revista de Ensino Superior. Disponível em: <https://revistaensinosuperior.com.br/2022/01/12/edgar-morin-e-o-pensamento-complexo/>. Acesso em: 02 nov. 2025.


ROLLEMBERG, Marcelo (2021). Cem anos de sabedoria e complexidades. Jornal da USP. Disponível em: <https://jornal.usp.br/cultura/cem-anos-de-sabedoria-e-complexidades/>. Acesso em: 02 nov. 2025.


PEREIRA, Reinaldo Arruda (2002). A Ciência Moderna, a Crise dos Paradigmas e sua relação com a escola e como o currículo. Dissertação de mestrado apresentado na PUC/MG. Disponível em:<https://bib.pucminas.br/teses/Educacao_PereiraRA_1.pdf>. Acesso em: 24 nov. 2025.


*Gláucio Tavares é ensaísta, mestrando em Direito pela Universidad Europea del Atlántico, graduado em Farmácia pela UFRN e ativista político pela democracia.

quarta-feira, 18 de março de 2026

CINE SÃO JOSÉ - 35 MATINÊS

 

O legado mágico de um cinema de bairro.

No periodo de 1969 a 1975, entre seus 10 e 16 anos, o jornalista e escritor Alex Medeiros viveu no bairro das Quintas e experimentou intensamente as emoções da sétima arte no pequeno cinema São José, situado na Rua Pedro Novôa quase na esquina da Rua São Geraldo. Ali ele compartilhou com amigos a magia dos muitos estilos do cinema,  do faroeste à comédia, do musical à ficção científica, da aventura de super-heróis aos épicos de piratas e guerreiros medievais.

Na calçada do velho "purguinha" (apelido que se dava na época às pequenas salas de projeção nordestinas) Alex também curtiu uma das suas grandes paixões até hoje: as revistas de histórias em quadrinhos e os álbuns de figurinhas. 

Entre a fachada do São José e a lateral do Mercado Público, tudo virava um bazar a céu aberto, com meninos, rapazes e até adultos vendendo, comprando, trocando revistas e figurinhas. E tudo num tempo calculado até que o autofalante do cinema desse o sinal da abertura da bilheteria.

O Cine São José, que foi fundado no começo dos anos 1950 por José Avelino, funcionou até início dos anos 1980, sendo administrado na época de Alex pelo herdeiro Erivam Avelino e sua esposa Adália Moura.

Por muitos anos o jornalista alimentou o desejo de contar um pouco da história do cinema que lhe abriu as portas de um mundo mágico que ele habita até hoje. Várias vezes ele fez menções, em sua coluna de jornal que publica há quase 40 anos, às sessões que assistiu naquele pequeno espaço de entretenimento. Até que em 2024, seu amigo contemporâneo Maurício Designer, um artista de raro talento, mostrou-lhe uma maquete que havia acabado de fazer. Era o saudoso São José renascido em detalhes de  massa, madeira e papel. Uma imagem espetacular como se enviada do passado em quatro dimensões.

No ano seguinte, 2025, Maurício surpreendeu de novo o amigo lhe presenteando com outra maquete, de menor dimensão mas com a mesma grandeza de saudade. Depois deu uma notícia que logo despertou o antigo sonho de contar sua aventura no São José: Dona Adália, a dona do cinema, morava perto dele e estava emocionada com as duas maquetes (obviamente houve uma terceira réplica para ela).

Então, Alex combinou umas tardes de conversas movidas a café e entrevistou Adália, colhendo tudo que precisava para registrar a existência do cinema que foi para ele a versão das Quintas de Cine Paradiso (o cinema consagrado no clássico filme do italiano Giuseppe Tornatore).

O livro Cine São José - 35 Matinês tem edição de Adriano de Sousa, projeto gráfico de Gustavo Lamartine e capa e fotos de Giovanni Sérgio a partir da maquete de Mauricio Designer.

Será lançado dia 9 de abril, quinta-feira, às 17h, na Academia Norte-Riograndense de Letras e Conselho Estadual de Cultura, na Rua Mipibu, 443, Petrópolis.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

RETRATO DO MEU SERTÃO


Quando chove no sertão 
As plantas mudam a roupagem 
Vê-se logo outra paisagem
De encher alma e coração 
É Deus colocando a mão 
Onde a seca castigava
Ninguém mais aguentava 
Todo esse sofrimento 
Vivemos outro momento
Do jeito que se aguardava

O sertanejo se alegra 
Olha pro céu e agradece
Eleva ao Pai uma prece
Numa verdadeira entrega
E na fé que ele carrega 
Ara a terra pra plantar 
Se a semente germinar 
A safra tá garantida 
Armazenando comida 
Pra na mesa não faltar

E assim ele vai vivendo
Sem perder a esperança 
Esperando por mudança 
Que há muito vêm prometendo 
Você só sabe é vendo 
A história é sempre essa 
Aparece muita promessa 
Entra ano e sai ano
O que não falta é plano
Mas fica só na conversa

Digo por experiência 
Porque no sítio nasci
Um tempo bom que vivi
Em toda sua essência 
Sobrava resiliência 
Também era muito gostoso 
Um lar sempre harmonioso 
Com meus irmãos e meus pais
Tempo que não volta mais 
E tornou-se muito saudoso

