quarta-feira, 12 de agosto de 2026
81 ANOS DA BIBLIOTECA DR PACHECO DANTAS
MEU DEPOIMENTO DE QUANDO COMECEI A FRENQUENTAR A BIBLIOTECA DR PACHECO DANTAS
A
Biblioteca Pacheco Dantas é muito importante na minha vida. Lembro bem o
primeiro dia em que entrei nesse espaço sagrado dos livros. Quem me levou até
lá foi a minha mãe, que gostava de ler e viu que ali eu poderia lhe dar mais
sossego, pois sempre fui uma criança sapeca. Tinha hora certa para ser
castigado, pois todos os dias fazia travessuras. Mamãe decidiu então me levar
àquele templo, na esperança de que eu gostasse dos livros. Fui recebido por
Dona Leda, com aquele jeito tão carinhoso. Deu-me livros infantis e disse-me
que poderia voltar todos os dias. Lembro que naquele dia os meus couros foram
poupados. Então, passei a ser um frequentador assíduo daquela casa. Quantos
livros eu li! Quanta cultura e conhecimento adquiri!
Recordo
que, em um domingo, houve uma gincana cultural promovida pela Juventude
Franciscana (JUFRA), da qual participavam os jovens. Em determinado momento,
foi feita a pergunta: quem tinha como lema "Morrer, se preciso for; matar,
nunca"? O silêncio foi geral entre os participantes; nenhum sabia a
resposta. Foi então que gritei: "Eu sei quem disse!" A turma me olhou
e riu da minha atitude. Mesmo assim, ouviram o menino de nove anos, leitor, que
surpreendeu aqueles jovens. "Quem teve esse lema foi o Marechal
Rondon", falei. E, ao me perguntarem por que eu sabia, argumentei que era
leitor da Biblioteca Pacheco Dantas. Vieram aplausos. Foi a primeira menção
honrosa que, de forma indireta, a comunidade estava me dando.
Hoje
sou escritor, cordelista, contador de histórias e pesquisador. Faço parte de
diversas instituições culturais, e foi aí, neste piso ladrilhado, onde janelas
e portas estão abertas para receber quem desejar aumentar seus conhecimentos,
que comecei a nutrir minha alma. Obrigado a todos os que, ao longo dos 81 anos,
têm servido a esse propósito.
Francisco Martins
12 de agosto 2026
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
AQUELES PAPANGUS
O ano era 1978, naqueles três dias de Carnaval eu tomava emprestado uma calça de papai, as botas, o chapéu e uma blusa das minhas irmãs. A máscara era de pano, com três buracos. Olhos e nariz os ocupavam.
Assim estava eu vestido de Papangu. Saía pelas ruas correndo atrás de crianças e algumas, se defendiam com bisnagas cheias d'água. Geralmente saíamos em grupo, pois assim poderíamos nos proteger de ataques dos adultos, que muitas vezes tiravam nossas calças e nos deixavam pelados na rua. O pior, quando a nossa identidade era revelada.
-Olha só quem é ele! É o filho de Chiquinho.
Os instrumentos que usávamos para tocar as marchinhas eram latas, baldes, pratos. Tudo servia para cantar: "O teu cabelo não nega...", " Oh, jardineira por que estais tão triste? ..." E outras mais.
Foi um tempo saboroso, onde as ruas se abriam ao riso e alegria, os Papangus, tão feios e disformes, escondiam as crianças que estavam adentrando na adolescência.