A gente vai pra cidade 
E o sítio não sai da gente 
Ao descrever em repente 
Bate forte uma saudade 
Mas foi por necessidade 
Que deixamos aquele canto
Havia bastante encanto 
Em nossa bela moradia 
Onde ali se convivia
Sem medo e sem ter espanto

Tudo era muito ordeiro 
A comida era mais pura 
Podia-se comer gordura 
De janeiro a janeiro 
Um povo hospitaleiro 
Bastante respeitador 
Também muito trabalhador 
Que jamais se cansava 
Pois a luta começava 
Do nascer ao sol se pôr

Lembrando esse passado 
De grata recordação 
Havia tempo pra oração 
Vejam que grande legado 
Tudo era mais sossegado 
Não tinha essa agitação 
De WHATSAPP e televisão 
O banheiro era uma latrina 
A luz de uma lamparina 
Quando muito, um lampião

Hoje tá tudo diferente 
Luz elétrica, água encanada
Ninguém senta na calçada 
O longe está mais presente 
O perto parece ausente
É assim no dia a dia 
A chegada da tecnologia 
Trazendo facilidade
E o que outrora era felicidade 
Transformado em nostalgia

08-02-2025
Henrique Tadeu

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MEDALHA DA RESISTÊNCIA: O MAIOR TROFÉU CONFERIDO AOS HERÓIS MOSSOROENSES

 


    O Museu do Sertão guarda em seu acervo de raridades históricas uma peça de profundo significado: a Medalha da Resistência. Esta condecoração foi entregue em 13 de junho de 1977 pelo então prefeito de Mossoró, João Newton da Escóssia (1925-2017), com a presença do governador Tarcísio de Vasconcelos Maia (1916-1998). A solenidade de condecoração marcou o cinquentenário da vitoriosa defesa da cidade contra a tentativa de invasão do bando de Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1897-1938), ocorrida na tarde de 13 de junho de 1927. A comenda foi outorgada como um reconhecimento oficial à coragem e à determinação dos cerca de 200 heróis que enfrentaram a sanha do "Rei do Cangaço", sendo entregue aos poucos sobreviventes da época e aos descendentes daqueles que já haviam falecido.

   Com quase meio século de existência, este troféu é valorizado tanto por seu valor histórico quanto por sua beleza  artística. Cunhada em bronze, a medalha possui 5 centímetros de diâmetro e pesa 58 gramas, apresentando inscrições e a gravura de uma igreja em alto-relevo. O templo estampado na peça é a Igreja de São Vicente de Paula, de cuja torre partiram os disparos estratégicos dos guardiões da cidade. Ainda hoje, o templo preserva em suas paredes as marcas de bala daquele confronto, materializando a memória da resistência mossoroense.
   Diferente de honrarias contemporâneas, a Medalha da Resistência teve um propósito específico e singular: homenagear os homens que, de armas em punho, arriscaram a própria vida para proteger o solo mossoroense. Recentemente, em 2022, o atual prefeito de Mossoró Allyson Leandro Bezerra Silva instituiu a "Medalha Rodolfo Fernandes", destinada a homenagear anualmente cidadãos que prestam relevantes serviços ao município. Embora esta última medalha leve o nome do  prefeito-herói Rodolfo Fernandes (1875-1927) — líder político que comandou a defesa de Mossoró em 1927 —, ela possui uma finalidade  distinta da Medalha da Resistência de 1977, que permanece como o galardão máximo e exclusivo dos heróis que combateram diretamente os cangaceiros comandados pelo “Rei do Cangaço”.

Benedito Vasconcelos Mendes

quarta-feira, 14 de maio de 2025

VALÉRIO MESQUITA LANÇA AMANHÃ DOIS LIVROS NA SEDE DA ANRL


 Todos nós, permanentemente, olhamos o tempo nos seus mais diversos significados: se é chuvoso ou quente; se está tarde ou cedo para chegarmos ou sairmos; os tempos de outrora, os de hoje e os vindouros; o tempo que o tempo faz e por aí em vante.

Mas, entre todos os escritores que conheço, poucos criaram uma relação tão forte com esse elemento - ora majestático ora corriqueiro -, o Tempo Rei, quanto Valério Mesquita. Não à toa, o seu primeiro livro, escrito no alvor da sua vida intelectual, foi intitulado “O tempo e sua dimensão”. Pequenos ensaios de um estudante de Direito tentando abarcar a dimensão do elemento mais inalcançável do universo. 


Depois disso, Valério agregou essa palavra ao seu universo criativo a ponto de exibi-lo não apenas na sua temática notadamente memorialística, mas, várias vezes, nos próprios títulos dos seus livros. Como é o caso deste mais recente, “Na linha do tempo”.

E agora, talvez por um ditame desses senhor inescapável, Valério juntou a reedição do seu primeiro livro e o mais recente para lançá-los ao mesmo tempo. 

É o que teremos nesta quinta-feira/15, a partir das 17 h, na Academia Norte-riograndense de Letras, com Valério autografando “O tempo e sua dimensão” e “Na linha do tempo”.


Osair Vasconcelos
Jornalista

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A BODEGA DO SEU RAIMUNDO GALDINO

Um exemplo de bodega nordestina

Nas décadas de 1950 e 1960, a bodega do Seu Raimundo Galdino, localizada ao lado da igreja de São Francisco, do distrito de Caracará, município de Sobral-CE, a quatro quilômetros da propriedade do meu avô (Fazenda Aracati) era muito sortida e a única existente naquela vila. Ocupava a sala da frente da residência de seu proprietário. Não fechava para o almoço e funcionava de maneira ininterrupta, das cinco horas da manhã até às oito horas da noite. Funcionava inclusive nos domingos e feriados. Às vezes, abria de madrugada, quando algum freguês batia em sua porta, solicitando a compra de medicamentos para dor de dente, diarreia, dor de cabeça, vômito, febre ou azia, ocasião em que o Seu Raimundo Galdino oferecia as poucas opções do seu estoque de medicamentos populares (Cibalena, Cibazol, Melhoral, Sonrisal, Elixir Paregórico, Óleo de Rícino, Pílulas de Vida do Dr. Ross, Pílulas de Matos, Mercúrio Cromo e mais uns poucos outros remédios).

A frente do prédio era de duas portas e tinha um alpendre com um banco de carnaubeira deitada, sobre duas forquilhas de aroeira fincadas no chão. Embora a construção fosse de taipa, o piso era de cimento vermelho e a coberta de telhas artesanais, com uma calha de estirpe de carnaubeira no beiral do alpendre, formando uma bica, onde, no período das chuvas, a meninada tomava banho. Nos fundos da bodega, ao lado das prateleiras de madeira, havia uma porta, que se comunicava com a residência do proprietário. No oitão da bodega tinha uma vara de bambu, bem alta, com uma antena de rádio na extremidade. No interior da bodega, sobre uma pequena mesa de pau-branco, estava um rádio Philips a válvula, ligado a uma bateria de caminhão, que só pegava na frequência AM (ondas médias e curtas), pois ainda não existia FM. O rádio da bodega funcionava o dia todo, com muito chiado, retransmitindo a programação da Rádio Iracema de Sobral. Só era desligado à noite, quando começava a Hora do Brasil.
O balcão de madeira, revestido com folhas de zinco, exibia algumas moedas antigas furadas (pataca, cruzado e vintém), fixadas por pregos na parte de cima do balcão. Na extremidade do balcão, uma passagem com dobradiças de couro, que permitia levantar o tampo do balcão, quando o bodegueiro necessitava sair, para pegar algum produto pendurado nos caibros do espaço externo. A balança de pratos, o cutelo de cortar fumo de rolo, a guilhotina de partir rapadura, o rolo de papel de embrulho e a gamela com toicinho de porco salgado (sal preso) ficavam sobre o balcão. A pobreza regional era tão grande que a rapadura podia ser vendida em pedaços. Era comercializada por unidade, por banda (meia rapadura) ou ainda por pedaço de um quarto de rapadura. A lata de querosene (da marca Jacaré), com a bombinha de zinco, para bombear o querosene, acoplada a ela, localizava-se sobre um estrado de madeira no canto da parede.
Os gêneros alimentícios podiam ser comercializados no peso ou no volume. No litro eram vendidos farinha de mandioca, milho, feijão-de-corda e arroz-vermelho em casca. O litro era feito de madeira e tinha o formato quadrado. O produto era colocado dentro do litro, com o auxílio de um casco de cágado. O toicinho, a linguiça caseira, a carne de sol, a tripa de porco salgada, as carnes verdes (de bode, ovelha ou de porco), a banha de porco, o açúcar, o sal grosso, o café em grão, a goma de mandioca e outros alimentos eram vendidos por quilo. Comprava-se o sal grosso na bodega e em casa triturava-se no pilão, pois naquela época não existia sal moído. Seu Raimundo Galdino tinha muita prática de embrulhar com papel de embrulho, usando os dedos, os produtos vendidos, pois os gêneros alimentícios não eram acondicionados em pacotes, tudo vinha à granel. Para o querosene tinha medidas apropriadas, feitas de zinco, que depois de cheias eram despejadas na garrafa do freguês, usando um funil de zinco. Cada família tinha sua garrafa de comprar querosene, a qual era transportada pendurada no dedo indicador do freguês, pois a mesma tinha um barbante amarrado no gogó, que terminava em laço, para pendurá-la no dedo. A manteiga de garrafa, o óleo de coco, o mel de abelha (jandaíra ou mandaçaia) e o mel de engenho eram comercializados em garrafas de 600 ml. A bodega vendia de um tudo, pois na vila não existiam lojas nem farmácias. Além de alimentos, lá se comprava ferragens (enxadas, pás, machados, facas, lamparinas, ralo de flandres para ralar milho verde, facões, pregos e arame farpado); remédios populares; aviamentos (elásticos, cianinhas, bicos, linhas, agulhas, botões etc); aspiral para repelir muriçocas; sabão da terra; sabonetes; creme dental; chinelas de rabicho de sola e de pneu (tiras de couro e solado de pneu de automóvel); louças de barro (panelas, potes, quartinhas etc); cestos de cipó; artigos feitos com palha de carnaubeira (chapéus, bolsas, esteiras, urus, vassouras, surrões e outros); urupemas; abanos; cuias; cuités; gamelas; cochos e outros utensílios domésticos.
Parede e meia à bodega, morava Seu João Enfermeiro, um profissional da área da saúde que tinha muita habilidade e prática para curar as enfermidades dos habitantes daquela comunidade rural. Era um misto de enfermeiro, farmacêutico, dentista e de médico. Ele encanava braço, arrancava dente, aplicava injeção no músculo (não aplicava injeção na veia), costurava, com linha zero e agulha grande de coser tecidos, facadas e outros ferimentos. Ele também vendia meizinhas (raizes, folhas e outras partes de plantas medicinais, sebo de carneiro capado e banhas de animais, como banha de tejo, de raposa, de cobra cascavel, de galinha, de traíra, de cágado e de jia). A mulher do bodegueiro, Dona Ciça, era parteira e rezadeira, pois curava quebranto, espinhela caída, mau olhado, moleira caída e outras doenças de menino. Ela também curava, no rasto, bicheiras dos animais, com suas rezas.
Uma coisa que me chamava a atenção era a convivência pacífica de três animais que ficavam soltos, o dia todo, dentro da bodega, sem brigas. Uma gralha cancão para comer baratas, um gato para pegar ratos e um cachorro de estimação e guarda. Interessante que o gato e o cachorro eram adestrados para não comerem as carnes, toicinho e linguiça da bodega. Eles só se alimentavam em horário certo e dentro da casa do bodegueiro, nunca no interior da bodega. Também, o gato não perseguia o cancão.
A bodega do Seu Raimundo Galdino vendia doses de cachaça no pé do balcão, com tira- gosto de queijo de coalho. A cachaça vinha da Serra da Meruoca, em ancoretas feitas de imburana, sobre lombos de animais.
Seu Raimundo Galdino era um senhor de muito respeito, imprimia em sua bodega um ambiente familiar, onde mulheres e crianças faziam compras com segurança. Embora fosse um estabelecimento comercial de muita ordem e seriedade, não deixava de ser também o local onde as notícias e as fofocas chegassem em primeira mão. As novidades, como doenças, queda de cavalo, chifrada de touro brabo, coice de vaca, coice de burro ou de cavalo sofrido por algum membro da comunidade, primeiramente, eram noticiadas, de boca em boca, a partir do bodegueiro. Ele tinha prazer em comunicar, em primeiríssima mão, as novidades locais e as notícias que captava pelo rádio. Quando alguma mocinha da vila engravidava, também ele era o primeiro a saber, pois seu vizinho, João Enfermeiro vendia Cabacinha e Babosa para fazer chá para abortar e ele não se continha em não contar para o seu vizinho e compadre Raimundo Galdino, o segredo precioso de quem comprava estas ervas. O bodegueiro sabia a vida de todos os habitantes da vila Caracará e vizinhanças.
Quase todas as compras neste ponto comercial eram feitas fiado, na caderneta, para serem pagas, semanalmente, no sábado à tarde, embora um cartaz pregado na parede anunciasse: FIADO SÓ AMANHÃ.
As bodegas sertanejas eram parecidas uma com a outra, de modo que mudava apenas a qualidade e a variedade dos produtos, sendo algumas mais sortidas e outras mais simples.