Francisco Martins
16 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 28 de outubro de 2024
BENS TOMBADOS PELO GOVERNO DO ESTADO - PARTE III
Igreja Matriz de N. S. da Apresentação - NATAL - DOE-30/07/1992
Antiga sede da Ordem dos Advogados do Brasil - NATAL - DOE-30/07/1992
Prédio Hospital Varela Santiago - NATAL - DOE-30/07/1992
Associação Comercial de Natal - NATAL - DOE-24/09/1992
Casa Grande do Engenho Verde Nasce - CEARÁ MIRIM - DOE-18/11/1992 ( foi literalmente demolida)
Casa do Estudante de Natal - NATAL - DOE-25/11/1993
Capela de N.S. da Soledade - NATAL - DOE-11/11/1997
Capela de São José - MACAÍBA - DOE-11/11/1997
Escola Estadual Barão de Mipibu - SÃO JOSÉ DE MIPIBU - DOE-01/10/1998
Casa Velha - LAGOA DE VELHOS - DOE-29/10/1998
Antigo Liceu Industrial, avenida Rio Branco - NATAL - DOE-11/05/1999
Antigo Prédio da Escola Doméstica de Natal, bairro Ribeira - NATAL - DOE-11/05/1999
Maternidade Escola Januário Cicco - NATAL - DOE-07/07/1999
Casa de Luís de Barros - NATAL - DOE- 22/09/1999
Residência do Mons. Expedito Sobral de Medeiros - SÃO PAULO DO POTENGI - DOE-12/09/2000
Casarão Nº 22 - Majestic - NATAL - DOE-09/12/2000
Casa de Alzira Soriano - JARDIM DE ANGICOS - DOE-14/03/2001
Igreja N.S. da Conceição - GUAMARÉ - DOE-28/06/2001
Casa onde nasceu Café Filho - NATAL - DOE-28/06/2001
Casa Grande da Fazenda Sabe Muito - CARAÚBAS - DOE-30/07/2002
segunda-feira, 29 de julho de 2024
A VINGANÇA FANTASIADA NA RUA DO PATU
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| Gláucio Tavares |
quinta-feira, 14 de setembro de 2023
MANÉ BERADEIRO LANÇA CORDEL SOBRE CLOVIS PIMENTEL
sexta-feira, 18 de agosto de 2023
UMA GRANDE AQUISIÇÃO: OITEIRO - PRIMEIRA EDIÇÃO
Hoje eu consegui adquirir a primeira edição do livro "Oiteiro", de Madalena Pereira. Fazia tempo que procurava ter essa oportunidade. É um livro raro, do qual só existe duas edições, a primeira, da capa acima (1958) e a segunda, de 2003, que já tem 20 anos.
segunda-feira, 24 de julho de 2023
MANÉ BERADEIRO PARTICIPA DE EVENTO DA ACLA NA MANHÃ DO DIA 25 DE JULHO
Amanhã, 25 de Julho, o poeta Mané Beradeiro (Francisco Martins) tem apresentação dentro da programação que a Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes-ACLA-Pedro Simões Neto vai realizar, por ocasião da Semana do Município.
O poeta vai declamar o cordel "Guaporé - uma solidão restaurada" (novembro 2021).
BIBLIOTECA PACHECO DANTAS E ACLA REALIZAM EXPOSIÇÃO SOBRE AUTORES DE CEARÁ-MIRIM
A Biblioteca Pública Municipal Dr. José Pacheco Dantas e a Academia ceará-mirinense de Letras e Artes - ACLA- Pedro Simões Neto realizam de 31 de julho a 11 de Agosto, uma exposição de livros, onde os autores são naturais de Ceará-Mirim ou escreveram sobre a cidade.
O acervo da exposição cobre todos os gêneros: contos, biografias, ensaios, poesias, crônicas, etc. A abertura vai acontecer dia 31 de Julho, sempre das 8 às 20 h, de segunda a sexta-feira. Nesta primeira etapa que vai até o dia 4 de Agosto, os autores agraciados são:
Adelle de Oliveira
Anete Varela
Armando Holanda
Francisca Lopes (ACLA)
Francisco Martins (ACLA)
Franklin Jorge
Guilherme Luiz Barbosa de Queiroz
Helicarla Morais
Hélio Dantas
Iran Costa (ACLA)
Izulamar Bezerra
Janilson Dias de
Oliveira (ACLA)
Jeane Araújo (ACLA)
Joventina Simões (ACLA)
Júlio Gomes de Sena
Leda Varela (ACLA)
Madalena Antunes
Margareth Pereira (ACLA)
Maria da Conceição Cruz Spineli (ACLA)
Maria das Graças Barbalho B. Teixeira (ACLA)
Maria Heloísa Brandão (ACLA)
Maria Lúcia de Oliveira Brandão
Meira Pires
Mucio Vicente (ACLA)
Nilo Pereira
Pedro Simões (ACLA)
Rodolfo Garcia
Ruy Lima
Vera Lúcia de Lima Barreto
quarta-feira, 5 de outubro de 2022
MANÉ BERADEIRO FALA SOBRE CORDEL PARA ALUNOS DO CEEP RUY PEREIRA
Na manhã de hoje, quarta-feira, 5 de outubro, o poeta Mané Beradeiro vai ter um encontro com alguns alunos do CEEP- Ruy Antunes Pereira, em Ceará-Mirim, onde a pauta será o Cordel Brasileiro. Os alunos estão trabalhando na construção de um projeto de cordel, com ilustração de xilogravura, sob a coordenação do Professor Gibson Machado. O encontro vai ter início às 10h 30m.
terça-feira, 4 de outubro de 2022
DOIS LIVROS CARTONEROS DE MANÉ BERADEIRO
O escritor e editor de livros cartoneros, Francisco Martins, publicou neste mês de setembro de 2022 dois títulos: " Canção do Canavial" ( 2a edição) e "O amor em 4 patas"(1a edição). Ambos no gênero de cordel, que ele assina com o nome de Mané Beradeiro.