Benedito Vasconcelos Mendes

Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor. Professor Aposentado da UFERSA e da UERN. Sócio Efetivo da ANRL e da AMOL.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

SOB A PROTEÇÃO DE SÃO JOÃO (ASSU/RN) E A LUZ BENDITA DE SANTA RITA (SANTA CRUZ/RN) O PROJETO DAS DIOCESES CAMINHA...

 

“Sonho que se sonha só é só um sonho. Mas sonho que se sonha junto torna-se realidade.”
(D. Hélder Câmara)

O sonho longínquo de constituir novas dioceses no território potiguar ecoou na mente e no coração dos pastores das igrejas locais de Natal/RN e Mossoró/RN. 

O dia 8 de junho de 2024 foi uma data histórica para a Arquidiocese de Natal/RN. Com a Celebração Eucarística presidida pelo Arcebispo Metropolitano, D. João Santos Cardoso, foi oficialmente instalada, na matriz de Santa Rita de Cássia, em Santa Cruz/RN, a Comissão de Estudos para a criação de uma nova diocese no estado do Rio Grande do Norte. 

Na homilia, D. João apresentou a necessidade de mais uma sede diocesana com a finalidade de melhor atender as demandas pastorais do povo de Deus e anunciar a todos a Boa Nova.

Contudo, considerando a dimensão territorial da Província Eclesiástica do RN (Natal, Caicó e Mossoró), percebeu-se a necessidade de propor a criação de uma outra diocese desmembrada da Arquidiocese de Natal/RN e da Diocese de Mossoró/RN. Por essa razão, no dia 24 de junho, na Celebração Eucarística de Encerramento da Festa de São João Batista de Assu/RN, D. Francisco de Sales Alencar Batista, bispo diocesano de Mossoró/RN, anunciou a parceria com a Arquidiocese de Natal/RN, integrando a cidade de Assu como possível sede episcopal. 

Na ocasião, foi anunciado o grupo de presbíteros que seria integrado à comissão arquidiocesana. Ambos trabalharão conjuntamente um único projeto. 

Dando sequência, a Comissão Interdiocesano iniciou os trabalhos com uma primeira reunião na cidade de Assu/RN, no dia 18 de julho de 2024. Nesta reunião, foram criadas as subcomissões compostas por padres, religiosas, leigos e leigas.