A história dos livros cartoneros com Francisco Martins teve início em 2015, mais precisamente em 27 de maio, quando houve o lançamento do livro " As mulheres de Jesus", edição com 50 exemplares, todas com capas diferentes. É um texto em cordel, escrito por Mané Beradeiro e o primeiro livro cartonero do Rio Grande do Norte, com o selo da editora Carolina Cartonera.
Daquele ano em diante ele não mais parou de confeccionar livros cartoneros. Fazia os seus e também realizou em algumas escolas de Parnamirim-RN, oficinas de livros cartoneros com crianças e jovens, que produzirem os livros e passaram a tomar conhecimento sobre toda a cadeia do processo.
Canção do Canavial, 36 páginas, capa dura revestida em tecido, título bordado. Preço R$ 25,00
O Amor em 4 patas, 12 paginas, capa dura revestida em tecido. R$ 7,00.
terça-feira, 5 de julho de 2022
UMA IMAGEM DE CEARÁ-MIRIM EM 1900
Somente quem é apaixonado por pesquisa é capaz de compreender a alegria que se sente quando nos deparamos com algo assim. Estava eu pesquisando a Revista Semanal, que começou a circular em 20 de maio de 1900, na cidade do Rio de Janeiro, quando encontro na edição de nº 63, de 28 de julho de 1901, esta fotografia. Pena que não há nenhuma reportagem sobre o evento, apenas pequeno texto informando que era a subida do sino grande na Matriz de Ceará-Mirim no ano de 1900.
Francisco Martins
quarta-feira, 18 de maio de 2022
UM DOS PRECURSORES DO CORDEL BRASILEIRO É CEARÁ-MIRINENSE.
Provavelmente você nunca ouviu falar no poeta João Santana, mais conhecido por Santaninha. Ele viveu durante a época do Império. O véu que pairava sobre Santaninha foi retirado pelos pesquisadores Arievaldo Vianna e Stélio Torquato, dois cearenses que fizeram um excelente trabalho de pesquisa e cujo fruto foi o livro abaixo:
É um livro que deve fazer parte das estantes que guardam o bom acervo sobre a história da Literatura do Cordel Brasileiro. Esse livro foi lançado em 2017. Cinco anos depois, o poeta e pesquisador Mané Beradeiro, traz à lume um texto inédito, de Rômulo Wanderley, que não chegou a ser conhecido pelos pesquisadores Arievaldo Vianna e Stélio Torquato.
A importância do texto abaixo é porque faz justiça a imprensa potiguar, no tocante ao que afirmam os pesquisadores acima citados.
Na página 7 escrevem: " Não há também sequer uma nota nos jornais norte-rio-grandenses consultados na hemeroteca da Biblioteca Nacional no período de 1870 a 1890, à respeito das atividades de Santaninha.."
Se realmente há um período de silêncio na imprensa local sobre o poeta Santaninha, é chegada a hora de anunciar que no Jornal "A República", edição do dia 31 de dezembro de 1939, o jornalista escreveu a crônica:
MORREU, QUANDO IA RECEBER A COROA DE POETA ...
"João Santana era um poeta negro, que não cantava, como outro qualquer e teria feito, os extensos canaviais da sua terra - o Ceará-Mirim. Moço ainda viajou para o Sul, ambicioso de um céu mais amplo, onde sua imaginação pudesse voar mais alto. Porém, versejou mesmo quase terra-a-terra, como lhe permitia a cultura rasteira. O espaço tinha latitudes e alturas imensuráveis, mas as asas de pássaro não passaram de Remígio. Defeito, talvez dele próprio.
Nas letras potiguares parece que João Santana é um desconhecido. Não porque tenha sido pequeno ou simplesmente um poeta popular. Os rimadores do povo e para o povo viveram em todas as épocas e chegaram até nós. Mesmo na sua rima barbara possuem um quê de encantador, de mavioso, de original. Aí tivemos o Fabião das Queimadas, conhecido de todos os de ontem e citado por alguns de hoje. É verdade que o vate de que agora falo está num plano inferior ao nosso amigo Fabião. Mas se de fato existiu, devia não ser esquecido. Quem é vivo também aparece, diz o provérbio. E quem é morto também é lembrado.