As subcomissões com suas atribuições foram definidas da seguinte forma: 

  • SECRETARIA (Atas das reuniões; Cronograma de reuniões; Preparar comunicações e pedidos oficiais; ARQUIVAMENTO de material físico e virtual (google drive) e revisão de cada material para a versão final...);

  • COMUNICAÇÃO (Preparar e unificar material de publicação e pequenas informações...)

  • PATRIMÔNIO E ECONOMIA (Levantamento do que é necessário para estrutura da Sede: cúria, seminário; residência, veículo e verificar a movimentação financeira das dioceses e dos territórios isoladamente...)

  • PASTORAL (Levantamento de paróquias, capelas e áreas pastorais, movimentos, serviços e pastorais presentes, novas comunidades, congregações...);

  • RELATÓRIOS (Organizar relatórios, destacando os elementos históricos, geográficos e socioeconômico e cultural dos territórios das possíveis novas dioceses...)

É competência de os membros das subcomissões reunir-se previamente para elaborar um cronograma de atividades tendo em vista a construção de um projeto comum que ao final será encaminhado para Nunciatura Apostólica em Brasília/DF. 

Pe. José Freitas Campos

Prof. Tállison Ferreira da Silva


terça-feira, 20 de agosto de 2024

CASCUDIANAS

 Nem só dos livros circunspectos de pesquisa sobre a história de tudo pode-se ler o Mestre Cascudo. O sabor da sua leitura está, principalmente, na prosa humorada e despojada dos livros "Pequeno Manual do Doente Aprendiz", "Na Ronda do Tempo", "O Tempo e Eu, "Ontem". São viagens sobre si mesmo. Cascudo falando de Cascudo. Pensamentos, flagrantes da vida comum, refletidos com a humildade de um sábio ("Ah! Se a gente soubesse o que julga saber...") 

Longe o propósito de comentar, criticar a sua vasta obra já por tantos analisada e estudada em livros, palestras, etc, mas o conjunto de sua produção mental, post-centenário, não pode deixar de ser comentada, re-estudada e debatida permanentemente porque ele escreveu para a humanidade. Ambas são eternas.

Detenho-me, tão somente, a pinçar algumas reflexões cascudianas e poucas histórias ditas ao sabor da pena, já que o mestre é mais lido fora do que dentro do RN.

01) Do seu "Pequeno Manual do Doente Aprendiz" (um dos três mais "íntimo e confidencial" dos seus livros) narra a seguinte história: O cel. Toscano de Brito contou-me um episódio documentador. Era capitão, morava no Alecrim, tomando o bonde elétrico diante do Asilo de Alienados. Uma tarde, vestido à paisana, Toscano aguardava o veículo, desenhando na areia com a ponta da bengala. Detrás da janela gradeada de ferro um internado olhava-o. Começou o diálogo: "Que está fazendo aí?". "Nada". "E porque está riscando o chão?" "Por nada". "Tome cuidado! Migué de Lianô começou assim...". Miguel de Lianor era o próprio doido conversador.

02) Reflexões: "Ninguém está sozinho quando pensa", "Análise integral desfaz o objeto". "Aquele monturo é o resíduo das coisas úteis que envelheceram". "Técnica! Quantos crimes cometidos em teu nome!...". "Alguns vivem como os velhos viciados de cachaça: fazem caretas mas bebem sempre". "Homem irado Homem armado". "Cinquenta por cento do que dizemos é inútil". "Ah! Se a gente soubesse o que julga saber...".

03) "Luís Antonio, meu professor de História Natural, de sedutora eloquência, era ateu... Com a graça de Deus. Uma vez, dando uma injeção na garganta de um internado, a agulha soltou-se do êmbolo: "Valha-me Nossa Senhora!",exclamou.

04) "Numa operação de apendicite, então extraordinária, Januário Cicco, também ateu, não encontrou o apêndice. Procurou-o, já inquieto, e quando o deparou, atrás do fígado, explodiu: "Graças a Deus! Cá está este cachorro...".

05) "Uma estória muito gozada, no velho tempo do Hospital Juvino Barreto, foi o Dr. Januário Cicco, diretor e cirurgião devoto grande sacerdote do bisturi, tem sido compelido a extrair um molar com o Clidenor Lago, o chefe dessa sessão. Clidenor deu a injeção e voltou-se abrindo a gaveta para escolher o boticão. Quando olhou para a cadeira, Januário havia desaparecido, com injeção e tudo...".

Valério Mesquita

sábado, 17 de agosto de 2024

SANTA CRUZ - DE PARÓQUIA SANTUÁRIO À FUTURA SEDE EPISCOPAL

Quem viaja saindo de Natal, com destino ao sertão do seridó, passando necessariamente, por Santa Cruz ou até mesmo quem vai em romaria com destino a este Santuário de Santa Rita de Cássia certamente, não vai ser possível, captar a riqueza espiritual da fé e da religiosidade deste povo em sua totalidade. É preciso resgatar, ressignificar e revalorizar este universo cultural e histórico tal qual ele significa para os nossos dias. É um belo caminho a ser trilhado.

Quando entramos em comunicação com alguém o primeiro passo é sempre perguntarmos qual é o seu nome. Em se tratando de cidades são os topônimos. Cada um tem sua história a ser desvendada. Santa Cruz já se chamou com o título de Santa Rita da Cachoeira, do Trairi e do Inharé. O primeiro deles se refere a uma fazenda localizada nestas terras. Este local foi escolhido para implantação do povoado porque a localidade de cachoeira oferecia água suficiente para o consumo de um núcleo populacional. Com o passar dos anos o povoado foi também mudado de nome. Depois passou a se chamar por algum tempo Santa Cruz da Ribeira do Trairi como referência explícita ao rio que banhava a cidade.

Por último Santa Rita do Inharé um nome que se refere a uma lenda que justifica a origem da cruz ao nome dado ao lugar: "muitos anos, já ia adiantada a colonização do alto sertão, e as terras da cachoeira do Trairi continuavam despovoadas. Diziam os primeiros que ali se aventuraram, que era impossível viver naquelas paragens, porque ao quebrarem os ramos do inharé (árvore sagrada) as fontes secavam e todos os animais tornavam-se ferozes. Um santo missionário lembrou-se um dia, de fazer uma cruz dos ramos do inharé e abençoá-la: então os malefícios cessaram como por um encanto; das fontes jorrou água cristalina; as aves cantavam o hino da natureza em festa. A terra ficou desde então, conhecida como Santa Cruz do Inharé".

O fato é que a cruz feita com os ramos tornou-se santa na crendice popular e isso é tão forte que muitos ainda chamam a localidade como Santa Cruz do Inharé.

Trata-se de um mito cosmogônico cujo resgate é por demais necessário. Outrossim podemos afirmar que quando a Paróquia foi instalada no ano de 1835 a população já se enriquecia com esta história mítica e lendária que tem tudo a ver com o início do cristianismo em terras do Trairi.

A presença dos colonizadores, primitivamente habitada pelos índios tapuios, representou o início de uma embrionária atividade pastoril na imensa área situada entre o agreste e o seridó do Rio Grande do Norte. Contudo, a história registra que esse esforço colonizador nas ribeiras do Rio Potengi e Trairi não conseguiu aglutinar um contingente organizador.

Não podemos encerrar estas breves reflexões sem uma referência direta à festa da paróquia e cidade padroeira de todos os santa-cruzenses e visitantes que louvam e bendizem a sua excelsa padroeira. O dia 22 de maio encerra sempre uma comemoração ímpar e única, festiva e popular. Que Santa Rita, patrona e protetora deste povo aponte o caminho que devemos seguir em busca de um novo amanhã. Ela transforma as nossas mediações humanas e nos faz superar os limites das mesmas.

Este é o caminho que devemos seguir na criação de uma nova Diocese, Igreja Local, Igreja Particular na Província Eclesiástica do Rio Grande do Norte. Que assim seja!


Pe. José Freitas Campos - Do Presbitério de Natal.




quinta-feira, 1 de agosto de 2024

QUERIDO IRMÃO PADRE...

 

 O mês vocacional (agosto) e o dia do Padre ( 1º domingo) nos faz refletir sobre a nossa identidade sacerdotal e o nosso seguimento a Jesus Cristo. Todo tempo é tempo de se recompor para continuar a caminhada no contexto de uma igreja Sinodal e Missionária. O Presbitério como um corpo onde o Bispo juntamente com os presbíteros, vinculado pela missão, buscam viver na comunhão partilhando anseios, sentimentos, desejos, projetos, dificuldades e conquistas.

Pensemos juntos nas dificuldades que muitas Dioceses enfrentam com relação a construção do Reino. Ente elas a sobrecarga de trabalho, o número reduzido de Presbíteros e outras lideranças, além de grandes distâncias geográficas e meios de comunicação e locomoção precários. Daí a necessidade de firmarmos passos na implementação de uma Pastoral Presbiteral que tenta buscar encaminhamentos para todas as sombras e desafios que enfrentamos nos dias atuais.

 

Reflitamos nas várias etapas e fases que compõem a nossa vida. Embora não possamos determinar de modo matemático é possível destacar algumas etapas: 1º juventude sacerdotal: dizem alguns que são os primeiros cinco anos de ministério. É a fase da inserção. Dos primeiros êxitos e fracassos. Para alguns chega até os 30 anos de idade. 2º fase da maturidade: situada entre os 30 a 50 anos. É a fase da realização mais intensa, fundada na experiência que se vai adquirindo. 3º fase da plenitude, está entre os 50 e 65 anos. Apontada como sendo o tempo da definição de uma espiritualidade madura. 4º fase etapa da sabedoria: dos 65 aos 75 anos. Tempo de uma revisão profunda de toda a existência. A certeza de seu valor e importância para a comunidade e para o Presbitério, com toda a sua bagagem, pode dar sentido a esta fase, e colaborar na realização de quem vive esta etapa.

 

Por ultimo a etapa jubilar a partir dos 75 anos na qual se vive a alegria do dever cumprido e da maturidade alcançada. Aqui podemos partilhar experiência adquirida de maneira mais livre. Para os que vivem esse momento sabemos que é importante a presença de todo o Presbitério. Diante de todas estas etapas percebemos  o quanto é importante a Pastoral Presbiteral. É ela que deve estar atenta para respeitar e considerar cada momento da vida do padre. Sentimos ser uma necessidade urgente. “ Ainda tens longo caminho a percorrer” levanta-te e come (1 Reis, 19,7). Precisamos ser cuidados para melhor cuidar. Somos sabedores dos nossos limites mas conhecemos também nosso potencial. Precisamos de estímulo e apoio para a comunhão fraterna, solidariedade, compreensão e acolhimento. São elementos indispensáveis de uma Pastoral Presbiteral.