Sebastiana da Quixabeirinha é quem me dá notícias de João Santana. Diz-me que foi um rapaz nascido em Pau Ferro, no município de Ceará-Mirim, na segunda metade do século passado. Viajou para o Sul, como escrevi acima, e, vaidoso de ser poeta, veio rever a família. Porém, quando embarcou de novo para a Côrte, - asseverava-me a velha, com uma convicção da qual eu procurava não duvidar - morreu assassinado em caminho.
- Por que? perguntei admirado.
E Sebastiana cada vez mais séria.
- Por inveja. Ele ia receber a coroa de poeta.
Um livro de versos chegou ele a publicar, livro que andou de mão em mão versos que ficaram na memória dos seus contemporâneos. Muitas sexagenárias de hoje ainda se recordam de algumas estrofes do medo de Pau Ferro. Naqueles tempos sisudos em que o Carnaval já deixava saudade na mocinha de longas tranças e vestido balão. João Santana não perdia o motivo, embora perdesse a rima:
- Se fores para a cidade e vir meu jovem por lá...
- Sinhazinha não conheço...
- Na face tem um sinal que eu fiz com um limão nas festas do Carnaval.
As Sinhazinhas, que no século XIX mal apareciam a janela, bendiziam a chegada de Momo, dias bons em que ninguém tem o direito de ser puritano. Jogavam limão nos namorados, limão de cheiro nos namorados, limão de cheiro. Os ingênuos percursores das lança-perfumes.
Uma das poesias mais interessantes do livro de João Santana é aquela em que ele conta um escândalo de certa fidalga da Côrte, que por um descuido desses naturais a todos os que amam, viu nascer um garoto da "Cor de azeviche", como diria mais tarde o sambista brasileiro. E, na hora suprema, apelou para a sage-femme a ver se esta encontrava, pelas ruas escuras do Rio de 1880, um menino branco que assumisse, no berço rico, o lugar que o preto iria desonrar. Inicialmente explica o nosso satirista:
Quem mais faz menos alcança.
Deu-se três casos na Côrte
Que o povo traz na lembrança:
E arremata ironizando a fidalguia:
"- Pegue este conto de réis.
Vigie se um branco me alcança.
Faça a troca, mas não diga
Quem é o pai da criança.
Foi a parteira com tudo.
Ficou a mãe na esperança .
Nem parteira, nem dinheiro.
Nem o pai, nem a criança."
O plano da mulher criminosa (naquele tempo julgaram-na criminosa!) foi malogrado pela cobiça da assistente, que desejou apoderar-se do conto de réis. E a viagem de João Santana também malogrou-se. Os seus rivais mataram-no segundo acredita Sebastiana para impedir que ele colocasse a cabeça encarapitada a coroa gloriosa que Camões só mereceu depois de morto."
***
No texto de Rômulo Wanderley, ele identifica o berço do poeta o lugar por nome de Pau Ferro, município de Ceará-Mirim-RN. Por outro lado, Vianna e Torquato dizem ter ele nascido em Touros, também no Rio Grande do Norte, no distante ano de 1827. Mas em qual município nasceu o poeta? Vejamos:
Pau Ferro é a denominação toponímia da atual cidade de Pureza. Touros no ano do nascimento de Santaninha fazia parte do município de Ceará-Mirim. O mesmo só foi desmembrado em 11 de abril de 1833.
Mané Beradeiro
18 de maio de 2022
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
OS NOVE NOMES DE CEARÁ-MIRIM QUE NATAL NÃO ESQUECEU NO ANO 2000
Augusto Leopoldo Raposo da Câmara (1856 -1941)
Edgar Ferreira Barbosa (1909-1976)
Eduardo Medeiros ( 1886-1961)
Jayme Leopoldo Raposo Adour da Câmara (1898-1964)
Inácio Meira Pires (1928-1982)
Nilo de Oliveira Pereira ( 1909-1992)
Rodolfo Augusto de Amorim Garcia (1873-1949)
João da Fonseca Varela (1850-1931)
Wilson Correa Dantas Cavalcanti (1920-1998)
Esses nove nomes, de homens ilustres, todos nascidos em Ceará-Mirim-RN, têm sua participação no livro 400 nomes de Natal, ano 2000, que foi organizado por Rejane Cardoso, na gestão da Prefeita de Natal, Wilma de Faria. Cada nome tem um pequeno ensaio biográfico.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
ONDE ESTÃO OS LIVROS ENCANTADOS DE CÂMARA CASCUDO?
Há livros que foram escritos e nunca publicados. Na história da literatura do Rio Grande do Norte quero trazer hoje, ao conhecimento dos meus leitores, dois títulos de Câmara Cascudo que se perderam. São eles: "História de Ceará-Mirim" e História de Cerro Corá.
| Câmara Cascudo |
No tocante ao livro "História de Cerro Corá", o assunto ganhou até espaço no jornal "Tribuna do Norte" onde ficamos sabendo que foi o terceiro a ser escrito sobre as cidades do Rio Grande do Norte e o décimo oitavo sobre o Estado do Rio Grade do Norte. A pesquisa foi encomendada pelo Prefeito Sérvulo Pereira.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
MANÉ BERADEIRO É PRESENÇA NA FEIRA LITERÁRIA DE CEARÁ-MIRIM
Está acontecendo desde hoje à tarde, em Ceará-Mirim, a 1ª edição do Festival Literário. A abertura foi feita às 16 h, com apresentações da Banda de Música Tenente Djalma Ribeiro, da poeta cordelista Vera Lúcia Barreto, apresentação musical de Juarez Lima, aluno da Escola Municipal Antonio Ferreira e em seguida a fala do Prefeito Júlio César.
Amanhã, sexta-feira, dia 17 de dezembro, a programação será intensa, com apresentações culturais de alunos, oficinas de literatura, mesas redondas com as participações de Drika Duarte, Aracelly Sobreira, etc. O poeta Mané Beradeiro também terá seu momento, quando se apresentará para as crianças com suas histórias e bonecos.terça-feira, 30 de novembro de 2021
UMA CRÔNICA DE THADEU VILLAR DE LEMOS SOBRE CEARÁ-MIRIM DE ANTIGAMENTE
CEARÁ-MIRIM
Estive em Ceará-Mirim, no restrito
tempo de minha última estadia em Natal. Não fui reconhecido, e, incógnito andei
por toda a cidade. Foi melhor assim. Ali, absorvendo o cheiro da garapa cozida,
vindo dos “banguês” que se sucediam ao longo dos canaviais que enfeitavam com a
sua folhagem verde o grande vale, vivi os melhores dias da minha infância,
entre os 7 e os 14 anos de idade.
Visitei todos aqueles recantos da
cidade, inclusive os locais onde, há cinquenta e cinco anos passados, existiam
os botecos que vendiam caldo de cana, cocada e grude de goma fresca.
Nada mais existe do tempo da minha
infância; o progresso acabou com tudo.
Estive no mercado público, onde
procurei recompor na memória aqueles locais pitorescos que tantas alegrias me
causaram. Durante muito tempo contemplei o sobrado dos Antunes, a mais
imponente residência dos velhos tempos, tendo na parte térrea o depósito do
velho José Antunes para a venda de açúcar bruto, rapadura, aguardente de cana,
banana e outros produtos. Na casa vizinha, estava a residência e a funilaria do
velho Sena que rivalizava, na sua arte, com “seu” Moisés, instalado na rua São
José.
Passei pela casa onde morava D. Ana
Sobral. Aí eu gostava de ir brincar à sombra das grandes mangueiras. Bem em
frente, existiam os alicerces de uma casa inacabada onde a cega Maria Fôlha
vivia, escandalizando a cidade com o seu palavreado pornográfico,
especialmente, quando bebia. Não estando embriagada, momentos raros da sua
vida, Maria Fôlha perambulava pelas ruas, gritando ininterruptamente:
“Menino?!... Ou menino”?!... Certa vez foi mexer com essa figura popular da
cidade, e recebi sobre o ombro uma forte bordoada do bastão que a mesma usava
para se manter de pé.
João Cego era outra figura popular da
cidade. Morava em um quartinho de taipa erguido em um terreno baldio, quase em
frente à residência de Luiz Ferreira da Silva, na rua São José. Andava em todas
as ruas, sozinho tendo como guia uma varinha de marmeleiro bravo. Conhecia todo
mundo inclusive as crianças, pelo timbre de voz.
Uma das coisas tradicionais do meu
tempo, em Ceará-Mirim, eram as batalhas de busca-pé no dia de São João.