 

Em suma, percebe-se um interesse maior em descobrir ou construir uma espiritualidade própria do Padre diocesano, além de uma rica contribuição de grupos de espiritualidade tais como: Prado, Ordem Terceira Franciscana, Folcolares entre outros. Alguns promovem encontros dos padres em pequenos grupos, por afinidade ou por tempo de ordenação. Intercedamos ao Senhor da messe para que o Bispo com os Presbíteros e estes com o Bispo promovam um ambiente saudável, de unidade e amizade, na Igreja Local, na plena consciência de serem juntos Sacramento do Corpo de Cristo. Parabéns, Padres irmãos pelo nosso dia!


Pe. José Freitas Campos do Presbitério de Natal-RN.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

A VINGANÇA FANTASIADA NA RUA DO PATU

 

Gláucio Tavares

 
Na cara de homem não se bate. Homem se mata! Certificou a vítima ao seu algoz ao ser esbofeteada, ainda prometendo a si que não tiraria a sua barba enquanto não matasse o vil ofensor.

No Carnaval de anos após o dia da agressão, fantasiado de caçador dos Caboclinhos, com espingarda em punho, quando a barba já escondia completamente o rosto, a vítima concretizou a sua vingança na Rua do Patu, em Ceará-Mirim, nos anos de 1950.
 
Atualmente em Ceará-Mirim no cruzamento entre a Rua Mussolino China, mais conhecida como a Rua do Sindicato Rural e a Rua Euclides Cavalcante, aquela que desce da Rua do SAAE até o Mercado da Fruta, encontra-se uma movelaria. Neste local, nos interessa lembrar que há cerca de oitenta anos era instalada a Bodega de João Granjeiro, na qual antes das variedades corria extenso balcão, cuja extremidade continha o recanto do consumo de cachaças, vinhos e conhaques, como de costumes nas bodegas daquela época.
 
Um dos frequentadores da mencionada mercearia era Antônio Mulato, cujo ofício, naquele tempo em que não havia sistema de abastecimento de água encanada, era botador de água, com a missão diária de encher barricas no olheiro situado às margens do Rio dos Homens, arrumar as pipas no lombo dos burros, subir a ladeira pela Rua do Burros, depois apelidada de Rua do Bacurau, certamente por conta da marcante campanha do ex-governador Aluísio Alves em 1960, e distribuir água pela cidade. Afora ser conhecido por tal serventia, Antônio Mulato tinha por marca a valentia e a insolência. Era do tipo que não levava desaforo para casa.
 
Como nas mercearias da época, na Bodega de João Granjeiro havia um caderno para anotar as compras feitas com promessa de pagamento adiante. Entre essas anotações estava o nome de Antônio Mulato, que certa feita estava bem atrasado com os seus compromissos creditícios, sendo pertinente para o comerciante frustrar novas compras a míngua de pagamento das antecedentes registradas no caderno dos fiados. Nestas circunstâncias de velhacaria, Antônio Mulato chegou na Bodega de João Granjeiro e requisitou uma dose de cachaça. Contudo, não olvidando da dívida em demora, o bodegueiro negou a pinga, condicionando: “para beber aqui ou você paga a dose ou paga a conta.”
 
Neste ensejo, Antônio Mulato recebeu a rejeição do seu pedido de beber cachaça fiado como grave ofensa e de pronto, desferiu um tapa no rosto de João Granjeiro, que imediatamente teve todas as veredas neuronais atiçadas pelo bofete, articulando-se os humores do corpo de forma a produzir e elevar os sentimentos de ira, de indignação e de fúria ardente. Diagnostica-se que o sangue ferveu, mas que, no entanto, teve por travão de um embate corpo a corpo com ofensor o temor do histórico de brigas e desacatos do corpanzil de Antônio Mulato. Mesmo assim, o ultrajado comerciante, ainda atordoado, num impulso de valentia, advertiu: na cara de homem não se bate. Homem se mata!
 
Na ocasião da confusão, havia outras pessoas presentes na mercearia e na calçada da venda, vindo a intervir a turma do deixa disso, levando Antônio Mulato para fora da bodega e para mais além. Do lado de dentro da mercearia, a injusta agressão deflagrou sentimentos abjetos em João Granjeiro. A dor física era imperceptível, mas a dor moral era excruciante e persistente. Ao se ver no espelho após o insulto, com o rosto avermelhado, a vergonha de ter a sua reputação enxovalhada levou a uma promessa insólita: “de agora em diante, só vou tirar a barba quando matar Antônio Mulato”, sentenciou João Granjeiro.
 
Solidariedade de muitos vieram em conforto à vítima, que, no entanto, mantinha incólume a cólera, eis que o tapa na cara constitui especial falta de respeito e violou profundamente a dignidade. Decerto, a mãozada no rosto feriu mais do que mil chutes e bofetes em outras partes do corpo. Quando desses trágicos episódios, normalmente a vítima não se recorda da nobre lição de Jesus Cristo talhada no Livro do apóstolo Mateus: “Se alguém lhe der um tapa na face, ofereça o outro lado para ele bater também.” João Granjeiro não atentou para tal ensinamento e nem o passar do tempo aplacou o seu enfurecimento: a vingança é um dos sentimentos mais poderosos.
 