Geralmente elas tinham como palco a rua São José. Às 7 horas da noite, fechavam
as portas e janelas das residências,e todo mundo já sabia que, depois daquela
hora, ninguém poderia passar por ali. Postavam-se os dois grupos nas duas
extremidades da rua, e avançavam um contra o outro com os raios luminosos
desprendidos, com violência, das bases de bambú que mediam 30 e 40 centímetros
de comprimento. De muito longe via-se o clarão da batalha. Os busca-pés eram
preparados com muita limalha e salitre para que produzissem maior luminosidade.
A luta se prolongava por mais de três horas, até que um dos lados fosse
vencido, pelo esgotamento da munição. Depois disso, havia a festa da vitória em
que tomavam parte os dois grupos contendores. Passados os dias de São João e
São Pedro, chegava boa hora dos caiadores porque todas as frentes das casas da
rua São José estavam riscadas pelo carvão desprendido das chamas das armas de
combates. E o que é mais curioso em tudo isso é que nenhum proprietário
reclamava a sujeira em que ficavam as fachadas das suas residências.
Outra brincadeira tradicional de
Ceará Mirim era a dos “papagaios”, que antecedia as festas de Natal. O “papagaio”
ou “coruja” do norte, é a “pipa”, no sul. Os rapazes faziam “Papagaios” de mais
de dois metros quadrados, colocando nos mesmos uma cauda de dez metros,
aproximadamente. Alavam os bichos a favor do vento aguentados em cordas de
fibra de gravatá. Para sustentar o monstro no ar, em grande altura, eram
necessários três homens que movimentavam a corda de sustentação, cuja
extremidade se encontrava presa a um tronco de madeira, previamente fincado no
chão para esse fim. No dia em que o “Papagaio” teria de ser empinado, ninguém
deixava de ir assistir ao espetáculo. Por mais de uma vez vimos a corda se
soltar do tronco e o “papagaio” arrastar os três homens, forçando estes a se
desprenderem da corda. Três ou quatro dias depois, o monstro era localizado no
canavial do vale, a muitos quilômetros de distância. Pedroca, o chefe da
brincadeira ia buscá-lo.
Havia no Ceará-Mirim o uso de locação
de cavalos selados para quem quisesse cavalgar na cidade ou viajar. Não
tínhamos automóveis nesse tempo, e o único transporte se fazia em costados de
animais.
Eu gostava de cavalgar e os cavalos
da minha preferência eram os do engenho “Porão”, bem pertinho da cidade,
pertencente a José Ribeiro de Paiva, mais conhecido por seu Zuza. Pagava-se de
aluguel por meio dia 1$000, e por 24 horas, 2$000 - ou sejam, um milésimo e
dois milésimos de cruzeiros respectivamente.
Mas, nem sempre eu tinha o dinheiro
completo para o aluguel, e a vontade de cavalgar era grande.
-
Que
fazia eu?...
Chegava no “Porão” e falava com seu
Zuza pedindo que me alugasse um cavalo para dar duas voltinhas na cidade, por
$500 (cinco décimos de um milésimo de cruzeiro). Seu Zuza atendia o meu pedido,
porém recomendava que levasse o cavalo dentro de duas horas. Como era de praxe,
eu pagava o aluguel, adiantado, ia ao cercado pegar o cavalo da minha
preferência, trazia ao celeiro, punha os arreios, e saía. Mas só voltava à
noite, quando seu Zuza já estava deitado. Abria a porteira, cuidadosamente para
não fazer barulho, puxava o cavalo pelas rédeas até o celeiro, tirava os
arreios e soltava o animal. Seu Zuza não desconfiava de nada porque o movimento
de fregueses era muito grande. Acontece que, certo dia, alguém disse ao homem
que eu andava nos seus cavalos o dia inteiro, galopando nas estradas dos
engenhos até o começo da noite. Seu Zuza ficou de tocaia e me pegou com a boca
na botija. Fez queixa a Papai e eu fui proibido de cavalgar.
Muitos anos depois, eu e Zuza éramos
colegas da fiscalização do imposto de consumo, e ele relembrou o caso dos
cavalos, adiantando aos ouvintes que eu entrava no engenho tão sorrateiramente,
que nem acordava o bebê, seu filho Jorge, o hoje Monsenhor Jorge Ograyde.
Finalmente, muita coisa eu ainda
poderia narrar sobre a minha infância em Ceará-Mirim, porém vamos parar por
aqui.
Rebuscando Escarcelas
Thadeu Villar de Lemos 1970, p. 79 a
83.

