Passados anos do fatídico dia, os fios da barba de João Granjeiro já estavam enormes. Maior do que a barba só o persistente desejo de vingança, que somente não fora consolidada ainda porque lhe era desfavorável um confronto direto com Antônio Mulato, que além da compleição física avantajada, era acostumado a brigas e querelas, nas quais sempre levava vantagem. Desta feita, era preciso para o sucesso da vindita, quem sabe uma emboscada, ardil ou um disfarce?
 
Se aproximava o Carnaval de um daqueles anos da década de 1950, quando haveria a apresentação dos Caboclinhos, caracterizado pela encenação de vigorosas coreografias em ritmo marcado pelo estalido das preacas, espécie de arco e flecha de madeira. Na dança folclórica, grupos fantasiados de índios que, com vistosos cocares, adornos de pena na cinta e nos tornozelos, colares, representam cenas de caça e combate, os nativos revoltam-se contra um caçador, matando-o ao final da exibição. A vítima vislumbrou nesta particularidade carnavalesca a oportunidade de sair armado pelas ruas, sem chamar atenção. Para tanto, a vítima cuidou em adquirir uma fantasia de caçador. Logo, estavam prontos o macacão, o chapéu, o suporte do carregador, o alforje e a espingarda.
 
Os preparativos da vingança ainda estavam incompletos, eis que faltava municiar a espingarda, razão pela qual a vítima ressentida foi até a Rua do Patu, nas proximidades do SAAE, na Oficina de Zé da Luz, onde adquiriu pequenos fragmentos de ferro, perguntando ao oficineiro se três bolotas de ferro eram suficientes para matar um veado quando arremessadas por uma espingarda de soca. A reposta foi positiva.
Tudo estava pronto para a vindita. Chegou o Carnaval.
 
Os Caboclinhos apresentavam-se no final da tarde da Rua do Patu, nas proximidades do Bar de Dona Alice, em frente a Escola General João Varela. Na tradicional coreografia folclórica, os índios investem contra um caçador que invade o paraíso dos nativos.
O disfarce de caçador coube a João Granjeiro vestir, depois de carregar cuidadosamente a espingarda de soca, com a pólvora, a limalha, dentre as quais se arrumou as bolotas de ferro. Na fantasia de carnaval, agregava-se a longa barba esculpida pela promessa de vingança e um certo tropeço aqui e acolá a fingir uma embriaguez, com aptidão de afastar desconfianças acerca do intuito vingativo. E de fato ninguém imaginou que João Granjeiro subia na Rua do Patu a procura do seu algoz, ao meio das festividades carnavalesca.
 
Imbuído da ideia de dente por dente e olho por olho, o caçador tal como uma águia faminta, com visão aguçada pelo desejo de vingança, avistou de longe a sua caça, que se encontrava festejando o Carnaval, tomando uns bons bocados no Bar de Dona Alice, onde depois se instalou a Lanchonete de Dona Santa e atualmente é uma açaiteria, na esquina do encontro entre a Rua do Patu e a Rua Manoel Marques, mais conhecida como a Rua do Enéas. Numa das mesas do bar estava Antônio Mulato, já flertando com estado de embriaguez, contemplando o Carnaval. Ao perceber a distração da presa, uma certa altivez cresceu em João Granjeiro, que teve a perspicácia de passar direto pelo outro lado da rua, a procura da melhor posição para abater a infame caça. Arrodeou a presa, cruzou a rua entre o vai e vem dos foliões, aproximou-se do bar, rente a parede exterior do prédio, esperou Antônio Mulato dirigir toda atenção às alegorias carnavalescas em desfile na rua, quando então aprumou a espingarda e atirou, atingindo de cheio o odiado inimigo.
 
As bolotas de ferro e demais detritos deflagrados da arma de fogo rasgaram à queima-roupa o corpanzil de Antônio Mulato, causando-lhe imediata hemorragia e concomitantemente o despertar da fúria, quando olhou no olho do atirador, reconhecendo João Granjeiro ainda que na escondedura de caçador com o rosto encoberto pela longa barba. Antônio Mulato, muito ferido, ainda conseguiu levantar-se e correr, deixando um rastro de sangue, na perseguição do atirador. João Granjeiro partiu primeiro, imaginando que as bolotas de ferro não teriam sido suficientes para abater Mulato, que, por sua vez, no ínterim do encalce de João Granjeiro, foi faltando-lhe oxigênio e força à proporção que deixava porções de sangue no caminho, até que João Granjeiro, em sua aflita fuga, deixou cair a espingarda, que fez Antônio Mulato tropeçar e cair pela derradeira vez na vida a demonstrar que a vingança suplantou a valentia nas proximidades da Oficina de Zé da Luz, de onde se adquiriu as mortíferas bolotas de ferro.
 
Esta história foi-me contada pelo senhor Augusto Cavaco em um dos dias do Carnaval de 2022 na Praia de Jacumã. Adverte-se que boa parte deste conto é mera ficção, obra de criação literária.

Gláucio Tavares Costa é Assessor Jurídico do TJRN, mestrando em Direito pela Universidad Europea del Atlántico, graduado em Farmácia pela UFRN e cronista.